6.12.09

tão feliz quanto dispersa

o escorregador era um muro que eu subia as escadinhas e lá em cima o muro acabava estalava enquanto descia o metal tão longo e quando chegava na areia parecia que nada tinha acontecido mas o coração arfava

ainda tem lá aquelas mangueiras plantadas em quadrados
anos depois que fui lembrava dos bancos de cimento que espetavam
o pacotinho de mupy de maracujá ou maçã
o escorregador ainda era grande mas não cabia a minha bunda
mas bem que eu tentei porque não sinto vergonha dessas coisas
antes acho mesmo é de rir da cara de quem acha ridículo uma mulher usar um escorregador
de criança só consegui lembrar que o everton e o wellington comiam a bruna com 11 anos

na arquibancada
a menina feito um frango
os pintinhos deles


só o vai--e--vem
na linha do horizonte

era uma forma de ser amiga, a dela.
jogávamos bola juntas.
nosso cabelo tinha a mesma cor.
alguém perguntou se éramos irmãs.

o professor fumava maconha com os meninos do 3o colegial na saída de incêndio do prédio novo.
na aula tive que fazer uma reportagem contra o crack. lembro dos microscópios e que tinha um feto de cavalo no formol. a juliana não comentava mas via naquilo uma indecência.

eu sempre fui branca como uma tripa.

minha ingenuidade também era de tripa.


o marcos sempre fala
que não é fácil
ter 12 (ou 8?) metros de tripa dentro da gente.

tripa com memória
é ser pipa.

confundo

abro o caderno
achando o livro
misturo carvão
vago pelo fogo

a escrita sabe um pouco como o amor
não se sabe quem se possui a quem.

amor

não fugia
que voava

sala

onde ainda se acredita na diferença de um poema

sou eu

domingo
a louça é maior
há quanto tempo a louça me apavora
depois descubro que tem água quente
e que quente a água a louçar
é domingo ao menos



volto ao acordar
escrever



escrever: quanto mais ao menos.



um dia vou escrever assim:











com ponto final.

4.12.09

é pegar ou largar
you are cesariny
portugal is burning
cazuza generation

1.12.09

today is gonna be the day



o mar que me caminha

30.11.09

o creme é mais amarelo

no tempo que não havia tempo eu não esperava, adentrava. depois que os anos começaram a passar depressa um mês, dois, três, nada. em certa altura não sei se eu conquisto o tempo como um avançador marinheiro num azul noturno guiada por sei lá qual estrela ou se é o tempo que me vence como a barriga do seu dragão. no caso da estrela, ela me dá sorte, quer dizer, luz que sorteia.




escrever e pensar: o caminho que é livrar-me numa nova estrutura.



sonho em Portugal é bola de Berlim.

24.11.09

o livro do ano



ham-ham
pelo menos do meu ano, o livro
agora dá pra baixar em pdf o

cantos de estima
full edition sem cortes e remasterizado
clica aqui e mergulha

vento

qual o teu terror?
conta de me levar
se abro a janela.

23.11.09

carinho



agora, no 12 exemplares pode-se ver a maior parte das respostas dos participantes do projeto.
logo serão todas.

**

acho que é
intuição

metade de mim sempre já sabe das coisas antes
e a outra metade é crítica demais pra aceitar que já sabe
ou fica lá dizendo tá vendo tá vendo tá vendo
mas a metade que já sabe tem mais calma e ternura
pode até se dispor a humildade de não saber
mas a parte crítica também salva a que acha-que-sabe
de cair nos crocodilos e de voar com as borboletas
(borboletas morrem em três dias)
e é na reiteração de uma sobre a outra que vivo
ou na sombra de uma alegria guerreira
que cresce feito árvore

agora o que se vê é a copa no outono
mas está é mesmo crescendo raízes pro fundo
(lá é úmido e tem mais minerais)
daí às vezes sobem coisas pelos veios
(são os arrotos das árvores)
que brotam maçãzinhas pêras amoras
depende do desejo

**

intuição acho que é
como ir ao cinema sem saber que filme vai passar
e estar disposta a ver o filme que for passar

21.11.09

galochas nos cílios

20.11.09

Não tenho paz nem posso fazer guerra
temo e espero, e do ardor ao gelo passo,
e vôo para o céu, e desço à terra
e nada aperto, e a todo o mundo abraço.

Prisão que nem se fecha ou descerra,
nem me retém nem solta o laço;
entre livre e submissa essa alma erra,
nem é morto nem vivo o corpo lasso.

Vejo sem olhos, grito sem ter voz;
e sonho perecer e ajuda imploro;
a mim odeio e a outrem amo após.

Sustento-me de dor e rindo choro;
a morte como a vida enfim deploro:
e neste estado sou, Dama, por vós.



Petrarca em tradução de Jamil Almansur Haddad.

19.11.09

céu

Trocaram as fontes sem sequer eu visse
olho pra cima e me atravessa o tráfego
luzes vermelhas se meus olhos se fecham são cor de flamingo e
os pássaros voam com a autoridade
que passeio pelo príncipe real
vendo vencidos nos bancos
pela pobreza, o amor, a um livro.

#

Eu tenho um beijo preso na garganta.
O mundo deu uma volta e o poema não está pronto.
Fico tão noturna quando é de tarde.

#

Passeio em mim como quem viajasse de trem
e é sempre amanhã que chegamos.

#

Espero a hora de dizer: o jeito que te vejo entrando em mim
como um cavalo derrubando as paredes pelas escadarias.

#

O mar guardado em tuas gavetas.

17.11.09

confidenciação

esse é pro B

tamô seguro usando meia.

16.11.09

s/títuloainda

as milhares de horas de vídeos
gravadas pelos japoneses
nesse minuto viajando no mundo
as câmeras guardadas em Lisboa
chove como se abrissem um lençol
e tentassem arrastar as colinas pro rio
enquanto desenhas
linhas de um mar apavorado
mas grande demais pra fugir.

14.11.09

amor

se quem puder ser for o que será?

*

um modo de cruzar os braços sobre minhas cinturas foi daí o conforto e nem percebes que eu entro pela sala pensando em deitar sobre você escondido numa cadeira de braços altos e todo trançado no próprio corpo entendo que hoje à noite eu sou de ninguém e o modo como diz duas vezes a mesma coisa a segunda com maior dura entonação e a palavra dura menos e é pra se fazer rir ninguém vê graça eu vejo.

*

agora estamos na praia.
como já disse
não quero que morra
em mim a admirável criança

embora ande com um desejo de envelhecer pra me aproximar
fazendo o elogio da retidão
então descubro que a serenidade é um sinal de declínio

13.11.09

talvez você não acredite

como eu evito
mas pra escrever o "cantos de estima"
tive que morrer muito

memória

vontade de ver neve sobre um mar
eu simplesmente ouvi a luz do vento

antónio franco alexandre

cujo nome por si só, já é o meu poema.

cumprir um destino

essa é a 4a casa em que vivo
mas se pensar bem,
em quantos carvalhos já me enrodilhei?
penso justamente em janeiros na bahia
como essa vida quente me define
de ter feito casca
virei a casaca
poucas coisas trouxe
mas não deixei o meu edredon rosa queimado
que me enrolava nas noites de ayahuasca
e agora me esquenta as cólicas e o pavor noturno
pavor noturno de evitar o pavor
clicando
a nova mensagem
tenho medo de abrir
e de ler dizer amor.

*

eu quero um livro de capa branca
depois um livro rosa ferrugem
toda essa meditação
consumiu as horas de leitura
porque eu estava a sonhar
com o futuro de um livro
que ainda não escrevi

*
ficar comigo

*
.

12.11.09

hoje eu vi o marcos

lá na casa da mamãe e do papai

11.11.09

está decretado que voltei a sonhar

*

faço desse blogue também de sonhos um diário.

*

essa noite sonhei que eu estava no sam's club de osasco com a minha mãe e o meu pai me dava um travesseiro novo. era a maior felicidade do mundo, eu abraçava o travesseiro. daí a gente saía de lá e pegava a av. escola politécnica e aquilo ia me dando uma angústia, uma angústia. eu pensava "quero estar em Lisboa". e sentia saudades, assim, violentíssimas. e a angústia virava ansiedade e eu começava a calcular "o que vai ser preciso fazer pra estar em Lisboa de novo?" e era impossível. então senti tanta angústia ao lado do córrego Pirajussara que acordei! abri os olhos já era de manhã cedo pensei "caraleo, onde é que eu sou?", vi minha máquina de escrever, "cacete onde é que eu estou? em que ano, que lugar, que direção?" e a luz de outono entrando nas paredes descascadas desse quarto me disse "ai foi só um sonho ruim" e vi que até onde não sei, continuo querendo estar aqui.

10.11.09

maturação

essa noite sonhei que tentava revisitar a parte da minha casa sempre não aproveitada que só existia em sonhos que eu tinha que havia um sótão onde eu nunca ia e sempre que nele chegava (creio que já escrevi sobre isso) havia a impressão de um desaproveitamento. então hoje sonhei que eu levava algumas pessoas pra conhecerem esse lugar (eram todas minhas desconhecidadas) e o lugar tinha virado uma biblioteca. de repente um rapaz, muito solícito, levava lá pra cima uma televisão. eu ficava bravíssima com ele. e dizia "não é necessário", ao mesmo tempo que tentava esconder minha ira das visitas e, por conta desse gesto, eu o perdoava um pouco.

saíamos de lá e eu estava sozinha com um pé de amora. não tinha nenhuma amora madura mesmo. e toda vez que eu pegava uma elas se enfiavam espinhos muito duros no meu dedo. apareceram umas mulheres e tiravam as amoras que ali tinham e comiam. uma delas olhou pra mim e me disse "essas são boas de um modo diferente". e eu disse "mas então há frutos verdes que se comem?". espetava o dedo, mastigava que diferente!, e era bom.

9.11.09

você tem um canyon escondido?

sabe como é, uma terra que se abre em duas e entre elas voam uns pássaros e nascem umas coisas.
o rio se dizia logo

axolote

vou comprar chocolate
nem tou sozinha
vou alimentá-lo.
eu fui pra Patagônia pequeninha.

a Patagônia cabia num grão-de-arroz.

eu hoje comprei uma Vespa.

e uma dúzia de chaves-de-fenda.

vou montar a minha cadeira vermelha.

que herói que se preza além da capa e da máquina de escrever encarnada tem a world famous cadeira vermelha de 14 euros do ikea.
o dormente morava dentro do rio e o rio se dizia lago olho bem fundo de boiar em marrom no centro da água meu ver de terra redor redor em cavei um umbigo pelo qual eu mirava você era a discordância de nuvem você na ausência até que é isso o que era você era eu e não me bastava a história de sempre da solidão apaixonada da paixão pelo vento que esfria/ a paixão e /ferve a vontade de deitar sobre mim, coração.

*

não me eram suficientes os dígitos, a música, a salvação.

eu queria morrer, dizer-te pulando de rua não desafie meu super-herói interior, que ele derruba montra/vitrine não fica nunca abandonado, meu coração é tão povoado!, vem meu bem, ver a vila que eu fiz em você.

*

depois me contaram que o modo de perder um homem era dizer "vem cá" puxei as cobertas e me virei pra lá.

*

tem gente que bebe.
de dentro da xícara de café esperava-se um líquido veio que não vou sugerir a quebra de linha e voou do bule fervente o som de uma asa de gaivota se abrindo era uma criatura que em mim renascia de dizer criatura como se ainda acreditasse em monstros indefiníveis eu que vim de criança sendo uma imaginação tantas vezes soterrada tantas vezes reles tantas vezes dormente tantas vozes

8.11.09

é melhor deflagrar a guerra do que
prender a respiração pra sempre

*911

-alou, AFOGUEI

5.11.09

uma crônica que me aconteceu mesmo ontem e eu resolvi anotar

eu aqui também moro em frente dum supermercado. e é importante dizer "super" porque se não em Portugal "mercado" é o que no Brasil se chama de "feira". pois então, fazia uma semana que eu não ia ao super. estava com as costas doendo e mal humorada. cheia de tristeza, de saudade, de dúvida e medo. e, principalmente, de saco cheio de tantos afazeres domésticos que, pensava eu, me emperravam o desejo de ir ao cinema, estudar, começar uma nova pesquisa na biblioteca, sei lá, andar até um miradouro qualquer e olhar o Tejo indo pro mar. mas fui lá, leite, ovos, espinafre, arroz, essas coisas. evitei o chocolate que sabia que melhoria meu humor, mas depois? é um respeito. que vontade de comer goiaba.

tava meditando que de novo comprava o trident tropical mix já no caixa quando um senhor de uns 90 anos se aproximou vindo da rua de bengala, naquele ritmo de passo a passo, vestido de fato xadrex em marrom, velocidade de 1/4 de metro por minuto e falou baixinho com o caixa, que nem pra ele olhou. carregava uma nota fiscal e uma embalagem de chocolate em pó fechada. passaram as minhas coisas na frente dele, os códigos de barra apitando e o senhor cabisbaixo esperando. quando terminaram com aquilo tudo o senhor finalmente se aproximou do menino do caixa e disse o que lhe acontecia

que ele ao chegar em casa conferindo a nota tinha percebido que aquele pacote de chocolate não tinha sido pago e que ele estava lá pra resolver isso. o gajo do caixa se enrijesceu todo daquela demonstração e muito duro sem nem olhar pra idade do homem nem nada passou o chocolate no apitador de barras e disse

-são 89 céntimos.

o senhor abriu o moedeiro com as mãos tremendo e moeda a moeda pagou. eu me retirei para casa enquanto a compra se finalizava. pensei? não. só me doí.

**
o que é que me doeu?


****.

1.11.09

espero que novembro amanheça bem

nenhuma esperança é feita de si/ tudo está para sempre acabado / redigo: que me queiram mal.

se todo o desvio é em si caminho, labuto na divergência: escrevo.

não mais.
não mais.
não mais.

e sobretudo no ato de escrever é que digo: escrevo.
e tomaste a minha pena a minha voz e agora a minha compreensão.

admiro muito minhas calças cor de camelo.

comprime o ritual nessa falta de mim.

e nunca estive tão só.

creio que poderia atirar-me ao rio e ir parar no Brasil.

se assim o fizesse, não seria feliz. mas que importa a felicidade?

é como um monte de musgo que um cavalo pisa indiferente se aquilo fosse bosta.

e eu tento falar contigo como outros falariam mas não consigo e tento te convencer como convenceria a outros e não consigo e me vejo mais uma vez na mesma cena de sempre só que dessa vez estás vestido de azul enquanto antes preferias o cinza, amor.

quem é que me vaga e vagueia?

não sinto nada, mamãe.

descubro à meia-noite de ontem que não te quero mais.

descubro é: meia-noite, és um gênio, e não tens um botão de play/ stop.

pela sabedoria não posso te odiar, nem chamar a ti de boneco de gelo.

se me perguntassem o que aconteceu eu responderia com "e azul". não diria outra coisa, não direi. podem dizer que vivo meu avesso. podem dizer que esperam das passagens das ruas coisas melhores pra mim e pra você, porque em fato tem todos medo de encarar a vida como ela é. o tempo.

no entanto, tu, encaras. e eu te olho como a um mamute num zoológico onde todos enlouqueceram achando que são macacos cheios de depressão no cu.

descubro-te rindo da crueza e com crueldade das coisas como ela são. odeio-te?

gostaria de gostar da idéia de levar minha mão na tua cara num tapa.

não sei o quanto silêncio há num sol escancarado. e quanto acreditar que as palavras vencem um corpo. ao meu elas sempre venceram. estou mais uma vez só com elas.

será essa a minha sina para sempre, estar comigo e com as palavras e te juro, que não me lamento, nem arrependo e nem gostaria que fosse diferente.

gostava de voltar a essa sinceridade mais vezes.

mas por hora me calo, espero o inverno passar.

não sei se a nossa nobreza nos consola ou piora. afinal, não somos deuses.

talvez se deuses fossemos poderia eu sublimar em criar estrelas.

mas, no fim, até posso. faço versos: cartas de adeus que dizem: fico mais um enquanto.

30.10.09

horóscopo te inibe a felicidade?

por exemplo: "dia difícil, cuidado com as palavras" e o sujeito cujo leitor apaixonado deve guardar a declaração pro dia mais adeqüado? é mercúrio, saturno, pôvo ê,

*




*

XII

Temendo deste agosto o fogo e o vento
Caminho junto às cercas, cuidadosa
Na tarde de queimadas, tarde cega.
Há um velho mourão enegrecido de queimadas antigas.
E ali reencontro o louco:
-Temendo os teus limites, Samsara esvaecida?
Por que não deixas o fogo onividente
Lamber o corpo e a escrita? E por que não arder
Casando o Onisciente à tua vida?



eu dei de presente pro B
esse da
Hilda Hilst, n'o "Via Espessa" dentro Do desejo


*

todo meu amor.

29.10.09

sim, o título desse blogue vem de

"porque hoje eu vou fazer
ao meu jeito eu vou fazer
um samba sobre o infinito"

e eu ouvia e sempre estava certa de que ele ia salvar o verso cantando "movimento"

o que, pois, esgrimo em fazer.

beijos,

26.10.09

já não vivemos mais

já não vivemos mais na mesma cidade

de lá você não era
e eu tinha crescido em outra parte

*

sonho contigo
tem um bidê
fazemos amor
e me ensinas as coisas que a gente fazia questão de não ver

*

de todo modo cada vez mais apartada e convicta
do teu sexo

*

POEMA DE FINADOS

talvez a saída da cidade combine melhor com o teu drama
assim como Lisboa rima com o meu senso de me iludir

*

linda, sobretudo linda

*


POEMA DE FINADOS

e todo o medo do silêncio
da tua concha de amar e usar
óculos escuros pra mais chorar

-sempre um pouco impressionada com a minha cara limpa-

sobretudo por si mesma consumida
como as flores amarelas do teu planeta.
cemitério, ciúme, sitiado ardor.

*

POEMA DE FINADOS

que já tenho aprendido a conviver a ferocidade da tua delicadeza.

* * *

25.10.09

30

Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.



António Franco Alexandre
in: Duende

23.10.09

I

quando se fez um som: branco, parecia que alguém o calculava. entre precisão e desdém, um sopro concentrado no ouvido de alguém, a dizeres: quero-te, meu bem. e uma dobra de onda, vaga, esse desejo, meu cão, ao pé de presente, agora lambe suas mãos entre os dedos, salina viagem.

para atravessar o silêncio era preciso estar nele. ver as roupas que de molhadas se encheram de areia grudada e pensar: nada dizem essas minhas roupas longe da cidade? habitei dia a dia dentro delas, habitei dentro delas, se não me eram incógnitas, era eu a dúvida?

mas se eu sabia que te desejo assim como a uma casa, um prato de comida, um gato, o Museu del Prado, e um poema, não era isso já saber bastante, destino? eu que podia me satisfazer com um espelho e um destino de ninguém agora já não posso. escuta, fecha os olhos que eu estou aí. construo, reconstruo, adivinha se gosta de mim? mas desde que te conheço todo entulho, resto, nunca vai dar no mar.

espécie de salvação da espécie: um projeto: salvar o oceano.

22.10.09

eu queria uma espécie alienígena que tivesse tomado o meu itunes e colocado a tag "de amor para essa hora", e o play nessa especificidade desse a mim (e a todos, aqueles, ligados_ ) a sensação - aquela - que é um sorriso junto, de coragem

embora coragem seja uma palavra forte demais.

forte?
nobre?

na última vez que nos vimos eu disse que toda coragem é cheia de estupidez. um valente é um alguém que deu tão não certo, que acertou.

meu corpo tá malvado esses últimos dias comigo.
tô num mal humor cheio de boas intenções.

20.10.09

valentine, que tornou a ser sweet

amanheceu chovendo sobre a minha máquina de escrever

just like playing with
sex

sorri
do inverno tão esperado
agora já não tenho o veneno mais
levantei fechei a janela de vidro

a valentine molhada ali resiste tanta ternura quanto eu
e abri as abas de madeira que tapavam a luz pra luz entrar
quem sabe o dia seca na valentine
o que em mim cinza desses se viu em aberto
saltou na cama e voltou a dormir de de amor.

as aventuras de zuliem e gentsom

primeira composição em papel amarelo
composta conjuntamente por Zuliem e Gentsom
trata-se, em fato, de um forró:


Encruzilhada

coração engrandecido
a dádiva do vermelho agradecido
em um xale
que bate grande
faz mágica, transversa
cristalino
tem que ser masculino
eu liguei pro cajuíno
queria é bombar um
palestino no destino
transitório e teresino.


o ritmo é como essa linda música que eu conheci ontem no cinema São Jorge



antes desse filme passou um documentário com a bethania em '66 e entrando atrasados no cinema eu fiquei espantada com a mulherança toda novinha na tela enorme em preto e branco do são jorge e guardei água dentro da minha mochila e babei ali na maria bethania e percebi daí minhas perna tudo molhada era a garrafa que eu tinha colocado sem tampa guardada/ não eram as saudades do meu bem.

19.10.09

amor

*

e no encontro é como se uma gaivota a asa do teu olhar arriscasse
o mar

caixas

foi no ano que eu mudei de casa. era cavalar. tudo múltiplo e inacabado. passei 3 meses pulando nas casas da família que podia me receber. agora tenho medo de te telefonar. deixei minhas coisas na menorzinha, no mato, que quando eu falava com algum europeu dizia "mato" se era latino-americano "campo", só pra averiguar a diferença. acontece que eu sou baiana.

quando abri a caixa, de primeira vez, falava-se que seria duro e um canto sem canto. escolhia o que levar, o que ficar pra trás. a segunda caixa o inverno tinha meus sapatos mofados de verde. eu entendi como um recado, nesse meu ano de dois outonos-e-invernos que a primavera é a minha grande expectativa em 2010. o inverno não é brincadeira não. a terra toda se vai mesmo pra dentro dela mesma.

hoje aqui chegou o outono, parece. andei por aí e tinha cor de europa no eutono. as folhas caídas no chão secas, o vento, o branco ficando cinza. é preciso encontrar o amor e aquecê-lo. ficar bem magra pra não adoecer. ter gordura o suficiente pra não enlouquecer.

e as minhas coisas todas naquelas caixas de papelão ficaram pra lá de mim. como pode um corpo, de repente, ter que não precisar de nada?

aqui em Lisboa sinto falta dos meus amigos de anos, dos meus gatos e dos meus livros. o curioso é que estão vindo do Brasil minha obra completa do Herberto Helder e também a do Al berto, ao passo que me encontro em não lê-los no momento. pensei em pedir emprestado um ou dois, mas seria o disco novo tocando parado. os livros que já são meus ainda não são meus. e o correio me faz esperar. todo dia por volta do meio-dia uns miúdos tocam a campainha. moro no 3o andar sem vista pra rua e o interfone não funciona. é claro que não desço. e penso: meus livros ah meus livros?... abro a caixa da correspondência e já me chegaram 3 cartas de aventura ultra-mar, que mais eu posso querer? os livros, ah os livros.




*

agora voltei a olhar as coisas e as pessoas e a pensar em histórias, compor narrativas.

comecei a contar pra mim mesma ontem quando voltei pra casa a composição de um poema até começar a comer / a satisfação do estômago sossegou meu vocabulário farto.

e
acho que o "cantos de estima" acabou. embora em mim nunca.

17.10.09

dessa vez ainda não morri

dias atrás a insipidez lírica do meu olhar sobre as coisas fazia me sentir num conto da virginia woolf, pelas superfícies tomadas, as casas, os campos de trigo (se trigo houvesse), os jarros sobre a mesa na parede de veludo, se parede houvesse.

virginia não me visita essa noite.

levanto-me de pronto, é escuro. dei um grito porque voava sobre mim um lençol. me acontece de meses em meses. o remorso dos vizinhos não me impede de dormir.

encanto-me pelos poetas que são oratórios. encanto-me pelos poetas que são proféticos. não gosto dos poetas que falam como deus, ou por ele. gosto dos poetas na terra enterrados, que falam na altura do trigo, se trigo houvesse.

o que foi gerado e entre o que ainda está pra se gerar teve um branco feito lençol. multi ação sem cores. televisão que nutre pra aumentar o realce. fiquei calada. calada. Inês, tão linda, me olhava no carro e dizia "não vês?". eu queria sorrir para Inês, mas era o corpo que me impedia. o corpo como uma fronteira entre mim e mim mesma. e a gente subia por Alfama no carro. e eu em mim mesma fundia.

eu não existia. não sei se isso já lhe aconteceu. mas desde que cheguei, além duma fundura invisível que não me alcança, eu deixei de existir. ontem só que percebi que estou precisando contar os passos. um pra lá de adiante, pra cá e depois, sim. não, não tropecei, nem caí. foi a lua.

depois eu fui a praia, com o B. e descobri o mundo inteiro de tons azuis. o mar, o calção do menino muito loiro que corria de óculos de natação, a coleira do pastor alemão. se bem que de perto era verde o mar com Tejo. sobre o pastor dormia um rapaz. e um surfista da bunda linda se alongava ao lado duma geladeira. eles ali jogavam gamão. o B lia Llansol e eu Pessoa. o B foi pular na água gelada e eu entrei pra dentro de um telefonema, e para animá-lo, eu descobri como descrever o mundo por fora.

quando o B voltou pensamos em disputar com umas alemãs umas mangas e também o Nívea Sun. mas elas usavam óculos escuros, nós não. nós estávamos olhando pro sol. eu senti frio antes. voltamos pra Lisboa e tudo que eu vivo tinha sossegado.

*

são uns dentes tortinhos, sorrir seu, meu desejo.

As profecias de Abdul Varetti, Escritor Falhado

*
A "vida" e a "morte", indistintas finalmente, serão sentidas na sua raiz comum, como formas de ilusão e alegria excepcional.

*
As obras de arte terão uma existência exclusivamente lúdica. A experiência dos vários mundos, suprirá com enigmas e presenças.

*
Um anarquismo integral, de produção natural, será a forma que se antevê, irá ser escolhida pela humanidade emancipada

*
A linguagem afastar-se-á do consenso, e exprimirá o desejo e a imaginação.

*
Sendo o "exterior" à imagem do "interior", a vida será uma obra de arte. As obras de arte do passado serão tidas por curiosidade arcaica. Algumas serão conhecidas e estudadas.

*
O amor e as outras actividades de relação serão públicas e tribais. Eles serão reis e elas rainhas.

*
Uma guerra planetária deprimirá a humanidade actual. Depois o homem, envergonhado, conhecerá o horror dos ídolos.

*
O artista será confrontado com o "político" e com o "sábio". O artista será louvado, os outros serão excluídos.

*
As religiões serão desconsideradas. A experiência mística será reconhecida e um facto comunicável.

*
Os deuses, adormecidos, vão recuperar a atenção do homem livre. A curiosidade e a crença florirão.

*
A experiência interior será transmitida, "ensinada", musicalmente.

*
Haverá muitos vagabundos solitários de ambos os sexos. Mover-se-ão entre as tribus, como agentes de experiências.

*
A mais bela forma de ser será a preferida, depois que os homem reconhecerem seus tiranos, no interior de si mesmo.

*
O dia e a noite deixarão de opôr-se. A sua raiz comum na imaginação será reconhecida.

*
O sono e a morte serão mais um vez equiparados. O homem aprenderá a morrer.

*
Os antepassados animais serão venerados, como uma das faces da realidade.

*
Não se falará sem vergonha do velho tempo. Discutir-se-á de preferência o amanhã cotidiano.

*
A amizade será livre. O amor não.

*
O desejo será declarado. A linguagem e a ação enriquecer-se-ão permanentemente.

*
Sendo a vida uma arte, a linguagem será universal. (Cfr. Rimbaud), Incluindo tudo.

*
As crianças chamar-se-ão crianças, e os adultos crianças evoluídas.

*
A casa, lugar de repouso, será individual e pessoal. As actividades de relação serão consagradas como tais, públicas e tribais.


Álvaro Lapa
As profecias de Abdul Varetti, Escritor Falhado, 1972.
22 elementos, lona bordada montada em estrutura de ferro.


16.10.09

bom dia brasil

eu: papapapapapapai
João: Oi,Ju,ça va?
eu: êêêêêê
papaiiiiiii
tou bem preguiçooooosa
João: :D
eu: eu ia pra praia mas acho que vou estudar aqui mesmo
tem uma louça imensa pra lavar
João: Eu também, acordei pra comprar tinta, veja só
eu: papai minha aula de ontem foi INCRÍVEL
tinta de parede ou de impressora?
João: Sua mãe falou. Como foi?
eu: foi ótima, é uma aula-seminário
João: Parede.Melhor:porta
eu: todo mundo senta na mesma mesa, meio que em círculo se não fosse retangular
João: Que nem o rei Artur?
eu: é
a gente é a távola
João: E qual é o Graal que procuram?
eu: eu sou o Rei Artur papai
João: Isso eu já sabia.
eu: ah que bom não sou só eu que guardo o meu segredo
papai a aula foi sobre nietzsche
eu perdi a primeira, infelizmente, que foi sobre o romantismo alemão
João: Nietzsche? Vontade de poder e afirmação?
eu: não foi sobre
foi uma discussão a respeito dum texto de juventude dele
o "acerca da verdade e da mentira no sentido extramoral"
João: Foi nietzscheana então? Qual texto de gioventù?
eu: foi supeeeer nietzscheana
a professora é super aberta e firme ao mesmo tempo
inteligente pra caramba, uma erudição felomenal
João: Was übermoralsischesSinn ist?
eu: parle pas votre langue monsieur friedrich
curiosoooo é que ontem era aniversário do nietzsche
João: Erudição felomenal ou femolenal?
eu: papai ele enlouqueceu né?
o donato que falava Ferpeitamente e Felomenal
João: Sim, virou Dionísio-Cristo
eu: papai ele enlouqueceu ele encontrou tudo-nada e pirou legal
dionísio-cristo como assim?
João: A síntese talvez do espírito orgíaco da música + a moral
eu: entendi
mas ele pensava ou dizia que era Jesuiss Baco?
João: Não entenda tão rápido que não sei se é isso talvez nãoseja nada disso
Ele pensava-dizia, um pensar-dizer
eu: é eu tou acostumada não entendo tão rápido a vida é assim não é papai de repente não é mais
que é um pensar-dizer simultaneo?
é bonito isso né
agir-já-é
João: Sim, é preciso colher o instante como ele vem
Baco-Jesus é a realização afirmativa do trágico
eu: ai papai explica mais
João: O Cristianismo é uma moral de escravos que nega a vida propondo que a verdadeira não tá aqui,mas além. Nietzsche afirma a vida em toda a sua desordem, afirmativamente, dizendo que é preciso ter o amor fati, o amor do fado ou da sina ou do destino ou da Fortuna ou das coisas como são
Enviado às 13:43 de sexta-feira
João: O superhomem é o tipo afirmativo. Nietzsche retoma os gregos pra isso, a grande tragédia ática, Sófocles, Ésquilo, Eurípides, contra Platão. Vê em Platão e seu mundo de essências o fundador de religião na base do cristianismo
eu: papai eu sou nietzscheana também, posso?
quero ser a she-ha
João está digitando…

15.10.09

o menino na sala abriu a boca pra falar e era dúzia
de língua portuguesa de Portugal ouvir é pra mim
(às vezes)
como ter um rubi quente dentro do meu tórax
das minhas costelas uns olhos negros
(de netuno)
pares vivos desse desconhecido, amor.

* *

e quando um menino leu um conto do Sá Carneiro alto em voz alta a língua portuguesa dele era como se fosse um rubi dentro do meu tórax. tem algo de netuno nessa língua, dois olhos negros, que me enchem de nuvens e sonhos, o mar.

* *

12.10.09

e se não estou encaixando bem não sei se é chegada, falta, meus órgãos
mas
ando por aqui não vejo
tento sair de mim
não tenho o que dizer
quero te escutar, prometo
mudei tanto tanto e no entanto
é tudo tão bonito que me cega
não tenho olhos pra isso
já não tenho mais medo de ter medo
tô lendo o diário do Gauguin
a Penelope tá aqui comigo
piso com o piso dela
tenho um amigo Bernardo
a vida toda é um achado
Lisboa é tão bonita à toa
e a Inês trabalha no Chiado


agora não tem jeito
espelho, livro, vestido
pede traça
explode coração
tamô vivendo
e tudo que faça
em Euro é tão caro
gente minha
tamô na Praça
tô feliz? nem sei,
mas faço graça.

6.10.09

amor




quando ele passa eu danço
a gente é já faz algum tempo um duelo-dueto
e tá tudo saltando atlântico
eu em Lisboa e Marcos em Jundiaí
na grande província da nossa língua
a grande companhia papel visão e conversa
nessa nova casa que convido a passearem, passarem, estarem
(e me ajudarem a conjugarem novas formas verbais):
campos, carvalhos, capins

4.10.09

o amor agora desce a rua
como uma nave alienígena
que aterrisa e perde o prumo
a areia, o descampado,
campo raso,
afago o beijo do meu bem
no ar.

* *

"meu amor

do que eu sei, antes do século dezoito o sujeito que dava o cu era que nem um crime: ele no máximo seria um reincidente num ato, jamais uma personificação do ato. se não ia pra fugáira e jesusinho lhe tomava o curaçaum era eu-te-amo-meu-brasil. mas a gente vive num tempo médico em que o teu corpo diz quem você é, vitória do lombroso. o nazismo venceu tanto que ninguém percebe que ele venceu.

o que a galera partidária da epistemologia queer diz, bem à la united states, é que a gente não é essência e nem corpo a gente é: que o nosso corpo é discurso e, como tal, ele pode ser dito redito desdito. porque a liberdade individual e de escolha e blah né. feminists don't have a sense of humor

http://www.youtube.com/watch?v=ORfG4rpZv6Y

mas essa gente from my point of view é PARANÓICA e olha, meu amor, a liberdade que um pesadelo de palavras me dá não tá no meu quadril não, viu. o mato é muito maior."

* *

"um templo de mãos disponíveis para o amor"

* *

mais uma vez um poema
deixa acontecer

talvez a gente saiba um ao outro
o que se quer / talvez não

e me pergunto se as gaivotas
que anoitecem o céu

contam assim todas as estações?

tanto trazem o calor
como o terror a noite

que vem antes cinza
e depois se despede em dia


* *

.

3.10.09

tudo o que posso naquele que me fortalece

cinco vezes mais intensa, a mulher vulcão, incendiará a cegueira com ela comporá poemas do lançar-se ao desconhecido (coração) ele tem a voz que toma a minha voz a voz

falei com a Inês e agradeço a jisuis por dar-me sempre onde quer que eu esteja, no meio de toda a malta, alguém com bom coração (tão claro) por perto

- -
resolução de fim de ano pra todo mundo: viver mais, prever menos.

e que o medo engula quem o medo tem que engolir, que, ah, não é a mim.

2.10.09

"O amor é individual ou, mais exactamente, interpessoal: amamos unicamente uma pessoa e pedimos a essa pessoa que nos ame com o mesmo afecto exclusivo. (...) O desejo de exclusividade pode ser um mero anseio de posse. Esta paixão foi analisada com tão grande subtileza por Marcel Proust. O verdadeiro amor consiste precisamente na transformação do apetite de posse em entrega. Por isto pede reciprocidade e assim altera radicalmente a velha relação entre domínio e servidão. O amor único é o fundamento dos outros componentes: todos repousam nele; além disto, ele é o eixo e todos giram em volta dele. A exigência de exclusividade é um grande mistério: porque amamos esta pessoa e não uma outra?"

A chama dupla: amor e erotismo. Octavio Paz, em tradução de José Bento.
é tão bonito.
era tipo olhar pro céu muito azul
e ter uma nuvemzinha vindo
uma só, gordinha, rindo.

28.9.09

e na quinta feira fui até a praia, mergulhei e o atlântico gelado me trouxe raízes nos pés. de tanto que doíam os tornozelos! precisava me fincar contra/ com a fúria do mar. acho tão engraçado isso da metáfora, eu usei o mar tanto nos "cantos de estima" e de repente de dentro dele não há palavra, nem metáfora, o mar é uma espécie de monstro anônimo. às vezes leio a Sophia de Mello Breyner Andresen muito por aqui. ela me conta coisas inacessíveis do mar.

temos 35 ainda, entre Portugal e o Brasil, quem quer é que vai alguém querer?




26.9.09

chego da rua e encontro à lápis
se fosse simples, ah se fosse
mas antes de tudo havia o mar

agora
chegaram dois naufrágos numa ilha
e um sentia cócegas
(o outro se fingia de naufrágo pra ficar do lado desse)
na menor menção de uma mão ele segurava o ar
e ria

de fundo havia o mar
o mar uma espécie espantada de monstro anônimo
é feita uma declaração em silêncio
te mando uma carta em branco

então
depois mar ainda havia e era o mesmo e era novo

- -
e eu só consigo pensar como é indelicado ter razão.

24.9.09

sim, vou sair pra comprar um Proust.

sabes

vi os homens passando com os gelados
a água do atlântico (ao norte) tão fria
investi nos tornozelos ardiam
os pés se abrindo na areia
o mar branco e raio
mergulho saio
dormi sonhando que o pescoço era uma língua
e fechei os olhos de tudo dourado
as gaivotas no azul
os aviões de duas faixas

e eu estava do lado de cá
dormindo na areia do mundo, mira, outra vez
toda gente dizendo: veja, em outubro já não é,
quente ou tipo
eu querendo ter um amor livre e de família
aceito tanta coisa ou disse
já não aguento mais não trabalhar
nem escrever nem nada participar
não consigo prestar atenção
mas estou aqui, não estou aqui, estou
e o passado não me diz
procuro uma droga, uma toca, um começo
tudo pra acordar
ou seus dedos.

22.9.09

de barriga rosa

ele amou um cão antes de mim e um vaso e uma fonte e um spot de luz ele amou o que não tinha amor ele amou o e se aninhou consigo de caminho amou ele amou o abraço em mim até quando meu corpo não mais estava lá amou o figurino que usávamos nas tardes de um jardim com três sóis e uma ânfora de cor ele amou todas as criaturas que não recebiam amor como se tivesse uma lanterna na cabeça do cão que amou também o que amor já tinha ele um canto um topo seu círculo e um modo de dizer mais pequeno amou enquanto a luz atravessa uma frase em suspense ele amou a novidade de um regresso e esse jeito de não olhar diretamente e andar de costas numa notícia velha ele amou como se fosse uma novidade ele amou a árvore que há na rua da minha casa embora ele nunca tenha estado numa rua embora ele suba em árvores que existem ele amou o cão ele agora me olhou como se dissesse ninguém se perde na noite do amor e toda a cidade era um cavalo manso montado em nós.

21.9.09

13.9.09

o medo e o som

sonhei uma casa muito grande com muitas portas de saída e entrada que davam para um jardim de grama baixa e noturno sereno, dentro pelos corredores calma muito calma eu pisava sobre tapetes muito antigos de encarnados e de repente os cães, que eram cães do inferno, cães que de pedra no jardim viravam animais selvagens- peludos e brutais, o lobisomem do landis - que se punham a avançar sobre a casa e eram tantas as portas! e eu me atirava em fechar as portas, uma a uma, com medo muito, mas numa delicadeza sem fim, reparava as ranhuras das madeiras de cada uma e eles quase entravam, rugindo, luzentes de pêlo, pero comportados que eram não entravam por uma porta ainda aberta, mas sempre tentavam pela que eu estava a fechar. nenhum me atravessou, sentei em frente a lareira e abri um livro, enquanto eles latiam lá fora. fazia muito tempo que eu não tinha um pesadelo.

- -
pelo amor de deus, meu brasil, ouve isso aqui.

- -
e quando acordei sobressaltada pensei "gosta de trepar com lápides". isso sim foi assustador.

11.9.09

uma rotação completa

um movimento de insônia, vontade brusca de ouvir uma música
4 horas da manhã
segredo de música qual é
minha mãe me disse no g-talk: convive o silêncio, mora dentro dele
ah se ela soubesse os segredos que essas casas não contam

ou será que ela sabe?

eu moro muito perto do Jardim da Estrela
mesmo perto muito, tipo dá pra fazer de lá

e se algo nos metros parados dos jardins presos
se divide em áreas de ver e de estar
aprendo a viver somente o presente
foi essa crueldade que me deixou essa semana doente
então hoje de tarde fui ao jardim, ler e descansar


ontem me contei que está tudo em suspenso
hoje a Érica me disse por cima do Rossio
que dentro de mim tem um fio
eu sei o que é
uma coisa que eu conquistei
que eu não era assim
e eu te disse, garanto, um abraço de rodopio de brand new eixo

mudei tanto que nem me surpreendo ou glorifico as mudanças
nem pretendo falar das coisas que são

é engraçado, isso desde tanto, se te vejo
é para muito fora dos espelhos
é nos meninos sobretudo os de 12 anos
que ainda estão seguros de serem inseguros

na verdade hoje no jardim tinha um menino de uns 7 anos
ele era tão carnudinho que as rótulas davam vontade de morder
e o boné que ele usava eu queria morar nele
era tão forte o menino, um grande portuguesinho

e ele tinha um skatezinho
menor que a barriga dele
e ele deitava de barriga no skate
e descia a ladeira dando o impulso
é, de boca e queixo em direção a estátua do Antero de Quental
(como há bustos de poetas por toda a parte e é bom que eles não ficam no alto como o do Álvares de Cabral)
e o avô dele só olhava não dizia cuidado não dizia nada
e ele descia e dava impulso com as mãozinhas
e exclamava enquanto escorregava
'ah que giro ah que giro ah que giro'
e ao final dizia
'isso é muito MUITO giro'
e subia de novo

ah que giro ah que giro

eu quis correr cuidar do menino enchê-lo de beijos
e por isso mesmo fiquei só olhando a terra

7.9.09



mãe
caetano veloso


Palavras, calas, nada fiz
Estou tão infeliz
Falasses, desses, visses não
Imensa solidão
Eu sou um Rei que não tem fim
E brilhas dentro aqui
Guitarras, salas, vento, chão
Que dor no coração
Cidades, mares, povo, rio
Ninguém me tem amor
Cigarra, camas, colos, ninhos
Um pouco de calor
Eu sou um homem tão sozinho
Mas brilhas no que sou
E o meu caminho e o teu caminho
É um nem vais nem vou
Meninos, ondas, becos, mãe
E só porque não estais
És para mim que nada mais
Na boca das manhãs
Sou triste, quase um bicho triste
E brilhas mesmo assim
Eu canto, grito, corro, rio
e nunca chego a ti
 

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