5.3.08

paul celan em tradução de joão barrento também pelos pedidos,
mais pelos enigmas que dissolve:


Em círculo, ouvi
a conversa desfiada, oca,
com sons caninos
em algumas pausas --

Perseguem-te com desdém, e tu,
com sentidos prévios na garganta,
um trejeito na boca,
atravessas a nado o rio desse destino.

O grito de uma flor
anseia por existência.

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Conversas com cascas de árvore. Tu,
tira a casca, anda,
tira-me, feito casca, da minha palavra.

É tarde já, mas nós
queremos estar nus e à beira
da navalha.

------
O OUTRO

Feridas mais fundas do que em mim
abriu em ti o silêncio,
estrelas maiores
enredam-te na rede dos seus olhares,
cinza mais branca
repousa sobre a palavra em que acreditaste.

-- --

Escavo o rasto dos teus passos:
o mundo
derrama-se
na cavidade que fica,

volto a amar-te
no limite febril de mim mesmo,

tu folheias, agora terra fina,
os meus remotos
testemunhos.

-------------
Agora juntas ao teu peso
tudo o que é leve,

agora desmascaras
o sempre nomeado
mas sem nome,

agora mandas os martelos-
mecânicos, os fura-sílabas,
para debaixo do esporão
daquele que
te leva a saltar para o outro lado
da ardilosa madeira da sebe,

agora
escreves.

-- -
(aliás, a citação atual, embaixo do título de sempre deste blogue, também é do celan)

4 comentários:

ilana disse...

A lâmpada já estava junto, a vela já estava,

Julya V. disse...

Fiquei em dúvida se eu já havia respondido o teu recado, mas lá vai uma duplicata ou um inédito:
temos nomes quase iguais, mas o seu é mais bonito.
volto aqui pra te ler melhor.

Sabina Anzuategui disse...

Julia, há um artigo sobre concentração e arte na Folha de SP de hoje. Gostei muito. Na coluna do Marcelo Coelho.
Beijos!

Anônimo disse...

que blog branquinho,
gostei,
tony

 

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