1.3.08

três histórias reais sobre a ilusão e uma com a realidade

I.

manchete: leitores europeus processam escritora francesa por enganação.
o livro conta a história de uma menina de oito anos que conseguiu fugir de auschwitz, deixando seus pais aos nazistas. sem ter para onde ir, ficou uns dias dormindo em cavernas e copas de árvores, até que, no meio dos descampados livres, encontrou um bando de lobos que tentou comê-la, mas dos quais ela conquistou a confiança fingindo que era uma loba também, com muita habilidade em rosnados, uivos e andadas em quatro patas. assim, a família de lobos adotou a menina, que passou sua vida em estado de graça, livre dos nazistas e no conforto de um estado natural com os lobos.

o livro virou um sucesso, claro, até aí, ok. era tudo que a europa queria e precisava. natureza X o mal, polyana X nazistas, uma infância em estado natural, sobrevivência e aventura, etc

acontece que o livro figurou durante meses entre os mais vendidos na categoria de não-ficção e, dia desses, a sua autora fez envergonhadamente a revelação de que a história é ficção, afinal, não aconteceu fora da imaginação dela e de quem leu. acreditem, virou um escândalo. ou seja, como o livro não é baseado em um reality-show, ela mentiu, enganou e traiu seus pobres leitores ingênuos que agora clamam por justiça e, portanto, a escritora está sendo processada.

muy rico para a ficção, não é mesmo?

II.

essa é cruel.

a polícia recebeu um telefonema acusando uma mulher que estava jogando lixo pela janela no barraco de uma outra. caíram na casa da mulher e a intimaram a acompanhá-los até a delegacia. a acusada pediu para que dessem um tempo pra ela poder arrumar as crianças pra escola e que depois iria até a delegacia depor. consentiram.
neste tempo a mulher matou as duas filhas e depois se entregou na delegacia. ela não sabia do lixo e vendia maconha, pensou que tivessem descoberto e que com isso suas filhas não teriam futuro. logo, cortou a cabeça delas.

o que não é o instinto maternal, não é mesmo?

III.

o menino chamava riquelme em homenagem ao jogador de futebol. orfão de pai e mãe, criado numa favela pela tia. seu sonho era ter uma roupa do homem aranha. no seu aniversário de seis anos a tia conseguiu uma bela fantasia vermelha e azul do homem aranha que o menino imediatamente vestiu e saiu para brincar. pulando pra lá e pra cá, viu um barraco pegando fogo. de dentro dele viu uma mulher sair correndo desesperada, aos berros de
-meufileovaimorrer deus me ajuda!
o nosso riquelme estava na hora certa, no lugar certo, com a roupa de nylon certa e não teve dúvidas, entrou se rastejando no barraco pegando fogo, tirou do berço a criança de quatro meses com uma mão só, a abraçou em seu peito e voltou agachado de ré até a porta de saída do barraco com o bebê a salvo.
a televisão filmou o menino vestido de herói, fazendo poses de alterofilista. todo sorrisos e cara de self-made-man. quando o repórter perguntou pra ele:
-então, riquelme, você que é o homem-aranha?
ele disse:
-não, eu sou o filho dele.

I.

continuando no jornalismo televisivo, essa é da década de 80, uma reportagem do globo-repórter sobre a seca no nordeste do brasil, o jornalista pro menino cheio de ranho na cara e barriga d'água, com voz de tatibitati:
-você gosta mais do papai ou da mamãe?
ao que o menino respondeu guturalmente:
-eu gosto di carne.

- - -
boa noite,

2 comentários:

José Américo de Melo disse...

A esse propósito, não houve o caso de um escritor noir mexicano que efetivamente comia as leitoras?

dilettante23 disse...

E assim rasteja a humanidade.

 

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