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25.10.09

30

Já a luz se apagou do chão do mundo,
deixei de ser mortal a noite inteira;
ofensa grave a minha, que tentei
misturar-me aos duendes na floresta.
De máscara perfeita, e corpo ausente,
a todos enganei, e ninguém nunca
saberia que ainda permaneço
deste lado do tempo onde sou gente.
Não fora o gesto humano de querer-te
como quem, tendo sede, vê na água
o reflexo da mão que a oferece,
seria folha de árvore ou sério gnomo
absorto no silêncio de uma rima
onde a morte cessasse para sempre.



António Franco Alexandre
in: Duende

17.10.09

As profecias de Abdul Varetti, Escritor Falhado

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A "vida" e a "morte", indistintas finalmente, serão sentidas na sua raiz comum, como formas de ilusão e alegria excepcional.

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As obras de arte terão uma existência exclusivamente lúdica. A experiência dos vários mundos, suprirá com enigmas e presenças.

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Um anarquismo integral, de produção natural, será a forma que se antevê, irá ser escolhida pela humanidade emancipada

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A linguagem afastar-se-á do consenso, e exprimirá o desejo e a imaginação.

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Sendo o "exterior" à imagem do "interior", a vida será uma obra de arte. As obras de arte do passado serão tidas por curiosidade arcaica. Algumas serão conhecidas e estudadas.

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O amor e as outras actividades de relação serão públicas e tribais. Eles serão reis e elas rainhas.

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Uma guerra planetária deprimirá a humanidade actual. Depois o homem, envergonhado, conhecerá o horror dos ídolos.

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O artista será confrontado com o "político" e com o "sábio". O artista será louvado, os outros serão excluídos.

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As religiões serão desconsideradas. A experiência mística será reconhecida e um facto comunicável.

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Os deuses, adormecidos, vão recuperar a atenção do homem livre. A curiosidade e a crença florirão.

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A experiência interior será transmitida, "ensinada", musicalmente.

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Haverá muitos vagabundos solitários de ambos os sexos. Mover-se-ão entre as tribus, como agentes de experiências.

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A mais bela forma de ser será a preferida, depois que os homem reconhecerem seus tiranos, no interior de si mesmo.

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O dia e a noite deixarão de opôr-se. A sua raiz comum na imaginação será reconhecida.

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O sono e a morte serão mais um vez equiparados. O homem aprenderá a morrer.

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Os antepassados animais serão venerados, como uma das faces da realidade.

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Não se falará sem vergonha do velho tempo. Discutir-se-á de preferência o amanhã cotidiano.

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A amizade será livre. O amor não.

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O desejo será declarado. A linguagem e a ação enriquecer-se-ão permanentemente.

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Sendo a vida uma arte, a linguagem será universal. (Cfr. Rimbaud), Incluindo tudo.

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As crianças chamar-se-ão crianças, e os adultos crianças evoluídas.

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A casa, lugar de repouso, será individual e pessoal. As actividades de relação serão consagradas como tais, públicas e tribais.


Álvaro Lapa
As profecias de Abdul Varetti, Escritor Falhado, 1972.
22 elementos, lona bordada montada em estrutura de ferro.


 

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