26.11.07

god save the queen

Um trecho de um texto apitava na minha cabeça desde que comecei a escrever sobre Clarice e Cortázar num trabalho para a faculdade que, enfim, termina. eu lembrava assim: 'O coração já não pode' e depois lembrava 'algumacoisa é muito' e 'outracoisa é pouco'. Fiquei fascinada por lembrar da estrutura, mas não do que se dizia. Por se tratar de "coração" pensei primeiro que fosse um trecho da Clarice reiterado. Depois tive certeza que era Drummond. Até procurar no google e pasme! o primeiro resultado era meu próprio blogue e o trecho de Herberto Helder.

***

estou desintegrada demais para escrever. estou? no entanto, escrevo, retomo. caio nas drogas, café, cigarros próprios (tanto pelo gesto!), chocolate e farinha branca. entendo que Roland Barthes está errado. no Análise Estrutural da Narrativa, diz que quando se narram coisas que o narrador já sabe, tipo "este joão, meu irmão, era médico", é uma marca do leitor implícito. Mas só concordo com isso se o leitor for também o próprio escritor. Se fosse assim, não existiriam diários. Sei que, numa ânsia tremenda de delimitar as coisas, o cara (que é foda, eu acho muito) acaba falando demais. É bom que ele sempre se arrisca! Porque em"a marquesa saiu às 5 horas", "ela mesma para comprar as flores" ou, "estou desintegrada para escrever" podem ter marcas que não são de ninguém. Ou também, porque escrevo coisas que eu já sei que sei e é para mim mesma que desconheço. Os símbolos são inseridos sistematicamente ou podem ser coisas óbvias de desconhecidas para mim e que acontecem. E eu antes de ontem tinha anotado o que o Barthes escreveu com muito afeto. Tinha escrito que o António Lobo Antunes nunca marca o leitor, então, porque ele escreve dentro da perspectiva, sempre, do narrador.

***
escrevi uma carta ontem para o antónio lobo antunes. assim:
antónio, se no meu país existissem sultões, eu te convidava para ser o sultão aqui de mim,
cheio de crueldade você me daria o arbitrário de tudo
ah, eu iria sorrir e você também sorria, sim

***
"escrevo em desordem", escrevo para ter. Tudo aqui passa pela posse. As palavras, fazê-las, tê-las. Se o ato está sempre no presente, se é por tudo ser presente que me apavoro, se é disso que Eliot fala, se eu bem entendi, as palavras não preenchem espaços ou funções. As palavras são o espaço. A palavra é inerente.

***
hoje tomei uma absurda chuva de verão. É verão, ouviram bem? Por mais que a cidade o evite, é verão. É bom anunciar porque a cidade sempre aceita o inverno resignada, mas o verão? A cidade fica apavorada, você vê nos rostos as pessoas quase querendo se comprometer com o verão. Nas noites mais quentes, ninguém agüenta e explodem para as mesas quadradas sentadas de bares. Mas somos tão provincianíssimos! o medo do verão está nas pessoas, medo de que alguém te veja correndo na chuva, correndo dentro da chuva com a chuva, sem fugir da intensidade do excesso, do barulho, do corpo largado sem roupa; isso é medo de se alegrar, não podemos sorrir muito além do 'obrigado', se não começaremos a interagir com o outro, que pode ser alguém de más intenções, gente com a qual não se faz uma festa, aliás, festa na rua? só as patrocinadas pela pomarolla. todos os feriados milhões descem a serra. e é para o interior que o tietê corre, mário de andrade já dizia.

Eu saí para comprar a rosca sabores da padaria nova, todos os meus melhores amigos estão tão longe, saí para devolver os filmes, a água arrastando pela canela morro abaixo, pensando que daqui a pouco anoitece, já vai ter terminado o trabalho e eu poderei continuar sozinha, bem assim, por quanto tempo? não sei, nem quando isso começou.

***
bem, para todos vocês que não estão presentes, também ficam dadas minhas notícias.

***
ah! o trecho de herberto helder:

O coração já não pode mais. Entre os bichos e as plantas, acontece-lhe dizer: Que fertilidade!- e a vida corrompe-se nos próprios fundamentos. Sente-se como um apóstolo sem fé. Desejaria morrer, arder no fogo apocalíptico das cidades. Ou ser devorado pela inteligência, estiolar de excessiva lucidez no meio da loucura campestre. Tradição, compreende uma: ama-a. Perdeu o nome, essa sabedoria. Beleza, é pouco. Verdade, é muito. Trata-se de um termo sútil que participa de uma e outra, que se tornou inútil, insensato.

2 comentários:

lapal disse...

hmmm uma análista da dramaturgia.. que legal ler alguém que também vê as coisas por esse viés

Marcio disse...

passa lá.

http://www.flickr.com/photos/marcioleandro/

 

Free Blog Counter