14.3.08

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essa noite voltei a sonhar.

você dirigia um carro antigo, talvez a nossa década fosse outra, talvez um lada, branco amarelecido, saindo do estacionamento arrancando com tudo. que, logo ali na frente, batia no pequeno depósito de lixo e casinha do gás, feito de tijolos vermelhos. a frente ficava toda amassada e o porta-mala do sedan se abria com a batida. eu caminhava para ver mais de perto. você saia do carro e, enquanto olhava os estragos do carro, eu observava o quanto seu corpo havia se modificado com o tempo que ficamos sem nos ver e me lembrava de um personagem do beckett, não sabia nem bem qual, nem quais são os traços do seu caráter e experiência que definiram seu corpo, se acentuando dia a dia durante o tempo que ficamos sem nos ver. até que, de repente, você me via e perguntava se eu não queria entrar lá, dentro do porta-mala escancarado.

com todo o respeito de quem está já acordada, o personagem era do fim de partida.

o que me faz pensar que só resta estar
entre um fado argentino
e um enfado ibérico
ai ai ai

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quando vi um corpo morto pensei sobre a vitalidade de um corpo vivo. porque um corpo morto começa imediatamente a ser devorado por todos os bichinhos que já estão em nós. mas, enquanto vivos, a nossa vida vive entre a vida deles e convive. e esse corpo vivo, principalmente, me deu como a vida por si só é uma resistência e eu me sinto feliz.

3 comentários:

ilana disse...

Viver
é ir entre o que vive.

§ O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.

João Cabral de Melo Neto

ilana disse...

(Eu sei que vc tem orcute, mas seus inúmeros leitores não têm uma vida ganha como a nossa - certamente não terão divisado o perfil de mim).

Com o riso bobo, beijo!

Sabina Anzuategui disse...

Gostei muito do início.
Boa semana.

 

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