17.11.08

amor

ontem chorei por causa de um passarinho. às vezes acontece da vida entrar pela janela uma história da clarice. um passarinho do tamanho do meu polegar entrou entre as abas da janela e caiu no fosso em que elas se guardam. ficou preso lá dentro. às vezes suas asinhas batiam fazendo schuif schuif schuif. se eu abrisse a janela completamente o mataria esmagado. demorei a entender que ele era tão pequeno e que chorar não adiantava-nos nada. perguntava-me assim: o que tenho eu a ver com a vida desse passarinho que veio cair na minha janela por inexperiência? me respondia, tenho tudo a ver com ele e nada dele me diz respeito. mas é a vida, né, então fiz de tudo. bambus, varetas, lanternas, cestinhas, farelos de bolacha para mantê-lo vivo. deixei-o até muito quieto. não havia como abrir o fosso da janela sozinha. precisava de mão de obra especializada. hoje de manhã vieram salvá-lo, o pedreiro que já havia consertado essa janela uma vez pra mim. ele abriu e eu peguei o passarinho na mão. apavorado. vôou. estou só agora, sem o passarinho.

8 comentários:

Eva disse...

os passarinhos aqui do bairro andavam meio atrapalhados ontem, viu. estávamos tomando a fresca da tarde quando na rua um carro atropelou uma pomba. ouvimos claramente um barulho de ossos e penas quebrando - mas como eu sabia que era esse o barulho antes de olhar, se eu nunca soube o som que isso tem? sei lá.
***
pombas são passarinhos?
***
-- não olha, não olha.
***
agora ninguém chora mais.

José Américo de Melo disse...

Snif!

Revista disse...

oi Julia, como vôa?
gostaria de seu endereço para te enviar um exemplar da revista não funciona que tu particpou edição n16, lembra?
tu pode mandar pro e-mail naofunciona@gmail.com, desculpa ta te escrevendo aqui, é que não tenho seu e-mail.
abçs

júlia disse...

eles andam atrapalhados mesmo, evitz! umas duas semanas atrás um filhote de beija-flor caiu do ninho na frente do prédio e ficou no chão por uns dias, sendo alimentado pela mãe que naquela minusculozidade dela atacava se chegássemos perto dele. era um bichozinho muito foffo. voou também.

a pomba não voa mais. estão entre as galinhas e os passarinhos. suicídio?

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vinha azul e doido e se esfacelou na asa do avião

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email enviado, okey, gracias muitas

joão gabriel disse...

esse é como o "amor materno": como um jogo onde se aposta alto para perder...

júlia disse...

pois é, joão gabriel, bem visto, obrigada. deve ser por isso que me lembrei da clarice lispector. ela tinha esse amor de mãe da terra pelas coisas, não tem?

joão gabriel disse...

acho que a clarice tinha sim. outra definição de amor interessante é "dar aquilo não temos" (lacan).

júlia disse...

linda definição, joão. muito me instrui. obrigada pelo lacan.

 

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