22.4.07

No seas insegura, eso dejámelo a mí/ Hombres con armadura abundan por aquí
No seas tan celosa, no hay ninguna como vos/ Además te ves preciosa cuando el celoso soy yo
kevin johansen

Deito bem escovada. Com o cheiro do lençol novo fico que me agito, não sei bem onde mora essa aflição das sensações não serem estáticas. Entre os meus dedos sinto os filetes na penumbra, uma das poucas coisas que eu sei é que isso aqui é o cabelo dele, que, preto, é o que há de mais preto no mundo. É também o cabelo da minha mãe reinventado.

Inicio minha luta pelo sono. Apaziguo as atividades de amanhã, lembrando de ontem e antes de ontem, falo pra ele sobre o meu pulso dobrado que incomoda. Falo pra ele que desde criança o medo de dormir me obriga a falar. Hoje, como se pedisse desculpas e com isso me avantajasse de liberdade, me peço sossego.

(continuo avaliando. do amor, o medo do sono, o medo da velocidade, são todas as quebras da minha entrega? já vejo assim, como um risco em termos de “entrega”, “escolha”, tudo tão pejorativo quando se rastreia!)

Logo voltamos a uma tarde inteira de passos alados, com o cansaço da sua mão me puxando os ombros para trás (é por causa da idade, que delicado) e, depois de perceber, alinha a nossa postura.
Conta sempre que não há despedida pra mim? Sou o seu esboço, a moça dessa cena que te olha e sorri dizendo:

“Tenho medo de que não seja para sempre.

Você me vê na estrada invisível da beira d’água? vamos olhar os olhos no reflexo?". Cenas brancas e cenas estáveis. Depois cenas da hora de escurecer. “Olha pra lua, eu não te esqueço”. A minha fraseologia cravada nas suas costas, faz você lembrar que quer tirar a roupa das minhas palavras? "Dispa-se, mulher".

Passa os dedos entre os fios do cabelo dele, retoca o cabelo dele pra sentir a falta de uma mímica condensada do amor. Saímos do universo do gesto. Estamos sós, eu me desencantei de mim mesma, acontece sempre. Minha cabeça encosta na sua, fazendo o contato entre as partes desentendidas. Quantas horas será que eu vou conseguir dormir, se você vai acordar antes?

Em algum momento me venci, passei, é de manhã finalmente.

Ele gosta tanto de cantar quando é cedo. Canta um pedaço só de cada música, sem perceber, como um afresco que só tivesse cheiro. Coloco sua voz como o meu fone de ouvido, quando você se levanta, debruço na sua fronha da minha casa. Bem cedo te farei um café, toda manhã seu. Eu sou a moça dessa cena, lembra? que todo trecho entende como sendo dela e para ela, porque o homem que canta de ouvido e acaso, canta dentro do clima e por ossatura.

2 comentários:

Cel Bentin disse...

ah, que esse "gosto da noite veste certinho o dorso dos olhos da gente....".
Agora, fogo só é lembrar dele sem mexer com os vespêro (ou serão vésperas?) que nos despem os rastros e os anseios... Beijo, Júlia! Abraço de poste, do Estopa mais um carinho da Fulô...

eva disse...

há que saber deixar-se
e saber-se, fora de si.

 

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