20.7.07

Desde que comecei estas notas sem texto ouço como ruído de fundo algo que escreveu Jaime Gil de Biedma sobre o não escrever. Sem dúvida, suas palavras trazem maior complexidade ao labiríntico tema do Não: "Talvez fosse necessário dizer algo mais sobre isso, sobre o não escrever. Muita gente me pergunta isso, eu me pergunto. E perguntar-me por que não escrevo inevitavelmente desemboca em outra inquisição muito mais inquietante: por que escrevi? Afinal de contas, o normal é ler.* Minhas respostas favoritas são duas. Uma, que minha poesia consistiu -sem que eu soubesse- em uma tentativa de inventar uma identidade para mim; inventada e assumida, já não tenho vontade de colocar-me inteiro em cada poema, que era o que me apaixonava quando os escrevia. Outra, que tudo foi um equívoco: eu pensava que queria ser poeta, mas no fundo queria ser poema. E em parte, na pior parte, eu consegui isso; como qualquer poema medianamente bem-feito, agora careço de liberdade inteiror, sou todo necessidade e submissão interna a esse atormentado tirano, a esse Big Brother insone, onisciente e ubíquo: Eu. Metade Caliban, metade Narciso, temo-o sobretudo quando o escuto perguntar-me junto a uma sacada aberta: 'Que faz um rapaz de 1950 como você em um ano indiferente como este?' All the rest is silence".

Enrique Vila-Matas, em Bartleby e companhia.



*disso eu discordo.

6 comentários:

Marcio disse...

O Fausto Wolff sempre diz que o morre de medo de um dia estar do outro lado. Que quer dizer o lado dos que não escrevem. E você?

júlia disse...

márcio querido
meu maior medo é estar no meio do caminho o tempo todo, desde sempre e até então. você sabe, nessa altura do caminho, só aparecem pedras mesmo.
tudo é margem.
te ler aqui me deu vontade de ir ao rio de janeiro, que pelo menos é na beira do mar.

agente laranja disse...

As vezes eu escrevo algo parecido com o que eu queria estar lendo, só de preguiça de ir até a estante.

nocturna disse...

discordo com o que você discorda. e acho que a gente escreve, mesmo,
é pra morar nas palavras. a gente escreve sobre os outros o que queríamos que escrevessem sobre nós mesmos.
e muito bom, por aqui!
;)

Vives disse...

"A Viagem Vertical", do Vila-Matas, é um dos grandes livros que conheço. E o Fausto Wolff, do comentário acima, é o meu escritor preferido.
Great.

dilettante23 disse...

escrevo (quando escrevo) por mero capricho, nada mais.
beijos.

 

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