29.5.09
27.5.09
cantos de estima
pra mim, existe uma coincidência
espontânea entre mim e o que escrevo.
obrigada pelo retorno do termo "espontânea" usualmente.
agora: amor, é somente uma voz o que te fala.
- -
voz flutuante voz de veneza voz de uma foz
voz
- -
quando a voz e mais tudo sai na rua
e escuto
os passos e as faixas de trânsito,
estou tentando elaborar uma teoria das cores
por exemplo: por que me parece tanto que elas só têm superfície?
- -
eu quero uma editora. alguém viu?
fiquei em dúvida entre "terra" e "azul",
mas a última parte, é azul.
- -
herberto helder: o poema nasce sagitarianamente.
a mim também, o corpo é uma experiência sagitariana.
- -
nas cores me sinto num playmobill
vou comprar uma bicicleta
e morar no campo.
- -
obrigada, bel.
acordei ouvindo um disco dos 7 anos.
lá no campo a gente vai ouvir
& she's a rainbown também.
- -
escrever e beber água, coisas que não me fazem mal.
- -
.
espontânea entre mim e o que escrevo.
obrigada pelo retorno do termo "espontânea" usualmente.
agora: amor, é somente uma voz o que te fala.
- -
voz flutuante voz de veneza voz de uma foz
voz
- -
quando a voz e mais tudo sai na rua
e escuto
os passos e as faixas de trânsito,
estou tentando elaborar uma teoria das cores
por exemplo: por que me parece tanto que elas só têm superfície?
- -
eu quero uma editora. alguém viu?
fiquei em dúvida entre "terra" e "azul",
mas a última parte, é azul.
- -
herberto helder: o poema nasce sagitarianamente.
a mim também, o corpo é uma experiência sagitariana.
- -
nas cores me sinto num playmobill
vou comprar uma bicicleta
e morar no campo.
- -
obrigada, bel.
acordei ouvindo um disco dos 7 anos.
lá no campo a gente vai ouvir
& she's a rainbown também.
- -
escrever e beber água, coisas que não me fazem mal.
- -
.
25.5.09
24.5.09
mudança de endereço

vontade de te contar/
lembra de ser criança e dizer infinito vezes infinito e ver assim quem ia ter mais?
era uma questão de fôlego e de empate.
fechando os olhos é a grande explosão.
as galáxias, meu filho, não tenho nada menos do que elas.
um dia desses eu disse para três homens numa roda que o esperma e a via láctea eram a mesma coisa em partimentados espaços. um deles ficou tremendamente seduzido. acho essa metáfora belíssima, mas não consigo escrevê-la num poema. ainda. é um pouco demais. esses dias também vi um equilibrista do tamanho de um grão de arroz numa linha imaginária. foi uma grande amiga que voltou me dizendo que se pá ainda não tava bom e eu dei pra ela o durango kid e agora a gente mata moscas sobre o balcão no verão mais quente. quando eu lia carson mccullers o inverno parecia o oeste. foi meu pai que me deu. a ana cristina césar também. num mesmo verão, na bahia. foi o verão que eu li quincas borba memórias póstumas o cortiço dom casmurro que eu não entendi nada. foi quando a prosa que me venceu, porque convenhamos, a-poesia-né-a-poesia. mas daí, a prosa apareceu w foi o verão que eu decidi que ia estudar letras. foi foi. verão. bahia. eu não ia pra praia de dia. achava tudo tão estranho e violento no dia ensolarado. então eu dormia quando clareava e dormia. e acordava e eu só lia. e não havia na vila lâmpadas de mais de 60w pra vender. nesse verão já tinha guardanapo. no anterior, que foi o que eu me apaixonei e ele parecia o princípe william e meu deus ele me quis também
(principe e folego são duas palavras que eu nunca sei onde é o acento. uma palavra que eu escrevo sempre em dúvida também é "for", o verbo. olho para um lado e outro e isso é a minha língua? mas quem inventou uma grafia tão estranha assim prum ar que escapa entre o lábio e - - será que os linguistas são mais sensoriais do que nós? - - )
e foi a noite que iluminou nossos rostos de fogueira a luz verde no céu e eu bati uma moto numa caixa de água por causa do areião tudo branco e quase desmaiei quando queimei a perna no escapamento eu e o duda a gente estava muito longe nesse dia. ele achou uma nota de 5 reais na tarde em que mergulhávamos no submundo das algas. outra vez os morcegos me acordavam às 5h e eu ia dormir às 21h, foi um prazer foi um mês todo sozinha eu andava horas por dia e o sol e só havia dia tomei um ácido e fiquei olhando as formigas e descobri também que eu era absolutamente a mesma coisa que as ervinhas e eu costumei dizer que foi quando aprendi a alegria e não o suicidio e voltei pra casa e dei de comer banana aos macaquinhos que viviam no flamboyant e numa outra tarde tirei toda a roupa e fui até a praia nua e voltei pra casa nua e assim fiquei umas horas sem nenhuma espécie de lembrança de estar sem roupa. nessa mesma eu ainda lia mais do que qualquer outra coisa
lembra de ser criança e dizer infinito vezes infinito e ver assim quem ia ter mais?
era uma questão de fôlego e de empate.
fechando os olhos é a grande explosão.
as galáxias, meu filho, não tenho nada menos do que elas.
um dia desses eu disse para três homens numa roda que o esperma e a via láctea eram a mesma coisa em partimentados espaços. um deles ficou tremendamente seduzido. acho essa metáfora belíssima, mas não consigo escrevê-la num poema. ainda. é um pouco demais. esses dias também vi um equilibrista do tamanho de um grão de arroz numa linha imaginária. foi uma grande amiga que voltou me dizendo que se pá ainda não tava bom e eu dei pra ela o durango kid e agora a gente mata moscas sobre o balcão no verão mais quente. quando eu lia carson mccullers o inverno parecia o oeste. foi meu pai que me deu. a ana cristina césar também. num mesmo verão, na bahia. foi o verão que eu li quincas borba memórias póstumas o cortiço dom casmurro que eu não entendi nada. foi quando a prosa que me venceu, porque convenhamos, a-poesia-né-a-poesia. mas daí, a prosa apareceu w foi o verão que eu decidi que ia estudar letras. foi foi. verão. bahia. eu não ia pra praia de dia. achava tudo tão estranho e violento no dia ensolarado. então eu dormia quando clareava e dormia. e acordava e eu só lia. e não havia na vila lâmpadas de mais de 60w pra vender. nesse verão já tinha guardanapo. no anterior, que foi o que eu me apaixonei e ele parecia o princípe william e meu deus ele me quis também
(principe e folego são duas palavras que eu nunca sei onde é o acento. uma palavra que eu escrevo sempre em dúvida também é "for", o verbo. olho para um lado e outro e isso é a minha língua? mas quem inventou uma grafia tão estranha assim prum ar que escapa entre o lábio e - - será que os linguistas são mais sensoriais do que nós? - - )
e foi a noite que iluminou nossos rostos de fogueira a luz verde no céu e eu bati uma moto numa caixa de água por causa do areião tudo branco e quase desmaiei quando queimei a perna no escapamento eu e o duda a gente estava muito longe nesse dia. ele achou uma nota de 5 reais na tarde em que mergulhávamos no submundo das algas. outra vez os morcegos me acordavam às 5h e eu ia dormir às 21h, foi um prazer foi um mês todo sozinha eu andava horas por dia e o sol e só havia dia tomei um ácido e fiquei olhando as formigas e descobri também que eu era absolutamente a mesma coisa que as ervinhas e eu costumei dizer que foi quando aprendi a alegria e não o suicidio e voltei pra casa e dei de comer banana aos macaquinhos que viviam no flamboyant e numa outra tarde tirei toda a roupa e fui até a praia nua e voltei pra casa nua e assim fiquei umas horas sem nenhuma espécie de lembrança de estar sem roupa. nessa mesma eu ainda lia mais do que qualquer outra coisa

papai e mamãe, num fim de tarde
e teve uma outra vez lá que eu conheci o alfredo e a clarisse, com uma semana de diferença.
tudo janeiro.
22.5.09
mar., mas, sabes, como tudo parece ter uma prova de recorrência, quero dizer, que tudo que acontece intensamente uma vez é porque já aconteceu antes e o tempo reverbera suas camadas de sanduíche, dizendo: não sou linear, não estive antes, nem depois: sou o mesmo, em mutação. e sabe tem tanta coisa sendo vivida ao mesmo tempo que eu gostaria de silenciar as narrativas das dificuldades e com todas as narrativas de linhas só trabalhar pra fora. isso pra dizer que se o amor acontece uma vez, acontece duas. vai se acontencendo. e tudo é em branco. tudo nunca foi dito. tudo tem memória. tudo se espraia.
- -
depois da descoberta da fábrica portuguesa na amazônia, a série "amor" acabou.
mas aguarde os capítulos nunca vistos.
a série "agora que eu sou sincera" foi fagocitada, e sumiu.
vou voltar a viver satisfeita, não-editada & sem tags. boa noite.
- -
depois da descoberta da fábrica portuguesa na amazônia, a série "amor" acabou.
mas aguarde os capítulos nunca vistos.
a série "agora que eu sou sincera" foi fagocitada, e sumiu.
vou voltar a viver satisfeita, não-editada & sem tags. boa noite.
21.5.09
17.5.09
cantos de estima
tenho que calçar galochas no menino antes de por na rua os trenzinhos
*
vim de longe
porque eu trouxe o fogo
*
vim de longe
porque eu trouxe o fogo
13.5.09
amor
eu tô com um medo de canto
do tamanho do mundo
sentado ali no meu colo
do tamanho do mundo
sentado ali no meu colo
Marcadores:
agora que sou sincera,
amor,
uma tag aleatória
10.5.09
a existência, esse amarelo
sexta-feira, tendo que esperar, comprei um jornal. na 2a página citavam o JK "no Brasil, o pessimista começa errando". essa frase me deixou feliz como se fosse um verso, não a frase do presidente de Brasília, o alienígena.
de todo modo, fiquei pensando. os amigos chegaram, cerveja e leite de camelo. discutimos a moralidade ou lobby nessa coisa de proibir-se o fumo no estado de sp.
tenho que sair, que hoje é dia das mães e eu resolvi abrir a porta.
me deixo com essa: o pessimismo é, no geral, uma precaução, uma preventividade. o otimismo, ingênuo que seja, me parece uma ousadia. o pessimismo esfria, o otimismo esquenta. agora, é possível viver sem um nem outro?
de todo modo, fiquei pensando. os amigos chegaram, cerveja e leite de camelo. discutimos a moralidade ou lobby nessa coisa de proibir-se o fumo no estado de sp.
tenho que sair, que hoje é dia das mães e eu resolvi abrir a porta.
me deixo com essa: o pessimismo é, no geral, uma precaução, uma preventividade. o otimismo, ingênuo que seja, me parece uma ousadia. o pessimismo esfria, o otimismo esquenta. agora, é possível viver sem um nem outro?
8.5.09
problemas em construir um livro
será melhor (re)criar semânticas ou deixá-las se constituírem em paz na solidão delas próprias? quero dizer: constituir um sentido para além do sentido que já se faz entre os textos? mas isso não é um trabalho do silêncio? deus é grande, mas o mato é maior.
hum: meus textos são de uma infância. dous: a infância houve como uma fase adulta pré-configurada. antes de crescer eu resolvi andar sobre as minhas próprias mãos. e ainda espirro quando lavo o cabelo no fim da tarde.
chega de saudade.
- - -
hum: meus textos são de uma infância. dous: a infância houve como uma fase adulta pré-configurada. antes de crescer eu resolvi andar sobre as minhas próprias mãos. e ainda espirro quando lavo o cabelo no fim da tarde.
chega de saudade.
- - -
"Os caminhos afogados, as casas destruídas. Toda a gente vem para fora, hesitante, um pouco espantada. Não há lugar para as mãos, para os pés. Mas o ar vai-se tornando leve, penetrante. As coisas libertam-se do vasto abraço das águas.
Durante dois meses, na funda solidão subterrânea, preparou-se o tempo que agora se torna exterior e vivo. Talvez a lentilha e a cevada semeadas no outono venham a cobrir as planuras. As sementes dormiram e imaginaram. Talvez acordem agora para a reconstrução do mundo.
É então que um grande silêncio cai sobre os trinta quilómetros quadrados da ilha. Ou vem das coisas, do interior das coisas. É um silêncio extremamente doce, um equilíbrio supremo. A ilha adquire uma grave e grandiosa imobilidade. E a luz entra e sai pelas coisas, como se elas fossem esponjas. As mãos ficam muito nuas. É dos olhos que primeiro desaparece o sono. E da boca. De cada parte do corpo, lentamente, de todas as partes, até que as pessoas se abram totalmente. Como numa ressurreição."
Herberto Helder, Photomaton & vox.
- - -
billie jean is not my lover
she says that i'm the one
but the kid is not my son
- -
cantos de estima? é menino!
Durante dois meses, na funda solidão subterrânea, preparou-se o tempo que agora se torna exterior e vivo. Talvez a lentilha e a cevada semeadas no outono venham a cobrir as planuras. As sementes dormiram e imaginaram. Talvez acordem agora para a reconstrução do mundo.
É então que um grande silêncio cai sobre os trinta quilómetros quadrados da ilha. Ou vem das coisas, do interior das coisas. É um silêncio extremamente doce, um equilíbrio supremo. A ilha adquire uma grave e grandiosa imobilidade. E a luz entra e sai pelas coisas, como se elas fossem esponjas. As mãos ficam muito nuas. É dos olhos que primeiro desaparece o sono. E da boca. De cada parte do corpo, lentamente, de todas as partes, até que as pessoas se abram totalmente. Como numa ressurreição."
Herberto Helder, Photomaton & vox.
- - -
billie jean is not my lover
she says that i'm the one
but the kid is not my son
- -
cantos de estima? é menino!
5.5.09
3.5.09
2.5.09
1.5.09
29.4.09
o nome disso não é exatamente felicidade
se é alguma espécie de assombramento desnecessário ou é simplesmente o ritmo das coisas se acomodando em mim. até mesmo o trânsito de quilômetros de horas pode me provocar ternura.
às vezes penso: deve ser assim saber estar pra morrer.
mas, na verdade, só estou fazendo o que eu gostaria de fazer.
às vezes penso: deve ser assim saber estar pra morrer.
mas, na verdade, só estou fazendo o que eu gostaria de fazer.
26.4.09
amor
a última vez que nos vimos eu - - - percebi que não sei escrever
tinha matado um alce e carreg - - - um poema que fale da tua
ando até a margem do lago - - - ausência quero dizer minha
deposito ao lado na relva - - - dor de
gravetos estalando fogo - - - .
tinha matado um alce e carreg - - - um poema que fale da tua
ando até a margem do lago - - - ausência quero dizer minha
deposito ao lado na relva - - - dor de
gravetos estalando fogo - - - .
25.4.09
23.4.09
mastodonte
psiu, o marcos tem o quase resenha então eu vou contar um quase-segredo: tô terminando um livro de poemas. eu sempre soube que isso ia me acontecer um dia, mas não sabia na verdade. é assim tudo que a gente quer: ?
porque sou generosa como um gigante mau
gostaria de contar pra vocês quais são as epígrafes.
a primeira, quase já datou nesse blogue. e é:
"Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar."
“II”, Poemacto.
Herberto Helder
& também
"Céu de estrelas sem destino
De beleza sem razão (...)
Fogo fogo de artifício
Quero ser sempre o menino"
“São João, Xangô menino”.
Caetano Veloso e Gilberto Gil
& mas tenho dúvidas quanto a esta segunda,
se será ela ou
"Minha paixão há de brilhar na noite
No céu de uma cidade do interior
Como um objeto não-identificado"
ou qualquer outra estrofe de não-identificado, do Caetano.
me parece que será essa segunda, tem haver, não tem?
e o que importa mesmo é ser uma música do Caetano.
- -
que você acha?
e ah, o livro se chama é cantos de estima
porque sou generosa como um gigante mau
gostaria de contar pra vocês quais são as epígrafes.
a primeira, quase já datou nesse blogue. e é:
"Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar."
“II”, Poemacto.
Herberto Helder
& também
"Céu de estrelas sem destino
De beleza sem razão (...)
Fogo fogo de artifício
Quero ser sempre o menino"
“São João, Xangô menino”.
Caetano Veloso e Gilberto Gil
& mas tenho dúvidas quanto a esta segunda,
se será ela ou
"Minha paixão há de brilhar na noite
No céu de uma cidade do interior
Como um objeto não-identificado"
ou qualquer outra estrofe de não-identificado, do Caetano.
me parece que será essa segunda, tem haver, não tem?
e o que importa mesmo é ser uma música do Caetano.
- -
que você acha?
e ah, o livro se chama é cantos de estima
22.4.09
a noite que fomos ao observatório
o ônibus teve de subir a estrada de pedregulhos.
tinha capim ao lado era assim mais uma prosaica subida.
estudo do meio.
não vou me alongar nisso?,
indo ver as estrelas e quando chegamos era uma bola branca de concreto.
ou eu me lembro porque assim são os planetários.
por isso vou tingi-lo: era azul.
e na estrada tinha cheiro de sereno sobre o mato e borracha queimada dos ossos.
a vida é impertinente quando se tem 15 anos.
eu sempre senti os órgãos demais na barriga.
meu melhor amigo me disse uma coisa bonita sobre o fígado.
eu não escutava mas era como se ouvisse um rádio lento trazendo a notícia da paz.
a gente corre o pulmão expande pra inspirar o fígado pra se ajeitar é massageado.
talvez eu tenha tido vontade de massagear a bola branca do observatório.
o físico que nos atendeu contou sobre o clarão no céu visto nas férias
que iluminou nossos rostos de fogueira e fez um arco verde por cima dos meninos
era lixo espacial voltando pras atmosferas ardendo estrela-cadente não existe
deu-se por contente.
e quando olhamos ao ponto final só
-abre coração abre-
podia olhar por dez segund
(mesmo assim eu não vi nada)
tinha capim ao lado era assim mais uma prosaica subida.
estudo do meio.
não vou me alongar nisso?,
indo ver as estrelas e quando chegamos era uma bola branca de concreto.
ou eu me lembro porque assim são os planetários.
por isso vou tingi-lo: era azul.
e na estrada tinha cheiro de sereno sobre o mato e borracha queimada dos ossos.
a vida é impertinente quando se tem 15 anos.
eu sempre senti os órgãos demais na barriga.
meu melhor amigo me disse uma coisa bonita sobre o fígado.
eu não escutava mas era como se ouvisse um rádio lento trazendo a notícia da paz.
a gente corre o pulmão expande pra inspirar o fígado pra se ajeitar é massageado.
talvez eu tenha tido vontade de massagear a bola branca do observatório.
o físico que nos atendeu contou sobre o clarão no céu visto nas férias
que iluminou nossos rostos de fogueira e fez um arco verde por cima dos meninos
era lixo espacial voltando pras atmosferas ardendo estrela-cadente não existe
deu-se por contente.
e quando olhamos ao ponto final só
-abre coração abre-
podia olhar por dez segund
(mesmo assim eu não vi nada)
18.4.09
montra
descobri que os homens acuavam mamutes pelos desfiladeiros porque era mais fácil derrubá-los do que acertá-los com mira em flecha fiquei imaginando uma flecha pra atravessar o couro de um mamute e quem sabe talvez o mar fosse menos impossível talvez alguma outra divina astúcia me acontecesse assim também e no supermercado exclamar que fertilidade entre abobrinhas poeta do finito e da matéria/ .../ cantor de um povo limpa-ladrilho beterraba às vezes a única coisa que eu consigo produzir é uma solidão radical
15.4.09
caderno de viagem

do alto a terra é tão extensa
que assim só conhecia o mar
se à noite fico bem quieta
meu ouvido é uma concha
em qual se ouve o rugido,
acordei aqui, os pés enfiados
a espera da tua chegada, fumo
até partir do corpo
em heterônimos te escrever
como o mar que avança
depois de muito retroceder
duas ondas juntando a água que veio de trás
[marvão, portugal, julho do 8]
7.4.09
amor
passo a tarde em poemas
às dúzias como fotos digitais
seqüencia de frames
de desenho animado
a gente vai estrelar junto
na tela da televisão
eu, Teddy Corpete, enrolando
você entre os ossos da bacia
às dúzias como fotos digitais
seqüencia de frames
de desenho animado
a gente vai estrelar junto
na tela da televisão
eu, Teddy Corpete, enrolando
você entre os ossos da bacia
amor
entro no teu quarto todo
enquanto dormes escuro
com a câmera de gravar
você tão quieto respira tão bem
e o meu maquinário tem a propriedade de filmar
mas só passa os sonhos do que amamos em cores
não sei, se insisto ou se parto,
queimando os lugares reticentes do mundo
aperto o botão e do início a gravação
na tela curta se reproduz de imediato
então tu?
sonhas a lua?
enquanto dormes escuro
com a câmera de gravar
você tão quieto respira tão bem
e o meu maquinário tem a propriedade de filmar
mas só passa os sonhos do que amamos em cores
não sei, se insisto ou se parto,
queimando os lugares reticentes do mundo
aperto o botão e do início a gravação
na tela curta se reproduz de imediato
então tu?
sonhas a lua?
29.3.09
23.3.09
9.3.09
amor
há uma velha que nos atravessa. tens olhos de preguiça de quem não vê astúcia mais nas coisas. cansou de saber. lutar nunca fez. lembra-se de um vestido branco que usava e as colinas. antes das colinas havia um susto. antes do susto teve um amor.
8.3.09
amor
preciso de ti
como se isso fosse um estar
no coração de uma selva
à noite escura ouvisse
a respiração de um animal de olhos firmes
se aproximando luminosos sobre a folhagem
tu és o animal
eu sou a árvore
a luz vem da cidade
como se isso fosse um estar
no coração de uma selva
à noite escura ouvisse
a respiração de um animal de olhos firmes
se aproximando luminosos sobre a folhagem
tu és o animal
eu sou a árvore
a luz vem da cidade
7.3.09
yo soy un hombre sincero
ontem, voltando da paulista de noite, entrei no pompeião de sempre & havia três bolivianos tocando "isso aqui ô ô" em violões e pensei ai que cansaço depois eles tocaram guantanamera e metade do ônibus sabia cantar e eu cantei e nós cantamos atravessando o cemitério da dr. arnaldo garoava muito leve e aquele calor e as senhoras de laquê na minha frente vestindo cores de paixão disseram "hoje o dia foi tão bom que somos presenteadas com isso na volta pra casa" então eu chorei vendo os túmulos de mármore e os prédios da cidade acesos e apagados daquele instante
- -
Marcadores:
agora que sou sincera´,
música é o que mesmo quero
6.3.09
sonho meu
ontem contei no acabou produto um sonho que tenho sempre
e essa noite eu ia a um museu de história natural e havia uma correnteza como os canais da disneylandia ou do recanto do boiadero e então com pedrinhas seixos nas águas e plantas de plástico muito verdes e também de verdade de um projeto pomar e então as pessoas passavam a mão na água e eram todos muito velhos em fila enfiando os dedinhos na correnteza e eu ficava assustada que aqueles velhos passassem a mão na água porque era a água do Pinheiros e na verdade o museu de história natural era uma contenção da nascente e então eu pensava mas essa água é suja e depois mas essa água é nova e daí minha mãe me dizia sem estar presente é uma água antiga que não deixa os velhos doentes mais,
5.3.09
amor
ele é o pássaro. veio branco BRANCO invadindo meu olhar boca tetos e ouvidos. livre e desesperado. tremia as pernas quando nos beijamos, não, balançava-as fora do tempo da música que tocava alto. lembro que puxei-o para o meu corpo como se eu fosse sólida. sólida feito uma embalagem tetra pak de leite cheia. ele se encaixou, esteve comigo, estive com ele.
anilina, minha pequena revolução
Adeus.
Voltei.
Não sabia que agora começava de um outro vislumbre. De um outro olhar, de um outro topo de montanha, outra bruma, outra espuma. Não sei mais quem escreve. Vou me apagando tanto do cotidiano bruto que consigo planar quase tão aberta de tudo asa-delta por sobre os meus pensamentos. Então quando escrevo, o corpo se aplica. E, aplicado, o corpo me é justo. Se não me excede.
Porque de algum modo eu descobri que há o mais biográfico de tudo. Que é: anil. Anil, não quer dizer nada. Anil sem metáfora. Anil. E nisso eu ia dizer do justo modo de namorar, que é social. Namorar casar gestar corromper. Essas coisas existem. E, sabe, os homens inventaram esquadros, cabos conectores, avisos em quadros para tal, quadros. O quadrado existe antes do homem? Ou é como os canteiros da Av. Rebouças?
Vou lhe dizer: as coisas têm seu próprio peso e eu sou: insolúvel e influenciável. O que eu ia dizer é uma palavra assim: elo ligação lealdade. Pra mim isso dá muito. Faísca, casão, amplitude. Eu um dia, garanto mesmo, vou ser um faisão. Voando flanando apoiado no próprio peito e depois servido magret na sala derradeira. Poderá me comer quem quiser porque no fim os bichinhos já iam me comer mesmo.
Eles vão te comer, sabes? Algo em ti e em mim se apagará o viço e será um sumiço de mim e de ti. Durante um tempo era por isso eu dizia: que me enterrem sem os caixões, fora das caixas, nem de madeira, nem de concreto. Disseram-me impossível a vigilância sanitária alguém reclamou até que era feio ou um corpo assim lembra auschwitz . Mas eu disse: corpo assim como assim que quer dizer é o meu corpo. Meu corpo de orquídea. Eu estava me valendo de alguma espécie de raciocínio de que a individualidade do indivíduo individual que eu seria se não fosse a sociedade a razão de ensino a etc etc. Mas não sou dona dos lençóis freáticos da cidade. Disseram-me: crema-se ao final, mas é um verbo que não sei conjugar imediatamente. E não, não, eu quero o chão, a terra, um lento adeus. E se isso não me disser respeito, respeito e adeus.
Voltei.
Não sabia que agora começava de um outro vislumbre. De um outro olhar, de um outro topo de montanha, outra bruma, outra espuma. Não sei mais quem escreve. Vou me apagando tanto do cotidiano bruto que consigo planar quase tão aberta de tudo asa-delta por sobre os meus pensamentos. Então quando escrevo, o corpo se aplica. E, aplicado, o corpo me é justo. Se não me excede.
Porque de algum modo eu descobri que há o mais biográfico de tudo. Que é: anil. Anil, não quer dizer nada. Anil sem metáfora. Anil. E nisso eu ia dizer do justo modo de namorar, que é social. Namorar casar gestar corromper. Essas coisas existem. E, sabe, os homens inventaram esquadros, cabos conectores, avisos em quadros para tal, quadros. O quadrado existe antes do homem? Ou é como os canteiros da Av. Rebouças?
Vou lhe dizer: as coisas têm seu próprio peso e eu sou: insolúvel e influenciável. O que eu ia dizer é uma palavra assim: elo ligação lealdade. Pra mim isso dá muito. Faísca, casão, amplitude. Eu um dia, garanto mesmo, vou ser um faisão. Voando flanando apoiado no próprio peito e depois servido magret na sala derradeira. Poderá me comer quem quiser porque no fim os bichinhos já iam me comer mesmo.
Eles vão te comer, sabes? Algo em ti e em mim se apagará o viço e será um sumiço de mim e de ti. Durante um tempo era por isso eu dizia: que me enterrem sem os caixões, fora das caixas, nem de madeira, nem de concreto. Disseram-me impossível a vigilância sanitária alguém reclamou até que era feio ou um corpo assim lembra auschwitz . Mas eu disse: corpo assim como assim que quer dizer é o meu corpo. Meu corpo de orquídea. Eu estava me valendo de alguma espécie de raciocínio de que a individualidade do indivíduo individual que eu seria se não fosse a sociedade a razão de ensino a etc etc. Mas não sou dona dos lençóis freáticos da cidade. Disseram-me: crema-se ao final, mas é um verbo que não sei conjugar imediatamente. E não, não, eu quero o chão, a terra, um lento adeus. E se isso não me disser respeito, respeito e adeus.
- -
ou, por outro, achei aqui:
2.3.09
o leão da família ii
hoje meu mesmo sobrinho de quatro anos disse-me:
-por que eu tenho que gostar ou não gostar das coisas?
(iluminação)
& depois, com os bonequinhos de fantoche
-esse é o pedrinho, essa é a cuca, essa é a tia nastácia, ... - silêncio.
e dez minutos depois, dentro da piscina:
-quem escreveu a história do sítio foi o monteiro lobato.
(susto genético & civilização)
& depois, vendo meu irmão acendendo a churrasqueira e correndo atrás dele com espetos de carnes, ele chamou minha mãe e disse:
-vovó senta aqui comigo que a gente precisa conversar. meu tio é mesmo um dragão?
-por que eu tenho que gostar ou não gostar das coisas?
(iluminação)
& depois, com os bonequinhos de fantoche
-esse é o pedrinho, essa é a cuca, essa é a tia nastácia, ... - silêncio.
e dez minutos depois, dentro da piscina:
-quem escreveu a história do sítio foi o monteiro lobato.
(susto genético & civilização)
& depois, vendo meu irmão acendendo a churrasqueira e correndo atrás dele com espetos de carnes, ele chamou minha mãe e disse:
-vovó senta aqui comigo que a gente precisa conversar. meu tio é mesmo um dragão?
1.3.09
o leão da família
ontem perguntei ao meu sobrinho se ele tinha ou não gostado do livro que a gente tinha acabado de ler juntos. ele me olhou da maior fofura das suas bochechas de quatro anos de idade e me disse:
-não vou te dar minha opinião.
(arrasou na casa 8, marcos!)
-não vou te dar minha opinião.
(arrasou na casa 8, marcos!)
27.2.09
"(algumas razões)
O primeiro dever de alguém que acredite na necessidade e eficácia do verídico será a independência, quero dizer: o começo por si mesmo.
A leitura comunicada é um sinal, talvez o mais facilmente impressionante, do amor ou desamor dos outros. Este sinal do alheio nos terrenos da solidão propende para, e estabelece, uma corrente magnética. É perturbante verificar que a solidão possui uma qualidade expansiva, estimula réplicas, ou seja: o exercício íntimo de certas forças movimenta-se para um écran, incita a um significado externo. O leitor é tido então como um cúmplice superlativamente adequado ao texto da solidão. Imagino que tal adequação suposta - advinda de que perícia, de que faculdade subtil para induzir experiências, de que estranho talento de receptividade? - implica logo a sabedoria inocente de aceitar como absoluto o universo da solidão, a incontrovertível razão de autor. Da indiscutibilidade dessa razão partiria o talento de fruir para o "amor inteligente". Mas, desde que se obste à total legitimidade da razão de autor, fere-se ao verídico, sua força e origem, a liberdade que se executa num largo mapa de pequenas liberdades contínuas. Porque o autor teria então de justificar tudo, a começar por si mesmo, pela sua veracidade, quer dizer: pela sua própria realidade. É que uma solidão, e a obra que faz e é, buscam as garantias de existir. E apenas isso.
É difícil viver entre a falsa inteligência alheia. Antes ser absolutamente ininteligível perante uma ininteligência senhora de si do que ser devorado pelas partes que os outros escolhem, em puro abuso, para satisfação da própria inteligibilidade, deles, estrangeiros.
Que facilidade sua os conduz à ilusão do seu próprio nome?
(Os destinatários são sempre outros).
O equívoco é só esse de confundirem a nossa dificuldade com a sua facilidade. E esta ilusão de suficiência é dramática: porque pode atrasar-nos na direcção dos destinatários verdadeiros. Quando se compreenderá que se trata de cumplicidade?
(Octávio Paz: sólo podemos hablar con verdad de aquello que nos inspira y apasiona.)"
O primeiro dever de alguém que acredite na necessidade e eficácia do verídico será a independência, quero dizer: o começo por si mesmo.
A leitura comunicada é um sinal, talvez o mais facilmente impressionante, do amor ou desamor dos outros. Este sinal do alheio nos terrenos da solidão propende para, e estabelece, uma corrente magnética. É perturbante verificar que a solidão possui uma qualidade expansiva, estimula réplicas, ou seja: o exercício íntimo de certas forças movimenta-se para um écran, incita a um significado externo. O leitor é tido então como um cúmplice superlativamente adequado ao texto da solidão. Imagino que tal adequação suposta - advinda de que perícia, de que faculdade subtil para induzir experiências, de que estranho talento de receptividade? - implica logo a sabedoria inocente de aceitar como absoluto o universo da solidão, a incontrovertível razão de autor. Da indiscutibilidade dessa razão partiria o talento de fruir para o "amor inteligente". Mas, desde que se obste à total legitimidade da razão de autor, fere-se ao verídico, sua força e origem, a liberdade que se executa num largo mapa de pequenas liberdades contínuas. Porque o autor teria então de justificar tudo, a começar por si mesmo, pela sua veracidade, quer dizer: pela sua própria realidade. É que uma solidão, e a obra que faz e é, buscam as garantias de existir. E apenas isso.
É difícil viver entre a falsa inteligência alheia. Antes ser absolutamente ininteligível perante uma ininteligência senhora de si do que ser devorado pelas partes que os outros escolhem, em puro abuso, para satisfação da própria inteligibilidade, deles, estrangeiros.
Que facilidade sua os conduz à ilusão do seu próprio nome?
(Os destinatários são sempre outros).
O equívoco é só esse de confundirem a nossa dificuldade com a sua facilidade. E esta ilusão de suficiência é dramática: porque pode atrasar-nos na direcção dos destinatários verdadeiros. Quando se compreenderá que se trata de cumplicidade?
(Octávio Paz: sólo podemos hablar con verdad de aquello que nos inspira y apasiona.)"
Herberto Helder, Photomaton & Vox
24.2.09
23.2.09
era uma harpa um jarro e um casal de namorados
acordo é engraçado não entendo mas sonhei com teu quarto
éramos nenhum lá dentro de você lembro de tudo branco mas são as paredes quase amarelas
as memórias disse meu amigo dirigindo músico ao colocar contra o sol o óculos que lhe traz o passado
eu pelo menos devo estar sempre com essas lupas ou se bem que são luvas
de um tato pertinente e esvoaçado em se ter a lamber o próprio lábio
aprendi que o melhor modo de observar o céu é de uma cadeira giratória
o pescoço se recosta e ao contrário do mundo o pézinho dá o impulso
depois uma ferida sangra e eu agora tenho o hábito de passar o sangue em algum papel
caderno sulfite não importa eu guardo não sei bem onde quem sabe um dia a grande obra do meu sangue no papel nenhuma gota por poema não os poemas são mais limpos que o sangue e é o mínimo
sei que tenho um arquivo .doc com o nome de "gaveta" e dentro dele não há nada
agora depois vou lhe contar outra coisa acordo e fico vendo artistas e quem sabe é isso mesmo estão há anos luz dos poetas nós em galáxias tão medrosas e sabe 5.000 anos de escrita (é isso mesmo?) dão tanto a essa estante mas mesmo assim quando eu vejo as estrelas teimo mesmo em dizer que é a primeira vez que alguém pode, como eu, nomeá-las,
em segredo.
éramos nenhum lá dentro de você lembro de tudo branco mas são as paredes quase amarelas
as memórias disse meu amigo dirigindo músico ao colocar contra o sol o óculos que lhe traz o passado
eu pelo menos devo estar sempre com essas lupas ou se bem que são luvas
de um tato pertinente e esvoaçado em se ter a lamber o próprio lábio
aprendi que o melhor modo de observar o céu é de uma cadeira giratória
o pescoço se recosta e ao contrário do mundo o pézinho dá o impulso
depois uma ferida sangra e eu agora tenho o hábito de passar o sangue em algum papel
caderno sulfite não importa eu guardo não sei bem onde quem sabe um dia a grande obra do meu sangue no papel nenhuma gota por poema não os poemas são mais limpos que o sangue e é o mínimo
sei que tenho um arquivo .doc com o nome de "gaveta" e dentro dele não há nada
agora depois vou lhe contar outra coisa acordo e fico vendo artistas e quem sabe é isso mesmo estão há anos luz dos poetas nós em galáxias tão medrosas e sabe 5.000 anos de escrita (é isso mesmo?) dão tanto a essa estante mas mesmo assim quando eu vejo as estrelas teimo mesmo em dizer que é a primeira vez que alguém pode, como eu, nomeá-las,
em segredo.
- - -
22.2.09
III. (agora que sou sincera.)
esse agora é para o breno
e dessa vez não foi o rodrigo que me atendeu. porque toda vez que eu vou ao correio é o mesmo rodrigo que me atende. é sério. eu já vou lá e digo 'alou alou rodrigo', meio que rima, né? ele percebe, não me entende direito, não acha graça. não sei bem qual é o QI do rodrigo que no mais parece as patas de um urso ( ww ww ww ww) . mas, quando tive que sair de lá na chuva, na semana do meu aniversário, o rodrigo me deu um saquinho pra enrolar o celular novo. chovia tanto que eu mal conseguia abrir os olhos. sabe, os cílios são mesmo pára-brisas, mas a chuva era uma torrente. eu fui chutando a água nas sarjetas. de um cano de um muro a água jorrava cheia de barro e eu espalmando a mão na lectospirose. sou forte, e isso é antes de tudo. feel the sound. foi aí que me lembrei que eu havia acabado de enviar pelo correio um poema que falava daquilo mesmo, da chuva escorrendo doce pelos seios das minhas pernas - "janeiro"- e poxa,
po-xa aquele dia cheguei em casa e consultei o dicionário de nomes próprios pra saber o que significava "rodrigo" e sabe, não significava nada. mas hoje lá, eu na fila pensando, alou alou rodrigo, o envelope rosa na mão, o rodrigo que sabe que eu peço pra ele colocar um selo de cada, e apitou o guichê pra que eu tinha que ir segui daí alou alou elaine, nada de rodrigo hoje, gente. a elaine beicinho. perguntei quanto tempo pro prioritário ela me disse '7 dias' eu quase 'como assim gente quem é que mente pra mim então?' porque o rodrigo sempre fala um número maior que isso porque eu sempre pergunto, porque eu sempre sei mas eu sempre pergunto, sabe como é, fila-guichê-caixa, a gente faz o que pode. fiquei tão atônita que a elaine já tinha colado todos os selos antes de eu pedir 'ah põe um de cada' que esse é o tchubirubi de selar o envelope rosa-rosa com selos. ah elaine, viu. daí eu olho pro rodrigo e ele com aquela cara de que viu um elefante voando só que era um passarinho.
saio do correio meio feliz. parece que a chuva não é dessa vez. fico bem contente porque não quero me molhar, hoje não estava tão quente como da outra vez e minha volúpia bem mais na calada da gravidade do que aquele incendião da chuva de outro dia feito a bahia. são paulo minha gente é são paulo. que deus a tenha.
e não é que passo na frente da Quituteira onde sempre passo quando vou ao correio e nem cogito mesmo comer algum daqueles doces enormes porque sempre penso 'ok, delícia, mas e o tempo pra me recuperar disso depois?', sabe, eu ando muito pelas coisas, 'body and soul'.
ok. ok. ok.
é dessa vez. estou feliz. olho a bomba de chocolate. bomba de chocolate me lembra uma doceria de Pinheiros, Pinheiros me lembra jogar uma bomba na cabeça daquele traste! foi então ah minha gente apareceu na minha frente um merengue cheio cheinho de chantilly. lembrei de ontem, que de madrugada queria chantilly? delírio. toda essa vida que é só sorte. pedi pra moça embrulhar. contei pra ela que tive vontade de comer chantilly de madrugada. ela falou 'ahquecoisa' meio sei lá atrás do balcão, por que o povo se assusta com intimidade, né?, adoro susto. um dia saio por aí de vampiro mesmo, daí vocês vão ver.
capa encarnada amor na estrada imensidão na jugular
enquanto isso não acontece, cheguei em casa com o doce.

dá pra não ser sincera?
e pensei, ah, isso sim que é o livro dos prazeres já me retornando! sucumbi, o mais possível, aos risos, o chantillly me entrando pelos narizes chupando todos os dedos com todo o amor das baratas ao açúcar e, com as janelas todas abertas, foi um ato de amor. depois bebi a camomila e depois também um café. quando o tempo for propício. tua carta que não chega. essas saudades.
19.2.09
mememememe
o sérgio me passou o meme, de abrir o livro mais perto que tiver na página de número 161 e copiar a quinta frase completa.
bem, o livro mais perto de mim é o cântico maior atribuído a salomão, na versão de fiama hasse pais brandão, que acaba na página 35. tendo que partir para uma segunda opção, tenho dúvidas se o livro mais perto de mim é toda mafalda, do quino, que retiro de possibilidade pelos quadrinhos?, então, depois fico em dúvida se é o medo do al berto ou entrevistas com antónio lobo antunes. portanto, como primo pelo universo em expansão, vou colocar dos dois,
al berto, opto pelo quinto verso, pois não há pontuação:
"não consigo dormir com esta ferida"
lobo antunes:
"Mas, normalmente, um plano é uma folha assim grande e está lá tudo escrito".
pois, repassando a corrente da sorte, trevinhos para os cinco: marcos, noah, breno, quel, sabina.
bem, o livro mais perto de mim é o cântico maior atribuído a salomão, na versão de fiama hasse pais brandão, que acaba na página 35. tendo que partir para uma segunda opção, tenho dúvidas se o livro mais perto de mim é toda mafalda, do quino, que retiro de possibilidade pelos quadrinhos?, então, depois fico em dúvida se é o medo do al berto ou entrevistas com antónio lobo antunes. portanto, como primo pelo universo em expansão, vou colocar dos dois,
al berto, opto pelo quinto verso, pois não há pontuação:
"não consigo dormir com esta ferida"
lobo antunes:
"Mas, normalmente, um plano é uma folha assim grande e está lá tudo escrito".
pois, repassando a corrente da sorte, trevinhos para os cinco: marcos, noah, breno, quel, sabina.
14.2.09
13.2.09
amor
vim andando de muito longe, pensando, pensando
é para entre os rochedos e o mar que o amor se vai?
ou é na vida sem lógica sentimental dos peixes?
é para entre os rochedos e o mar que o amor se vai?
ou é na vida sem lógica sentimental dos peixes?
uma casa em que se tirasse as paredes e o ar caísse sobre nós?
9.2.09
suíça, parte iii
o rapaz de Singapura era fotógrafo e havia morado na Califórnia durante dois anos. o inglês dele me parecia incompreensível. me fez muita comida, batatas, arroz, tudo bem temperado para alguém doente. uma noite na cozinha contou para nós todos que sentia que finalmente voltava a acreditar na vida. um australiano skatista que andava pelas estradas dos alpes como se surfasse, brincou com ele, alguma bobagem, e ele disse que havia se recuperado de um tumor no cérebro raríssimo e que por isso tinha vivido na Califórnia em hospitais e - - - silêncio-.
o menino de Londres era padeiro, e tinha trabalhado durante três anos para conseguir viajar durante um mês pela Europa. era ele, o das massagens. o mais bonito entre os três. e desengonçado. todo dia de manhã quando acordava sentava num lótus com as costas curvadas demais, olhava as montanhas, respirava fundo, eu tinha vontade de rir. não com as piadas ambíguas pra cima de mim, que muitas vezes me deixavam constrangida. olha que não é fácil. e ficou bravíssimo quando lhe disse que entendia muito melhor o inglês do Brad do que o dele.
pois, o norte-americano era ruivo e tinha diabetes desde criança e me lembrava o weeks muito pela delicadeza com se entornar nos próprios braços. gostava de música, bob dylan, cocorosie, antony e música africana, nem lembro. ficou enlouquecido pelo araçá azul. trocamos as músicas graças que em cada cômodo havia uma caixa de som diferente pra ipods e afins , além de uma sala com (bons) livros nas estantes (até roubei um murakami em inglês) e violões a disposição de quem quisesse e jogos e enfim, esse hostel de gryon, foi o melhor que fiquei.
e era capricorniano de dois dias antes do que eu, então enquanto tomávamos muito chá, ele me corrigia sempre a temperatura da água não-fervente para o chá verde, e me explicava o que ia estudar no phd em harvard de biofísica e falando de cinema ele nunca nunca nunca havia ouvido falar em fellini. - - - - - - - - -
quando lhe contei a respeito da idade das minhas mãos, me disse que eu tinha que escrever um poema que dissesse aquilo das ranhuras das digitais. (ele nem sabe que escrevi numa primeira menção e se chama "arrumação") mas ficou assustado. sabe alguém muito sensível que não sabe que é muito sensível? então, saiu pra andar. e voltou horas depois, com flores campestres. ramalhetezinho pra mim.
era a última noite dele lá, teve uma festa, por acaso. os dois outros tinham ido embora na noite anterior. sobramos, eu e ele, que me bota um cat stevens pra tocar e me pergunta se eu conheço? eu tento dizer todas as madrugadas da adolescência na casa do duda em uma frase e ele me fala dos sonhos do obama 2009 de como tinha virado cientista de que queria era ser ativista na áfrica de que sei lá o que a caça das focas e ouve essa, sweet baby james,
se senta do meu lado. então, logo ali meu telefone que servia de relógio e lanterna, já que há semanas não se dizia nada, eram quatro horas da manhã na Suíça, o telefone vibra apita, faz uma festa de mensagem de texto, caminha pela mesa. eu tinha certeza que era minha mãe, confusa com o fuso. mas não era. compenetrada no meu "disso não espero mais nada", que surpresa palpitada. e ele me pede pra que eu leia a mensagem em voz alta, em português mesmo. li, tomada de felicidade, também de que só eu entenderia em quilômetros e que aquela palavra ecoando pelos Alpes e sorrindo ele me perguntou o que significava a última palavra e eu disse, há muitas milhas de lá e olhando pra ele, a última palavra de uma mensagem de texto - - -
o menino de Londres era padeiro, e tinha trabalhado durante três anos para conseguir viajar durante um mês pela Europa. era ele, o das massagens. o mais bonito entre os três. e desengonçado. todo dia de manhã quando acordava sentava num lótus com as costas curvadas demais, olhava as montanhas, respirava fundo, eu tinha vontade de rir. não com as piadas ambíguas pra cima de mim, que muitas vezes me deixavam constrangida. olha que não é fácil. e ficou bravíssimo quando lhe disse que entendia muito melhor o inglês do Brad do que o dele.
pois, o norte-americano era ruivo e tinha diabetes desde criança e me lembrava o weeks muito pela delicadeza com se entornar nos próprios braços. gostava de música, bob dylan, cocorosie, antony e música africana, nem lembro. ficou enlouquecido pelo araçá azul. trocamos as músicas graças que em cada cômodo havia uma caixa de som diferente pra ipods e afins , além de uma sala com (bons) livros nas estantes (até roubei um murakami em inglês) e violões a disposição de quem quisesse e jogos e enfim, esse hostel de gryon, foi o melhor que fiquei.
e era capricorniano de dois dias antes do que eu, então enquanto tomávamos muito chá, ele me corrigia sempre a temperatura da água não-fervente para o chá verde, e me explicava o que ia estudar no phd em harvard de biofísica e falando de cinema ele nunca nunca nunca havia ouvido falar em fellini. - - - - - - - - -
quando lhe contei a respeito da idade das minhas mãos, me disse que eu tinha que escrever um poema que dissesse aquilo das ranhuras das digitais. (ele nem sabe que escrevi numa primeira menção e se chama "arrumação") mas ficou assustado. sabe alguém muito sensível que não sabe que é muito sensível? então, saiu pra andar. e voltou horas depois, com flores campestres. ramalhetezinho pra mim.
era a última noite dele lá, teve uma festa, por acaso. os dois outros tinham ido embora na noite anterior. sobramos, eu e ele, que me bota um cat stevens pra tocar e me pergunta se eu conheço? eu tento dizer todas as madrugadas da adolescência na casa do duda em uma frase e ele me fala dos sonhos do obama 2009 de como tinha virado cientista de que queria era ser ativista na áfrica de que sei lá o que a caça das focas e ouve essa, sweet baby james,
se senta do meu lado. então, logo ali meu telefone que servia de relógio e lanterna, já que há semanas não se dizia nada, eram quatro horas da manhã na Suíça, o telefone vibra apita, faz uma festa de mensagem de texto, caminha pela mesa. eu tinha certeza que era minha mãe, confusa com o fuso. mas não era. compenetrada no meu "disso não espero mais nada", que surpresa palpitada. e ele me pede pra que eu leia a mensagem em voz alta, em português mesmo. li, tomada de felicidade, também de que só eu entenderia em quilômetros e que aquela palavra ecoando pelos Alpes e sorrindo ele me perguntou o que significava a última palavra e eu disse, há muitas milhas de lá e olhando pra ele, a última palavra de uma mensagem de texto - - -
7.2.09
durante muito tempo acreditei que tudo acontecia numa mesma repetição de padrões, semelhanças, que vinham das minhas referências do passado e confirmavam uma triste sina de ser mim mesma. gostaria de me apagar por completo. não sendo possível, não sei qual brilho começou em onde, mas hoje, quando no presente enquanto vivo se vejo alguma semelhança com o passado acredito que tudo veio antes daquele modo para que isso existisse.
se isso não se chama amor, tem nome de esperança.
se isso não se chama amor, tem nome de esperança.
suíça, parte ii
chego em Gryon. miro as montanhas e as casinhas e me pergunto, provincianamente reiterada na minha centralidade: estarei eu em campos do jordão? visconde de mauá? quase pedi ao homem da estação 'por favor, retire-me o cenário e dê-me a paisagem'. e o albergue ficava lá no alto.
a mochila pesando infernos, o cascalho debaixo dos pés, o vestido preto no sol ai ai ai. mas eu estava feliz, tanto, que colhi umas florzinhas enquanto subia a encosta. a mocinha da recepção me diz num sotaque bem texas que pagando por quatro noites, ganhava uma quinta. disse a ela que por enquanto eu achava que só ia ficar uns dois dias e tudo bem. subi ao quarto,

estou, mais uma vez, morrendo de fome. mas a felicidade de me entregar a uma cama de madeira clara na minha frente com um colchão com essa vista, larguei a mochila no chão, deitei de roupa e tudo, dormi. dormi de tênis, meu. não sei quantas horas. me levantei já eram quase 17h, pensei, vou até a cidadezinha comer. e fui. chego lá me indicam que só há um restaurante, que é o da estação. vou até a estação.
o homem me olha muito desconfiado e não gosta que eu fale em inglês. é bonito, o homem, moreno. me dá o cardápio, eu peço um prato, ele diz que não tem. diz que não tem nada daquilo aquele horário e que eu posso comer sorvetes ou sanduíches. peço um sanduíche e um chá verde, ele imediatamente com a comida me traz a conta e fica meio na minha frente olhando a paisagem e fumando um cigarro. como, uma delícia o sanduíche e a mostarda, mas praquela cara emburrada eu não agradeceria nunca. vou olhar a conta já contando o dinheiro e está escrito "chez ribeiro". ah não tive dúvida, olhei pro gajo e disse, em português:
"você é de Lisboa?"
a cara de espanto dele.
me responde, com dificuldade:
-não, sou do Alentejo. how do you know?
-pelo sobrenome e o bacalhau oferecido no menu do dia.
ele sorri e me diz
-brasileira.
-sim, são paulo.
-estás viajando só?
-sim. você mora aqui faz tempo?
-sim, há quinze anos caso. vivo suíça trinta.
a mulher vem de dentro, fala com ele em francês, olhando feio pra ele. pra mim sorri, dissimulando. e sai pra rua, com umas sacolas e um menino. ele diz
-desculpa, que não mais falar essa língua
sério. ele estava perdendo a língua. por dentro da boca dele sumiam as conjunções, conjugações, e ele botava, sem nenhum constrangimento, o ar entre as palavras. aquilo me prendeu o coração. a língua natural ser essa? e estar se apagando da memória? uau. ribeiro, o gosto pelo bacalhau não havias perdido (há quantas se engendra uma vida?)!
e vejo que teria mesmo de cozinhar no hostel. desço ao supermercadinho, falo meu francês ridículo com a mulher, e me esbanjo em comprar: vinho, chocolate, queijo. tudo suíço. é na hora de pagar no caixa que sinto a primeira pontada. na barriga, subindo pelo pescoço, aquele calafrio. penso: é o ar condicionado. subo a encosta quase morrendo, a vista ficando branca, deixo as coisas na cozinha e bem,
o banheiro o vitral do banheiro o jornal do banheiro
minha vida na suíça quase que foi só isso durante seis dias.
quase. porque penso: morri. morri na cama. dormi dormi dormi. pensei mesmo que eu estava muito numa má situação no alto do mundo na suíça longe de qualquer médico que não custasse uma fortuna. e a febre subindo. no revisteiro do banheiro o guia local diz 'doctor' call 'helicóptero'. gente, que nada é só uma gripe, tomei lá o remédio chinês errado. cápsulas chinesas funcionam, sabe? esquentaram-me tanto que meu deus, meudeus. acho que, de verdade, só passei tão mal quando tive pneumonia.
e já estava lá me vendo morta mesmo de pobre num helicóptero cruzando os alpes, acenando mãezinha em suíço quando noite alta entram meus vizinhos de camas no quarto. três homens. mais pra meninos, em fato. o brad de boston, o mark de london e o marcus de singapura. me percebem doente, e, durante quatro dias, me oferecem: chá, comida e massagem nos pés. -- - - é sério.
a mochila pesando infernos, o cascalho debaixo dos pés, o vestido preto no sol ai ai ai. mas eu estava feliz, tanto, que colhi umas florzinhas enquanto subia a encosta. a mocinha da recepção me diz num sotaque bem texas que pagando por quatro noites, ganhava uma quinta. disse a ela que por enquanto eu achava que só ia ficar uns dois dias e tudo bem. subi ao quarto,

estou, mais uma vez, morrendo de fome. mas a felicidade de me entregar a uma cama de madeira clara na minha frente com um colchão com essa vista, larguei a mochila no chão, deitei de roupa e tudo, dormi. dormi de tênis, meu. não sei quantas horas. me levantei já eram quase 17h, pensei, vou até a cidadezinha comer. e fui. chego lá me indicam que só há um restaurante, que é o da estação. vou até a estação.
o homem me olha muito desconfiado e não gosta que eu fale em inglês. é bonito, o homem, moreno. me dá o cardápio, eu peço um prato, ele diz que não tem. diz que não tem nada daquilo aquele horário e que eu posso comer sorvetes ou sanduíches. peço um sanduíche e um chá verde, ele imediatamente com a comida me traz a conta e fica meio na minha frente olhando a paisagem e fumando um cigarro. como, uma delícia o sanduíche e a mostarda, mas praquela cara emburrada eu não agradeceria nunca. vou olhar a conta já contando o dinheiro e está escrito "chez ribeiro". ah não tive dúvida, olhei pro gajo e disse, em português:
"você é de Lisboa?"
a cara de espanto dele.
me responde, com dificuldade:
-não, sou do Alentejo. how do you know?
-pelo sobrenome e o bacalhau oferecido no menu do dia.
ele sorri e me diz
-brasileira.
-sim, são paulo.
-estás viajando só?
-sim. você mora aqui faz tempo?
-sim, há quinze anos caso. vivo suíça trinta.
a mulher vem de dentro, fala com ele em francês, olhando feio pra ele. pra mim sorri, dissimulando. e sai pra rua, com umas sacolas e um menino. ele diz
-desculpa, que não mais falar essa língua
sério. ele estava perdendo a língua. por dentro da boca dele sumiam as conjunções, conjugações, e ele botava, sem nenhum constrangimento, o ar entre as palavras. aquilo me prendeu o coração. a língua natural ser essa? e estar se apagando da memória? uau. ribeiro, o gosto pelo bacalhau não havias perdido (há quantas se engendra uma vida?)!
e vejo que teria mesmo de cozinhar no hostel. desço ao supermercadinho, falo meu francês ridículo com a mulher, e me esbanjo em comprar: vinho, chocolate, queijo. tudo suíço. é na hora de pagar no caixa que sinto a primeira pontada. na barriga, subindo pelo pescoço, aquele calafrio. penso: é o ar condicionado. subo a encosta quase morrendo, a vista ficando branca, deixo as coisas na cozinha e bem,
o banheiro o vitral do banheiro o jornal do banheiro
minha vida na suíça quase que foi só isso durante seis dias.
quase. porque penso: morri. morri na cama. dormi dormi dormi. pensei mesmo que eu estava muito numa má situação no alto do mundo na suíça longe de qualquer médico que não custasse uma fortuna. e a febre subindo. no revisteiro do banheiro o guia local diz 'doctor' call 'helicóptero'. gente, que nada é só uma gripe, tomei lá o remédio chinês errado. cápsulas chinesas funcionam, sabe? esquentaram-me tanto que meu deus, meudeus. acho que, de verdade, só passei tão mal quando tive pneumonia.
e já estava lá me vendo morta mesmo de pobre num helicóptero cruzando os alpes, acenando mãezinha em suíço quando noite alta entram meus vizinhos de camas no quarto. três homens. mais pra meninos, em fato. o brad de boston, o mark de london e o marcus de singapura. me percebem doente, e, durante quatro dias, me oferecem: chá, comida e massagem nos pés. -- - - é sério.
5.2.09
suíça, parte I
antes estava em avignon em direção a encontrar com a anna em budapeste. portanto, entre uma pessoa e outra com quem queria estar, havia ainda a suíça e a áustria.
num cyber café gritante, em que a ilana ganhou umas cinquenta coisas de graça, escrevi para a anna, que eu ainda não conhecia, dizendo que iria me atrasar dois, três dias, porque avignon estava uma maravilha e ainda passaria algum tempo em zurich e viena. depois anna me escreveu dizendo que ia me matar, e eu, ligeiramente magoada, continuei com meus planos. depois fui entender a Hungria, com ela mesmo me dizendo que isso se dizia pra qualquer um.
então, cheguei de avignon em genebra, já sozinha. genéve. o primeiro controle de fronteira que passei por terra. paravam os negros, chicanos, indianos. meu passaporte brasileiro e essa cara branquela nem nada. das poucas situações em que um olhar é mais preocupante do que a falta dele.
estava, juro, o pior calor de todos. minha mochila pesava infernos. eu já havia deixado em madri um guia de viagem, quatro blusas, uma calça jeans. não sabia mais o que soltar. além do calor, andando pela avenida a caminho da estação até o albergue duas coisas me impressionaram de cara na suíça: a quantidade de árabes em carros conversíveis e as lojas de equipamento de caça exibindo rifles enormes nas vitrines, instrumentos de pesca e até um -isso, se não fosse o teclado esdrúxulo, eu quis muito- um laptop com gps e a prova d'água. imaginava-me anos depois, vestida toda de cáqui, os jacarés mastigando meu laptop wi-fi no pantanal e eu em cima do bote amarelo recuperando-o numa pescaria, intacto.
deixei o inferno das costas no albergue. é assim: felicidade é isso. era domingo, tudo tão fechado e quente, comi carne de porco num restaurante chinês com varanda, andei andei andei andei até a sala de concertos da cidade, fechada sentei-me numa escadaria e percebi que eu estava muito muito cansada. de um jeito assim que não me lembrava outra vez. ao lado um prédio de mármore branco muito antigo e dentro dele uma festa tocando salsa com gramofone em castelhano. um homem me acenou da janela. acenei de volta. ele saiu da janela como se viesse. levantei-me e fui embora.
no meio do caminho apareceram as papelarias de lápis de cor, os chocolates, o rio. fiquei embasbacada, o reno enorme, uma fonte no meio dele lançando o arco-íris, no sol turistas vermelhos comendo algodão doce, um parque de diversões instalado para bochechas em cada margem e os árabes passando com suas burcas e ferraris. fico vendo o reno. de repente, meu deus, CISNES. cisnes ao natural, embaixo da ponte, a água mais cristalina do universo.

agora que vocês entendem que não é mentira
vou mostrar como vi mesmo um pato nadando contra a corrente
(como na música do cazuza:
só pra exercitar
todo músculo que sente)

sábio patinho. me dê de presente seu bis.
além disso, me constrangia demais a riqueza daquele lugar. genebra foi dos lugares mais absurdos em que já estive. eu me lembrava tanto do sertão da bahia, mas estávamos na suíça, eu e o pato, um lugar onde eu nunca havia me imaginado antes, ainda mais com tanto calor. e os árabes muitos árabes mesmo. parecia quase que não havia suíços, eram todos vindos de outro lugar, migrantes, milionários e os rifles. passei na frente de um mc donald's entrei na fila fiquei indignada que justo na suíça os milkshakes fossem só de morango ou banana. e eu já estava lá, comprei um de banana, pra experimentar. aquelas coisas que você não deve fazer na vida, nunca. mas né,
voltei pro albergue, tentei descarregar umas fotos pra postar no flickr, a merda do computador perdeu umas vinte, eu estúpida havia apagado, sei lá, deu tudo errado, fui dormir e antes comi meia barra de chocolate suíço. no quarto fiquei conversando com duas meninas espanholas que me encantavam por dizer "pueblo" como "vilarejo" e depois não consegui dormir porque elas não paravam de falar. fazer o quê? mandei umas mensagens pelo telemóvel português, me lembro da luzinha, não do que escrevi.
acordei e pensei: que budapeste que nada! eu vou é subir pros alpes. e fui, pensando, passo lá dois dias, nessa vida o que é isso?, a anna que me espere e eu vi os alpes, vejam. abri o guia, e escolhi: gryon, porque era o menor vilarejo que se anunciava por ali.
e na estação de trem de genebra:

lia na minha frente enquanto ia fumando meu cigarrinho enrolado. estava fumando loucamente. loucamente mesmo. o tabaco tinha começado como uma participação aditiva em Lisboa, mas tinha virado uma centralidade de um passar de tempo. quem fuma ou já fumou, sabe como é. é bom pra cacete. eu não fumo. mas fumava ali, em genebra, aprendendo que a suíça tem o maior índice de suícidios com armas de fogo pelo mundo. por que será?
então, no trem, a caminho de bex, entrei no vagão errado, tomei bronca de estar na classe errada, conversei com uns coreanos - são tantos nesses trens os coreanos pela europa, depois conto um de veneza-
e quando consegui me controlar, joguei i ching vendo
a paisagem suíça no verão:

as crianças suíças no verão:

o pacifismo suíço no verão:

- - -
num cyber café gritante, em que a ilana ganhou umas cinquenta coisas de graça, escrevi para a anna, que eu ainda não conhecia, dizendo que iria me atrasar dois, três dias, porque avignon estava uma maravilha e ainda passaria algum tempo em zurich e viena. depois anna me escreveu dizendo que ia me matar, e eu, ligeiramente magoada, continuei com meus planos. depois fui entender a Hungria, com ela mesmo me dizendo que isso se dizia pra qualquer um.
então, cheguei de avignon em genebra, já sozinha. genéve. o primeiro controle de fronteira que passei por terra. paravam os negros, chicanos, indianos. meu passaporte brasileiro e essa cara branquela nem nada. das poucas situações em que um olhar é mais preocupante do que a falta dele.
estava, juro, o pior calor de todos. minha mochila pesava infernos. eu já havia deixado em madri um guia de viagem, quatro blusas, uma calça jeans. não sabia mais o que soltar. além do calor, andando pela avenida a caminho da estação até o albergue duas coisas me impressionaram de cara na suíça: a quantidade de árabes em carros conversíveis e as lojas de equipamento de caça exibindo rifles enormes nas vitrines, instrumentos de pesca e até um -isso, se não fosse o teclado esdrúxulo, eu quis muito- um laptop com gps e a prova d'água. imaginava-me anos depois, vestida toda de cáqui, os jacarés mastigando meu laptop wi-fi no pantanal e eu em cima do bote amarelo recuperando-o numa pescaria, intacto.
deixei o inferno das costas no albergue. é assim: felicidade é isso. era domingo, tudo tão fechado e quente, comi carne de porco num restaurante chinês com varanda, andei andei andei andei até a sala de concertos da cidade, fechada sentei-me numa escadaria e percebi que eu estava muito muito cansada. de um jeito assim que não me lembrava outra vez. ao lado um prédio de mármore branco muito antigo e dentro dele uma festa tocando salsa com gramofone em castelhano. um homem me acenou da janela. acenei de volta. ele saiu da janela como se viesse. levantei-me e fui embora.
no meio do caminho apareceram as papelarias de lápis de cor, os chocolates, o rio. fiquei embasbacada, o reno enorme, uma fonte no meio dele lançando o arco-íris, no sol turistas vermelhos comendo algodão doce, um parque de diversões instalado para bochechas em cada margem e os árabes passando com suas burcas e ferraris. fico vendo o reno. de repente, meu deus, CISNES. cisnes ao natural, embaixo da ponte, a água mais cristalina do universo.

agora que vocês entendem que não é mentira
vou mostrar como vi mesmo um pato nadando contra a corrente
(como na música do cazuza:
só pra exercitar
todo músculo que sente)

sábio patinho. me dê de presente seu bis.
além disso, me constrangia demais a riqueza daquele lugar. genebra foi dos lugares mais absurdos em que já estive. eu me lembrava tanto do sertão da bahia, mas estávamos na suíça, eu e o pato, um lugar onde eu nunca havia me imaginado antes, ainda mais com tanto calor. e os árabes muitos árabes mesmo. parecia quase que não havia suíços, eram todos vindos de outro lugar, migrantes, milionários e os rifles. passei na frente de um mc donald's entrei na fila fiquei indignada que justo na suíça os milkshakes fossem só de morango ou banana. e eu já estava lá, comprei um de banana, pra experimentar. aquelas coisas que você não deve fazer na vida, nunca. mas né,
voltei pro albergue, tentei descarregar umas fotos pra postar no flickr, a merda do computador perdeu umas vinte, eu estúpida havia apagado, sei lá, deu tudo errado, fui dormir e antes comi meia barra de chocolate suíço. no quarto fiquei conversando com duas meninas espanholas que me encantavam por dizer "pueblo" como "vilarejo" e depois não consegui dormir porque elas não paravam de falar. fazer o quê? mandei umas mensagens pelo telemóvel português, me lembro da luzinha, não do que escrevi.
acordei e pensei: que budapeste que nada! eu vou é subir pros alpes. e fui, pensando, passo lá dois dias, nessa vida o que é isso?, a anna que me espere e eu vi os alpes, vejam. abri o guia, e escolhi: gryon, porque era o menor vilarejo que se anunciava por ali.
e na estação de trem de genebra:

lia na minha frente enquanto ia fumando meu cigarrinho enrolado. estava fumando loucamente. loucamente mesmo. o tabaco tinha começado como uma participação aditiva em Lisboa, mas tinha virado uma centralidade de um passar de tempo. quem fuma ou já fumou, sabe como é. é bom pra cacete. eu não fumo. mas fumava ali, em genebra, aprendendo que a suíça tem o maior índice de suícidios com armas de fogo pelo mundo. por que será?
então, no trem, a caminho de bex, entrei no vagão errado, tomei bronca de estar na classe errada, conversei com uns coreanos - são tantos nesses trens os coreanos pela europa, depois conto um de veneza-
e quando consegui me controlar, joguei i ching vendo
a paisagem suíça no verão:

as crianças suíças no verão:

o pacifismo suíço no verão:

- - -
o amor atrás da porta
toda paixão é uma transformação. quando a gente morre através dela é que se vive, viverá. quem não vê ou cerceia isso, está perdido. é de rir dessas pessoas. eu mesma já usei muito a psicanálise contra mim mesma, contra instintos, desejos, mistérios. fico sempre muito tempo a querer dizer sim ou não, opondo realidade e ilusão. esses termos. tantos os matizes. em quantas se engendra uma consciência. hoje ando a meia-sombra, do lado ensolarado da rua mas no escuro das copas das árvores. sei quem sou muito mais: não defino bem.
mensagem pra lhe dizer: 'abraça uma andorinha. que vive em ti em você? se não fosse o coração dos animaizinhos eu estava tão sozinha, então escuta, tão rápido e: a explosão da tua alegria é lindo. e depois fico pelo buraco da porta a espiar que ninguém sobe a escada. encosto abertas as palmas da mão. me calo. a madeira respira por mim. não, não é a causa da Andorinha. abrace a própria. a porta, a andorinha, a longitude. há corpos de madeira e no nosso há de ter carne com a carne. escolhemos? repito: a explosão da tua alegria é lindo. com instintos farejam e comem nossos medos em equações. sobram os ossinhos do medo entre as ervinhas. com eles fazemos um relicário em cetim cor-de-rosa, pousamos juntos aos nossos pés, aliados.'
mensagem pra lhe dizer: 'abraça uma andorinha. que vive em ti em você? se não fosse o coração dos animaizinhos eu estava tão sozinha, então escuta, tão rápido e: a explosão da tua alegria é lindo. e depois fico pelo buraco da porta a espiar que ninguém sobe a escada. encosto abertas as palmas da mão. me calo. a madeira respira por mim. não, não é a causa da Andorinha. abrace a própria. a porta, a andorinha, a longitude. há corpos de madeira e no nosso há de ter carne com a carne. escolhemos? repito: a explosão da tua alegria é lindo. com instintos farejam e comem nossos medos em equações. sobram os ossinhos do medo entre as ervinhas. com eles fazemos um relicário em cetim cor-de-rosa, pousamos juntos aos nossos pés, aliados.'
isso porque agora entendo o homem da festa de Paris exclamando para a namorada: "o amor é uma guerra!?! é sim, mas é uma guerra que se luta junto." e ela, que era mexicana, quase atirou um vaso na cabeça pra que ele ficasse quieto, e lhe deu uma bebida, um beijo estalado, e disse "basta de filosofia". riram. isso foi na casa da menina que tinha o mesmo poster do que eu, esse aqui na porta, xxxxxx se chamava ela. e me disse que por amor nunca tinha acreditado que faria uma coisa daquelas, viver em San Diego com um bibliotecário surfista,
amor por amor por amor por
a explosão da tua alegria é lindo,
no mais, deixa doer mesmo e continua sempre alegre. o lado escuro do ensolarado, se lembra? o nariz que sangra. desconfia de si mesmo, mas afirma. quer o que quer, mas esquece.
fico tanto sem escrever às vezes que tenho que dizer essas bobagens diretivas. é a falta de auto-contato. se bobeio um dia, pronto, tomaram-me os de fora,
no mais, deixa doer mesmo e continua sempre alegre. o lado escuro do ensolarado, se lembra? o nariz que sangra. desconfia de si mesmo, mas afirma. quer o que quer, mas esquece.
fico tanto sem escrever às vezes que tenho que dizer essas bobagens diretivas. é a falta de auto-contato. se bobeio um dia, pronto, tomaram-me os de fora,
31.1.09
conclusão
Ana Cristina escreveu
Te apresento a mulher mais discreta
do mundo: essa que não tem nenhum segredo
deitada para um céu estrelado
a garganta aberta para cima
repetiu-se duas vezes sorrindo
Te apresento a mulher mais discreta
do mundo: essa que não tem nenhum segredo
Ana Cristina riu. Feliz, era Ana Cristina.
Te apresento a mulher mais discreta
do mundo: essa que não tem nenhum segredo
deitada para um céu estrelado
a garganta aberta para cima
repetiu-se duas vezes sorrindo
Te apresento a mulher mais discreta
do mundo: essa que não tem nenhum segredo
Ana Cristina riu. Feliz, era Ana Cristina.
29.1.09
2008
janeiro
na ilhota maré baixa dou um grito pelo celular. minha mãe tenta cuidar de mim. tento isolar minha mãe de mim. escrevo a raiva valentine e bob dylan gritando contra a maré baixa. um caranguejo embaixo da minha cama. um rato cai por cima de mim uma noite. esse lugar é tão bonito que só pode ser o inferno. na chuva que me retira do quente encontro-me "silencio tudo aquilo que do meu coração não parte". ando ando. tenho muito medo de voltar no escuro da noite sem lua. nado nado.
fevereiro
escrevo que é uma maravilha. quem me toca toca quem não toca eu na toca. tudo calmo. gosto do corpo do homem do gato da casa do verão da cidade do adeus.
março
abril
maio
planejamentos de viagem. escrita do romance, a história do antonio como uma cela de se prender trepadeiras com jasmins. gosto demais disso. gosto mais.
junho
abandono o país.
dezembro
a única coisa que me interessa é ir ver o mar.
na ilhota maré baixa dou um grito pelo celular. minha mãe tenta cuidar de mim. tento isolar minha mãe de mim. escrevo a raiva valentine e bob dylan gritando contra a maré baixa. um caranguejo embaixo da minha cama. um rato cai por cima de mim uma noite. esse lugar é tão bonito que só pode ser o inferno. na chuva que me retira do quente encontro-me "silencio tudo aquilo que do meu coração não parte". ando ando. tenho muito medo de voltar no escuro da noite sem lua. nado nado.
fevereiro
escrevo que é uma maravilha. quem me toca toca quem não toca eu na toca. tudo calmo. gosto do corpo do homem do gato da casa do verão da cidade do adeus.
março
abril
maio
planejamentos de viagem. escrita do romance, a história do antonio como uma cela de se prender trepadeiras com jasmins. gosto demais disso. gosto mais.
junho
abandono o país.
dezembro
a única coisa que me interessa é ir ver o mar.
28.1.09
27.1.09
26.1.09
II. (agora que sou sincera.)
dormindo sonhei que alguma coisa ia dar certo. sonhei que eu ganhava dinheiro pelo meu trabalho e ficava muito contente de poder pagar as contas atrasadas. além disso eu saia pela porta da frente do meu prédio e o sol se punha na linha do horizonte. não tinha os duzentos-e-noventa prédios que tapam tal visão. no mais, eu quero um cavalo e um navio, pra ser feliz.
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agora que sou sincera´,
música é o que mesmo quero
I. (agora que sou sincera.)
ontem às 4h da manhã estava escrevendo cartas e conversando sobre diários e a ladeira-abaixo-que-anda-o-flickr, a ilana me mostrou isso aqui. depois de ver e calar, com uma vontade fatal de tomar outro café e comer chantilly, com a certeza de que em algum lugar da cidade haveria um balcão aberto servindo ambas as coisas, pensei que era um pouco caprichosa demais em sair com um táxi pra comer chantilly sozinha e não-grávida e disse a ela que ia tentar dormir, porque, como acordar tem sido que só lembro dos negativos, tenho evitado cada vez mais a hora do sono.
eu fazia muito isso quando era criança, dizia que tinha medo de dormir, assim como nunca saia no jardim quando era noite de lua cheia, por medo de que ela tombasse sobre as cabeças. meu pai me contava a história da Odisséia, longa história que nunca acabará e me ensinava relaxamentos, ele mesmo, que só dorme 5 horas por noite com seus ombros duros. e hoje me pergunto: o medo que me lançava, será que era por isso? será que era não pelo dormir e o apagar, mas por essa sensação de que acordar é sonhar e dormir é descrer? e que, portanto, o sono me entrega a uma re-atualização constante na hora de acordar?
estava pensando nisso já na cama. o som dos ônibus que começam a circular na rua me acalma. posso me concentrar em algo que não seja o silêncio do domingo para a segunda. deixo o otávio paz de lado, apago o abajour itinerante (é o único que funciona e vai comigo para o cômodo em que estou) e resolvo dormir. minha cabeça dispara. textos textos textos. homens homens homens. de repente vejo, realmente, um homem de costas e todo de branco acendendo uma vela sobre a cômoda da minha sala. levanto apavorada. quando chego na sala percebo que a cômoda não está no mesmo lugar que na imagem que vi. tento me lembrar se ela já esteve em outro lugar. se alguma vez algum homem todo de branco já esteve aqui. me sento no sofá. espero o dia clarear. então volto a cama e consigo dormir.
eu fazia muito isso quando era criança, dizia que tinha medo de dormir, assim como nunca saia no jardim quando era noite de lua cheia, por medo de que ela tombasse sobre as cabeças. meu pai me contava a história da Odisséia, longa história que nunca acabará e me ensinava relaxamentos, ele mesmo, que só dorme 5 horas por noite com seus ombros duros. e hoje me pergunto: o medo que me lançava, será que era por isso? será que era não pelo dormir e o apagar, mas por essa sensação de que acordar é sonhar e dormir é descrer? e que, portanto, o sono me entrega a uma re-atualização constante na hora de acordar?
estava pensando nisso já na cama. o som dos ônibus que começam a circular na rua me acalma. posso me concentrar em algo que não seja o silêncio do domingo para a segunda. deixo o otávio paz de lado, apago o abajour itinerante (é o único que funciona e vai comigo para o cômodo em que estou) e resolvo dormir. minha cabeça dispara. textos textos textos. homens homens homens. de repente vejo, realmente, um homem de costas e todo de branco acendendo uma vela sobre a cômoda da minha sala. levanto apavorada. quando chego na sala percebo que a cômoda não está no mesmo lugar que na imagem que vi. tento me lembrar se ela já esteve em outro lugar. se alguma vez algum homem todo de branco já esteve aqui. me sento no sofá. espero o dia clarear. então volto a cama e consigo dormir.
e algum veneno anti-monotonia
isso aqui anda uma mentira. estou mesmo escondendo o jogo. eu não tenho ninguém. lembro-me do dia que larguei a análise. tenho sonhado muito com as escolas que estudei. fui para tua casa e chorei. era pra ser uma proposta de entendimento e ele entendeu tanto. colocou a mão no meu rosto, cada gesto. e foi cada um prum lado. sábado passado vi duas árvores dançando de um jeito o corpo-tronco delas que éramos nos dois. nas folhagens. desde então voltei a abrir o vento pelas janelas. no drama ela diz arrasto todos os móveis da casa. não lembro mais. curtos impulsos. acredita em mim.
24.1.09
amor
tu tu tu tu tu tu tu tu tu
tu tu tu tu tu tu tu tu tu
tu tu tu tu tu
tu tu tu tu tu
tu tu tu tu tu tu tu tu tu
tuututututututututututuuuuuuuuu
tu tu tu tu tu tu tu tu tu
tu tu tu tu tu
tu tu tu tu tu
tu tu tu tu tu tu tu tu tu
tuututututututututututuuuuuuuuu
22.1.09
21.1.09
25 anos
este aniversário ganhei bons presentes por todos os lados
estou muito feliz com todos eles e muito agradeço para todos pelos:
caderno rosa, as canetas gostosas (e o lápis de oncinha de pelúcia), o poema da página cortada, um disco com guia de texto escrito especialmente pra mim de "como aprender a gostar de beach boys", outras músicas muitas, um ramo de arruda, um poema meu composto em música, um pé de pimenta, um celular, um gravador de fitas cassete, um colar-terço rosa-queimado, herberto helder, aquarela, horizonte, kundera, g. stein, lobo antunes, e. jünger, um pão e um bolo de banana e um disco grego e um oráculo de origami, um vaso para flores portátil, flores e muitas flores, uma bandeja de cozinha, um cheque; tudo muito bom, tudo muito bem, tudo muito sensível a pessoa que tenho sido,
agora, se alguém ainda não me deu nada e está pensando nisso, o que eu quero mesmo é isso aqui
estou muito feliz com todos eles e muito agradeço para todos pelos:
caderno rosa, as canetas gostosas (e o lápis de oncinha de pelúcia), o poema da página cortada, um disco com guia de texto escrito especialmente pra mim de "como aprender a gostar de beach boys", outras músicas muitas, um ramo de arruda, um poema meu composto em música, um pé de pimenta, um celular, um gravador de fitas cassete, um colar-terço rosa-queimado, herberto helder, aquarela, horizonte, kundera, g. stein, lobo antunes, e. jünger, um pão e um bolo de banana e um disco grego e um oráculo de origami, um vaso para flores portátil, flores e muitas flores, uma bandeja de cozinha, um cheque; tudo muito bom, tudo muito bem, tudo muito sensível a pessoa que tenho sido,
agora, se alguém ainda não me deu nada e está pensando nisso, o que eu quero mesmo é isso aqui
19.1.09
um pedaço para não partir
em Amsterdam um dia em julho segui um rapaz mais novo durante horas. por ser atrás, lembro mais da mochila dele do que do rosto. sei que era moreno, não-alto, cabelos lisos, magro e tinha os ombros daqueles que se encontram para o centro do peito. agora, a mochila era uma eastpack, ou jansport, azul-marinho, como a camiseta. essas coincidências que a vida nos dá -para quem está atento, disse-me uma vez um josé miguel- três dos homens que amei usavam uma mochila dessas e dessa cor. ele não foi um quarto.
a solidão me encantou como se eu fosse a fumaça do cigarro que às vezes ele acendia e me carregava pela trilha a leveza com que andava, me colocando um ritmo de humildade fora do espaço da desbravadora num país tão estrangeiro como é a Holanda. Eu não podia falar com ele. era o desconhecimento que me encaminhava. e não queria mais nada de nós dois que não fosse esse amor dilatado por se deixar ir. e como explicar que ele fez o mesmo caminho por muito tempo? andava em círculos! expressão precária. na quarta vez em frente a uma loja de chocolates, entrei. imagino que se tivesse esperado quinze minutos, ele por ali re-apareceria. mas o chocolate negro ali foi o melhor da minha vida e mudei de rumo?
não. cravada com os olhos na nuca, e ele nunca olha para trás, mas todas as vezes que me faço ver, ele me vê. perto das tulipas, ele me viu diretamente. embora tenha a garantia de que não percebeu a perseguição, confesso que seus olhos tinham sustos comigo.
não. cravada com os olhos na nuca, e ele nunca olha para trás, mas todas as vezes que me faço ver, ele me vê. perto das tulipas, ele me viu diretamente. embora tenha a garantia de que não percebeu a perseguição, confesso que seus olhos tinham sustos comigo.
pois, na verdade, eu ainda o sigo.
e ainda tenho certeza de que a língua que lhe era mais natural, era o português.
- -
falando em Holanda
e esses conhecidos
todo mundo lendo a Angélica, vamos
17.1.09
amor
faz muito tempo que tenho perto
da minha casa escrita
a palavra "airplane"
foi só essa semana que fui lá
ao lado e escrevi "duração",
da minha casa escrita
a palavra "airplane"
foi só essa semana que fui lá
ao lado e escrevi "duração",
12.1.09
25 anos
*
(os diálogos)
(os diálogos)
Mandaram-me fazer um electro-encefalograma para ver como ia o meu ritmo alfa. Eles tinham desconfianças, falavam de estados crepusculares. Divertido. Não havia estados crepusculares, o ritmo alfa estava óptimo. E cumprimentavam-me muito. "A sua cabeça é sólida." Bem, eu tinha uma cabeça sólida. Era uma coisa alegre. Encontrei-me algumas vezes ainda com o psicanalista. Nessa altura ele interessava-se particularmente pelo Apocalipse. Falávamos durante horas sobre a besta com a grande prostituta escarlate assentada entre os cornos, sobre os cavalos, os sete candelabros e os terríficos gafanhotos de rosto humano e cabelos longos como os das mulheres. Eu saía do consultório fervendo de inspiração. Escrevi enormes poemas apocalípticos e o psicanalista pôs-se a examiná-los. Foi um bom tempo. Mas eu tinha uma cabeça sólida, um belo ritmo alfa. Então, com a minha sólida cabeça, comecei a pensar na morte. Estudei os melhores venenos em livros da especialidade, as mais subtis combinações de drogas e, com receitas que arranjava entre os médicos amigos, organizei uma boa colecção. Gosto da palavra suicídio. A freqüência dos is como golpes, as duas sibilantes e a última consoante, malignamente dental, fascinam-me. Mas bastava-me o prestígio da palavra e o jogo de coleccionar comprimidos mortais. Como alegria, imaginei alguma coisa: Uma cidade marítima com torres brancas, espancada pela luz, e navios que saíam das águas vibrantes para todas as partes. Havia uma árvore sumptuosamente inocente no meio da cidade. Na primavera cobria-se de espinhos e dava flores monstruosas cor de púrpura. As mães não deixavam as crianças brincar perto da árvore. Durante dias e dias a luz espancava a cidade. Nada havia a fazer com as minhas metamorfoses interiores. Vagueava pelas ruas e entrava em todos os bares. Os bêbados formam uma maçonaria. Andávamos pela cidade à procura uns dos outros, bebíamos no meio de inextricáveis conversas. Um deles disse-me que eu tinha um espírito religioso. Gostei, ficámos amigos, passámos a beber juntos falando do espírito religioso. "Também sou um espírito essencialmente religioso", disse-me ele uma noite, quando já nos movíamos como batráquios num pântano de cerveja. E eu confessei que minha juventude fora uma viagem violenta e fulminante através de medos e alegrias brutais. "Estive no meio do escuro, não podia dormir. Ou tremia apenas do júbilo de ter um corpo, uma voz, de viver entre luz e chuva e grandes nuvens sobre os campos." O costume. Comecei a estar farto. Enfim, uma pessoa não se embebeda somente para as miúdas perversões da memória, para a obliquidade de invenções avulsas, a trivialidade dos equívocos da emoção. Chateia-me ser um pequeno monstro sensível. "Merda", disse eu, "tenho uma cabeça sólida. Não me vou deixar apanhar por tentações biográficas, a memória, os mitos que as culturas, marginais ou não, parecem querer que eu adopte. Não sou um símbolo da imaginação alheia." "Bebe", respondeu o amigo. "Não bebo mais, estou farto, vou-me embora para um lugar onde ninguém me mexa nem eu me possa mexer muito, estou cansado de me mexer." Depois apareceram as pessoas que ajudam, que têm planos para a nossa glória. Comecei a ter medo. Então fiz a mala. "Merda, merda, merda", sibilava baixinho. Esta é realmente a minha embaraçosa chegada a maturidade. Não serve para espetáculo, nem dá nada como exemplo ou símbolo. Tenho de inventar a minha vida verdadeira.
Herberto Helder, Photomaton & Vox
- - -
Herberto Helder, Photomaton & Vox
- - -
8.1.09
holograma
alguém está armando comigo é como se dos prédios vizinhos me iluminasse com um espelhinho de blush fazendo reflexo entre meus olhos. será o amor? será o que ser. de repente percebo é o vento que ilumina meu rosto levanta uma preto e branco, clarice no mural mal amurada e é por isso que a luz em vez de amarela vem prateada
amor
mas não adivinhei se a tua letra é sempre como está no caderno
porém, não era pra dizer isso! é que eu não sinto mais
essa luta de romper assim não agora eu sinto mesmo
é como se escrever fosse um pássaro que voando no mato
se desviasse por dentro das árvores
porém, não era pra dizer isso! é que eu não sinto mais
essa luta de romper assim não agora eu sinto mesmo
é como se escrever fosse um pássaro que voando no mato
se desviasse por dentro das árvores
4.1.09
reveillon ou poética
my love
will turn
you on
will turn
you on
sei que posso ser salsugem na margem de outro
ou rabugem em mim que isso lá é mentira de poeta
então estalo os dedos, por favor, anjo surdo
traga-me outra fumaça
dê-me outra maneira
de adivinhação, fúria e máscara
quem sabe pintura, esgrima
carruagem ou esquadro
ou tipo um tipo de tirar
palavras num amigo-secreto
quem perder primeiro o dadá-
me a roupa que me ganha
num estouro de borbulhante
de primeiro o ano beba, babe
na boca, mergulho no mar
feito um gargalo de garrafa se
abrindo o peito enquanto engulo
toda a sua vaga, enamorado.
ou rabugem em mim que isso lá é mentira de poeta
então estalo os dedos, por favor, anjo surdo
traga-me outra fumaça
dê-me outra maneira
de adivinhação, fúria e máscara
quem sabe pintura, esgrima
carruagem ou esquadro
ou tipo um tipo de tirar
palavras num amigo-secreto
quem perder primeiro o dadá-
me a roupa que me ganha
num estouro de borbulhante
de primeiro o ano beba, babe
na boca, mergulho no mar
feito um gargalo de garrafa se
abrindo o peito enquanto engulo
toda a sua vaga, enamorado.
3.1.09
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