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9.2.09

suíça, parte iii

o rapaz de Singapura era fotógrafo e havia morado na Califórnia durante dois anos. o inglês dele me parecia incompreensível. me fez muita comida, batatas, arroz, tudo bem temperado para alguém doente. uma noite na cozinha contou para nós todos que sentia que finalmente voltava a acreditar na vida. um australiano skatista que andava pelas estradas dos alpes como se surfasse, brincou com ele, alguma bobagem, e ele disse que havia se recuperado de um tumor no cérebro raríssimo e que por isso tinha vivido na Califórnia em hospitais e - - - silêncio-.

o menino de Londres era padeiro, e tinha trabalhado durante três anos para conseguir viajar durante um mês pela Europa. era ele, o das massagens. o mais bonito entre os três. e desengonçado. todo dia de manhã quando acordava sentava num lótus com as costas curvadas demais, olhava as montanhas, respirava fundo, eu tinha vontade de rir. não com as piadas ambíguas pra cima de mim, que muitas vezes me deixavam constrangida. olha que não é fácil. e ficou bravíssimo quando lhe disse que entendia muito melhor o inglês do Brad do que o dele.

pois, o norte-americano era ruivo e tinha diabetes desde criança e me lembrava o weeks muito pela delicadeza com se entornar nos próprios braços. gostava de música, bob dylan, cocorosie, antony e música africana, nem lembro. ficou enlouquecido pelo araçá azul. trocamos as músicas graças que em cada cômodo havia uma caixa de som diferente pra ipods e afins , além de uma sala com (bons) livros nas estantes (até roubei um murakami em inglês) e violões a disposição de quem quisesse e jogos e enfim, esse hostel de gryon, foi o melhor que fiquei.

e era capricorniano de dois dias antes do que eu, então enquanto tomávamos muito chá, ele me corrigia sempre a temperatura da água não-fervente para o chá verde, e me explicava o que ia estudar no phd em harvard de biofísica e falando de cinema ele nunca nunca nunca havia ouvido falar em fellini. - - - - - - - - -

quando lhe contei a respeito da idade das minhas mãos, me disse que eu tinha que escrever um poema que dissesse aquilo das ranhuras das digitais. (ele nem sabe que escrevi numa primeira menção e se chama "arrumação") mas ficou assustado. sabe alguém muito sensível que não sabe que é muito sensível? então, saiu pra andar. e voltou horas depois, com flores campestres. ramalhetezinho pra mim.

era a última noite dele lá, teve uma festa, por acaso. os dois outros tinham ido embora na noite anterior. sobramos, eu e ele, que me bota um cat stevens pra tocar e me pergunta se eu conheço? eu tento dizer todas as madrugadas da adolescência na casa do duda em uma frase e ele me fala dos sonhos do obama 2009 de como tinha virado cientista de que queria era ser ativista na áfrica de que sei lá o que a caça das focas e ouve essa, sweet baby james,

se senta do meu lado. então, logo ali meu telefone que servia de relógio e lanterna, já que há semanas não se dizia nada, eram quatro horas da manhã na Suíça, o telefone vibra apita, faz uma festa de mensagem de texto, caminha pela mesa. eu tinha certeza que era minha mãe, confusa com o fuso. mas não era. compenetrada no meu "disso não espero mais nada", que surpresa palpitada. e ele me pede pra que eu leia a mensagem em voz alta, em português mesmo. li, tomada de felicidade, também de que só eu entenderia em quilômetros e que aquela palavra ecoando pelos Alpes e sorrindo ele me perguntou o que significava a última palavra e eu disse, há muitas milhas de lá e olhando pra ele, a última palavra de uma mensagem de texto - - -

7.2.09

suíça, parte ii

chego em Gryon. miro as montanhas e as casinhas e me pergunto, provincianamente reiterada na minha centralidade: estarei eu em campos do jordão? visconde de mauá? quase pedi ao homem da estação 'por favor, retire-me o cenário e dê-me a paisagem'. e o albergue ficava lá no alto.

a mochila pesando infernos, o cascalho debaixo dos pés, o vestido preto no sol ai ai ai. mas eu estava feliz, tanto, que colhi umas florzinhas enquanto subia a encosta. a mocinha da recepção me diz num sotaque bem texas que pagando por quatro noites, ganhava uma quinta. disse a ela que por enquanto eu achava que só ia ficar uns dois dias e tudo bem. subi ao quarto,



estou, mais uma vez, morrendo de fome. mas a felicidade de me entregar a uma cama de madeira clara na minha frente com um colchão com essa vista, larguei a mochila no chão, deitei de roupa e tudo, dormi. dormi de tênis, meu. não sei quantas horas. me levantei já eram quase 17h, pensei, vou até a cidadezinha comer. e fui. chego lá me indicam que só há um restaurante, que é o da estação. vou até a estação.

o homem me olha muito desconfiado e não gosta que eu fale em inglês. é bonito, o homem, moreno. me dá o cardápio, eu peço um prato, ele diz que não tem. diz que não tem nada daquilo aquele horário e que eu posso comer sorvetes ou sanduíches. peço um sanduíche e um chá verde, ele imediatamente com a comida me traz a conta e fica meio na minha frente olhando a paisagem e fumando um cigarro. como, uma delícia o sanduíche e a mostarda, mas praquela cara emburrada eu não agradeceria nunca. vou olhar a conta já contando o dinheiro e está escrito "chez ribeiro". ah não tive dúvida, olhei pro gajo e disse, em português:

"você é de Lisboa?"

a cara de espanto dele.

me responde, com dificuldade:

-não, sou do Alentejo. how do you know?
-pelo sobrenome e o bacalhau oferecido no menu do dia.
ele sorri e me diz
-brasileira.
-sim, são paulo.
-estás viajando só?
-sim. você mora aqui faz tempo?
-sim, há quinze anos caso. vivo suíça trinta.

a mulher vem de dentro, fala com ele em francês, olhando feio pra ele. pra mim sorri, dissimulando. e sai pra rua, com umas sacolas e um menino. ele diz

-desculpa, que não mais falar essa língua

sério. ele estava perdendo a língua. por dentro da boca dele sumiam as conjunções, conjugações, e ele botava, sem nenhum constrangimento, o ar entre as palavras. aquilo me prendeu o coração. a língua natural ser essa? e estar se apagando da memória? uau. ribeiro, o gosto pelo bacalhau não havias perdido (há quantas se engendra uma vida?)!

e vejo que teria mesmo de cozinhar no hostel. desço ao supermercadinho, falo meu francês ridículo com a mulher, e me esbanjo em comprar: vinho, chocolate, queijo. tudo suíço. é na hora de pagar no caixa que sinto a primeira pontada. na barriga, subindo pelo pescoço, aquele calafrio. penso: é o ar condicionado. subo a encosta quase morrendo, a vista ficando branca, deixo as coisas na cozinha e bem,

o banheiro o vitral do banheiro o jornal do banheiro
minha vida na suíça quase que foi só isso durante seis dias.

quase. porque penso: morri. morri na cama. dormi dormi dormi. pensei mesmo que eu estava muito numa má situação no alto do mundo na suíça longe de qualquer médico que não custasse uma fortuna. e a febre subindo. no revisteiro do banheiro o guia local diz 'doctor' call 'helicóptero'. gente, que nada é só uma gripe, tomei lá o remédio chinês errado. cápsulas chinesas funcionam, sabe? esquentaram-me tanto que meu deus, meudeus. acho que, de verdade, só passei tão mal quando tive pneumonia.

e já estava lá me vendo morta mesmo de pobre num helicóptero cruzando os alpes, acenando mãezinha em suíço quando noite alta entram meus vizinhos de camas no quarto. três homens. mais pra meninos, em fato. o brad de boston, o mark de london e o marcus de singapura. me percebem doente, e, durante quatro dias, me oferecem: chá, comida e massagem nos pés. -- - - é sério.

5.2.09

suíça, parte I

antes estava em avignon em direção a encontrar com a anna em budapeste. portanto, entre uma pessoa e outra com quem queria estar, havia ainda a suíça e a áustria.

num cyber café gritante, em que a ilana ganhou umas cinquenta coisas de graça, escrevi para a anna, que eu ainda não conhecia, dizendo que iria me atrasar dois, três dias, porque avignon estava uma maravilha e ainda passaria algum tempo em zurich e viena. depois anna me escreveu dizendo que ia me matar, e eu, ligeiramente magoada, continuei com meus planos. depois fui entender a Hungria, com ela mesmo me dizendo que isso se dizia pra qualquer um.

então, cheguei de avignon em genebra, já sozinha. genéve. o primeiro controle de fronteira que passei por terra. paravam os negros, chicanos, indianos. meu passaporte brasileiro e essa cara branquela nem nada. das poucas situações em que um olhar é mais preocupante do que a falta dele.

estava, juro, o pior calor de todos. minha mochila pesava infernos. eu já havia deixado em madri um guia de viagem, quatro blusas, uma calça jeans. não sabia mais o que soltar. além do calor, andando pela avenida a caminho da estação até o albergue duas coisas me impressionaram de cara na suíça: a quantidade de árabes em carros conversíveis e as lojas de equipamento de caça exibindo rifles enormes nas vitrines, instrumentos de pesca e até um -isso, se não fosse o teclado esdrúxulo, eu quis muito- um laptop com gps e a prova d'água. imaginava-me anos depois, vestida toda de cáqui, os jacarés mastigando meu laptop wi-fi no pantanal e eu em cima do bote amarelo recuperando-o numa pescaria, intacto.

deixei o inferno das costas no albergue. é assim: felicidade é isso. era domingo, tudo tão fechado e quente, comi carne de porco num restaurante chinês com varanda, andei andei andei andei até a sala de concertos da cidade, fechada sentei-me numa escadaria e percebi que eu estava muito muito cansada. de um jeito assim que não me lembrava outra vez. ao lado um prédio de mármore branco muito antigo e dentro dele uma festa tocando salsa com gramofone em castelhano. um homem me acenou da janela. acenei de volta. ele saiu da janela como se viesse. levantei-me e fui embora.

no meio do caminho apareceram as papelarias de lápis de cor, os chocolates, o rio. fiquei embasbacada, o reno enorme, uma fonte no meio dele lançando o arco-íris, no sol turistas vermelhos comendo algodão doce, um parque de diversões instalado para bochechas em cada margem e os árabes passando com suas burcas e ferraris. fico vendo o reno. de repente, meu deus, CISNES. cisnes ao natural, embaixo da ponte, a água mais cristalina do universo.




agora que vocês entendem que não é mentira
vou mostrar como vi mesmo um pato nadando contra a corrente
(como na música do cazuza:
só pra exercitar
todo músculo que sente)






sábio patinho. me dê de presente seu bis.

além disso, me constrangia demais a riqueza daquele lugar. genebra foi dos lugares mais absurdos em que já estive. eu me lembrava tanto do sertão da bahia, mas estávamos na suíça, eu e o pato, um lugar onde eu nunca havia me imaginado antes, ainda mais com tanto calor. e os árabes muitos árabes mesmo. parecia quase que não havia suíços, eram todos vindos de outro lugar, migrantes, milionários e os rifles. passei na frente de um mc donald's entrei na fila fiquei indignada que justo na suíça os milkshakes fossem só de morango ou banana. e eu já estava lá, comprei um de banana, pra experimentar. aquelas coisas que você não deve fazer na vida, nunca. mas né,

voltei pro albergue, tentei descarregar umas fotos pra postar no flickr, a merda do computador perdeu umas vinte, eu estúpida havia apagado, sei lá, deu tudo errado, fui dormir e antes comi meia barra de chocolate suíço. no quarto fiquei conversando com duas meninas espanholas que me encantavam por dizer "pueblo" como "vilarejo" e depois não consegui dormir porque elas não paravam de falar. fazer o quê? mandei umas mensagens pelo telemóvel português, me lembro da luzinha, não do que escrevi.

acordei e pensei: que budapeste que nada! eu vou é subir pros alpes. e fui, pensando, passo lá dois dias, nessa vida o que é isso?, a anna que me espere e eu vi os alpes, vejam. abri o guia, e escolhi: gryon, porque era o menor vilarejo que se anunciava por ali.

e na estação de trem de genebra:






lia na minha frente enquanto ia fumando meu cigarrinho enrolado. estava fumando loucamente. loucamente mesmo. o tabaco tinha começado como uma participação aditiva em Lisboa, mas tinha virado uma centralidade de um passar de tempo. quem fuma ou já fumou, sabe como é. é bom pra cacete. eu não fumo. mas fumava ali, em genebra, aprendendo que a suíça tem o maior índice de suícidios com armas de fogo pelo mundo. por que será?

então, no trem, a caminho de bex, entrei no vagão errado, tomei bronca de estar na classe errada, conversei com uns coreanos - são tantos nesses trens os coreanos pela europa, depois conto um de veneza-
e quando consegui me controlar, joguei i ching vendo

a paisagem suíça no verão:




as crianças suíças no verão:




o pacifismo suíço no verão:





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