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5.11.09

uma crônica que me aconteceu mesmo ontem e eu resolvi anotar

eu aqui também moro em frente dum supermercado. e é importante dizer "super" porque se não em Portugal "mercado" é o que no Brasil se chama de "feira". pois então, fazia uma semana que eu não ia ao super. estava com as costas doendo e mal humorada. cheia de tristeza, de saudade, de dúvida e medo. e, principalmente, de saco cheio de tantos afazeres domésticos que, pensava eu, me emperravam o desejo de ir ao cinema, estudar, começar uma nova pesquisa na biblioteca, sei lá, andar até um miradouro qualquer e olhar o Tejo indo pro mar. mas fui lá, leite, ovos, espinafre, arroz, essas coisas. evitei o chocolate que sabia que melhoria meu humor, mas depois? é um respeito. que vontade de comer goiaba.

tava meditando que de novo comprava o trident tropical mix já no caixa quando um senhor de uns 90 anos se aproximou vindo da rua de bengala, naquele ritmo de passo a passo, vestido de fato xadrex em marrom, velocidade de 1/4 de metro por minuto e falou baixinho com o caixa, que nem pra ele olhou. carregava uma nota fiscal e uma embalagem de chocolate em pó fechada. passaram as minhas coisas na frente dele, os códigos de barra apitando e o senhor cabisbaixo esperando. quando terminaram com aquilo tudo o senhor finalmente se aproximou do menino do caixa e disse o que lhe acontecia

que ele ao chegar em casa conferindo a nota tinha percebido que aquele pacote de chocolate não tinha sido pago e que ele estava lá pra resolver isso. o gajo do caixa se enrijesceu todo daquela demonstração e muito duro sem nem olhar pra idade do homem nem nada passou o chocolate no apitador de barras e disse

-são 89 céntimos.

o senhor abriu o moedeiro com as mãos tremendo e moeda a moeda pagou. eu me retirei para casa enquanto a compra se finalizava. pensei? não. só me doí.

**
o que é que me doeu?


****.

19.10.09

caixas

foi no ano que eu mudei de casa. era cavalar. tudo múltiplo e inacabado. passei 3 meses pulando nas casas da família que podia me receber. agora tenho medo de te telefonar. deixei minhas coisas na menorzinha, no mato, que quando eu falava com algum europeu dizia "mato" se era latino-americano "campo", só pra averiguar a diferença. acontece que eu sou baiana.

quando abri a caixa, de primeira vez, falava-se que seria duro e um canto sem canto. escolhia o que levar, o que ficar pra trás. a segunda caixa o inverno tinha meus sapatos mofados de verde. eu entendi como um recado, nesse meu ano de dois outonos-e-invernos que a primavera é a minha grande expectativa em 2010. o inverno não é brincadeira não. a terra toda se vai mesmo pra dentro dela mesma.

hoje aqui chegou o outono, parece. andei por aí e tinha cor de europa no eutono. as folhas caídas no chão secas, o vento, o branco ficando cinza. é preciso encontrar o amor e aquecê-lo. ficar bem magra pra não adoecer. ter gordura o suficiente pra não enlouquecer.

e as minhas coisas todas naquelas caixas de papelão ficaram pra lá de mim. como pode um corpo, de repente, ter que não precisar de nada?

aqui em Lisboa sinto falta dos meus amigos de anos, dos meus gatos e dos meus livros. o curioso é que estão vindo do Brasil minha obra completa do Herberto Helder e também a do Al berto, ao passo que me encontro em não lê-los no momento. pensei em pedir emprestado um ou dois, mas seria o disco novo tocando parado. os livros que já são meus ainda não são meus. e o correio me faz esperar. todo dia por volta do meio-dia uns miúdos tocam a campainha. moro no 3o andar sem vista pra rua e o interfone não funciona. é claro que não desço. e penso: meus livros ah meus livros?... abro a caixa da correspondência e já me chegaram 3 cartas de aventura ultra-mar, que mais eu posso querer? os livros, ah os livros.




*

agora voltei a olhar as coisas e as pessoas e a pensar em histórias, compor narrativas.

comecei a contar pra mim mesma ontem quando voltei pra casa a composição de um poema até começar a comer / a satisfação do estômago sossegou meu vocabulário farto.

e
acho que o "cantos de estima" acabou. embora em mim nunca.

17.10.09

dessa vez ainda não morri

dias atrás a insipidez lírica do meu olhar sobre as coisas fazia me sentir num conto da virginia woolf, pelas superfícies tomadas, as casas, os campos de trigo (se trigo houvesse), os jarros sobre a mesa na parede de veludo, se parede houvesse.

virginia não me visita essa noite.

levanto-me de pronto, é escuro. dei um grito porque voava sobre mim um lençol. me acontece de meses em meses. o remorso dos vizinhos não me impede de dormir.

encanto-me pelos poetas que são oratórios. encanto-me pelos poetas que são proféticos. não gosto dos poetas que falam como deus, ou por ele. gosto dos poetas na terra enterrados, que falam na altura do trigo, se trigo houvesse.

o que foi gerado e entre o que ainda está pra se gerar teve um branco feito lençol. multi ação sem cores. televisão que nutre pra aumentar o realce. fiquei calada. calada. Inês, tão linda, me olhava no carro e dizia "não vês?". eu queria sorrir para Inês, mas era o corpo que me impedia. o corpo como uma fronteira entre mim e mim mesma. e a gente subia por Alfama no carro. e eu em mim mesma fundia.

eu não existia. não sei se isso já lhe aconteceu. mas desde que cheguei, além duma fundura invisível que não me alcança, eu deixei de existir. ontem só que percebi que estou precisando contar os passos. um pra lá de adiante, pra cá e depois, sim. não, não tropecei, nem caí. foi a lua.

depois eu fui a praia, com o B. e descobri o mundo inteiro de tons azuis. o mar, o calção do menino muito loiro que corria de óculos de natação, a coleira do pastor alemão. se bem que de perto era verde o mar com Tejo. sobre o pastor dormia um rapaz. e um surfista da bunda linda se alongava ao lado duma geladeira. eles ali jogavam gamão. o B lia Llansol e eu Pessoa. o B foi pular na água gelada e eu entrei pra dentro de um telefonema, e para animá-lo, eu descobri como descrever o mundo por fora.

quando o B voltou pensamos em disputar com umas alemãs umas mangas e também o Nívea Sun. mas elas usavam óculos escuros, nós não. nós estávamos olhando pro sol. eu senti frio antes. voltamos pra Lisboa e tudo que eu vivo tinha sossegado.

*

são uns dentes tortinhos, sorrir seu, meu desejo.

5.9.09

revolution 9

em novembro do ano passado, em São Paulo, escrevi isso daqui: a respeito de um passarinho. isso realmente me aconteceu, o passarinho vôou para cima da minha janela e ficou preso. o que eu contei em um e-mail, mas não contei no post, nem no texto que virou poema do "cantos de estima" foi que na hora em que isso aconteceu, eu estava ouvindo um fado muito famoso chamado "gaivota", que começa é assim:

se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa

e de repente pá, um filhote de tico-tico acertou minha janela e se prendeu nas frestas. além da ironia, foi uma angústia sem fim de umas 15 horas, até o momento da libertação dele. e depois a sensação de que pra ele tudo tinha se resolvido, mas pra mim não.

ontem cheguei muito tarde do Bairro Alto, aqui na minha nova casa em Lisboa, onde estou faz 4 noites. e tive que acordar cedo porque vieram fazer uns orçamentos de consertos de coisinhas. da casa. com isso feito, almocei (o primeiro almoço que aqui preparei e que, como sempre, me faz muito bem), comi mesmo gostoso e voltei a dormir. acordei várias vezes, tendo uns sonhos altos (é muito bom que desde que não fumo voltei a sonhar) e sempre na dúvida de se queria levantar ou não pra viver o lindo azul e quente lá fora.

então acordei faz meia hora com um bater de asas, dessa vez entre a janela de vidro e a de madeira e quando desacreditando e sonolenta abri a de madeira, saiu voando um pássaro que ficou um pouco de tempo sem entender nada, atravessou o quarto voando, quase bateu na parede e saiu pela outra janela, que estava aberta. agora não estou mais só, sou livre, tenho o passarinho.

19.6.09

doce dedo doce

até hoje eu tive dois namorados, um romance que eu pensava que era um caso e um amor. tenho meia dúzia de pessoas pelas quais eu morreria numa lança que se jogasse em frente deles. meu projeto é coletivo 12 exemplares. sempre fui solitária.

nunca nada me interessou na vida que não fossem as relações. digo: eu nunca botei a cabeça em nada mais do que isso. digo: eu sou isso desde que eu nasci. daí hoje parei vendo as formigas. depois comi mais uns trevinhos de três folhas porque quando eu achar de quatro tenho que guardar pro meu sobrinho chinês que me chama de tia maluca.

eu morro de curiosidade de um dia adentrar nas coisas. por enquanto eu fico olhando olhando. hoje fiz de um vaso uma mesa. também sei subverter e não arrancar a grama. uma coisa que eu não acredito mais é 'n'Outro. essa gente que fica predispondo-se a pensar Um Outro nunca vai amar a ninguém.

eu quero mais é que a fluidez me centrifique.

- -

eu fico sonhando com crianças vestidas de branco
numa cidade também branca e um rio lilás
quando eu chegar lá vai ser lua cheia

desde então o mundo é todo uma sensualidade
me enrosco nas cores e inflando os lábios
estou

nas formas.
- -

essa noite sonhei que eu ia visitar a casa dos pais dele
e andava pela estrada que leva ao se fujo só dou em mim
mas a estrada não dos mortos, mas do gUi
na foto é o pai dele.

- -

agora que eu sou sincera, também, reloaded.
por quê?
porque ainda bem
tem
e não acabou.


- -

um físico indiano sendo entrevistado [parece piada de português: http://www.youtube.com/watch?v=xlQiy5ySQl0] vi uma vez na tv fechada, perguntou o repórter:

- como é ser um gênio?
- não acreditamos nisso. são uma série de insights de muitas pessoas que provocam uma equação clara para mim.
- o contato com a comunidade científica
- também. mas um homem cuidando de suas cabras pensa quê...

eu já não me lembro mais.

mas era o físico antena da raça
poeta é satélite
e só quer me amar



ps, cosmologia é o bagulho.

6.6.09

o que me atravessa feito faca entre o ventre tua astúcia
se eu quisesse me desprogramar era uma de estudar astronomia
mas gostei mesmo foi que hoje era o dia de não estar frio e poder sentar pra ver a lua
e justo mesmo tá cheio de nuvens a noite branca branca. jabuticabas não me pertencem. descobri porque tenho sorte de nascença - como é bom ter internet!- a flora estava comendo as graminhas toda deitadela na dona no chão. mastigava e arrancava e ronronava. gente, minha gata é um orgasmo que anda. pensei: o poema da ferocidade-humana. pensei: que bom que era não fazer sentido. pensei:... olhei então as ervinhas chamando no peito o nome que escrito tinhas pensei eu comia esses trevinhos descobri porque eu tenho sorte! eu comia esses trevinhos verdes e eles eram azedinhos como o chiclete que depois inventaram. eu gostava pequena de sabores ácidos e salgados. depois que cresci que virei essa fuga de doce. descobri tarde tarde o doce. preferia ter esquecido. olhei: azedinho esse trevo lembrei sorte sorte pra menina júlia envelope pardo galápagos onde você esteve? longe. longe. longe é uma palavra que diz tão pouco e promove um abismo. abismo sabe o que eu faço? tinjo de o n c i n h a. olho bem pra ele e penso hmmmm essa corda de nylon não é suficiente. nylon eu sei que é Nova York _LONdres. por exemplo isso é uma coisa que faz sentido. daí a gente fica vendo e colocando e dizendo sentido nas coisas. no vidas secas o graciliano evita muito dizendo isso. taí, ele não evitava o olhar sobre as coisas. porque escritor, eu acho, tem de olhar pra dentro e pra cima e pra fora das coisas e encontrar o nome. daí, se o nome vai fazer sentido ou não? comigo, olha, vai fazendo, ou nunca fez.; porque o presente é mesmo o melhor território para o nunca. nunca é, por exemplo, editar-se. nunca é, por exemplo, escolher alimentar os pássaros ou os gatos e de repente a flora atravessar o jardim matando a fauna local saltando um pássaro chamado alma-de-gato, vocês já ouviram? meu pai sabe o nome de todos os passarinhos. das orquídeas também. diz ele que meu avô sabia. eu ontem inventei 'meu avô dizia sempre: MEDO É CHEIRO DE GÁS. ' mas isso a pessoa precisa entender que a maior parte das vezes que você sente o cheiro de gás, é tua imaginação. mas têm imaginações com cheiros têm imaginaçãos com cores, têm imaginação de gozo e paúra. vou te dizer: eu entendi na hora que comia os trevinhos hoje que putamerda eu desde a história do antonio tava atrás da infância. só que eu tava no registro da memória e não do da alegria. e a memória, venhamos e convenhamos, ela é uma beleza maravilhosa eu abençôo aqueles que a inventaram, abençôo fungos também, afinal eu sou o SATÉLITE dessa idéia dessa conversa mas daí você acha que escrever é um exercício da solidão daí você descobre é um exercício do ouvir e ver. eu vou dizer o marcos fez um livro lindo nessa história dos exemplares. putamerdaostextos. daí eu quero escrever sobre o livro que nem ele faz. daí eu me lembro ah eu não sou escritora eu não consigo escrever daí eu olho o aspirador de pó e ele olha pra mim e eu fico contente que puxa vida finalmente um aspirador de pó na minha frente que funciona que eu posso usar e que não é meu e a casa se enchendo de flores e raminhas. verde verde verde verde verde verde verde verde verde verde vou dizer, minha gente, SP kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk! isso aqui é uma publicação de nada, blogue blogue blogue os cara tão me escrevendo na tela do outlook como se fosse um jornal de minha gente eu já estou na posterioridade eu na imagem a dizer me dá uma lâmpada eu pergunto cadê o usb? taranranranran. fuzuê que é uma maravilha. ontem wally, genial "a paisagem dessa cidade apodrece" e o rio de janeirão lá. me segura qu'eu vou dar um troço, querrrrrrro deixar bem claro que isso não se trata de um exercício de:

2) biografia, biografema, documento, exposição, diário, intimidade, rec.
3) sobretudo não se trata de uma prosa livre de livre-associação que isso é reposição da culpa vienense.

(eu sou um caranguejo!)

sim:

1) biodegradável.
4) para concluir do que se trata de uma 'casa de campo' aguardem os próximos posts. também aparece o morcego, prometo.

agora, o ricardo me disse 'eu vou me temperando com o que eu quero comer de mim' e puxa pensar tanto tem de se delimitar por um escolher que não dá pra só pensar ou perseguir os mesmos estímulos quimícos dentro das suas sensações é necessário fazer um compêndio das sensações do mundo, foi isso que a lua me disse luz, e olhar se há sempre uma usurpação do entulho alheio porque afinal NADA TEM INTERVALO entre mim e o outro e o pé de urucum pisei com o pé estourou de acreditar, sobretudo, pensei que essa gente que enche o saco dizendo 'ai o outro ai o outro ai o outro' não tá é vendo outro nenhum. agora eu me entendi porque eles se preocuparam tanto em me dizer isso. eu já estava na bananeira sob-geada em junho, com oswald de andrade, que, tanto vai e me dizia: a alegria é a prova dos 9.

o que restou, meu amigo, é nosso.
mas o gil completou
e a tristeza teu porto seguro


porto seguro, foi onde, antes de tudo, os portugueses chegaram.

- - -

´não trabalhamos, graças a deus, com objetos de estudo.

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++
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13.5.09

amor

eu tô com um medo de canto
do tamanho do mundo
sentado ali no meu colo

2.5.09



bern, suíça.

29.4.09

o nome disso não é exatamente felicidade

se é alguma espécie de assombramento desnecessário ou é simplesmente o ritmo das coisas se acomodando em mim. até mesmo o trânsito de quilômetros de horas pode me provocar ternura.

às vezes penso: deve ser assim saber estar pra morrer.
mas, na verdade, só estou fazendo o que eu gostaria de fazer.

23.4.09

mastodonte

psiu, o marcos tem o quase resenha então eu vou contar um quase-segredo: tô terminando um livro de poemas. eu sempre soube que isso ia me acontecer um dia, mas não sabia na verdade. é assim tudo que a gente quer: ?

porque sou generosa como um gigante mau
gostaria de contar pra vocês quais são as epígrafes.
a primeira, quase já datou nesse blogue. e é:


"Sei que os campos imaginam as suas
próprias rosas.
As pessoas imaginam seus próprios campos
de rosas. E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente
eu pudesse acordar."
“II”, Poemacto.
Herberto Helder

& também

"Céu de estrelas sem destino
De beleza sem razão (...)
Fogo fogo de artifício
Quero ser sempre o menino"

“São João, Xangô menino”.
Caetano Veloso e Gilberto Gil


& mas tenho dúvidas quanto a esta segunda,
se será ela ou

"Minha paixão há de brilhar na noite
No céu de uma cidade do interior
Como um objeto não-identificado"

ou qualquer outra estrofe de não-identificado, do Caetano.
me parece que será essa segunda, tem haver, não tem?

e o que importa mesmo é ser uma música do Caetano.


- -
que você acha?
e ah, o livro se chama é cantos de estima

7.3.09

aritmética

se Collor é nomeado presidente da comissão de infraestrutura do Senado...

6.3.09

sonho meu

ontem contei no acabou produto um sonho que tenho sempre

e essa noite eu ia a um museu de história natural e havia uma correnteza como os canais da disneylandia ou do recanto do boiadero e então com pedrinhas seixos nas águas e plantas de plástico muito verdes e também de verdade de um projeto pomar e então as pessoas passavam a mão na água e eram todos muito velhos em fila enfiando os dedinhos na correnteza e eu ficava assustada que aqueles velhos passassem a mão na água porque era a água do Pinheiros e na verdade o museu de história natural era uma contenção da nascente e então eu pensava mas essa água é suja e depois mas essa água é nova e daí minha mãe me dizia sem estar presente é uma água antiga que não deixa os velhos doentes mais,

5.3.09

anilina, minha pequena revolução

Adeus.

Voltei.

Não sabia que agora começava de um outro vislumbre. De um outro olhar, de um outro topo de montanha, outra bruma, outra espuma. Não sei mais quem escreve. Vou me apagando tanto do cotidiano bruto que consigo planar quase tão aberta de tudo asa-delta por sobre os meus pensamentos. Então quando escrevo, o corpo se aplica. E, aplicado, o corpo me é justo. Se não me excede.

Porque de algum modo eu descobri que há o mais biográfico de tudo. Que é: anil. Anil, não quer dizer nada. Anil sem metáfora. Anil. E nisso eu ia dizer do justo modo de namorar, que é social. Namorar casar gestar corromper. Essas coisas existem. E, sabe, os homens inventaram esquadros, cabos conectores, avisos em quadros para tal, quadros. O quadrado existe antes do homem? Ou é como os canteiros da Av. Rebouças?

Vou lhe dizer: as coisas têm seu próprio peso e eu sou: insolúvel e influenciável. O que eu ia dizer é uma palavra assim: elo ligação lealdade. Pra mim isso dá muito. Faísca, casão, amplitude. Eu um dia, garanto mesmo, vou ser um faisão. Voando flanando apoiado no próprio peito e depois servido magret na sala derradeira. Poderá me comer quem quiser porque no fim os bichinhos já iam me comer mesmo.

Eles vão te comer, sabes? Algo em ti e em mim se apagará o viço e será um sumiço de mim e de ti. Durante um tempo era por isso eu dizia: que me enterrem sem os caixões, fora das caixas, nem de madeira, nem de concreto. Disseram-me impossível a vigilância sanitária alguém reclamou até que era feio ou um corpo assim lembra auschwitz . Mas eu disse: corpo assim como assim que quer dizer é o meu corpo. Meu corpo de orquídea. Eu estava me valendo de alguma espécie de raciocínio de que a individualidade do indivíduo individual que eu seria se não fosse a sociedade a razão de ensino a etc etc. Mas não sou dona dos lençóis freáticos da cidade. Disseram-me: crema-se ao final, mas é um verbo que não sei conjugar imediatamente. E não, não, eu quero o chão, a terra, um lento adeus. E se isso não me disser respeito, respeito e adeus.


- -
ou, por outro, achei aqui:

2.3.09

o leão da família ii

hoje meu mesmo sobrinho de quatro anos disse-me:
-por que eu tenho que gostar ou não gostar das coisas?

(iluminação)

& depois, com os bonequinhos de fantoche
-esse é o pedrinho, essa é a cuca, essa é a tia nastácia, ... - silêncio.
e dez minutos depois, dentro da piscina:
-quem escreveu a história do sítio foi o monteiro lobato.

(susto genético & civilização)

& depois, vendo meu irmão acendendo a churrasqueira e correndo atrás dele com espetos de carnes, ele chamou minha mãe e disse:
-vovó senta aqui comigo que a gente precisa conversar. meu tio é mesmo um dragão?

23.2.09

era uma harpa um jarro e um casal de namorados

acordo é engraçado não entendo mas sonhei com teu quarto
éramos nenhum lá dentro de você lembro de tudo branco mas são as paredes quase amarelas
as memórias disse meu amigo dirigindo músico ao colocar contra o sol o óculos que lhe traz o passado
eu pelo menos devo estar sempre com essas lupas ou se bem que são luvas
de um tato pertinente e esvoaçado em se ter a lamber o próprio lábio

aprendi que o melhor modo de observar o céu é de uma cadeira giratória
o pescoço se recosta e ao contrário do mundo o pézinho dá o impulso

depois uma ferida sangra e eu agora tenho o hábito de passar o sangue em algum papel
caderno sulfite não importa eu guardo não sei bem onde quem sabe um dia a grande obra do meu sangue no papel nenhuma gota por poema não os poemas são mais limpos que o sangue e é o mínimo

sei que tenho um arquivo .doc com o nome de "gaveta" e dentro dele não há nada

agora depois vou lhe contar outra coisa acordo e fico vendo artistas e quem sabe é isso mesmo estão há anos luz dos poetas nós em galáxias tão medrosas e sabe 5.000 anos de escrita (é isso mesmo?) dão tanto a essa estante mas mesmo assim quando eu vejo as estrelas teimo mesmo em dizer que é a primeira vez que alguém pode, como eu, nomeá-las,

em segredo.

- - -

22.2.09

III. (agora que sou sincera.)

esse agora é para o breno

e dessa vez não foi o rodrigo que me atendeu. porque toda vez que eu vou ao correio é o mesmo rodrigo que me atende. é sério. eu já vou lá e digo 'alou alou rodrigo', meio que rima, né? ele percebe, não me entende direito, não acha graça. não sei bem qual é o QI do rodrigo que no mais parece as patas de um urso ( ww ww ww ww) . mas, quando tive que sair de lá na chuva, na semana do meu aniversário, o rodrigo me deu um saquinho pra enrolar o celular novo. chovia tanto que eu mal conseguia abrir os olhos. sabe, os cílios são mesmo pára-brisas, mas a chuva era uma torrente. eu fui chutando a água nas sarjetas. de um cano de um muro a água jorrava cheia de barro e eu espalmando a mão na lectospirose. sou forte, e isso é antes de tudo. feel the sound. foi aí que me lembrei que eu havia acabado de enviar pelo correio um poema que falava daquilo mesmo, da chuva escorrendo doce pelos seios das minhas pernas - "janeiro"- e poxa,

po-xa aquele dia cheguei em casa e consultei o dicionário de nomes próprios pra saber o que significava "rodrigo" e sabe, não significava nada. mas hoje lá, eu na fila pensando, alou alou rodrigo, o envelope rosa na mão, o rodrigo que sabe que eu peço pra ele colocar um selo de cada, e apitou o guichê pra que eu tinha que ir segui daí alou alou elaine, nada de rodrigo hoje, gente. a elaine beicinho. perguntei quanto tempo pro prioritário ela me disse '7 dias' eu quase 'como assim gente quem é que mente pra mim então?' porque o rodrigo sempre fala um número maior que isso porque eu sempre pergunto, porque eu sempre sei mas eu sempre pergunto, sabe como é, fila-guichê-caixa, a gente faz o que pode. fiquei tão atônita que a elaine já tinha colado todos os selos antes de eu pedir 'ah põe um de cada' que esse é o tchubirubi de selar o envelope rosa-rosa com selos. ah elaine, viu. daí eu olho pro rodrigo e ele com aquela cara de que viu um elefante voando só que era um passarinho.

saio do correio meio feliz. parece que a chuva não é dessa vez. fico bem contente porque não quero me molhar, hoje não estava tão quente como da outra vez e minha volúpia bem mais na calada da gravidade do que aquele incendião da chuva de outro dia feito a bahia. são paulo minha gente é são paulo. que deus a tenha.

e não é que passo na frente da Quituteira onde sempre passo quando vou ao correio e nem cogito mesmo comer algum daqueles doces enormes porque sempre penso 'ok, delícia, mas e o tempo pra me recuperar disso depois?', sabe, eu ando muito pelas coisas, 'body and soul'.

ok. ok. ok.

é dessa vez. estou feliz. olho a bomba de chocolate. bomba de chocolate me lembra uma doceria de Pinheiros, Pinheiros me lembra jogar uma bomba na cabeça daquele traste! foi então ah minha gente apareceu na minha frente um merengue cheio cheinho de chantilly. lembrei de ontem, que de madrugada queria chantilly? delírio. toda essa vida que é só sorte. pedi pra moça embrulhar. contei pra ela que tive vontade de comer chantilly de madrugada. ela falou 'ahquecoisa' meio sei lá atrás do balcão, por que o povo se assusta com intimidade, né?, adoro susto. um dia saio por aí de vampiro mesmo, daí vocês vão ver.

capa encarnada amor na estrada imensidão na jugular


enquanto isso não acontece, cheguei em casa com o doce.



dá pra não ser sincera?

e pensei, ah, isso sim que é o livro dos prazeres já me retornando! sucumbi, o mais possível, aos risos, o chantillly me entrando pelos narizes chupando todos os dedos com todo o amor das baratas ao açúcar e, com as janelas todas abertas, foi um ato de amor. depois bebi a camomila e depois também um café. quando o tempo for propício. tua carta que não chega. essas saudades.

29.1.09

2008

janeiro

na ilhota maré baixa dou um grito pelo celular. minha mãe tenta cuidar de mim. tento isolar minha mãe de mim. escrevo a raiva valentine e bob dylan gritando contra a maré baixa. um caranguejo embaixo da minha cama. um rato cai por cima de mim uma noite. esse lugar é tão bonito que só pode ser o inferno. na chuva que me retira do quente encontro-me "silencio tudo aquilo que do meu coração não parte". ando ando. tenho muito medo de voltar no escuro da noite sem lua. nado nado.

fevereiro

escrevo que é uma maravilha. quem me toca toca quem não toca eu na toca. tudo calmo. gosto do corpo do homem do gato da casa do verão da cidade do adeus.

março

abril

maio

planejamentos de viagem. escrita do romance, a história do antonio como uma cela de se prender trepadeiras com jasmins. gosto demais disso. gosto mais.

junho

abandono o país.


dezembro

a única coisa que me interessa é ir ver o mar.

26.1.09

I. (agora que sou sincera.)

ontem às 4h da manhã estava escrevendo cartas e conversando sobre diários e a ladeira-abaixo-que-anda-o-flickr, a ilana me mostrou isso aqui. depois de ver e calar, com uma vontade fatal de tomar outro café e comer chantilly, com a certeza de que em algum lugar da cidade haveria um balcão aberto servindo ambas as coisas, pensei que era um pouco caprichosa demais em sair com um táxi pra comer chantilly sozinha e não-grávida e disse a ela que ia tentar dormir, porque, como acordar tem sido que só lembro dos negativos, tenho evitado cada vez mais a hora do sono.

eu fazia muito isso quando era criança, dizia que tinha medo de dormir, assim como nunca saia no jardim quando era noite de lua cheia, por medo de que ela tombasse sobre as cabeças. meu pai me contava a história da Odisséia, longa história que nunca acabará e me ensinava relaxamentos, ele mesmo, que só dorme 5 horas por noite com seus ombros duros. e hoje me pergunto: o medo que me lançava, será que era por isso? será que era não pelo dormir e o apagar, mas por essa sensação de que acordar é sonhar e dormir é descrer? e que, portanto, o sono me entrega a uma re-atualização constante na hora de acordar?

estava pensando nisso já na cama. o som dos ônibus que começam a circular na rua me acalma. posso me concentrar em algo que não seja o silêncio do domingo para a segunda. deixo o otávio paz de lado, apago o abajour itinerante (é o único que funciona e vai comigo para o cômodo em que estou) e resolvo dormir. minha cabeça dispara. textos textos textos. homens homens homens. de repente vejo, realmente, um homem de costas e todo de branco acendendo uma vela sobre a cômoda da minha sala. levanto apavorada. quando chego na sala percebo que a cômoda não está no mesmo lugar que na imagem que vi. tento me lembrar se ela já esteve em outro lugar. se alguma vez algum homem todo de branco já esteve aqui. me sento no sofá. espero o dia clarear. então volto a cama e consigo dormir.

e algum veneno anti-monotonia

isso aqui anda uma mentira. estou mesmo escondendo o jogo. eu não tenho ninguém. lembro-me do dia que larguei a análise. tenho sonhado muito com as escolas que estudei. fui para tua casa e chorei. era pra ser uma proposta de entendimento e ele entendeu tanto. colocou a mão no meu rosto, cada gesto. e foi cada um prum lado. sábado passado vi duas árvores dançando de um jeito o corpo-tronco delas que éramos nos dois. nas folhagens. desde então voltei a abrir o vento pelas janelas. no drama ela diz arrasto todos os móveis da casa. não lembro mais. curtos impulsos. acredita em mim.
 

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