De repente manifesto
a gente
vai se voltar a um outro escalão:
montanha, névoa, marulho, o metrô que é o nosso trovão
então você acha que os cantos estão mudando de lugar
mas é a gente que vê os homens constrangidos da cidade
e tenta: enseada sobre asfalto, essa manhã,
porque tudo que é, é o nosso
estou no ponto pro Jardim da Glória, lendo a realidade
cientistas descobrem Alpes submersos na Austrália
na contracapa um coração selvagem pela metade
o cheiro de perto do sal um potro de pulmões novos
e o mar, ah oceano cavalgadura,
absolutamente estrangeiro a mim nesse interior sem tamanho
eu juro que esse túnel não acaba
estão nos levando a um lugar de verdade.
18.7.09
16.7.09
hoje
eu tive que arranjar um dois copos de café/ um bilhete de identidade d'um português/ cozinhei um lombo com sal grosso/ inventei um nome / recebi um presente eletrônico / um amor em folhas de liz/ maria bethânia canta roberto / o cabelo sujo deixei / um telefonema de obrigado por me levar adiante / do supermercado, o açúcar / recomendei um hotel/ me gritaram um aluguel / juro que eu não presto/ inventei um nome / tomei um tylenol/ pra conseguir fazer o mais difícil até agora / escrever / me sinto indo pra escola / não sei como vai ser voltar / agora que eu me divirto / três malinhas do meu meu irmão / mais o velho álbum de fotografias dos hansen / minha casa de infância foi vendida / vim ver meus gatos não me ligam / a vida a rosa o som/ se um carro q'eu fui, viajei.
11.7.09
CANÇÃO DE BERÇO
O amor não tem importância.
No tempo de você, criança,
uma simples gota de óleo
povoará o mundo por inoculação,
e o espasmo
(longo demais pra ser feliz)
não mais dissolverá as nossas carnes.
Mas também a carne não tem importância.
E doer, gozar o próprio cântico afinal é indiferente.
Quinhentos mil chineses mortos, trezentos corpos de namorados sobre a via férrea
e o trem que passa, como um discurso, irreparável:
tudo acontece, meninina,
e nada fica nos teus olhos.
Também a vida é sem importância.
Os homens não me repetem
nem me prolongo até eles.
A vida é tênue, tênue.
O grito mais alto ainda é suspiro,
os oceanos calaram-se há muito.
Em tua boca, menina,
ficou o gosto de leite?
ficará o gosto de álcool?
Os beijos não são importantes.
No teu tempo nem haverá beijos.
Os lábios serão metálicos,
civil e mais nada, será o amor
dos indivíduos perdidos na massa
e só uma estrela
guardará o reflexo
do mundo esvaído
(aliás sem importância).
Drummond, no Sentimento do Mundo.
- -
arde em prata.
O amor não tem importância.
No tempo de você, criança,
uma simples gota de óleo
povoará o mundo por inoculação,
e o espasmo
(longo demais pra ser feliz)
não mais dissolverá as nossas carnes.
Mas também a carne não tem importância.
E doer, gozar o próprio cântico afinal é indiferente.
Quinhentos mil chineses mortos, trezentos corpos de namorados sobre a via férrea
e o trem que passa, como um discurso, irreparável:
tudo acontece, meninina,
e nada fica nos teus olhos.
Também a vida é sem importância.
Os homens não me repetem
nem me prolongo até eles.
A vida é tênue, tênue.
O grito mais alto ainda é suspiro,
os oceanos calaram-se há muito.
Em tua boca, menina,
ficou o gosto de leite?
ficará o gosto de álcool?
Os beijos não são importantes.
No teu tempo nem haverá beijos.
Os lábios serão metálicos,
civil e mais nada, será o amor
dos indivíduos perdidos na massa
e só uma estrela
guardará o reflexo
do mundo esvaído
(aliás sem importância).
Drummond, no Sentimento do Mundo.
- -
arde em prata.
meu destino de vitrine
estou fascinada com meu castelinho. olho o meu cinismo nos olhos dos outros. de repente o mártir. de repente o léu. vou viver numa casa de jornal como a ilana sonhou uma gelatina verde cobrindo os livros e depois dançando violeta púrpura. no cairo. cairo da minha vida/ minha infância perdida. posso ficar aqui até amanhã. depois vou ter que ir. dizer: adeus. na hora do aviso prévio, meu bem, eu já perdi o ímpeto. eu vou ficar aqui sentada e vocês vão estar esperando alguma coisa acontecer e daí pá nenhuma coisa aconteceu. tipo estalinho de vela de bolo. a gente aceita. a cada um cabe o morango que lhe dão. ou que consegue? a sorte existe? porque agora eu descobri três longos trânsitos de saturno: depressão, pobreza, falta de cabelo. vou começar a passar queratina em dinheiro. gente, agora só em euro. eu vou dizer: que merda. deviam inventar uma língua só pro euro: e nela dizerem: "que merda de euro". nada de ovos orgânicos, frescoball só daqui 100 anos. e os meninos a tomar gelado/ na nuca/ na testa. vovó mesmo que me perdoe. vovó disse pra mim aos 87 anos que aprendeu aos 75 que o mais importante da vida são as emoções. foi o chapéu que a vida deu nela. a vida sem aviso prévio, saca? a vida meu amor/ a vida meu amigo/ pode ser bem uma espiga de milho. num sex shop uma vez eu vi um milho que era um telefone, mas que na verdade era um vibrador. um microfone eterno tocando billie jean em cima da minha tristeza. de repente vem alguém e diz pare. daí eu digo solidão não é nada/ depois disso/ nada é nada. eu não tenho nada a ver com isso. vou te dizer o que me disseram: imagina se a lua, meu amigo, a lua, sabe? imagina se a relação da lua com a terra puxa o mar, sabe o mar misteriôso mar, de embalar doçura e medo, mar mar mar mar mar mar mar mar (a palavra mar encadeada parece um endossamento de elefantes sobre a aldeia índia) mar é a lua quem te puxa. teu corpo imenso, imagina meu corpo, honey beibe, não sei você, ma' eu tenho 75% de água. tô falando. não tem pra ninguém.
esse poema abaixo não fui eu que escrevi
- - -
texto tem que ser justificado
- - -
tirei não era pro teu bico
.
só o rock and roll pode revitalizar um espírito a fundo fatigado de si/.
radiohead alto no mato/ e eu com saudade do donato.
10.7.09
hoje por sua vez eu quero dizer
meninos, eu amo vocês!!
- -
- -
ok, pessoal, depois de até minha mãe me acordando hoje cedo pra dizer que hoje inaugura uma exposição que tem tudo haver comigo em são paulo quem falar comigo de sophie calle vai assistir o te dou um alho.
- -
eu queria uma coisa tipo a lua. mas que fosse oco. que me desse um soco. tô xreganu não. tudo

ou é como
ou até o amanhecer/ quando estávamos juntos sempre amanhecia
beijos,
ju lee
(foi o b. que inventou)
- -
eu queria uma coisa tipo a lua. mas que fosse oco. que me desse um soco. tô xreganu não. tudo

ou é como
ou até o amanhecer/ quando estávamos juntos sempre amanhecia
beijos,
ju lee
(foi o b. que inventou)
9.7.09
5.7.09
domingo
sonhei que você escrevia um diário
e no teu gesto se apagavam
você seria um homem ainda mais interessante
se escrevesse um diário que ninguém visse
e um dia você morresse e eu estivesse
guardando tuas coisas e o teu diário sumisse
e no teu gesto se apagavam
você seria um homem ainda mais interessante
se escrevesse um diário que ninguém visse
e um dia você morresse e eu estivesse
guardando tuas coisas e o teu diário sumisse
1.7.09
é preciso de tempo
pra essa tristeza
acontecer
cavar o tom
calada
e na noite que espreita
descobrir o mar.
*
pra essa tristeza
acontecer
cavar o tom
calada
e na noite que espreita
descobrir o mar.
*
citação de mim mesma no passado: "a entrar pelo coração, esses mistérios que escondem metáforas. mas tenho um trecho. minha cabeça anda como as músicas do radiohead, confusas e limpas, nada estéril e certa".
29.6.09
C. M. A.
n'algum lugar do futuro
alguém mostra uma luz de freio e fala:
"são paulo
significa dizer que a terra inventou um ciclo
para uma mulher estéril
num fluxo menstrual infinito"
*
inventaram também o
COEFICIENTE
de
MOBILIDADE
do
AUTOMÓVEL
este ano caiu 16%.
alguém mostra uma luz de freio e fala:
"são paulo
significa dizer que a terra inventou um ciclo
para uma mulher estéril
num fluxo menstrual infinito"
*
inventaram também o
COEFICIENTE
de
MOBILIDADE
do
AUTOMÓVEL
este ano caiu 16%.
26.6.09
25.6.09
apontamentos biográficos
jch nasceu em sp no 12/01/1984, se quiser a hora me liga, adoro mapa astral.
meu celular ontem caiu na sopa fervendo, então fica pra depois.
choveu de madrugada uma goteira AO LADO da valentine mais linda de escrever. foi por dois milímetros que eu não perdi o meu amor.
sonhei que ele me dava um livro em branco.
jch começou a escrever aos dois anos de idade, depois parou.
- -
queria salvar a imagem mas sou incapaz e não consegui. me ajuda?
meu celular ontem caiu na sopa fervendo, então fica pra depois.
choveu de madrugada uma goteira AO LADO da valentine mais linda de escrever. foi por dois milímetros que eu não perdi o meu amor.
sonhei que ele me dava um livro em branco.
jch começou a escrever aos dois anos de idade, depois parou.
- -
queria salvar a imagem mas sou incapaz e não consegui. me ajuda?
24.6.09
18.6.09
doce dedo doce
até hoje eu tive dois namorados, um romance que eu pensava que era um caso e um amor. tenho meia dúzia de pessoas pelas quais eu morreria numa lança que se jogasse em frente deles. meu projeto é coletivo 12 exemplares. sempre fui solitária.
nunca nada me interessou na vida que não fossem as relações. digo: eu nunca botei a cabeça em nada mais do que isso. digo: eu sou isso desde que eu nasci. daí hoje parei vendo as formigas. depois comi mais uns trevinhos de três folhas porque quando eu achar de quatro tenho que guardar pro meu sobrinho chinês que me chama de tia maluca.
eu morro de curiosidade de um dia adentrar nas coisas. por enquanto eu fico olhando olhando. hoje fiz de um vaso uma mesa. também sei subverter e não arrancar a grama. uma coisa que eu não acredito mais é 'n'Outro. essa gente que fica predispondo-se a pensar Um Outro nunca vai amar a ninguém.
eu quero mais é que a fluidez me centrifique.
- -
eu fico sonhando com crianças vestidas de branco
numa cidade também branca e um rio lilás
quando eu chegar lá vai ser lua cheia
desde então o mundo é todo uma sensualidade
me enrosco nas cores e inflando os lábios
estou
nas formas.
- -
essa noite sonhei que eu ia visitar a casa dos pais dele
e andava pela estrada que leva ao se fujo só dou em mim
mas a estrada não dos mortos, mas do gUi
na foto é o pai dele.
- -
agora que eu sou sincera, também, reloaded.
por quê?
porque ainda bem
tem
e não acabou.
- -
um físico indiano sendo entrevistado [parece piada de português: http://www.youtube.com/watch?v=xlQiy5ySQl0] vi uma vez na tv fechada, perguntou o repórter:
- como é ser um gênio?
- não acreditamos nisso. são uma série de insights de muitas pessoas que provocam uma equação clara para mim.
- o contato com a comunidade científica
- também. mas um homem cuidando de suas cabras pensa quê...
eu já não me lembro mais.
mas era o físico antena da raça
poeta é satélite
e só quer me amar
ps, cosmologia é o bagulho.
nunca nada me interessou na vida que não fossem as relações. digo: eu nunca botei a cabeça em nada mais do que isso. digo: eu sou isso desde que eu nasci. daí hoje parei vendo as formigas. depois comi mais uns trevinhos de três folhas porque quando eu achar de quatro tenho que guardar pro meu sobrinho chinês que me chama de tia maluca.
eu morro de curiosidade de um dia adentrar nas coisas. por enquanto eu fico olhando olhando. hoje fiz de um vaso uma mesa. também sei subverter e não arrancar a grama. uma coisa que eu não acredito mais é 'n'Outro. essa gente que fica predispondo-se a pensar Um Outro nunca vai amar a ninguém.
eu quero mais é que a fluidez me centrifique.
- -
eu fico sonhando com crianças vestidas de branco
numa cidade também branca e um rio lilás
quando eu chegar lá vai ser lua cheia
desde então o mundo é todo uma sensualidade
me enrosco nas cores e inflando os lábios
estou
nas formas.
- -
essa noite sonhei que eu ia visitar a casa dos pais dele
e andava pela estrada que leva ao se fujo só dou em mim
mas a estrada não dos mortos, mas do gUi
na foto é o pai dele.
- -
agora que eu sou sincera, também, reloaded.
por quê?
porque ainda bem
tem
e não acabou.
- -
um físico indiano sendo entrevistado [parece piada de português: http://www.youtube.com/watch?v=xlQiy5ySQl0] vi uma vez na tv fechada, perguntou o repórter:
- como é ser um gênio?
- não acreditamos nisso. são uma série de insights de muitas pessoas que provocam uma equação clara para mim.
- o contato com a comunidade científica
- também. mas um homem cuidando de suas cabras pensa quê...
eu já não me lembro mais.
mas era o físico antena da raça
poeta é satélite
e só quer me amar
ps, cosmologia é o bagulho.
17.6.09
declaração
#
hoje eu descobri que o universo teve um começo pela prova do escuro. se ele tivesse vindo de sempre a noite seria uma infinidade [incendiária] de luzes estelares.
hoje eu descobri que o universo teve um começo pela prova do escuro. se ele tivesse vindo de sempre a noite seria uma infinidade [incendiária] de luzes estelares.
15.6.09

tenho uns papagaios e uma fita k7 com a minha vida narrada em mandarim. tô pensando em dar play repetidamente. que eles aprendessem a contar ao vento as sortes e agruras do meu destino num lugar longe de alguém que soubesse compreender - tanta língua - ou um pássaro carregasse minha sorte de asas abertas
também repito toda hora pra eles 'texto' 'texto' 'texto'. sobretudo porque seria no mínimo hilário o papagaio do meu pai repetir 'texto'. e, pra mim, como diz o herberto helder: "digo uma palavra cem vezes. já não significa." comigo às vezes a intenção é contrária, pegar o batido de uma palavra e fazer dela um se abrir. e os textos se fecharam.
eu quero escrever pro amor, ainda mais/ eu quero escrever pro mar.
#
saudades
#
urucum sobre terra.
hoje não tem fernando pessoa
Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder? Vocês tem coragem de aplaudir esse ano uma música, um tipo de música que vocês não teriam coragem de aplaudir ano passado? São a mesma juventude que vão sempre matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem. Vocês não estão entendendo nada, nada, absolutamente nada! Hoje não tem Fernando Pessoa. Hoje vim dizer aqui que quem teve coragem de assumir a estrutura de festival, não com o medo que o Sr. Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir essa estrutura e fazê-la explodir! Foi Gilberto Gil e fui eu! Não foi ninguém! Foi Gilberto Gil e fui eu! Vocês estão por fora, vocês não vão vencer! Mas que juventude é essa? Que juventude é essa? [gritos.] Vocês jamais serão ninguém. Vocês são iguais sabe a quem? Vocês são iguais sabe a quem? Tem som no microfone? Vocês são iguais sabe a quem? Aqueles que foram na Roda Viva e espancaram os atores. Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada deles. E por falar nisso Viva Cacilda Becker! Viva Cacilda Becker! Eu estou comprometido de dar esse depoimento aqui, não tem nada a ver com vocês. O problema é o seguinte, vocês estão querendo policiar a música brasileira, “mas é americana”, mas eu e Gil já abrimos o caminho! Que é que vocês querem? Eu vim aqui pra acabar com isso. Eu quero dizer ao júri, ‘me desclassifique, me desclassifique! Eu não tem nada a ver com isso’. Gilberto Gil está aqui comigo para nós acabarmos no festival com toda a imbecilidade que reina no Brasil! Acabar com isso tudo de uma vez! Nós só entramos no festival pra isso. Não fingimos aqui que desconhecemos o que seja o festival, não. Ninguém nunca me ouviu falar assim, entendeu? Eu só queria dizer isso, baby. Sabe como é, nós, eu e ele, nós tivemos a coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas! Se vocês, se vocês, se vocês forem, se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos! Guitarras me desclassifiquem junto com Gil, junto com ele, tá entendendo? E contra vocês, nessa! O júri é muito simpático mas é incompetente. Deus está solto. canta: me dê um beijo, meu amor./ eles estão nos esperando/ os automóveis, ardem em chamas, derrubar as prateleiras, as estantes, as estátuas, as vidraças, louças, livros sim/ e eu digo SIM! e eu digo NÃO ao NÃO!/ E eu digo: proibido, proibir!’ fora do tom, sem melodia! Como é júri? Não acertaram qualificar a melodia de Gil? Ficaram por fora! Gil fundiu a cuca de vocês, hein? É assim que eu quero ver! Chega!
[caetano veloso]
[caetano veloso]
10.6.09
greve
8.6.09
poema
enquanto alguns se especializam em tornarem-se oficiais
eu quero fazer amigos
*
hoje eu andei demais de bicicleta
e no fim do dia conheci a namorada do güido
e ela é gorda
se tudo for como eu penso
e nós conseguirmos conquistá-la
ela vai se chamar masina
porque eu quero na minha vida de fellini
uma giulietta que não seja eu nem perneta
*

foi o nuno que mostrou e eu quero uma capa tipo assim pro c.d.est.
*
por fim, boa noite, vou citar mais uma vez:
a alegria é a prova dos 9.
eu quero fazer amigos
*
hoje eu andei demais de bicicleta
e no fim do dia conheci a namorada do güido
e ela é gorda
se tudo for como eu penso
e nós conseguirmos conquistá-la
ela vai se chamar masina
porque eu quero na minha vida de fellini
uma giulietta que não seja eu nem perneta
*

foi o nuno que mostrou e eu quero uma capa tipo assim pro c.d.est.
*
por fim, boa noite, vou citar mais uma vez:
a alegria é a prova dos 9.
onde antes havia uma fogueira
amalgamou-se tudo e explodiu
pra fora
*
a noite que fomos ao obsevatório revisited
tem dias
o ônibus teve de subir os pedregulhos
tinha capim ao lado
estudo do meio
não vou me alongar nisso?,
indo ver as estrelas
e quando chegamos era uma bola branca
ou me lembro porque são assim os planetários
vou tingi-lo: era azul o concreto
e na estrada tinha cheiro
de sereno mato sobre borracha vida
impertinente os órgãos itinerantes
15 anos de cigarras e alienígenas num só planeta
e meu melhor amigo disse uma coisa bonita sobre o fígado
eu não escutava mas era como se um rádio lento
trouxesse a notícia da paz
a gente corre pra inspirar o pulmão
expande o fígado se ajeitando é massageado
e mexeu as mãozinhas mostrando
correr talvez pular uma sorte por uma janela
vontade de massagear a bola do observatório
e então abrir feito tenda
o físico que nos atendeu explicou o clarão no céu visto nas férias
iluminou
nossos rostos de fogueira o mar negro um arco verde por cima dos meninos
era lixo espacial voltando pras atmosferas velocidade ardendo
estrela-cadente
não
existe
contente
e quando olhamos ao ponto final
abre coração abre
podia olhar por dez segundos
(((mesmo assim eu não vi nada)))
amalgamou-se tudo e explodiu
pra fora
*
a noite que fomos ao obsevatório revisited
tem dias
o ônibus teve de subir os pedregulhos
tinha capim ao lado
estudo do meio
não vou me alongar nisso?,
indo ver as estrelas
e quando chegamos era uma bola branca
ou me lembro porque são assim os planetários
vou tingi-lo: era azul o concreto
e na estrada tinha cheiro
de sereno mato sobre borracha vida
impertinente os órgãos itinerantes
15 anos de cigarras e alienígenas num só planeta
e meu melhor amigo disse uma coisa bonita sobre o fígado
eu não escutava mas era como se um rádio lento
trouxesse a notícia da paz
a gente corre pra inspirar o pulmão
expande o fígado se ajeitando é massageado
e mexeu as mãozinhas mostrando
correr talvez pular uma sorte por uma janela
vontade de massagear a bola do observatório
e então abrir feito tenda
o físico que nos atendeu explicou o clarão no céu visto nas férias
iluminou
nossos rostos de fogueira o mar negro um arco verde por cima dos meninos
era lixo espacial voltando pras atmosferas velocidade ardendo
estrela-cadente
não
existe
contente
e quando olhamos ao ponto final
abre coração abre
podia olhar por dez segundos
(((mesmo assim eu não vi nada)))
1.6.09
tô predida
monto playlists por mês no itunes. acaba o mês, abro uma nova, por exemplo, hoje criei: 200906. a música que me fez fazer isso foi virgínia, é a 1a. do mês. tem playlists como 200710 e 200811 e 200901 que são minhas favoritas. não ouço 200903 desde então.
menos complicado emocionalmente são minhas fotos que vão de 200512 até 200905. olho as pastinhas fechadas em miniatura e a cara de um alguém ou olho de bicho e logo sei se cronologicamente uma foto que eu quero está mais para um lado ou para o outro. as companhias acontecimentos sensações.
meus textos estão desde 2006 em pastas 2007 2008 2009.
quando eu estava tentando escrever um romance os nomes dos arquivos eram tipo "antonio_março", e então "antonio_abril" foi a glória, mas ele não chegou até maio. como se pode ver, a seqüência de nomes não-numéricos poderiam dar na: 1, perdição do arquivo; 2, na minha patinação; c_) ambos já estavam perdidos desde o começo.
e se me perguntarem se a memória funciona, eu digo,
memória-calendário, sim
mas a outra é um caça-palavra desovado em mar
outra coisa que eu adoro é a idade das pessoas.
menos complicado emocionalmente são minhas fotos que vão de 200512 até 200905. olho as pastinhas fechadas em miniatura e a cara de um alguém ou olho de bicho e logo sei se cronologicamente uma foto que eu quero está mais para um lado ou para o outro. as companhias acontecimentos sensações.
meus textos estão desde 2006 em pastas 2007 2008 2009.
quando eu estava tentando escrever um romance os nomes dos arquivos eram tipo "antonio_março", e então "antonio_abril" foi a glória, mas ele não chegou até maio. como se pode ver, a seqüência de nomes não-numéricos poderiam dar na: 1, perdição do arquivo; 2, na minha patinação; c_) ambos já estavam perdidos desde o começo.
e se me perguntarem se a memória funciona, eu digo,
memória-calendário, sim
mas a outra é um caça-palavra desovado em mar
outra coisa que eu adoro é a idade das pessoas.
cândida
um dos movimentos deste samba é a quebrada. há a anca, os órgãos itinerantes dos homens, os poemas na caixa toráxica. a gente. tem uma tela quebrada no fundo da cozinha, tem astúcia pelo encanamento. uma, duas, três casas eu já deixei.
vou dizer que não estou escrevendo aqui da maneira mais sincera porque ressentidamente não quero que uma mulher saiba nada ao meu respeito. chamei-a de "mulher" por disfarce. o qualificativo, amor. o cifrado é uma espécie de ressentimento, assim como os pedidos de desculpa.
*
mas, por favor, senhor sol
me dê de volta virgínia.
*
tem detergente dentro daquela caixa. muito frágil escrito no papelão. estou em cochabamba. pela-metade-também-não-tem-mais.
Subo em cima da pia pra dizer que isso é meu. uma espécie de rasura constante de rasura que apaga a vida este granito. apago o lugar da memória-pedra. digo: mulher, eu escorro.
*
vou dizer que não estou escrevendo aqui da maneira mais sincera porque ressentidamente não quero que uma mulher saiba nada ao meu respeito. chamei-a de "mulher" por disfarce. o qualificativo, amor. o cifrado é uma espécie de ressentimento, assim como os pedidos de desculpa.
*
mas, por favor, senhor sol
me dê de volta virgínia.
*
tem detergente dentro daquela caixa. muito frágil escrito no papelão. estou em cochabamba. pela-metade-também-não-tem-mais.
Subo em cima da pia pra dizer que isso é meu. uma espécie de rasura constante de rasura que apaga a vida este granito. apago o lugar da memória-pedra. digo: mulher, eu escorro.
*
desculpem a coragem, a modéstia, o verde são uns dos fracos que eu conquistei.
*
e o príncipe do Brasil? que morreu no avião hoje nasceu no mesmo dia que eu.
29.5.09
28.5.09
27.5.09
cantos de estima
pra mim, existe uma coincidência
espontânea entre mim e o que escrevo.
obrigada pelo retorno do termo "espontânea" usualmente.
agora: amor, é somente uma voz o que te fala.
- -
voz flutuante voz de veneza voz de uma foz
voz
- -
quando a voz e mais tudo sai na rua
e escuto
os passos e as faixas de trânsito,
estou tentando elaborar uma teoria das cores
por exemplo: por que me parece tanto que elas só têm superfície?
- -
eu quero uma editora. alguém viu?
fiquei em dúvida entre "terra" e "azul",
mas a última parte, é azul.
- -
herberto helder: o poema nasce sagitarianamente.
a mim também, o corpo é uma experiência sagitariana.
- -
nas cores me sinto num playmobill
vou comprar uma bicicleta
e morar no campo.
- -
obrigada, bel.
acordei ouvindo um disco dos 7 anos.
lá no campo a gente vai ouvir
& she's a rainbown também.
- -
escrever e beber água, coisas que não me fazem mal.
- -
.
espontânea entre mim e o que escrevo.
obrigada pelo retorno do termo "espontânea" usualmente.
agora: amor, é somente uma voz o que te fala.
- -
voz flutuante voz de veneza voz de uma foz
voz
- -
quando a voz e mais tudo sai na rua
e escuto
os passos e as faixas de trânsito,
estou tentando elaborar uma teoria das cores
por exemplo: por que me parece tanto que elas só têm superfície?
- -
eu quero uma editora. alguém viu?
fiquei em dúvida entre "terra" e "azul",
mas a última parte, é azul.
- -
herberto helder: o poema nasce sagitarianamente.
a mim também, o corpo é uma experiência sagitariana.
- -
nas cores me sinto num playmobill
vou comprar uma bicicleta
e morar no campo.
- -
obrigada, bel.
acordei ouvindo um disco dos 7 anos.
lá no campo a gente vai ouvir
& she's a rainbown também.
- -
escrever e beber água, coisas que não me fazem mal.
- -
.
24.5.09
mudança de endereço

vontade de te contar/
lembra de ser criança e dizer infinito vezes infinito e ver assim quem ia ter mais?
era uma questão de fôlego e de empate.
fechando os olhos é a grande explosão.
as galáxias, meu filho, não tenho nada menos do que elas.
um dia desses eu disse para três homens numa roda que o esperma e a via láctea eram a mesma coisa em partimentados espaços. um deles ficou tremendamente seduzido. acho essa metáfora belíssima, mas não consigo escrevê-la num poema. ainda. é um pouco demais. esses dias também vi um equilibrista do tamanho de um grão de arroz numa linha imaginária. foi uma grande amiga que voltou me dizendo que se pá ainda não tava bom e eu dei pra ela o durango kid e agora a gente mata moscas sobre o balcão no verão mais quente. quando eu lia carson mccullers o inverno parecia o oeste. foi meu pai que me deu. a ana cristina césar também. num mesmo verão, na bahia. foi o verão que eu li quincas borba memórias póstumas o cortiço dom casmurro que eu não entendi nada. foi quando a prosa que me venceu, porque convenhamos, a-poesia-né-a-poesia. mas daí, a prosa apareceu w foi o verão que eu decidi que ia estudar letras. foi foi. verão. bahia. eu não ia pra praia de dia. achava tudo tão estranho e violento no dia ensolarado. então eu dormia quando clareava e dormia. e acordava e eu só lia. e não havia na vila lâmpadas de mais de 60w pra vender. nesse verão já tinha guardanapo. no anterior, que foi o que eu me apaixonei e ele parecia o princípe william e meu deus ele me quis também
(principe e folego são duas palavras que eu nunca sei onde é o acento. uma palavra que eu escrevo sempre em dúvida também é "for", o verbo. olho para um lado e outro e isso é a minha língua? mas quem inventou uma grafia tão estranha assim prum ar que escapa entre o lábio e - - será que os linguistas são mais sensoriais do que nós? - - )
e foi a noite que iluminou nossos rostos de fogueira a luz verde no céu e eu bati uma moto numa caixa de água por causa do areião tudo branco e quase desmaiei quando queimei a perna no escapamento eu e o duda a gente estava muito longe nesse dia. ele achou uma nota de 5 reais na tarde em que mergulhávamos no submundo das algas. outra vez os morcegos me acordavam às 5h e eu ia dormir às 21h, foi um prazer foi um mês todo sozinha eu andava horas por dia e o sol e só havia dia tomei um ácido e fiquei olhando as formigas e descobri também que eu era absolutamente a mesma coisa que as ervinhas e eu costumei dizer que foi quando aprendi a alegria e não o suicidio e voltei pra casa e dei de comer banana aos macaquinhos que viviam no flamboyant e numa outra tarde tirei toda a roupa e fui até a praia nua e voltei pra casa nua e assim fiquei umas horas sem nenhuma espécie de lembrança de estar sem roupa. nessa mesma eu ainda lia mais do que qualquer outra coisa
lembra de ser criança e dizer infinito vezes infinito e ver assim quem ia ter mais?
era uma questão de fôlego e de empate.
fechando os olhos é a grande explosão.
as galáxias, meu filho, não tenho nada menos do que elas.
um dia desses eu disse para três homens numa roda que o esperma e a via láctea eram a mesma coisa em partimentados espaços. um deles ficou tremendamente seduzido. acho essa metáfora belíssima, mas não consigo escrevê-la num poema. ainda. é um pouco demais. esses dias também vi um equilibrista do tamanho de um grão de arroz numa linha imaginária. foi uma grande amiga que voltou me dizendo que se pá ainda não tava bom e eu dei pra ela o durango kid e agora a gente mata moscas sobre o balcão no verão mais quente. quando eu lia carson mccullers o inverno parecia o oeste. foi meu pai que me deu. a ana cristina césar também. num mesmo verão, na bahia. foi o verão que eu li quincas borba memórias póstumas o cortiço dom casmurro que eu não entendi nada. foi quando a prosa que me venceu, porque convenhamos, a-poesia-né-a-poesia. mas daí, a prosa apareceu w foi o verão que eu decidi que ia estudar letras. foi foi. verão. bahia. eu não ia pra praia de dia. achava tudo tão estranho e violento no dia ensolarado. então eu dormia quando clareava e dormia. e acordava e eu só lia. e não havia na vila lâmpadas de mais de 60w pra vender. nesse verão já tinha guardanapo. no anterior, que foi o que eu me apaixonei e ele parecia o princípe william e meu deus ele me quis também
(principe e folego são duas palavras que eu nunca sei onde é o acento. uma palavra que eu escrevo sempre em dúvida também é "for", o verbo. olho para um lado e outro e isso é a minha língua? mas quem inventou uma grafia tão estranha assim prum ar que escapa entre o lábio e - - será que os linguistas são mais sensoriais do que nós? - - )
e foi a noite que iluminou nossos rostos de fogueira a luz verde no céu e eu bati uma moto numa caixa de água por causa do areião tudo branco e quase desmaiei quando queimei a perna no escapamento eu e o duda a gente estava muito longe nesse dia. ele achou uma nota de 5 reais na tarde em que mergulhávamos no submundo das algas. outra vez os morcegos me acordavam às 5h e eu ia dormir às 21h, foi um prazer foi um mês todo sozinha eu andava horas por dia e o sol e só havia dia tomei um ácido e fiquei olhando as formigas e descobri também que eu era absolutamente a mesma coisa que as ervinhas e eu costumei dizer que foi quando aprendi a alegria e não o suicidio e voltei pra casa e dei de comer banana aos macaquinhos que viviam no flamboyant e numa outra tarde tirei toda a roupa e fui até a praia nua e voltei pra casa nua e assim fiquei umas horas sem nenhuma espécie de lembrança de estar sem roupa. nessa mesma eu ainda lia mais do que qualquer outra coisa

papai e mamãe, num fim de tarde
e teve uma outra vez lá que eu conheci o alfredo e a clarisse, com uma semana de diferença.
tudo janeiro.
22.5.09
mar., mas, sabes, como tudo parece ter uma prova de recorrência, quero dizer, que tudo que acontece intensamente uma vez é porque já aconteceu antes e o tempo reverbera suas camadas de sanduíche, dizendo: não sou linear, não estive antes, nem depois: sou o mesmo, em mutação. e sabe tem tanta coisa sendo vivida ao mesmo tempo que eu gostaria de silenciar as narrativas das dificuldades e com todas as narrativas de linhas só trabalhar pra fora. isso pra dizer que se o amor acontece uma vez, acontece duas. vai se acontencendo. e tudo é em branco. tudo nunca foi dito. tudo tem memória. tudo se espraia.
- -
depois da descoberta da fábrica portuguesa na amazônia, a série "amor" acabou.
mas aguarde os capítulos nunca vistos.
a série "agora que eu sou sincera" foi fagocitada, e sumiu.
vou voltar a viver satisfeita, não-editada & sem tags. boa noite.
- -
depois da descoberta da fábrica portuguesa na amazônia, a série "amor" acabou.
mas aguarde os capítulos nunca vistos.
a série "agora que eu sou sincera" foi fagocitada, e sumiu.
vou voltar a viver satisfeita, não-editada & sem tags. boa noite.
21.5.09
17.5.09
cantos de estima
tenho que calçar galochas no menino antes de por na rua os trenzinhos
*
vim de longe
porque eu trouxe o fogo
*
vim de longe
porque eu trouxe o fogo
13.5.09
10.5.09
a existência, esse amarelo
sexta-feira, tendo que esperar, comprei um jornal. na 2a página citavam o JK "no Brasil, o pessimista começa errando". essa frase me deixou feliz como se fosse um verso, não a frase do presidente de Brasília, o alienígena.
de todo modo, fiquei pensando. os amigos chegaram, cerveja e leite de camelo. discutimos a moralidade ou lobby nessa coisa de proibir-se o fumo no estado de sp.
tenho que sair, que hoje é dia das mães e eu resolvi abrir a porta.
me deixo com essa: o pessimismo é, no geral, uma precaução, uma preventividade. o otimismo, ingênuo que seja, me parece uma ousadia. o pessimismo esfria, o otimismo esquenta. agora, é possível viver sem um nem outro?
de todo modo, fiquei pensando. os amigos chegaram, cerveja e leite de camelo. discutimos a moralidade ou lobby nessa coisa de proibir-se o fumo no estado de sp.
tenho que sair, que hoje é dia das mães e eu resolvi abrir a porta.
me deixo com essa: o pessimismo é, no geral, uma precaução, uma preventividade. o otimismo, ingênuo que seja, me parece uma ousadia. o pessimismo esfria, o otimismo esquenta. agora, é possível viver sem um nem outro?
8.5.09
problemas em construir um livro
será melhor (re)criar semânticas ou deixá-las se constituírem em paz na solidão delas próprias? quero dizer: constituir um sentido para além do sentido que já se faz entre os textos? mas isso não é um trabalho do silêncio? deus é grande, mas o mato é maior.
hum: meus textos são de uma infância. dous: a infância houve como uma fase adulta pré-configurada. antes de crescer eu resolvi andar sobre as minhas próprias mãos. e ainda espirro quando lavo o cabelo no fim da tarde.
chega de saudade.
- - -
hum: meus textos são de uma infância. dous: a infância houve como uma fase adulta pré-configurada. antes de crescer eu resolvi andar sobre as minhas próprias mãos. e ainda espirro quando lavo o cabelo no fim da tarde.
chega de saudade.
- - -
"Os caminhos afogados, as casas destruídas. Toda a gente vem para fora, hesitante, um pouco espantada. Não há lugar para as mãos, para os pés. Mas o ar vai-se tornando leve, penetrante. As coisas libertam-se do vasto abraço das águas.
Durante dois meses, na funda solidão subterrânea, preparou-se o tempo que agora se torna exterior e vivo. Talvez a lentilha e a cevada semeadas no outono venham a cobrir as planuras. As sementes dormiram e imaginaram. Talvez acordem agora para a reconstrução do mundo.
É então que um grande silêncio cai sobre os trinta quilómetros quadrados da ilha. Ou vem das coisas, do interior das coisas. É um silêncio extremamente doce, um equilíbrio supremo. A ilha adquire uma grave e grandiosa imobilidade. E a luz entra e sai pelas coisas, como se elas fossem esponjas. As mãos ficam muito nuas. É dos olhos que primeiro desaparece o sono. E da boca. De cada parte do corpo, lentamente, de todas as partes, até que as pessoas se abram totalmente. Como numa ressurreição."
Herberto Helder, Photomaton & vox.
- - -
billie jean is not my lover
she says that i'm the one
but the kid is not my son
- -
cantos de estima? é menino!
Durante dois meses, na funda solidão subterrânea, preparou-se o tempo que agora se torna exterior e vivo. Talvez a lentilha e a cevada semeadas no outono venham a cobrir as planuras. As sementes dormiram e imaginaram. Talvez acordem agora para a reconstrução do mundo.
É então que um grande silêncio cai sobre os trinta quilómetros quadrados da ilha. Ou vem das coisas, do interior das coisas. É um silêncio extremamente doce, um equilíbrio supremo. A ilha adquire uma grave e grandiosa imobilidade. E a luz entra e sai pelas coisas, como se elas fossem esponjas. As mãos ficam muito nuas. É dos olhos que primeiro desaparece o sono. E da boca. De cada parte do corpo, lentamente, de todas as partes, até que as pessoas se abram totalmente. Como numa ressurreição."
Herberto Helder, Photomaton & vox.
- - -
billie jean is not my lover
she says that i'm the one
but the kid is not my son
- -
cantos de estima? é menino!
5.5.09
amor
você é um tanque
eu sou os peixes
a água brilha
- -
eu não gostava de maria bethania até a clarisse me mostrar o drama,
uns 3 anos atrás, enquanto eu conhecia o drama mesmo em si,
para além da encenação,
eu sou os peixes
a água brilha
- -
eu não gostava de maria bethania até a clarisse me mostrar o drama,
uns 3 anos atrás, enquanto eu conhecia o drama mesmo em si,
para além da encenação,
3.5.09
1.5.09
e se um poeta está sempre preso ao que escreve, portanto, quanto mais livre for a escrita, mais espaço haverá para nos ocuparmos com outras coisas.
29.4.09
o nome disso não é exatamente felicidade
se é alguma espécie de assombramento desnecessário ou é simplesmente o ritmo das coisas se acomodando em mim. até mesmo o trânsito de quilômetros de horas pode me provocar ternura.
às vezes penso: deve ser assim saber estar pra morrer.
mas, na verdade, só estou fazendo o que eu gostaria de fazer.
às vezes penso: deve ser assim saber estar pra morrer.
mas, na verdade, só estou fazendo o que eu gostaria de fazer.
25.4.09
amor
a última vez que nos vimos eu - - - percebi que não sei escrever
tinha matado um alce e carreg - - - um poema que fale da tua
ando até a margem do lago - - - ausência quero dizer minha
deposito ao lado na relva - - - dor de
gravetos estalando fogo - - - .
tinha matado um alce e carreg - - - um poema que fale da tua
ando até a margem do lago - - - ausência quero dizer minha
deposito ao lado na relva - - - dor de
gravetos estalando fogo - - - .
22.4.09
mastodonte
psiu, o marcos tem o quase resenha então eu vou contar um quase-segredo: tô terminando um livro de poemas. eu sempre soube que isso ia me acontecer um dia, mas não sabia na verdade. é assim tudo que a gente quer: ?
porque sou generosa como um gigante mau
gostaria de contar pra vocês quais são as epígrafes.
a primeira, quase já datou nesse blogue. e é:
"Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar."
“II”, Poemacto.
Herberto Helder
& também
"Céu de estrelas sem destino
De beleza sem razão (...)
Fogo fogo de artifício
Quero ser sempre o menino"
“São João, Xangô menino”.
Caetano Veloso e Gilberto Gil
& mas tenho dúvidas quanto a esta segunda,
se será ela ou
"Minha paixão há de brilhar na noite
No céu de uma cidade do interior
Como um objeto não-identificado"
ou qualquer outra estrofe de não-identificado, do Caetano.
me parece que será essa segunda, tem haver, não tem?
e o que importa mesmo é ser uma música do Caetano.
- -
que você acha?
e ah, o livro se chama é cantos de estima
porque sou generosa como um gigante mau
gostaria de contar pra vocês quais são as epígrafes.
a primeira, quase já datou nesse blogue. e é:
"Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar."
“II”, Poemacto.
Herberto Helder
& também
"Céu de estrelas sem destino
De beleza sem razão (...)
Fogo fogo de artifício
Quero ser sempre o menino"
“São João, Xangô menino”.
Caetano Veloso e Gilberto Gil
& mas tenho dúvidas quanto a esta segunda,
se será ela ou
"Minha paixão há de brilhar na noite
No céu de uma cidade do interior
Como um objeto não-identificado"
ou qualquer outra estrofe de não-identificado, do Caetano.
me parece que será essa segunda, tem haver, não tem?
e o que importa mesmo é ser uma música do Caetano.
- -
que você acha?
e ah, o livro se chama é cantos de estima
21.4.09
a noite que fomos ao observatório
o ônibus teve de subir a estrada de pedregulhos.
tinha capim ao lado era assim mais uma prosaica subida.
estudo do meio.
não vou me alongar nisso?,
indo ver as estrelas e quando chegamos era uma bola branca de concreto.
ou eu me lembro porque assim são os planetários.
por isso vou tingi-lo: era azul.
e na estrada tinha cheiro de sereno sobre o mato e borracha queimada dos ossos.
a vida é impertinente quando se tem 15 anos.
eu sempre senti os órgãos demais na barriga.
meu melhor amigo me disse uma coisa bonita sobre o fígado.
eu não escutava mas era como se ouvisse um rádio lento trazendo a notícia da paz.
a gente corre o pulmão expande pra inspirar o fígado pra se ajeitar é massageado.
talvez eu tenha tido vontade de massagear a bola branca do observatório.
o físico que nos atendeu contou sobre o clarão no céu visto nas férias
que iluminou nossos rostos de fogueira e fez um arco verde por cima dos meninos
era lixo espacial voltando pras atmosferas ardendo estrela-cadente não existe
deu-se por contente.
e quando olhamos ao ponto final só
-abre coração abre-
podia olhar por dez segund
(mesmo assim eu não vi nada)
tinha capim ao lado era assim mais uma prosaica subida.
estudo do meio.
não vou me alongar nisso?,
indo ver as estrelas e quando chegamos era uma bola branca de concreto.
ou eu me lembro porque assim são os planetários.
por isso vou tingi-lo: era azul.
e na estrada tinha cheiro de sereno sobre o mato e borracha queimada dos ossos.
a vida é impertinente quando se tem 15 anos.
eu sempre senti os órgãos demais na barriga.
meu melhor amigo me disse uma coisa bonita sobre o fígado.
eu não escutava mas era como se ouvisse um rádio lento trazendo a notícia da paz.
a gente corre o pulmão expande pra inspirar o fígado pra se ajeitar é massageado.
talvez eu tenha tido vontade de massagear a bola branca do observatório.
o físico que nos atendeu contou sobre o clarão no céu visto nas férias
que iluminou nossos rostos de fogueira e fez um arco verde por cima dos meninos
era lixo espacial voltando pras atmosferas ardendo estrela-cadente não existe
deu-se por contente.
e quando olhamos ao ponto final só
-abre coração abre-
podia olhar por dez segund
(mesmo assim eu não vi nada)
17.4.09
montra
descobri que os homens acuavam mamutes pelos desfiladeiros porque era mais fácil derrubá-los do que acertá-los com mira em flecha fiquei imaginando uma flecha pra atravessar o couro de um mamute e quem sabe talvez o mar fosse menos impossível talvez alguma outra divina astúcia me acontecesse assim também e no supermercado exclamar que fertilidade entre abobrinhas poeta do finito e da matéria/ .../ cantor de um povo limpa-ladrilho beterraba às vezes a única coisa que eu consigo produzir é uma solidão radical
14.4.09
caderno de viagem

do alto a terra é tão extensa
que assim só conhecia o mar
se à noite fico bem quieta
meu ouvido é uma concha
em qual se ouve o rugido,
acordei aqui, os pés enfiados
a espera da tua chegada, fumo
até partir do corpo
em heterônimos te escrever
como o mar que avança
depois de muito retroceder
duas ondas juntando a água que veio de trás
[marvão, portugal, julho do 8]
7.4.09
amor
passo a tarde em poemas
às dúzias como fotos digitais
seqüencia de frames
de desenho animado
a gente vai estrelar junto
na tela da televisão
eu, Teddy Corpete, enrolando
você entre os ossos da bacia
às dúzias como fotos digitais
seqüencia de frames
de desenho animado
a gente vai estrelar junto
na tela da televisão
eu, Teddy Corpete, enrolando
você entre os ossos da bacia
amor
entro no teu quarto todo
enquanto dormes escuro
com a câmera de gravar
você tão quieto respira tão bem
e o meu maquinário tem a propriedade de filmar
mas só passa os sonhos do que amamos em cores
não sei, se insisto ou se parto,
queimando os lugares reticentes do mundo
aperto o botão e do início a gravação
na tela curta se reproduz de imediato
então tu?
sonhas a lua?
enquanto dormes escuro
com a câmera de gravar
você tão quieto respira tão bem
e o meu maquinário tem a propriedade de filmar
mas só passa os sonhos do que amamos em cores
não sei, se insisto ou se parto,
queimando os lugares reticentes do mundo
aperto o botão e do início a gravação
na tela curta se reproduz de imediato
então tu?
sonhas a lua?
29.3.09
"en faisant le récit d'une vie dont je ne suis pas l'auter quant à l'existence, je m'en fais le coauter quant au sens"
paul ricoeur, sôi-même comme un autre
22.3.09
9.3.09
amor
há uma velha que nos atravessa. tens olhos de preguiça de quem não vê astúcia mais nas coisas. cansou de saber. lutar nunca fez. lembra-se de um vestido branco que usava e as colinas. antes das colinas havia um susto. antes do susto teve um amor.
8.3.09
amor
preciso de ti
como se isso fosse um estar
no coração de uma selva
à noite escura ouvisse
a respiração de um animal de olhos firmes
se aproximando luminosos sobre a folhagem
tu és o animal
eu sou a árvore
a luz vem da cidade
como se isso fosse um estar
no coração de uma selva
à noite escura ouvisse
a respiração de um animal de olhos firmes
se aproximando luminosos sobre a folhagem
tu és o animal
eu sou a árvore
a luz vem da cidade
7.3.09
yo soy un hombre sincero
ontem, voltando da paulista de noite, entrei no pompeião de sempre & havia três bolivianos tocando "isso aqui ô ô" em violões e pensei ai que cansaço depois eles tocaram guantanamera e metade do ônibus sabia cantar e eu cantei e nós cantamos atravessando o cemitério da dr. arnaldo garoava muito leve e aquele calor e as senhoras de laquê na minha frente vestindo cores de paixão disseram "hoje o dia foi tão bom que somos presenteadas com isso na volta pra casa" então eu chorei vendo os túmulos de mármore e os prédios da cidade acesos e apagados daquele instante
- -
6.3.09
sonho meu
ontem contei no acabou produto um sonho que tenho sempre
e essa noite eu ia a um museu de história natural e havia uma correnteza como os canais da disneylandia ou do recanto do boiadero e então com pedrinhas seixos nas águas e plantas de plástico muito verdes e também de verdade de um projeto pomar e então as pessoas passavam a mão na água e eram todos muito velhos em fila enfiando os dedinhos na correnteza e eu ficava assustada que aqueles velhos passassem a mão na água porque era a água do Pinheiros e na verdade o museu de história natural era uma contenção da nascente e então eu pensava mas essa água é suja e depois mas essa água é nova e daí minha mãe me dizia sem estar presente é uma água antiga que não deixa os velhos doentes mais,
5.3.09
amor
ele é o pássaro. veio branco BRANCO invadindo meu olhar boca tetos e ouvidos. livre e desesperado. tremia as pernas quando nos beijamos, não, balançava-as fora do tempo da música que tocava alto. lembro que puxei-o para o meu corpo como se eu fosse sólida. sólida feito uma embalagem tetra pak de leite cheia. ele se encaixou, esteve comigo, estive com ele.
anilina, minha pequena revolução
Adeus.
Voltei.
Não sabia que agora começava de um outro vislumbre. De um outro olhar, de um outro topo de montanha, outra bruma, outra espuma. Não sei mais quem escreve. Vou me apagando tanto do cotidiano bruto que consigo planar quase tão aberta de tudo asa-delta por sobre os meus pensamentos. Então quando escrevo, o corpo se aplica. E, aplicado, o corpo me é justo. Se não me excede.
Porque de algum modo eu descobri que há o mais biográfico de tudo. Que é: anil. Anil, não quer dizer nada. Anil sem metáfora. Anil. E nisso eu ia dizer do justo modo de namorar, que é social. Namorar casar gestar corromper. Essas coisas existem. E, sabe, os homens inventaram esquadros, cabos conectores, avisos em quadros para tal, quadros. O quadrado existe antes do homem? Ou é como os canteiros da Av. Rebouças?
Vou lhe dizer: as coisas têm seu próprio peso e eu sou: insolúvel e influenciável. O que eu ia dizer é uma palavra assim: elo ligação lealdade. Pra mim isso dá muito. Faísca, casão, amplitude. Eu um dia, garanto mesmo, vou ser um faisão. Voando flanando apoiado no próprio peito e depois servido magret na sala derradeira. Poderá me comer quem quiser porque no fim os bichinhos já iam me comer mesmo.
Eles vão te comer, sabes? Algo em ti e em mim se apagará o viço e será um sumiço de mim e de ti. Durante um tempo era por isso eu dizia: que me enterrem sem os caixões, fora das caixas, nem de madeira, nem de concreto. Disseram-me impossível a vigilância sanitária alguém reclamou até que era feio ou um corpo assim lembra auschwitz . Mas eu disse: corpo assim como assim que quer dizer é o meu corpo. Meu corpo de orquídea. Eu estava me valendo de alguma espécie de raciocínio de que a individualidade do indivíduo individual que eu seria se não fosse a sociedade a razão de ensino a etc etc. Mas não sou dona dos lençóis freáticos da cidade. Disseram-me: crema-se ao final, mas é um verbo que não sei conjugar imediatamente. E não, não, eu quero o chão, a terra, um lento adeus. E se isso não me disser respeito, respeito e adeus.
Voltei.
Não sabia que agora começava de um outro vislumbre. De um outro olhar, de um outro topo de montanha, outra bruma, outra espuma. Não sei mais quem escreve. Vou me apagando tanto do cotidiano bruto que consigo planar quase tão aberta de tudo asa-delta por sobre os meus pensamentos. Então quando escrevo, o corpo se aplica. E, aplicado, o corpo me é justo. Se não me excede.
Porque de algum modo eu descobri que há o mais biográfico de tudo. Que é: anil. Anil, não quer dizer nada. Anil sem metáfora. Anil. E nisso eu ia dizer do justo modo de namorar, que é social. Namorar casar gestar corromper. Essas coisas existem. E, sabe, os homens inventaram esquadros, cabos conectores, avisos em quadros para tal, quadros. O quadrado existe antes do homem? Ou é como os canteiros da Av. Rebouças?
Vou lhe dizer: as coisas têm seu próprio peso e eu sou: insolúvel e influenciável. O que eu ia dizer é uma palavra assim: elo ligação lealdade. Pra mim isso dá muito. Faísca, casão, amplitude. Eu um dia, garanto mesmo, vou ser um faisão. Voando flanando apoiado no próprio peito e depois servido magret na sala derradeira. Poderá me comer quem quiser porque no fim os bichinhos já iam me comer mesmo.
Eles vão te comer, sabes? Algo em ti e em mim se apagará o viço e será um sumiço de mim e de ti. Durante um tempo era por isso eu dizia: que me enterrem sem os caixões, fora das caixas, nem de madeira, nem de concreto. Disseram-me impossível a vigilância sanitária alguém reclamou até que era feio ou um corpo assim lembra auschwitz . Mas eu disse: corpo assim como assim que quer dizer é o meu corpo. Meu corpo de orquídea. Eu estava me valendo de alguma espécie de raciocínio de que a individualidade do indivíduo individual que eu seria se não fosse a sociedade a razão de ensino a etc etc. Mas não sou dona dos lençóis freáticos da cidade. Disseram-me: crema-se ao final, mas é um verbo que não sei conjugar imediatamente. E não, não, eu quero o chão, a terra, um lento adeus. E se isso não me disser respeito, respeito e adeus.
- -
ou, por outro, achei aqui:
1.3.09
o leão da família ii
hoje meu mesmo sobrinho de quatro anos disse-me:
-por que eu tenho que gostar ou não gostar das coisas?
(iluminação)
& depois, com os bonequinhos de fantoche
-esse é o pedrinho, essa é a cuca, essa é a tia nastácia, ... - silêncio.
e dez minutos depois, dentro da piscina:
-quem escreveu a história do sítio foi o monteiro lobato.
(susto genético & civilização)
& depois, vendo meu irmão acendendo a churrasqueira e correndo atrás dele com espetos de carnes, ele chamou minha mãe e disse:
-vovó senta aqui comigo que a gente precisa conversar. meu tio é mesmo um dragão?
-por que eu tenho que gostar ou não gostar das coisas?
(iluminação)
& depois, com os bonequinhos de fantoche
-esse é o pedrinho, essa é a cuca, essa é a tia nastácia, ... - silêncio.
e dez minutos depois, dentro da piscina:
-quem escreveu a história do sítio foi o monteiro lobato.
(susto genético & civilização)
& depois, vendo meu irmão acendendo a churrasqueira e correndo atrás dele com espetos de carnes, ele chamou minha mãe e disse:
-vovó senta aqui comigo que a gente precisa conversar. meu tio é mesmo um dragão?
28.2.09
o leão da família
ontem perguntei ao meu sobrinho se ele tinha ou não gostado do livro que a gente tinha acabado de ler juntos. ele me olhou da maior fofura das suas bochechas de quatro anos de idade e me disse:
-não vou te dar minha opinião.
(arrasou na casa 8, marcos!)
-não vou te dar minha opinião.
(arrasou na casa 8, marcos!)
27.2.09
"(algumas razões)
O primeiro dever de alguém que acredite na necessidade e eficácia do verídico será a independência, quero dizer: o começo por si mesmo.
A leitura comunicada é um sinal, talvez o mais facilmente impressionante, do amor ou desamor dos outros. Este sinal do alheio nos terrenos da solidão propende para, e estabelece, uma corrente magnética. É perturbante verificar que a solidão possui uma qualidade expansiva, estimula réplicas, ou seja: o exercício íntimo de certas forças movimenta-se para um écran, incita a um significado externo. O leitor é tido então como um cúmplice superlativamente adequado ao texto da solidão. Imagino que tal adequação suposta - advinda de que perícia, de que faculdade subtil para induzir experiências, de que estranho talento de receptividade? - implica logo a sabedoria inocente de aceitar como absoluto o universo da solidão, a incontrovertível razão de autor. Da indiscutibilidade dessa razão partiria o talento de fruir para o "amor inteligente". Mas, desde que se obste à total legitimidade da razão de autor, fere-se ao verídico, sua força e origem, a liberdade que se executa num largo mapa de pequenas liberdades contínuas. Porque o autor teria então de justificar tudo, a começar por si mesmo, pela sua veracidade, quer dizer: pela sua própria realidade. É que uma solidão, e a obra que faz e é, buscam as garantias de existir. E apenas isso.
É difícil viver entre a falsa inteligência alheia. Antes ser absolutamente ininteligível perante uma ininteligência senhora de si do que ser devorado pelas partes que os outros escolhem, em puro abuso, para satisfação da própria inteligibilidade, deles, estrangeiros.
Que facilidade sua os conduz à ilusão do seu próprio nome?
(Os destinatários são sempre outros).
O equívoco é só esse de confundirem a nossa dificuldade com a sua facilidade. E esta ilusão de suficiência é dramática: porque pode atrasar-nos na direcção dos destinatários verdadeiros. Quando se compreenderá que se trata de cumplicidade?
(Octávio Paz: sólo podemos hablar con verdad de aquello que nos inspira y apasiona.)"
O primeiro dever de alguém que acredite na necessidade e eficácia do verídico será a independência, quero dizer: o começo por si mesmo.
A leitura comunicada é um sinal, talvez o mais facilmente impressionante, do amor ou desamor dos outros. Este sinal do alheio nos terrenos da solidão propende para, e estabelece, uma corrente magnética. É perturbante verificar que a solidão possui uma qualidade expansiva, estimula réplicas, ou seja: o exercício íntimo de certas forças movimenta-se para um écran, incita a um significado externo. O leitor é tido então como um cúmplice superlativamente adequado ao texto da solidão. Imagino que tal adequação suposta - advinda de que perícia, de que faculdade subtil para induzir experiências, de que estranho talento de receptividade? - implica logo a sabedoria inocente de aceitar como absoluto o universo da solidão, a incontrovertível razão de autor. Da indiscutibilidade dessa razão partiria o talento de fruir para o "amor inteligente". Mas, desde que se obste à total legitimidade da razão de autor, fere-se ao verídico, sua força e origem, a liberdade que se executa num largo mapa de pequenas liberdades contínuas. Porque o autor teria então de justificar tudo, a começar por si mesmo, pela sua veracidade, quer dizer: pela sua própria realidade. É que uma solidão, e a obra que faz e é, buscam as garantias de existir. E apenas isso.
É difícil viver entre a falsa inteligência alheia. Antes ser absolutamente ininteligível perante uma ininteligência senhora de si do que ser devorado pelas partes que os outros escolhem, em puro abuso, para satisfação da própria inteligibilidade, deles, estrangeiros.
Que facilidade sua os conduz à ilusão do seu próprio nome?
(Os destinatários são sempre outros).
O equívoco é só esse de confundirem a nossa dificuldade com a sua facilidade. E esta ilusão de suficiência é dramática: porque pode atrasar-nos na direcção dos destinatários verdadeiros. Quando se compreenderá que se trata de cumplicidade?
(Octávio Paz: sólo podemos hablar con verdad de aquello que nos inspira y apasiona.)"
Herberto Helder, Photomaton & Vox
24.2.09
23.2.09
era uma harpa um jarro e um casal de namorados
acordo é engraçado não entendo mas sonhei com teu quarto
éramos nenhum lá dentro de você lembro de tudo branco mas são as paredes quase amarelas
as memórias disse meu amigo dirigindo músico ao colocar contra o sol o óculos que lhe traz o passado
eu pelo menos devo estar sempre com essas lupas ou se bem que são luvas
de um tato pertinente e esvoaçado em se ter a lamber o próprio lábio
aprendi que o melhor modo de observar o céu é de uma cadeira giratória
o pescoço se recosta e ao contrário do mundo o pézinho dá o impulso
depois uma ferida sangra e eu agora tenho o hábito de passar o sangue em algum papel
caderno sulfite não importa eu guardo não sei bem onde quem sabe um dia a grande obra do meu sangue no papel nenhuma gota por poema não os poemas são mais limpos que o sangue e é o mínimo
sei que tenho um arquivo .doc com o nome de "gaveta" e dentro dele não há nada
agora depois vou lhe contar outra coisa acordo e fico vendo artistas e quem sabe é isso mesmo estão há anos luz dos poetas nós em galáxias tão medrosas e sabe 5.000 anos de escrita (é isso mesmo?) dão tanto a essa estante mas mesmo assim quando eu vejo as estrelas teimo mesmo em dizer que é a primeira vez que alguém pode, como eu, nomeá-las,
em segredo.
éramos nenhum lá dentro de você lembro de tudo branco mas são as paredes quase amarelas
as memórias disse meu amigo dirigindo músico ao colocar contra o sol o óculos que lhe traz o passado
eu pelo menos devo estar sempre com essas lupas ou se bem que são luvas
de um tato pertinente e esvoaçado em se ter a lamber o próprio lábio
aprendi que o melhor modo de observar o céu é de uma cadeira giratória
o pescoço se recosta e ao contrário do mundo o pézinho dá o impulso
depois uma ferida sangra e eu agora tenho o hábito de passar o sangue em algum papel
caderno sulfite não importa eu guardo não sei bem onde quem sabe um dia a grande obra do meu sangue no papel nenhuma gota por poema não os poemas são mais limpos que o sangue e é o mínimo
sei que tenho um arquivo .doc com o nome de "gaveta" e dentro dele não há nada
agora depois vou lhe contar outra coisa acordo e fico vendo artistas e quem sabe é isso mesmo estão há anos luz dos poetas nós em galáxias tão medrosas e sabe 5.000 anos de escrita (é isso mesmo?) dão tanto a essa estante mas mesmo assim quando eu vejo as estrelas teimo mesmo em dizer que é a primeira vez que alguém pode, como eu, nomeá-las,
em segredo.
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22.2.09
III. (agora que sou sincera.)
esse agora é para o breno
e dessa vez não foi o rodrigo que me atendeu. porque toda vez que eu vou ao correio é o mesmo rodrigo que me atende. é sério. eu já vou lá e digo 'alou alou rodrigo', meio que rima, né? ele percebe, não me entende direito, não acha graça. não sei bem qual é o QI do rodrigo que no mais parece as patas de um urso ( ww ww ww ww) . mas, quando tive que sair de lá na chuva, na semana do meu aniversário, o rodrigo me deu um saquinho pra enrolar o celular novo. chovia tanto que eu mal conseguia abrir os olhos. sabe, os cílios são mesmo pára-brisas, mas a chuva era uma torrente. eu fui chutando a água nas sarjetas. de um cano de um muro a água jorrava cheia de barro e eu espalmando a mão na lectospirose. sou forte, e isso é antes de tudo. feel the sound. foi aí que me lembrei que eu havia acabado de enviar pelo correio um poema que falava daquilo mesmo, da chuva escorrendo doce pelos seios das minhas pernas - "janeiro"- e poxa,
po-xa aquele dia cheguei em casa e consultei o dicionário de nomes próprios pra saber o que significava "rodrigo" e sabe, não significava nada. mas hoje lá, eu na fila pensando, alou alou rodrigo, o envelope rosa na mão, o rodrigo que sabe que eu peço pra ele colocar um selo de cada, e apitou o guichê pra que eu tinha que ir segui daí alou alou elaine, nada de rodrigo hoje, gente. a elaine beicinho. perguntei quanto tempo pro prioritário ela me disse '7 dias' eu quase 'como assim gente quem é que mente pra mim então?' porque o rodrigo sempre fala um número maior que isso porque eu sempre pergunto, porque eu sempre sei mas eu sempre pergunto, sabe como é, fila-guichê-caixa, a gente faz o que pode. fiquei tão atônita que a elaine já tinha colado todos os selos antes de eu pedir 'ah põe um de cada' que esse é o tchubirubi de selar o envelope rosa-rosa com selos. ah elaine, viu. daí eu olho pro rodrigo e ele com aquela cara de que viu um elefante voando só que era um passarinho.
saio do correio meio feliz. parece que a chuva não é dessa vez. fico bem contente porque não quero me molhar, hoje não estava tão quente como da outra vez e minha volúpia bem mais na calada da gravidade do que aquele incendião da chuva de outro dia feito a bahia. são paulo minha gente é são paulo. que deus a tenha.
e não é que passo na frente da Quituteira onde sempre passo quando vou ao correio e nem cogito mesmo comer algum daqueles doces enormes porque sempre penso 'ok, delícia, mas e o tempo pra me recuperar disso depois?', sabe, eu ando muito pelas coisas, 'body and soul'.
ok. ok. ok.
é dessa vez. estou feliz. olho a bomba de chocolate. bomba de chocolate me lembra uma doceria de Pinheiros, Pinheiros me lembra jogar uma bomba na cabeça daquele traste! foi então ah minha gente apareceu na minha frente um merengue cheio cheinho de chantilly. lembrei de ontem, que de madrugada queria chantilly? delírio. toda essa vida que é só sorte. pedi pra moça embrulhar. contei pra ela que tive vontade de comer chantilly de madrugada. ela falou 'ahquecoisa' meio sei lá atrás do balcão, por que o povo se assusta com intimidade, né?, adoro susto. um dia saio por aí de vampiro mesmo, daí vocês vão ver.
capa encarnada amor na estrada imensidão na jugular
enquanto isso não acontece, cheguei em casa com o doce.

dá pra não ser sincera?
e pensei, ah, isso sim que é o livro dos prazeres já me retornando! sucumbi, o mais possível, aos risos, o chantillly me entrando pelos narizes chupando todos os dedos com todo o amor das baratas ao açúcar e, com as janelas todas abertas, foi um ato de amor. depois bebi a camomila e depois também um café. quando o tempo for propício. tua carta que não chega. essas saudades.
19.2.09
mememememe
o sérgio me passou o meme, de abrir o livro mais perto que tiver na página de número 161 e copiar a quinta frase completa.
bem, o livro mais perto de mim é o cântico maior atribuído a salomão, na versão de fiama hasse pais brandão, que acaba na página 35. tendo que partir para uma segunda opção, tenho dúvidas se o livro mais perto de mim é toda mafalda, do quino, que retiro de possibilidade pelos quadrinhos?, então, depois fico em dúvida se é o medo do al berto ou entrevistas com antónio lobo antunes. portanto, como primo pelo universo em expansão, vou colocar dos dois,
al berto, opto pelo quinto verso, pois não há pontuação:
"não consigo dormir com esta ferida"
lobo antunes:
"Mas, normalmente, um plano é uma folha assim grande e está lá tudo escrito".
pois, repassando a corrente da sorte, trevinhos para os cinco: marcos, noah, breno, quel, sabina.
bem, o livro mais perto de mim é o cântico maior atribuído a salomão, na versão de fiama hasse pais brandão, que acaba na página 35. tendo que partir para uma segunda opção, tenho dúvidas se o livro mais perto de mim é toda mafalda, do quino, que retiro de possibilidade pelos quadrinhos?, então, depois fico em dúvida se é o medo do al berto ou entrevistas com antónio lobo antunes. portanto, como primo pelo universo em expansão, vou colocar dos dois,
al berto, opto pelo quinto verso, pois não há pontuação:
"não consigo dormir com esta ferida"
lobo antunes:
"Mas, normalmente, um plano é uma folha assim grande e está lá tudo escrito".
pois, repassando a corrente da sorte, trevinhos para os cinco: marcos, noah, breno, quel, sabina.
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