27.2.08

Porque eu não tinha onde, mas precisava me agarrar, é que fiquei abraçando minhas pernas, de cócoras, apertando com força para que o sangue da ferida saísse com mais consistência e a ardência devolvida aos olhos não me parecesse de raspão. Sentado no fundo do terreno onde ninguém ia, abraçando a mim mesmo em cima do resto de uma grama que nunca reparavam, destruída por animais, pelo tempo e pela desatenção que a selvageria agradece.

Na pulsação do sangue nas palmas, ainda posso ver o homem que serei quando chegar na velhice, enfim cansado do barro misturado com o sangue da minha mão. Eu olhava fixamente para os tênis encardidos, com a atenção que me obrigava o ardor. Quantas vezes, sem saber para onde ir, repeti esse gesto? Ver os desenhos das minhas digitais bem de perto, meu envelhecimento, mãos tão perfeitas que podem até cortar o vento e tão precárias para permanecerem no tempo. Quantas vezes mais, vou olhar os pés imóveis e quando é preciso andar, andar olhando os meus próprios pés? Porque levantar a cabeça poderá me tragar imediatamente para esse momento em que estou no fundo do terreno e sou obrigado a olhar a casa enorme, as luzes se acendendo contra a escuridão da chuva que vem vindo, onde ainda vão me dizer durante uma década coma, beba, durma, estude e seque bem os pés. As frieiras intoleráveis aos corações prontos para viver. Os corações adultos que tapam aos olhos do coração a curiosidade de mexer na pele até perder a pele, desmistificar a ferida, retirar a casca todo dia. E lá de longe, a parte debaixo da varanda parecia menor, muito vazia, muito distante.

(antonio a caminho)
 

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