29.11.08

hiato

lembrei de ser criança e montar cabanas por aí, sabe? no jardim, tentava muito, durava pouco. dispersão. morria de medo do jardim de noite e dos cantos escuros de dia. mas de dia, bem no centro, que é que tinha? um sol umas vespas a pedra quente. nunca ninguém me ajudava e eu não era destra direito.

e também de que a primeira percepção que tive do mundo como as que tenho cotidianamente era a de me esquecer do que ia fazer. isso bem no meio. deixava o quarto ou saia do jardim (todas as minhas memórias de infância são na casa?) e tinha que ir até outro lugar. no meio, esquecia-me.

no geral notava-me o esquecimento, ou era essa dispersão alegre de mil coisas. um dia percebi que se percebesse e voltasse ao lugar da onde havia saído, no meio do caminho, ou no lugar retornada, me lembraria do impulso que havia me levado pro outro lugar. poderia recuperá-lo, fazer. desde então vivo de trechos e de contornos assim.

Mensagem

Ter é tardar.

(Pessoa, Fernando.)

leia também:

25.11.08

suposições

1.

Se pelo menos tivesse nascido mais velho. Podia ao menos, com o pé em cima da máquina exclamar: sou o cavaleiro do aspirador de pó. Isso com a tolha vermelha nas costas. E os ossos magrinhos no raio-x. Mas, vênus em fúrias, essa mulher sem cabeça pra vida. Fantasiava. Tinha uma herdada do irmão mais velho, de astronauta, que a mãe só lhe deixava usar pra lavar louça. Era a compensação de não ser menino. Nem sabia porque queria isso. Mas veio de tão antes que sumiu. Foi bem antes de você aparecer. Foi na época que sumiu bem antes de ser alguma coisa mais além do que uma mulher. Foi só quando você apareceu que comecei a me sentir sozinha. Não consigo visitar ninguém.

2.

Cheguei da fazenda pensando. E esse pensar, se ficasse no pensar, era uma coisa. Mas quem não tem destino e pensa, desdobra a existência nesse pensar. Pensei: um problema de existência carece então de teorização. Fui aos homens. Estou indo com eles ainda, não digo muito mais. Fui cair na teoria dos homens, mas discordo de tudo ou plasmo sem sinceridade. Poeta também não tem mais. A única coisa que me interessa é ficar vendo me devolverem as coisas.

3.

São fictícios os números dos títulos.
O mundo dos homens assim me recebe a convicção.

4.
Se pelo menos tivesse nascido mais velho.
Caia maduro da mãe.

5.

Sim, avistarei. A ti também. Avistará.
O que me intriga não é de vermos, continuemos, corredores.
A dúvida feroz está no fazer o amor.
Enquanto isso tento arranjar alguém em mim que cuide de ti aqui.

6.

Se pelo menos tivesse nascido mais velho.
Mas nasceu morto. Caçula que era.
Um abortado: menininho já era?
Ou ainda somente uma porção de treva de carne?


7.
AMOR:

lago

só nadei na superfície
o fundo do lago ficou lá

eu precise voltar
ao lago

lago

tem uma pedra do lago
no bolso do meu jardim

esférica

não diz nada

- -
fica decretado que
esse blogue assim volta a ser um blogue

de inéditos inesperados e confusos
textos

que é assim que eu gosto
fico olhando minha máquina de escrever como se estivesse de férias. ela foi viajar sem mim mas está aqui na minha frente. não ouve e ouve. gilberto gil em londres. pale blue eyes, after hours, i'm waiting for my man. smiths.

agora sofro que tenho que fazer mil coisas e só consigo olhar para uma foto de clarice. antes tinha uma perto de mim. agora são três. nem gosto tanto dela. tem algo que não entendo.

contando do fim de semana:

vi um lago dormindo
nadei na manhã do lago

afundei
o lago

os dedos
no lodo

está tudo
em dois
tempos


disse
agora gruda um dedo
agora não sofre mais

24.11.08

amor

você faz da ausência
um arte do retorno

21.11.08

amor

você tem que entender:
eu sou a doença.

20.11.08

amor

como os cegos em Lisboa
esse sapo só aparece para mim

19.11.08

amor

deseja salvar as alterações em amor?

sim não cancelar

18.11.08

amor

17.11.08

amor

ontem chorei por causa de um passarinho. às vezes acontece da vida entrar pela janela uma história da clarice. um passarinho do tamanho do meu polegar entrou entre as abas da janela e caiu no fosso em que elas se guardam. ficou preso lá dentro. às vezes suas asinhas batiam fazendo schuif schuif schuif. se eu abrisse a janela completamente o mataria esmagado. demorei a entender que ele era tão pequeno e que chorar não adiantava-nos nada. perguntava-me assim: o que tenho eu a ver com a vida desse passarinho que veio cair na minha janela por inexperiência? me respondia, tenho tudo a ver com ele e nada dele me diz respeito. mas é a vida, né, então fiz de tudo. bambus, varetas, lanternas, cestinhas, farelos de bolacha para mantê-lo vivo. deixei-o até muito quieto. não havia como abrir o fosso da janela sozinha. precisava de mão de obra especializada. hoje de manhã vieram salvá-lo, o pedreiro que já havia consertado essa janela uma vez pra mim. ele abriu e eu peguei o passarinho na mão. apavorado. vôou. estou só agora, sem o passarinho.

amor

decido não tomar mais medidas dos cômodos
vou me mostrando como as palavras não encostam nas coisas
e as coisas estão livres

tão livres que só o ar

quando eu era pequena achava
que não se devia tomar banho nos dias de chuva
que era uma redundância.

você quer que eu pare com esse papo de amor?

16.11.08

15.11.08

amor

querendo comprar uma quinta e uns patos
ficar vendo os patos e dá-los de comer aos filhos

13.11.08

amor

por mais que tentasse, não conseguiria.
o amor não consegue destruir nada.

9.11.08

amor

tenho medo que as palavras
se percam na mandíbula

mordo cadernos

8.11.08

amor

Queria que tua mão me guiasse no escuro do mundo.
Mas tua presença me aclara.
Fiquei confusa.

trocando em miúdos

Liberação.
O sudoeste é favorável.
Quando não resta nada a que se deva ir, o regresso traz a boa fortuna.
Se ainda há algo a que se deva ir, apressar-se traz boa fortuna.

Esta é uma época em que as tensões e as complicações começam a ceder. Em tais períodos é necessário retornar o quanto antes às condições normais _ este é o significado do sudoeste. Tais épocas de mudança repentina são muito importantes. Assim como a chuva provoca um alívio nas tensões atmosféricas e faz com que todos os brotos se entreabram, assim também o período da liberação traz um alívio ao que estava sendo oprimido, e um estímulo à vida. Mas uma coisa é muito importante: nessas épocas não se deve levar o triunfo a extremos. É conveniente não se procurar avançar mais do que o necessário. A boa fortuna aqui consiste em voltar à normalidade da vida assim que se alcança a liberação. Caso ainda restem resíduos por eliminar, é recomendável providenciá-lo o mais rapidamente possível, para que tudo seja esclarecido e encerrado sem demora.

7.11.08

anexo Madrid I

----- Original Message -----
From: "Jose " <>
To: "Júlia" <>
Sent: Wednesday, November 05, 2008 9:16 PM
Subject: Musica y otras maravillas

Magnifico video ese de cayetano veloso...excelente...gracias. Hola Juliah, como te dije estoy en guatemala visitando a la familia, pero sobre todo a Tikal, la ciudad maya precolombina del periodo clasico que siempre quise conocer...estoy a la orilla del lago peten itza, en un hotel de trasnochado romanticismo. En cuanto regrese a Londres te escribire como debeser. Ahora solo te adelanto que tambien estoy ocupad con una entrevista virtual que le hice a Sergio Ramirez, escritor y expresidente de Nicaragua durante la revolucion sandinista...es un buen tipo y la entrevista salio bien. Sera publica en la revista virtual enla cual escribo.Te enviare la direccion web en su momento.
Gracias por escribirme y no nos perdamos.
A ratos no entiendo bien tu portugues pero es mi torpeza...
te recuerda mucho y con mayor carino cada vez,
el trotamundo jose....

5.11.08

i think i need a new heart

tenho deixado para ir ao supermercado de manhã cedo, quando lá só há velhazinhas demorando nas filas. fico olhando as corcundas delas. mas, antes, no caminho, havia um fiorino parado na esquina, todo encarnado de amarelo e vermelho e verde: morangos. e em cima do reclame escrito bem grande: EU CREIO EM DEUS!

pensei, será que seria mais fácil se eu também num deus me apegasse?
depois pensei no meu método auto-destrutivo preferido: puxa vida, será que posso amar uma pessoa se não sei nem se ela acredita em deus ou não? tratando amar e deus como se fossem questões superficiais. só então notei que não que não posso garantir que nenhum dos meus ex-namorados acredite ou não em deus e que mesmo meus pais, quem saberá? porque a gente tende a acreditar que é todo mundo ateu & com uma vida sexualmente ativa. ou que no brasil é tudo sincrético & descabido.

mas por fim, que catzo alguém que crê em deus com segurança precisa escrever isso em cima dos morangos?

- -sei lá
justo eu dizendo isso, que preciso escrever coisas como: anda me faltando lucidez e sobrando corpo.

tudo posso naquele que me fortalece
(outra frase enigma para vocês)

alegria, alegria




suéter-rolê laranja

4.11.08

strike a poet

tiro fotos da minha casa até acreditar que ela é uma cidade
sigo abraçando cadeiras entre o olhar imperativo dos gatos
à mão que afaga esta solidão a materialidade dos discos ajuda
no colegial me chamavam de menina de outra época
meu pai dizia que minha avó era uma mulher antiga
isso resume pra mim toda a arte contemporânea
de repente ganharam o medo de dizer coração
é preciso paciência e a sensibilidade de um peixe

devem me ver como um dragão rasante, os miados
num abraço a gatinha tem fome e cheiro de ser vivo
pela primeira vez em um mês deixo a sala
é mais fácil o mar abrir em dois do que inter-
romper o trânsito é por isso lembro não saio na rua
meio-dia sou o Torquato de colar de contas descendo
as delícias de aves nas mãos o cabelo imundo no sol
de quase dezembro uma mãe me olha saindo pelo corredor

até o portãozinho de aço range com a filha pra escola
a mala de rodinhas, vergonha não é a palavra
finalmente, virei artista os dedos sujos de tinta branca
e o uniforme azul-marinho de dias embora a seda
tenha rasgado só consigo desafinar o coro dos contentes
me alimentar de drogas pra me manter escrevendo,
acordada e cansada e insuficiente, essa melodia
o texto ao fim e não reviso it's friday I'm in love

3.11.08

cacete novembro!

1.11.08

Madrid - Parte 2

Eu fui a Madrid uma outra vez, com meus pais. Foi na época do meu aniversário de 7 anos, ou seja, bem no começo de 1991. Também estava vindo de Portugal, de Marvão, e antes ainda, da Serra da Estrela, onde tinha visto neve e, mais, comido a neve num ímpeto de ter as coisas pelo estômago. Tenho sonhos às vezes com aquele dia, eu usava uma bota de pêlo amarela, um casaco cor de rosa pink e umas orelhas-tiaras daquelas de pelúcia, cinza-coala.

Quando eu tinha uns dez anos pegaram os posters que havíamos comprado naquela viagem e resolveram emoldurar. Eu tinha escolhido um recorte de um rosto de cavalo num fundo negro, e tal imagem foi parar no meu quarto de paredes cor-de-rosa. Durante anos tive na minha cabeça que del Prado era uma cidade espanhola, da onde tinha vindo aquele poster. Na oitava série, quando minha professora de história de nome italiano escreveu Guernica na lousa e nos mostrou a imagem foi como se começasse a tocar um rolo de filme sempre com a mesma foto. Nesse reconhecimento havia algo de orgulho. Foi na época que comecei a me interessar por histórias de guerras, disputas e lutas num geral. Plutão que transitava o meio-do-céu? Ficava com os pés para cima na parede amarela, meu quarto era novo, o de frente da casa, do mesmo tamanho do quarto dos meus pais. Fumava marlboros que roubava do meu pai, ouvindo os Caetanos de dentro do armário descobertos, olhando o busto do cavalão e vivendo todo o senso histórico que alguém de quinze anos pode sentir. E meu quarto a todo momento se tomava por cinco, seis amigos (como cabia tanta gente?), alguém me disse que achava feio meu poster, querendo dizer bruto. E o Duda, sempre interessado nos desenhos, dizia que a língua dele parecia uma lâmpada, uma lança. Uma noite deitados na rede da sua casa, onde hoje não se pode pisar porque a varanda está ruindo, combinamos que estaríamos em Londres dali quarenta anos, abrindo arquivos nunca abertos sobre a 2a. Guerra. Durante anos li e assisti tudo que me apareceu na frente sobre o assunto.

Bem, voltando ao Prado onde estávamos, meu amigo me re-encontrou na frente de um Goya mais ameno. Eu disse a ele tengo ganas de mirar Guernica. E perguntei a mulher que vigiava a sala onde estava o tal Picasso? E ela, ligeiramente troçando do meu turismo barato, disse:

-En el Reína Sofía,

Mas como? E o meu poster? Museo del Prado, está escrito. E era segunda e o Reína Sofía estava fechado. Ah, como a vida é toda feita de desenganos, desencontros, atrasos. Nos perdemos dentro do museu procurando o guarda-volumes. Meu amigo fez uma dancinha de deslizar pelo meio de um dos corredores e carinhosamente entendi do estereótipo o que era a felicidade com que ele havia exclamado na noite anterior somos latino-americanos. Pensei se eu, mimética do jeito que sou, depois de viver vinte anos na Europa como ele (na Alemanha e na Inglaterra, note-se) saberia manter tal festividade clara ao alcance dos meus passos.

Era mais de meio-dia quando deixamos o Prado. Na calle me falou mal das regras de atravessar a rua dos alemães e me convidou para almoçar num restaurante perto da Puerta del Sol, onde havia comido no dia anterior. Eu estava cansada de comer qualquer bobagem, mas não tinha dinheiro. Fui clara, disse que não tinha. Me perguntou se eu já havia comido paella, eu nunca em Espanha! e fomos. No caminho ele parava a cada quarteirão pra perguntar a alguém se estávamos no caminho certo. Descobrimos aí que tínhamos o mesmo signo, capricórnio, e ele me cumprimentou com uma das mãos. Pensei se isso era algo de se parabenizar. Ele me disse do sonho que sempre teve de viver em Paris. Contei para ele sobre as livrarias de Buenos Aires, todas em castellano e as ruas com algo de Paris. Animadíssimo, me disse que seu livro preferido era Rayuela. E que seu avô era boxeador e poeta. Eu disse só faltava ouvir Chet Baker.

A paella estava grassa, pero buena. E, entre convites do garçom (!) para sair com ele numa festa de noite, juro por tudo, naquele almoço ouvi a história mais impressionante que alguém já me contou da própria vida.

31.10.08

Madrid - parte I

Nunca senti tanta angústia como em Madrid. Não logo quando cheguei, vindo de Cáceres e antes ainda, de Marvão, não. Sentia uma alegria tremenda com as cores das roupas espanholas e de ouvir uma língua estrangeira, en Lavapiés um homem berrou da janela, num robe de seda laranja:

-Víctôôr! Víctôôôr! - eu estava em um Almodóvar e mucho me gustan todos los Pedros.

O Victor apareceu correndo com um poodlezinho branco no colo. Jantei um iogurte, liguei para o Brasil com um cartão que comprei no mesmo chinês. Do lado daqui ouvi dizer que a minha voz estava boa, solta. Fui para o albergue, ainda não tinha visto o quarto. As camas eram tão da altura do chão que se aparecesse uma barata. Não me preocupo com isso. Deitei embaixo da janela, uns 30 graus às 23h. Não davam o lençol de cima na diária. As estrelas piscavam. Uma menina da Colômbia escrevia no laptop sobre variações lingüísticas para um congresso no dia seguinte. A datilografia me acordava. Levantei pra rua. Noventa por cento dos prédios desço pela escada.

Quase no segundo andar, alguém me ultrapassa pela escada e diz:

-mira, tu sapatillas,
-no, son los sapatos, son las pantalonas,
-Éres madrileña?
-yo? con mi portuñol?
-portuñol, que eso?
-soy de Brasil
-brasileña?!? yo soy latino-americano!
puxavidaencontreiummala e continou
-soy de Guatemala! que hacés para vivir?
-hm, yo terminé la graduación en letras,
-jura?!? yo soy escritor

- -
Num sumo de manga naquela noite descobri que no mesmo prédio do albergue havia o hotel em que estava hospedado, cobrando por um quarto de solteiro dez euros a mais do que o sujo albergue em que eu me encontrava.

A partir disso, Madrid foi a mesma. De manhã nos encontrávamos no hall, brioches no café, e íamos para algum museu. Depois do almoço voltávamos, eu delicamente explicava que necessitava de ficar sozinha por algum tempo e na hora do jantar saíamos juntos novamente. Fazia uma semana que ele tinha vindo de Londres, pra comprar livros em castellano e eu havia acabado de chegar, mas minha intimidade com mapas e sistemas de transporte (estratégias de ocupar o pensamento em geometrias de uma cultura alheia) fazia com que eu nos guiasse pela cidade desconhecida.

No Prado me contou que não gostava de Almodóvar e que havia sido expulso com um tapa do colégio interno na Guatemala, tendo até que mudar de cidade para poder estudar. Um cristo de El Greco lhe fez lembrar isso. A escola era católica, claro, e o menino de quatorze anos estava virando comunista. Isso no fim dos 60, acho. Las meninas cheio de japoneses na frente me fez fazer um discurso contra essa coisa toda de museu, vamos derrubar as prateleiras, as estantes. Meio intrigado ele sorriu. Enquanto andávamos atrás de um Bosch se contou um leitor de Hauser. Estávamos na ante-sala do Goya e eu disse "nunca me impressionou, este, não sei o que tanto vêem nele" e caímos nas suas Pinturas Negras. El cabrón. Eu comecei a chorar. Foi uma coisa impressionante. Ele, percebendo, me deixou sozinha e foi ao banheiro.

there's nothing you can show me from behind the wall

hoje de manhã a porta do quarto batia e batia de leve com o vento, numa mesma rajada eu abria os olhos e pensava: algo como uma intenção leve, não me lembro, sintetizava o desejo no universo, mas eu estava dormindo.

estou tão distante de mim que não consigo controlar o que escrevo, ou o impulso virou finalmente um andar?

encontro uma forma,
daí começo a destruir a forma.
a luz negra dos teus olhos,
o apocalispe do pétroleo de cada um.
I leaned on the wall
and the wall leaned away.

desde que voltou a calmaria
tenho medo de arremeter.

algum amigo me olha com aquela cara de que estou transformando o bom em ruim mais uma vez. deve ser saturno. mas eu explico: é ótimo viver como um ser solar. mas cuidado, o sol pode queimar, isso quem me disse foi meu amigo guatemalteco en madrid, jose, que nasceu cinco dias e vinte e seis anos antes do que eu. disseram que eu me preocupo com idades, não, eu só as noto.

30.10.08

o último capítulo

quem vai matar ana cristina?

pro dia nascer feliz

quando presa ao ar de vidro
em vigília minha insistência desistiu
você volta num ponto da penumbra
e me pede pra que abra novamente
pétala a pétala, em favor do dia
se o mundo fosse um estabelecimento
havia de pesar com destreza na planilha
portas sanfonadas que emperram
os ferros da dor no sangue de ontem
mas pelo teu modo de contagiar os descontentes
ouço: vim pra dizer que o dia te seja calmo
e não precises retirar prazer das coisas.
em dúvida, me recoloco a escrever
porque um fardo a gente deixa aflorar
depois te falo: silencio tudo aquilo
que do meu coração não parte.

29.10.08

acabou produto

bem, agora tenho um outro blogue, pra assuntos que me pareceram descabidos neste confuso e livre aqui. mais oficial do que nosso estimado cubo de noite, o novo já está funcionando como uma central de reclames, anúncios de projetos, processos, estimas, e por uma módica quantia do seu interesse, publicaremos notas fúnebres também,

enquanto isso este samba continua igual, assim,
ad infinitum,

- -

24.10.08

Sexta-feira, Dezembro 13, 2002 ::
"(...)Tranformar-se no profissional destas conversações? Desejar apenas que aqueles que foram atingidos não se afundem demais? Fazer subscrições e números especiais? Ou então irmos nós mesmos provar um pouco, sermos um pouco alcoólatras, um pouco loucos, um pouco suicidas, um pouco guerrilheiros, apenas o bastante para aumentar a fissura, mas não para aprofundá-la irremediavelmente? Para onde quer que nos voltemos, tudo parece triste. Em verdade, como ficar na superfície sem permanecer à margem? Como salvar-se, salvando a superfície e toda a organização de superfície, inclusive a linguagem e a vida? Como atingir esta política, esta guerrilha completa? (...)"
Gilles Deleuze
ontem no corredor o professor me disse
sai dessa cidade enquanto é tempo

me vira de ponta cabeça
me faz de gato e sapato
no ato
me enche de amor

daí eu aqui dançandinho a letra
toca meu telemóvel,

boa taRde o senhor francisco pedro pedreira

eu:
sim,
sou eu.

adeus,
fui conquistar a rapariga do telemarketing

- - -

22.10.08

sem título e bastante breve

tenho o olhar preso aos ângulos escuros da casa
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor

na verdade, estou derrubado
sobre a mesa de fórmica suja duma taberna verde, não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira-mar

dizem, que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito interrogar-se acerca das melancolias das mãos
esta memória-lâmina incansável

um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
que sei eu sobre tempestades de sangue? e da água?
no fundo, só amo o lado escondido das ilhas

amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão

al berto,
de sacanagem comigo.

17.10.08

neil young



eu tava lá, oeiras, me despedindo do jorge,
que era bonito mas usava aliança
já tinha desistido de que ele voltassse
e esse foi o bis do dinossauro
só que de frente
;)
essa noite faltava a parte de trás do coche que estávamos. você dirigia eu ia ao lado feito motoneta. os bancos eram decorados com papéis de oncinhas, cata-ventos azuis e barquinhos de marinheiro menino. por baixo deles esfregava minha mão, tecido grosso. era bem de noite e vínhamos por uma estrada de sítio, só os faróis pra iluminar o caminho. começou a chover muito. a marcinha nos esperava. e a metade arrancada do fundo aberta continuou. de repente uma baleia passou andando. eu vi pelo retrovisor. depois a água entrou pelos vidros, molhou os papéis,
e mais nada.

16.10.08

cartilha da cura

gostava de dormir tarde quando a cidade acordava
falar de al berto cazuza reunir
chamar a cida, toda dizer:
augusto,
os homens sairam a trabalhar e eu a perder a hora dos correios nacionais
teu abraço do sinal que não abre fez uma temporada
tinha o charme de criar poemas
o assalto nas clínicas
o gato estático a olhar
a champagne tombando no chão da cozinha

depois, acordei com a faxineira, dormi nada
você quer jogar tudo pra cima
e eu tento deitar a areia desse deserto ao chão
logo fui ao google:
"casas para alugar são luís do maranhão centro histórico"
ofertas para evangélicos, o caso?
fico me vendo lá
com os focinhos na areia
escrevendo num quarto antigo antigo de uma casa antiga de azulejos
(prisão por prisão temos lisboa)
paredes descascando de verdade
quero um chapéu panamá
truman capote que
mergulha no atlântico do norte
fica saradinho

será?
meu amigo, vamos sofrer,
vamos beber, vamos ler a Rolha de ontem,
vamos dizer que a estética é ruim,
meu amigo, vamos esquecê-la como esquecemos a Seja também.

vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira,
evitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
aiinferno são paulo
ou qualquer outra besteira.

vamos beber uísque, vamos? não gosto
beber cerveja preta e barata, detesto
beber, gritar e morrer, não quero
ou, quem sabe? beber, apenas, água

vamos fazer uma mulher,
dizer invertido: que difícil ser homem,
pra envenenar toda a paulista
com seus olhos e suas mãos
e o corpo bem mulherzinha
com um diário em mãos.

meu amigo, vamos xingar
o drummond e tudo que é dele
e que a gente vive apegado.

meu amigo, vamos cantar,
vamos mijar de mansinho o masp
e ouvir muita vitrola,
(hein?)
depois lúcidos vamos
bater a carteira dos assaltantes
(o olhar obsceno e a mão cheira-cola)
depois iludir e cair
e dormir.

15.10.08

i'll be seeing you

E essa é a razão por que
quando as pessoas se vão
(como em Alcântara)

apagam-se os sóis (os
potes, os fogões)
que delas recebiam o calor

ferreira gullar

- - -


Na última lua cheia eu estava em Lisboa. Agitada, fazendo usos, de noite queimei meu polegar com um isqueiro mal posicionado, criando uma bolha imensa que escondi com a mão no bolso na hora de passar pelo controle de imigração na manhã seguinte. Agora, se olho bem de perto ainda encontro essa ferida marcando o desenho das digitais.

Na lua cheia anterior, estava em Csopak, e fui com minha amiga Ana até a margem do Balaton tomar um copo de vinho branco tipicamente húngaro. Enquanto falávamos de como universidades e homens são iguais no mundo inteiro, eu reparei bem fundo e disse "como a lua é diferente aqui na Hungria, mais linda, mais escura" e ela assentiu com a cabeça, me olhando sempre com a cara de que ela carinhosamente dizia menina maluca. Na manhã seguinte, enquanto preparava uns ovos estrelados, ela me traduziu rindo o cigarro entre os dentes que o jornal falava de um eclipse que assistimos na noite.

Na cheia ainda de antes, estava em Lisboa também, mais exatamente na Praça da Figueira, e um amigo tentou me convencer a pegar um comboio para Sevilha na manhã seguinte. Não fomos, as promessas de uma língua castelhana se abrindo em touros para aquela lua me seduziram, mas não o bastante para partir. E eu havia combinado de estar em Lyon dias dali.

Ontem meu pai veio até a porta da minha casa e, apontando a lua cheia, disse que viu na televisão que em Marte eles têm um problema sério devido a falta de lua. Por não ter a força de atração que a Terra tem com o satélite, o tempo lá muda a cada instante, tempestades de areia quente seguidas de gelados, porque Marte não tem um eixo gravitacional e suas faces (uma circunferência tem faces?) se cambiam para o sol ou longe dele em instantes. Fiquei me vendo em Marte. Ele continuou dizendo que se não tívessemos lua os oceanos seriam sugados para fora da estratosfera. Eu disse que seria de todo modo um oceano no universo. Ele me deu o remédio que tinha vindo trazer, riu dizendo que iam traduzir hoje uma fala dele para o japonês que veio falar na Veterinária. E, meio assustado com a ironia de ser quem é, continuou: que a lua se afasta da Terra continuamente, e que parece que em 4 trilhões de anos a força de atração terá se desfeito e sabe-se-lá o que será. Acendeu um cigarro, bateu a porta do carro e foi embora. Meu pai tem muita cara de romano. Quando eu era pequena, como os gauleses, tinha medo das noites de lua cheia, achava que ela tombaria nas nossas cabeças. E acho que aprendi com ele a adorar dizer e afobar catástrofes que não poderemos ver.

uma palavra que falta

Num ano de acordo ortográfico, me parece importante constituir algum lugar de fala da língua portuguesa que reúna. Não sei se isso também te interessa. Sabemos bem, por necessidades reais mas ultrapassadas em tempos de Internet e independência consolidada, que a literatura brasileira se constituiu desde os românticos até os modernistas numa tentativa de abrasileiramento contra Portugal. Desde o projeto de "uma língua brasileira de literatura" presente no Alencar, passando pela antropofagia, o imperativo foi negativizar Portugal. Alguns tropicalistas até tentaram parodiá-los, mas sim, continuaram no registro do arremedo. É difícil sair desse registro. Temos preconceitos claros contra Portugal. Nos constituímos tanto por marcar as diferenças necessárias que agora não sabemos mais onde encontrar Portugal. O que fazemos? Rimos. O que mais se sabe fazer com são piadas. Assamos o Sardinha, passamos tanto tempo negando Portugal que agora nos são uns estranhos. Mas uns estranhos de família. Aqueles indesejados que vem para o Natal e duvidamos se neles se pode confiar, ao mesmo tempo que nos excitam com a surpresa. E, sim, é claro, falamos uma mesma língua, viva e cambiante, escusada de dizer que periférica, mas semelhante, completamente diversa e a mesma.

E, esse acordo ortográfico?, é claro que somos a favor de qualquer acordo com um outro que se respeita, mas em primeiro lugar, o acordo tenta esconder as diferenças , camuflá-las, num movimento bem politicamente correto e pouco lúcido. E, principalmente, se a intenção é aproximar as línguas portuguesas o que eliminar meia-dúzia de códigos ortográficos pode produzir de aproximação frente à décadas e décadas e décadas, quiçá séculos, de distâncias? Se querem nos aproximar tanto quanto eu gostaria que nos aproximassem, deveriam criar formas de acesso culturais, históricas, permanentes. Mas não, isso temos em comum desde tempos imemoriais, isso nos une: criar solução de tomar uma pequena medidazinha e gastar mais em dizer do que em fazer mesmo.

Temos de partida esse problema do nome da língua que os falantes do castelhano não tem. Podem dizer tanto na Argentina como no Peru ou na Espanha que falam uma língua sem vinculá-la ao nome de uma nação atual. Se calhar, um mexicano pode dizer “hablo castellano” sem que a memória ligue necessariamente o nome ao antigo reino de Castela. Para nós, no Brasil, em Angola, Cabo-Verde, etc, não temos uma solução sintética. Temos a solução dupla: “português do Brasil” ou “português brasileiro”, que continuam vinculando a língua em alguma nacionalidade específica. Mais, para um desavisado confuso, vincula a língua em duas nacionalidades. Nos falta uma palavra. Essa falta significa algum sintoma? De todo modo, não me sinto à vontade em dizer: sou a favor de uma língua portuguesa, portuguesa aqui como "castelhana", uma língua escrita em português que por conhecer as diferenças de seus vários usos expanda o uso lógico e vocabular, sintático e semântico, da mesma língua.

Ou seja: continuo lutando por um estilo.

13.10.08

oriente

se oriente, rapaz
pela constelação do cruzeiro do sul
se oriente, rapaz
pela constatação de que a aranha
vive do que tece
vê se não se esquece
pela simples razão
de que tudo merece
consideração

considere, rapaz
a possibilidade de ir pro Japão
num cargueiro do Lloyd lavando o porão
pela curiosidade de ver
onde o sol se esconde
vê se compreende
pela simples razão de que tudo depende
de determinação

determine, rapaz
onde vai ser seu curso de pós-graduação
se oriente, rapaz
pela rotação da Terra em torno do sol
sorridente, rapaz
pela continuidade do sonho de Adão

(gilberto gil, claramente)

12.10.08

9.10.08

exorcismos

Ana C:

O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos
que não largam! Minhas saudades ensurdecidas
por cigarras! O que faço aqui no campo
declamando aos metros versos longos e sentidos?
Ah que estou sentida e portuguesa, e agora não
sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida:
agora sou professional.


Foucault:

Esse tema da narrativa ou da escrita feitos para exorcizar a morte, nossa cultura o metamorfoseou; a escrita está atualmente ligada ao sacrifício, ao próprio sacrifício da vida; apagamento voluntário que não é para ser representado nos livros, pois ele é consumado na própria existência do escritor. A obra que tinha o dever de trazer a imortalidade recebeu agora o direito de matar, de ser assassina do autor. Vejam Flaubert, Proust, Kafka. Mas há outra coisa: essa relação da escrita com a morte também se manifesta no desaparecimento das características individuais do sujeito que escreve; através de todas as chicanas que ele estabelece entre ele e o que ele escreve, e o sujeito que escreve despista todos os signos da sua individualidade particular; a marca do escritor não é mais do que a singularidade da sua ausência; é preciso que ele faça o papel do morto no jogo da escrita. Tudo isso é conhecido;

- -
esse segundo trecho é para agradecer pela carona de ontem.
e combinado ao primeiro
para todos nós que ainda tentamos entender a ana
pela janela
- -

o primeiro é prum sítio
onde fecho os olhos as cigarras acumuladas
me parecem uma luz branca de cozinha
de escritório paulista
que se acendem todas juntas num zum zum
e o caetano me dizendo, mãos nas coxas, no sofá:

hoje não tem fernando pessoa!
se vocês em política forem como são em estética,
estamos feitos
eu vim aqui para explodir

esse caribe de merda, viu
nove graus na universidade
onze na heitor
tão de sacanagem
comigo.
5.
Como podemos florir
ao peso de tanta luz?


Eugénio de Andrade

5.10.08

pirataria já

- -

a cidade é uma manobra de erros
onde o condutor perdeu os dedos
umas deusas se suicidam
de uns bustos de mármore
naquela escadaria
vou te saquear todinho
aaah gritos a prataria
mamãe dê adeus a louçaria
e a mãozinha acenando

2.10.08

Passo a tarde montando nos meus hiatos. Encontro textos à máquina:

Por que a literatura brasileira atravessa uma fase de caretice? De algum modo, quando alguém se bota a escrever, é necessário pensar: quais são as margens desse quadrado chamado literatura nessa língua que cultura hoje? De algum modo, de novo, quando alguém escreve nossos padrões contemporâneos também são margeados (ou não), por uma série de valorizações, colocações, escolhas, que levam, por exemplo, a pensar: ele escreve: mas escreve como outro. Como Beckett seria melhor, mas ou o autor escreve aqui como - - paródia citação fagocitose soluço, etc -- Mas se são recursos, se falamos de recursos, na mesma medida que são controláveis os escritores repõem uma medida, centralizam novamente às margens, dão uma anestesia permanente no sujeito trancafiado em bares, convivendo com pessoas que na realidade detesta, mas que nem percebe!, afinal nem isso se pode sentir, já que, somos brasileiros e o mundo é norte-americano (por quanto tempo?), o que faz, afinal que respeitemos as diferenças. e, com elas, as adversidades. Mas essa literatura faz o quê? então? ameniza?

- -
Ao mesmo tempo que sabemos que o excesso de experimentação sempre pode revelar o negativo do arbitrário. O múltiplo do arbitrário. Quer dizer, o arbitrário como múltiplo exponencial. E cresce, cresce, cresce. Feito se tivessem colocado fermento no arbitrário.

E esse arbitrário em exponencial, de tanta consciência oriental de que você poderia ter nascido naquele besouro, como aquele besouro é você, o apagamento lógico de qualquer possibilidade de escolha. Isso, ao acúmulo do junk space. Isso. Ao excesso de publicidade. Isso, ao excesso de ofertas de sabonetes que me constrange, sabão em pó, produtos de higiene geral nos supermercados. Conteremos um dia todas as pragas se nem nós mesmos? Serão mesmo excessos? Ou o Largo da Batata. Vocês me desculpem, mas eu adoro o Largo da Batata.

- -

Escrevo num limiar muito concentrado em mim mesma. As linhas disso, só a antropofagia tropicalista nos une e toda mulher é uma sanguessuga qualquer. Dou muito em diários. Mas não sei quem vive meus diários. A grande experiência dessa escrita diária é que as linhas disso são menos regidas pelo que já está normalizado em literatura. Ainda somos modernos? Queremos a forma e a falta de forma. Queremos o in vitro e também o orgânico. Queremos sobretudo não falhar. Mas falhamos. Não precisa de mais ninguém pra dizer isso. Samuel Beckett já fez o bastante. Já? O bastante? Não me faça rir. Escritórios criam posições demais estupidificadas pra um corpo de gente. Ele, que vai descendo por todas as ruas. É sério. Eu não tenho escapatória de mim mesma. É preciso virar improvável. Mas o que é o literário? o falso? o deslocado? o fora de si? Dentro de oitenta anos estaremos todos mortos. No português não há palavras sintéticas para dizer o futuro.

slow show

há quinze poemas que leio para te mostrar
abertos na minha cara
sinto o cheiro dos livros percorrendo suas sardas

aperto os olhos muito até ver quadriculado
esquadrinhar que o amor só serve pra rasuras
mas se tocar o papel não se pode trocar de ser
outra mulher outro querer como escrever

agora era como se acordar fosse neblina
e a brisa fira uma promessa de que a noite teria te apagado
como as cinzas do último cigarro caídas na cama se perderam numa palma
quinze minutos para as seis notei que a bolha queimada no polegar
na Pensão Londres quinze dias atrás se desfez

vi na previsão
chove no Brasil inteiro
todo o tempo
por quinze anos daqui para diante

como se mostra, tudo é temporário.
eu quero um vulcão para nos proteger.
25 razões para o começo de outubro
  1. Quando eu chego em casa nada me consola
  2. Você está sempre aflita
  3. Lágrimas nos olhos, de cortar cebola
  4. Você é tão bonita
  5. Você traz a coca-cola eu tomo
  6. Você bota a mesa, eu como, eu como
  7. Eu como, eu como, eu como
  8. Você não está entendendo
  9. Quase nada do que eu digo
  10. Eu quero ir-me embora
  11. Eu quero é dar o fora
  12. E quero que você venha comigo
  13. E quero que você venha comigo
  14. Eu me sento, eu fumo, eu como, eu não aguento
  15. Você está tão curtida
  16. Eu quero tocar fogo neste apartamento
  17. Você não acredita
  18. Traz meu café com suita eu tomo
  19. Bota a sobremesa eu como, eu como
  20. Eu como, eu como, eu como
  21. Você tem que saber que eu quero correr mundo
  22. Correr perigo
  23. Eu quero é ir-me embora
  24. Eu quero dar o fora
  25. E quero que você venha comigo

30.9.08

desde que voltei meus hiatos são tão grandes que às vezes encontro
coisas como um arquivo .doc de antes de eu ir viajar com o nome de "sobre o talento"
quando abro o arquivo está vazio
consta nele uma só página
e está em branco

28.9.08

o alfredo nasceu numa casa na frente do ibirapuera na década de 50, oito quartos, estilo suíço, governanta francesa e o escambal. aos quatro anos ele achava que "lumbertchuw" era a palavra para cocô, as fezes sim, em inglês. isso porque os adultos falavam certas coisas em inglês na frente dos empregados: alguém ia ao banheiro: "number one or number two?", o outro perguntava, ao passo que lumbertchuw veio daí.

daí a gente se pergunta que espécie de aristocracia é essa que, ao ir para uma outra língua para escamotear da senzala discute intenções desse tipo.


- -
minha vó até os vinte e cinco anos
achou que o nome de faca de pão era "simplício"
meu bisavô, segundo ela, inventava nomes para tudo
eu que tenho agora alguns meses nos vinte quatro
acho que ainda tenho chances
de que
não sei
- -

a palavra da vez do meu vocabulário é: "vigor".
agora que tenho uma nova lógica, ela ainda é em português. tem muito caminho ainda, essa língua. pruns séculos ou mais. pega a senha. a lógica logo na frente ali vou ter que trocar. tudo bem, já estou acostumada. me acostumei com muita coisa. não mais do que eu devia. em verdade não sou uma pessoa muito acostumada. aprendes com os gatos: nada te surpreende, tudo te estranha.

encontrei meu guarda-chuva cor de rosa que viajou todo o tempo a europa comigo, sem sair da mala. de certo modo ele viu mais do que eu, no escuro da mochila negra. não sei o que perdi, talvez ele saiba? se eu seguerasse pelo cabo talvez ele conseguisse ver no fundo dos meus hiatos e pudesse me reportar tudo o que acontece. mas não vou tentar, sua linguagem de nylon me asfixia.

de todo modo aprendi a dobradura dos mapas de ruas. ontem escrevi um poema muito bonito. nem parei pra admirar. comi milho verde na augusta, queimei a língua, dei metade pro engraxate. e agora tenho a ressaca de que nunca mais essa escrita do poema nunca mais novamente nada.

26.9.08




verão de 1991
lau, o pudim, caju
gente bacana
jardim lá de casa
da época que eu não precisava ir até amsterdam
pra ter uma botinha do recanto do fazendeiro

24.9.08

--

ato falho mesmo foi que, cortando a parte de cima da estante,
não sobraram lugares para as biografias.

- -

e descobri que tenho uma constituição de bolso,

falhos atos

comecei a arrumar os livros.
qual seria a ordem?
"dessa vez quero os romances acima de tudo".

e depois, para uma amiga,
"quem vê meus livros até pensa que estudei letras".

- - -
trouxe de Lisboa, Adrienne Rich:

II

I wake up in your bed. I know I have been dreaming.
Much earlier, the alarm broke us from each other,
You've been at your desk for hours. I know what I dreamed:
our friend the poet comes into my room
where I've been writing for days,
drafts, carbons, poems are scattered everywhere,
and I want to show her one poem
which is the poem of my life. But I hesitate,
and wake. You've kissed my hair
to wake me. I dreamed you were a poem,
I say, a poem I wanted to show someone...
and I laugh and fall dreaming again
of the desire to show you to everyone I love,
to move openly together
in the pull of gravity, which is not simple,
which carries the feathered grass a long way down the upbreathing air.

IV.

I come home from you through the early light of Spring
flashing off ordinary walls, the Pez Dorado,
the Discount Wares, the shoe-store...I'm lugging my sack
of groceries, I dash for the elevator
where a man, taut, elderly, carefully composed
lets the door almost close on me. - For God sake hold it!
I croak at him - Hysterical, - he breathes my way.
I let myself into the kitchen, unload my bundles,
make coffee, open the window, put on Nina Simone
singing Here Comes the Sun...I open the mail,
drinking delicious coffee, delicious music,
my body still both light and heavy with you. The mail,
lets fall a Xerox of something written by a man
aged 27, a hostage, tortured in prison:
My genitals have been the object of such a sadistic display
they keep me constantly awake with the pain...
Do whatever you can to survive.
You know, I think men love wars...
And my incurable anger, my unmendable wounds
break open further with tears, I am crying helplessly,
and they still control the world, and you are not in my arms.


hoje eu desejaria de maneira voraz ter escrito cada um desses vinte e um poemas de amor aqui

na concha ultramarina de amar

e eis que quando começo a desistir, às 5h da manhã me chega uma resposta do norte:

"Claro? Nao?

Ele pessoalmente trato assim este processo fora da ordem- segundo as regras nao pode fazer tais sacanagens - mas ele aparecau em frente de quem manda dizendo, que quero uma fémea/mulher para mim. Tá bom, foi a resposta.
O que aconteceu em Paris?
Porque é que vocé ficou debeixo de si, com tanatas saudades de Sao Paulo? Sentimantos e pensamentos estao tomando forma duma leque? Escreva o seu primeiro livro! Forca!

Saudades, beijo,
a cuzinheira do jardim zoologico.

P.S.: Todos os homens sao do outro tipo de macaco."

- -

23.9.08





21.9.08



tratar-se como um ralo de matérias invisíveis,
uma calha do invisível onde cai lá embaixo um líquido
que ninguém enxerga e brotam da sombra úmida
umas ervinhas onde ninguém vai ver.

20.9.08

vi em verona as fotos desse fotográfo, duane michals
humor, memória, narrativa, técnica,
enlouqueci por ele,


This photograph is my proof there was that afternoon,
when things were still good between us and she embraced me
and we were so happy. It did happen. She did love me. Look for yourself!


The Unfortunate Man could not touch the one he loved. It had
been declared illegal by the law. Slowly his fingers became toes
and his hands gradually became feet. He began to wear shoes on his
hands to disguise his pain. It never occured to him to break the law.


paradise regained, 1968


self portrait as if I were dead, Duane Michals

- -
eu casava.

18.9.08





i.

há algo em mim que se esconde
e depois aparece muito tão forte que
as nuvens se confundem com o atlântico
azul e branco lá embaixo
não sei não sei não sei

assim eu gostava que fosse minha última página
que se lançasse por sobre essa janela
e que quem a lesse comesse feito se bebe água
da chuva a boca atravessada de pingos

sem ter as vilas montes praças pra olhar
tenho tantas imagens disso e daquilo nos olhos
que acho que em casas de viagem
para sempre vou ficando

e de repente, olho para fora e vejo a borda,
isso só pode ser muita sorte,
estar a ver a terra à vista, o avião entrando de frente, o continente!
américa,

ii.

quando olhei a cidade vindo por baixo da asa do avião
o caule dessa flor inteira técnica
de homens em que voávamos
disfarcei costurando o botão imaginário de um reencontro
do além-mar que me partia

olha o monstrengo, vem lá vindo, disse
a voz dramática
meia furada
essa risada

o monstrengo tem braços de morcego
tamanduateí jabaquara anhangabaú
nomes de antigos povos que lhe deram
às veias cinzentas e cheias de pelo

um casamento do mamífero voador com polvo já frito
axolote esnobe que me fascina
ninguém sabe o nome de são paulo
se vem de espécie rara ou é doença de família

- - -

de quando em quando me despeço

13.9.08

gerar

---
descobri uma poeta na fnac dessa Lisboa
Wislawa Szymborska
em tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves

UM NÃO ACABAR MAIS

Sou quem sou.
Um acaso inconcebível
como todos os acasos.

Outros antepassados
poderiam, afinal, ser os meus,
e então de outro ninho
sairia voando,
de debaixo de outro tronco
rastejaria, coberta de escamas.

No guarda-roupa da natureza
há trajes de sobra:
o traje de aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um assenta de imediato que nem uma luva
e usa-se obedientemente
até se gastar por completo.

Eu tampouco tive alternativa,
mas não me queixo.
Poderia ser alguém
muito menos individual.
Alguém do cardume, do formigueiro, do enxame zuninte,
uma partícula da paisagem agitada pelo vento.

Alguém muito menos feliz,
criado para dar a pele,
para a mesa festiva,
ou algo que nadasse sob a lente.

Uma árvore presa à terra,
da qual o fogo se aproximasse.

Um mero cisco esmagado
pela marcha dos acontecimentos inconcebíveis.

Um indivíduo nascido sob a estrela ruim
que para outros seria boa.

E o que seria se despertasse nas pessoas medo?
Ou só aversão?
Ou só piedade?

Se não tivesse nascido
na tribo certa
e todos os caminhos se me fechassem?

Até agora, a sorte
mostrou-se-me favorável.

Poderia não ter-me sido dada
a recordação dos bons instantes.

Poderia ter-me sido negada
a tendência para comparar.

Poderia até ser eu própria
mas sem o dom da admiração,
quer dizer- alguém completamente diferente.
- - -
da onde da capa do livro Instante
anotei a seguinte legenda:
13 de setembro de 2008
Lisboa.
Num dia que havia de tudo para ser terrível e triste e há uma particular alegria a imprimir seu selo nas nuvens. E essa poeta que agora descubro me surpreende e refaz, espero, a escrita e os tecidos, de um sempre para agora e adiante
numa avaliação ágil do passado
só belezas e estruturas
de conchas marinhas
feito nádegas de uma deusa menina
avançada em técnicas de não ter técnicas
e de se apaixonar por estátuas e amuradas
e neste Pavilhão Chinês onde me bebo de chá
passa o homem de terno bonito
de azul clarinho de linho
e diz a palavra, a frase:
«ela tem uma técnica», logo no momento posterior do que eu escrevi «técnica», pela 2a. vez.
há e não há
o acaso
a realidade
o amor.
- - -

CONTRIBUTO PARA AS ESTATÍSTICAS

Em cem pessoas,

sabedoras de tudo melhor-
cinquenta e duas;

inseguras a cada passo-
quase todo o resto;

prontas para ajudar,
desde que não demore muito-
quarenta e nove;

sempre boas,
porque não conseguem de outra forma-
quatro, talvez cinco;

dispostas a admirar sem inveja-
dezoito;

constantemente receosas
de algo ou alguém-
setenta e sete;

aptas para a felicidade-
vinte e tal, quando muito;

individualmente inofensivas,
em grupo ameaçadoras-
mais da metade, com certeza;

cruéis,
por força das circunstâncias-
é melhor nem sabê-lo,
nem aproximadamente;

com trancas na porta depois da casa roubada;
quase tantas como
aquelas que têm, antes da casa roubada;

não levando nada da vida a não ser coisas-
quarenta,
embora preferisse estar enganada;

agachadas, doloridas
e sem lanterna no escuro-
oitenta e três,
mais tarde ou mais cedo;

dignas de compaixão-
noventa e nove;

mortais-
cem em cem.
Número, até agora, não sujeito a alterações.

7.9.08

ontem
joguei futebol com uns rapazes no vondelpark
um deles tinha um blackpower e era filho de surinamenses e outro tinha olhos longos e azuis e seus pais eram franceses
eram muito inteligentes,
e gostavam das florestas tropicais sem nunca terem visto

à noite sai com meu amigo de navarra
procuramos um bar de blues que haviam nos recomendado
e quando nos perdemos sem o bar sentamos numa das pontes dos canais
e os fumavamos e ele me fazia rir
os pès dependurados sobre o canal
"aqi, en la venezia de europa las crianças solucionam problemas que nosotros" e pff, bufava com os dedos
depois cuspimos em uns barcos de sightseeing cheios de americanos
no teto de vidro de uns
dois ou tres

o ar era umido
e eu resolvi caminhar com ele atè o lugar em que havia visto o altar para a morte em outra tarde

em amsterdam as pessoas aproveitam suas vitrines de janelas das ruas para mandarem mensagens, no geral de venda. esse nao, alguem transformou sua sala em um ritual memorativo pra quem passasse: tu morres. nao era bonito, ironico, ou alegre. era para os outros ainda. e no fundo o espelho marcando isso tudo e na frente bacias cheias de coisinhas, galhos retorcidos e secos, alguma pintura classica em um cartao; caravaggio, acho. o miquel viu tambèm. me jurou que o osso era de verdade humana, que seu pai è mèdico, ele sabia. dessa vez nao tive coragem de me olhar naquele espelho amarelado. ele quis tirar uma foto mas eu nao deixei

"cambia tu idea hombre"

senti mais medo da pressao funda em que vive aquele que aquilo montou porque era noite
e quando voltamos andando o vento me destruia o rosto
percebi que os indices de fumaça nas minhas ideias haviam apagado tudo
caminhava muito querendo so dormir
percebi no vento minha idade real
sentia o tempo sulcando meus traços

ainda posso sentir.

5.9.08

recado
ouve-meque o dia te seja limpoa cada esquina de luz possas recolheralimento suficiente para a tua mortevai até onde ninguém te possa falarou reconhecer - vai por esse campode crateras extintas - vai por esse portade água tão vasta quanto a noitedeixa a árvore das cassiopeias cobrir-tee as loucas aveias que o ácido enferrujouerguerem-se na vertigem do voo - deixaque o outono traga os pássaros e as abelhaspara pernoitarem na doçurado teu breve coração - ouve-meque o dia te seja limpoe para lá da pele constrói o arco de sal a morada eterna - o mar por onde fugiráo etéreo visitante desta noitenão esqueças o navio carregado de lumesde desejos em poeira - não esqueças o ouroo marfim - os sessenta comprimidos letaisao pequeno-almoço

al berto

- -
estou feliz que é um desperdício

31.8.08

de ironias e ervas

perspectiva

duzentos mil coches pela autoestrada a fugir do furacao
acordo em paris com dor de garganta por uma corrente de ar na nuca durante a festa


- - -
primeiro escrevi que escrevo como quem corta o mato a abrir uma clareira, abrindo o mato para pelo caminho passar, ou simplesmente poder dormir em um espaco a chao aberto
pensei que havia escrito isso e quando voltei a anotacao percebi que escrevi: "escrevo como quem corta o mato dentro de uma clareira", e achei ironico que a clareira ja esteja feita e eu esteja sempre a cortar um mato imaginario
(ironico. e um pouco triste que eu ainda escreva como quem pede desculpas por isso)

nao sei se è lope de vega ou quevedo, mas escreveu que escrever è como
arar o mar

- - -
se felicidade se chama meios de transportes
felicidade è ovo frito no pequeno-almoco e highway 61 revisited no aparelho de som da sala 

- - -
em milao assinei um abaixo-assinado do povo italiano contra o uso de drogas pelos jovens
e amanha bem cedo volto a amsterdam 

28.8.08

a areia era tao longa, cinzentos olhos,
que se confundia com o mar ao fundo

feito um bondinho contava historias
do bordado da manga do vestido
lilas
no dia das maes de 1973, nao, o aperitivo era outro,
lambari e campari, serviam, nao, 1974?,
nao setenta e tres na certeza, porque o Dantinho brindou a fundacao do partido, ou 75 que havia morrido morto no escuro?

como um traidor
a torneira pingava.

e eu louca pra bronzear minhas pernas
aquecer as coxas
a memoria até um tempo sem historias

a crianca com o baldinho vermelho
afundar aquela ilha

nao nao continuava
eram bordados, pingentinhos e martini,

espantei uma formiga que subiu na perna
contou como o inseticida lhe corrompia as narinas
e voltou, o drambuie foi no de 82

era como a janela
meio aberta sem querer
quando a lufada de vento
subia e dancava a cortina para cima
depois ca'ia.

- - - -

a escritora bota fogo em seus
quatro diarios de viagem
em um gesto

(imaginario)

(que por nao ser levado a cabo
demonstra a fraqueza de sua vaidade
e sua reverencia pela memoria)

- - - -
nada é mais bonito do que uma brecha de ternura quando escapa de um homem e vem dar no seu rosto no quarto ao ceu da rua.

- - -

(a italia me faz entender melhor os homens)

- - - -

trabalho em circulos

vivo morrendo na floresta escura
e acordando no descampado
chao de barro rachado

escrevo como que corta o mato
dentro de uma clareira
iluminado pasto rasteiro.

27.8.08

conversas tipicas de albergues

(traduzindo do ingles)
a menina da coreia:
ah, bra-zil? eu vim aqui milao ver kaka!
eu:
o kaka, ah que legal, ele é realmente cute
ela:
e vc, aqui fazer o que veio?
eu:
aqui, onde?
ela:
em milao, - risos histericos
eu:
ah, estou a caminho de paris
(penso you mustttttt remember this: we always have paris!)
e continuo sem muita enfase:
e vim procurar uma olivetti typewriter machine, mas me disseram que é impossivel encontrar nessa época do ano que os antiquarios estao de ferias
ela:
ahm-aham
uma maquina do que?
eu:
de escrever,
ela:
ah, voce é uma typewriter - hahah datilografa-
eu:
a kind of
ela:
like?
eu:
a writer, as you know, we like stuff to write, computers typewriters machines paper
ela:
ahm-ahm
eu, tentando engatar de novo:
and do you play football?

e a cara dela de espanto.
- - - 
e nos alpes suicos

bem da minha idade a menina, Lorraine, chegou com uma mala de rodinha subindo pedregulhos
entrou no quarto
falou pra mim que adora a suica porque lembra sua casa no canada mas que sentia falta de jogar tenis tirou uma chapinha da mala e um livro de 300 paginas chamado
"around the world in eighty dates". e quando me perguntou quais lugares eu tinha gostado mais, eu:
-amsterdam, paris e lisbon
ela:
-lisbon? what is this?
depois no jantar ouvi dizer que nao acreditava no amor.

26.8.08

spingere

verona

in vino veritas

dizem que um copo de vinho por dia faz bem ao coracao. e quatro?

- - -

e se eu escrevesse sem a memoria do aeroporto na cabeça?
- - -

e eles, os italianos, assim como os espanhois nao percebem falar uma lingua amorosamente de humoristas amantes e canalhas. e as placas entao? as vezes ainda melhores que em portugal. a minha favorita até agora:

estintore

- - -
sonhei que um aeroplano com um casal vestido de gala caia na piscina da casa em que cresci,
no meio de uma festa, era noite de céu estrelado, parecia que ia explodir mas nao, me mandavam chamar os paramedicos (e eu pensava: por que nao os bombeiros?), depois alguem arrancava uma cama de um lugar e fazia dela um berço, mas chega, nao vou contar o sonho, vou contar so a minha interpretacao:

inadequaçao familiar
me tratam como inepta
nao sou mais crianca
o aviao caiu e ninguem se feriu
os noivos estao vivos
viva o amor e viva o brasil!

----
as saudades de casa me venceram.

estou farta de grandes cidades e
estou farta de cidades pequenas

(no elevador penso na roça
na roça penso no elevador)

paris boibepa desfiladeiro

e certeza que os carros sao o problema que liga todas as pessoas por uma ignorancia comum no mundo inteiro

- - - -
depois de dois meses de viagem, 9 paises atravessados (isso sem contar lichtenstein!) todas as trocas de lingua e a permanencia extensiva do ingles e do portugues, os amigos que fiz, as camas de albergues e casas de amigos em que dormi, digo que a educacao feita foi pelo minimo. pensei que fosse ter mais frescuras, sou uma pessoa fresca, afinal, mas que nada! bem mais simples, afinal aqui é verao, tanta coisa para se ver, tao poucas para se preocupar.

duas coisas me fazem falta: um lugar cotidiano em que eu possa fazer nada e olhar para nada e pensar em nada (casa) e comer cotidianamente bem (os pratos sao sempre caros e nem sempre bons como em sp, serio, sp é uma maravilha nesse sentido) :

em resumo:

felicidade é ovo frito com pao no café da manha
nao andar com nada nas costas
ter agua sobre o corpo
(chuveiro que desliga de dois em dois minutos, ter que lavar as roupas em meio a isso, metade da toalha estar molhada antes de tocar o corpo, ser sempre impossivel secar os pés e de repente, mesmo assim, com tudo isso, ser o melhor banho da minha vida)
e amigos em toda parte
e mais uma duzia de historias para contar

quanto as historias:

.invejo todas as vidas que nao sao a minha e por isso conto historias
.conto historias para, num movimento de apropriacao, nao invejar vidas que nao sao as minhas.

- - -
de dentro da loucura da consciencia passamos anos montando a consciencia da loucura
(i never lost control, ja dizia o bowie, o kurt tb)

e eu pensando jardins solidoes movimentos
amores no escuro e nao no claro
(é sempre triste, o filho, carlos)
e as plantas nao tem nada a ver com isso
absolutamente nada!
hoje nao tem fernando pessoa

mas tem jardim sem brutalidade
- - -
aqui tem um desenho de um telefonezinho no meu terceiro moleskine.

bacci tanti

(gente, isso aqui parece até a italia)
 

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