29.6.08

amsterdam
me encontro nos acentos novamente
faz um sol lindo
as orquídeas dos restaurantes chineses são brasileiras
nessa cidade, a mais interessante que já vi
e só faz dez horas que estou aqui
clarezas repentinas e o fim da doença,
todo primeiro dia em uma nova cidade vai ser assim?
devolver à terra o sal da terra,
ao chão, vivendo
uma desterritorialização diária e nela, o corpo limpo de tantos combates depois da gripe
e choro
- -
no ônibus para cá fiz um amigo indiano,
menino de tudo, franzino, de 20 anos, com cara de 16, com um inglês de pronúncia confusíssima, hinduísta, morando por 3 meses no norte da frança. depois de umas duas horas de conversa ele me perguntou o que eu vinha fazer em amsterdam e eu, meio desconversando de uma pergunta tão radical (ando me desviando de perguntas radicais quando elas são falsas), respondi ah, van gogh museum, etc, foi ele quem falou em grass and weed, e eu, interessada em perguntar pra ele sobre as castas (que ele me disse que não vigoram na realidade atual e que money, etc), mudei de assunto entrando em outro exotismo, contei a ele que "mushrooms in the cow's poo, you know, you have a lot of cows in india, don't you?", no meu inglês menos capenga que o escrito, e ele ficou surpresíssimo dizendo que não sabia que são alucinógenos e quando eu disse, mas as vacas são sagradas, não são?, ele me respondeu "Yes! but we drink the milk!", e eu pensei, que o diga a merda delas, mas não disse, a tudo tenho respeito, e nesta globalização, espero ter instaurado um novo nível de experiência meditativa na Índia central,

28.6.08

queria te dizer do tempo
contar sem essa gripe que me pegou no ultimo dia no porto e nenhum lamento
porque as coisas tem um ritmo, os acontecimentos me levam a rimar,
sem querer

gostei muito do porto
passei dias muito felizes e noites mais ainda
depois que fui na festa na linda casa da cristina, de quem adoro as fotos e toda gentileza, e depois todos os amigos que vieram dela, o porto virou outros caminhos

e depois de alguns dias comparando brasil e portugal, desci ontem a noite no aeroporto de bruxelas, logo no metro me jogaram um engradado de bebida nos pes, me xingando numa lingua estrangeirissima, e fui cair nessa europa aqui, cheia de falas e ruas de outros tons

quando estava saindo do brasil meu pai me disse muitas vezes: "cuidado com a europa, ela 'e uma velha que esta morta". aqui tenho a impressao de que a europa nasceu morta.

nao vou ficar mais que hoje aqui na belgica para ter tempo ou nao de confirmar esta impressao um tanto ruim, ou talvez seja s'o finalmente uma terra estrangeira mesmo, esses teclados risipidos e sem acentos, e de manha uma vontade de valentine, que me espera dentro de um armario, protegida na casa dos meus pais,

aproveitei que estava uma chuva fina e fria (e eu espirrando por bruxelas) e fui ver o peter bruegel no musee des beaux-arts, onde estava acontecendo tambem uma exposicao do museu britanico, e eu, que tendo a me incomodar com os museus, gostei tanto de uma tela e de outra do chagall, e de alguns fauvistas, que chorei com cenas de outros tempos mortos,

chorar os mortos.

e depois fui ao cinema, numa galeria chiquissima onde se vendem chocolates e luvas de couro, perto da grand-place, que o guia recomendava "uma das mais belas do mundo" e onde havia pos-adolescentes bebados e fantasiados brincando de confundir turistas encabulados. e, no cinema havia cortinas escondendo a tela, e quando ela se abriu uma publicidade bilingue me fez rir congestionada e, no meio dos trailers, se acenderam as luzes e comecou a tocar bob dylan para uma senhora de bengala entrar e se sentar:

you know something is happening
but you don't know what it is

e depois comecou o filme, do vittorio de sicca, casamento a italiana, com o mastroianni e a sofia loren, e foi uma coisa!, com as legendas em frances e flamengo e a fala em italiano, fiquei trafegando entre uma coisa e outra, ate me esquecer das linguas e me ater as imagens, ao roteiro clarissimo e a interpretacao dos atores, claro. e eu entendi, sempre numa fronteira entre o me deixar levar,

amanha atravesso outra fronteira e vou para amsterdam.

- - -

al berto:

Mas nao te demores mais. Se quiseres, antes de seguires viagem, ensino-te os nomes dos animais. E se me deres a tua mao, queimar-te-ei os dedos, exactamente como queimaram os meus. Depois, poderas partir por essa linha litoral tracada pelo fogo sobre a pele.

e

-E se nos calassemos enquanto a memoria se esvazia. Esta tudo por acontecer. Mesmo o sono, se vier, tera um peso de lume, um sabor a terras mortas e areias salgadas. Nao sei... esta tudo ainda por acontecer.

- - --
finalmente de uma terra estrangeira a outra terra estrangeira, eu que sempre estive no comboio de tr'as, pouco a pouco, ouvindo os fluidos se deslocando no canal do meu ouvido, a olhar meus fios de cabelo crescendo dentro da xicara de cha, e a estes olhos presos na categoria de fundo, percebendo que tanta coisa pode ser diferente num simples gesto ou falta dele, porque que esta materia 'e limpa, limpissima,

talvez um dia eu saiba conseguir dar essa alegria que esse mundo precisa.

22.6.08

estou do lado de lá do oceano com a impressão de que faz meses e foram só três dias
não entendo como ninguém em mim ainda diz: «saudades» nestas aspas tão especiais
- -
o porto
segunda-feira, que é amanhã, começa a festa de são joão, que é realmente mesmo na terça, e vendem manjericos em vasos -folhas menores que dos manjericões conhecidos- que parecem bonsais gordinhos. não se pode cheirá-los, uma portuguesa quase me deu um tapa quando o fiz e jogou o vaso inteiro fora no lixo à frente. mas como não cheirá-los um bocadinho de tão deliciosos? no aeroporto revistaram minhas bagagens, mas complicado mesmo foi para uma portuguesa que trazia um pé de salsa em um vaso dentro de uma mala, enrolado num edredon a dizer «meu senhor eu não sabia que era cá proibido»
tenho a impressão de que os gajos usam menos palavras para dizer o mesmo que nós, somos mais prolixos e não comemos sílabas,
e que se descontrolam muito com os brasileiros, nunca vi gente tão grossa - num taxi que pegamos por causa da minha vó descansar, para andar só um trechinho de carro e, como era o rush, pedimos para parar logo ali e o moço (eles odeiam serem chamados de moço) não abriu a porta e dizia «agora então podes andar, agora podes» - pequenos nas coisas pequenas, mas outros tão efusivos em contar e explicar, são carinhosos
e parece que agora começo a entender o que é o tal do homem cordial brasileiro
aqui, em termos de restaurantes, ruas, lojas de roupas, perto de são paulo, me parece uma pequena-piracicaba, botucatueí, em ruelas tortas e construções de ouro preto mais recentes
o que muito me alivia, porque me parece que a vida poderia me parecer ainda mais estreita, numa cidade como essa a beira'mar
mas em termos de livros e discos! ah, quanta poesia se edita aqui!, mas livros são caros -discos nem tanto -
mas voltando ao assunto, parece que entendo um sei lá o que sobre o brasil que antes não entendia
e quando vejo os ingleses e os franceses no pequeno-almoço penso que poderia ser pior
os franceses a olhar as coisas como se nada tivessem com isso e os ingleses como sardinhas dentro de uma lata, ignorantes do seu invólucro
um outro me explicou que chamam os carros de lata e pandeiro (porque se bate) mas que lata também pode ser um amontoado de gente
amanhã começa o são joão, dizem que a cidade toda enlouquece, que passam alho no nariz das pessoas e dão marteladas à cabeça dos passantes,
veremos,
contaram-me também que algumas décadas atrás, na festa de são joão subiam todos à ponte feita pelo eiffel (sim, o da torre) que é enorme e corre altíssima sobre o rio douro, antes de nela passar o métro, e os engenheiros soltavam algumas das cordas da ponte e o povo ficava lá a balançaire para um lado e outro a ponte,
isso sim que é medieval!
até,

18.6.08

(havia um texto aqui que agora está em repouso mental aqui)
- - -

o sonho mais bonito que já tive foi ontem:

estou chegando para visitar desconhecidos no colégio onde estudei a alta adolescência. como sempre, vindo da rodovia raposo tavares, vou entrando no estacionamento a pé. mas dessa vez começa a subir água salgada pelos meus tornozelos, vejo que os carros atrás de mim estão praticamente cobertos e umas árvores na minha frente, plantadas em canteiros, ficam mais bonitas com a aparência de charco e percebo que estou no fundo do mar, e que a borda de saída é a entrada do estabelecimento escolar. vou andando com a água pelos joelhos, estou vestida mas minha roupa não se molha. é verão.

chegando quase onde acaba o mar vejo uma criança de menos de dois anos, sentada na margem de costas para mim, concentrada, brincando de chapinhar a água entre os pequenos dedos. agora parece o guarujá. tem uma cabeça grande, a criança. me viro de frente pra ela só para lhe mostrar um sorriso de nos entendemos quando percebo que sou eu aquela criança, ou melhor, sou eu quando criança brincando na água e eu hoje, meio adulta, me vendo a brincar. a criança que sou eu me sorri e eu meio adulta devolvo o sorriso para ela. mas vem uma onda mais forte, entra no ouvido dela (nosso?), ela se assusta e começa a chorar. me sento na água com a criança que fui, me pego no colo e, protegendo a mim mesma, arrumando meu cabelo no cocuruto, começo a mostrar pra criança a aguazinha boa-e-má, brinco com as mãozinhas n'água e ela, que sou eu criança, sentada no colo de mim mesma, sem ter o que temer, me volta com um sorriso.

- - -
baibai brésil, fui

15.6.08



14.6.08

feito fogos de artíficio, se desintegrando pelo ar, assim eu evitaria o poema e é assim que ele se dá.

começo a escrever qualquer coisa para alguém que não tem destino
digo: pode acreditar, agora eu sou vilão.

- -
toda vez que me levanto são minhas pernas que se dobram sobre os olhos
tenho vontade de colar a parede do meu peito e ventre nas coisas, homens e objetos,
feito um animal que se pendura numa árvore, numa mãe,
mas caio ausente no meu caminho
e me vejo para sempre confinada a este corpo
e digo para os outros: nunca verei através dos seus olhos
e penso: a ficção me permitirá?

- - - -

me deixo recados para o futuro, como alguém que deixa o objeto necessário no caminho que fará na manhã seguinte. pensei muito longe, eu estava na praia: "estou cansada de me parecer com as pessoas" e encontro isso mais tarde, ontem ao voltar da rua, pendurado na cortina da sala e viro um sorriso como basta pensar uma coisa e esquecê-la do melhor modo para que ela retorne e finalmente seja. "colhe as flores, gosta delas e esquece-as", isso é drummond ou pessoa?

e quantos poemas perdi por não anotá-los? mas não me importa, tenho que confiar: a memória como uma corrente sangüínea, que hora ou outra não nos trai.

mas e se a poesia é um território para o impasse, para o embate,
de tempos em tempos algum lado -alguém - tem que vencer um pouco? sair da indeterminação, dizer?

que seja alguém que escolhe pela vida. e logo se volta ao embate novamente. e se esquece.

- - -
já não sei mais se é só ansiedade ou se é só angústia.

- - -
7 de Diciembre de 1952
Mi soledad maúlla. La tapo con promesas vagas. Mentir, sí.Algún día encontrarás este diario y será antiguo, algún día verán mis fotos y se reirán de la moda actual. El vanguardismo será clasisismo y otros jóvenes reveldes se reirán de él. Pero... ¿es posible soportar esto? Quiero morir. Tengo miedo de entrar al pasado. Pienso en alguna mujer de mi edad de hace un siglo. ¿Qué hacía cuando estaba angustiada? ¿Qué?

- alejandra pizarnik, no site

que descobri nesse blogue a partir das traduções

Tua voz

Emboscado em minha escritura
cantas em meu poema.
Refém de tua doce voz
petrificada em minha memória.
Pássaro preso à tua fuga.
Ar tatuado por um ausente.
Relógio que bate comigo
para que nunca desperte


Tu voz

Emboscado en mi escritura
cantas em mi poema
Rehén de tu dulce voz
petrificada en mi memoria.
Pajáro asido a tu fuga.
Aire tatuado por un ausente.
Reloj que late conmigo
para que nunca despierte.

13.6.08

quadro de avisos

estou tão ansiosa com a viagem que é daqui uma semana que vou comer uns quilos de farinha pra ver se me soterro um pouco.

é estranha, essa ansiedade sem angústia.

- -
ele fala que sou tipo olívia armando sales penteado, fazendo jantares, fazendo as malas, fazendo endereços,
mesmo com o sex appeal todo da coisa, os vestidos e as jóias de família, me pareço entender que na verdade é um desfazer-se, esse rumo.

é claro que vou visitar museus, tentar entender pessoas pelos gestos e designs de ônibus. mas não pelo acúmulo, mas pela perspectiva de uma outra, de uma coisa de outro.

- -
não se é um clichê quando se reinvinta a todo momento?

- - - -
sei que estarei na internet todas as quartas, para escrever no sete linhas.

cartas devem ser remetidas ao e-mail que você dispõe em algum lugar.

- - -
a partir de uma conversa ontem, fiquei com vontade de ouvir cazuza. acredito desde ontem que o cazuza era O cara.

uma época em que se escancarava? e ele que se jogava todo. não esse tédio, sério: té-dio que a gente vive nesse país hoje em dia. alguém me fala? por que ninguém fala? estamos todos posando para o futuro do nosso passado, para um futuro esquálido, nervoso e frio, numa fotografia de alta definição que ninguém vê, anos depois perdida num hd? alguém peloamormemostra alguma coisa?

- - -
enquanto isso a gente fuma um com a turma de seis no arpoador
o sol tão lindo

- - -
acho que, se tudo for como imagino, esse blogue terá mais cara de diário do que nunca.

até,

9.6.08

da arte de ser um personagem

na sexta gregor samsa acordou metamorfoseado em mrs. dalloway e saiu pra comprar as flores. no sábado fui dormir sabendo que não sou o kurt cobain sendo encontrado ao amanhecer em gramados úmidos entre árvores altas. ontem acordei sendo um cowboy, ou sei lá, o indiana jones caçando moscas com a língua, prazeres alimentícios, laço firme e passo forte. e hoje, como acordei com dor de garganta, imagino que seja eu mesma.

5.6.08



2.6.08

Fazia frio em São Paulo, Ana, nevava e, entre pessoas que falavam de você, seus retratos. Sempre linda e eu não conseguia passar da segunda linha.

Falava de você um namorado, ou ex-, te digo, ainda um apaixonado, você fantasma, se é que me confundo e ele já era gago antes de você se jogar da janela. E olhando pra ele e me perguntando: era bonito? Será que era bonito quando você o conheceu? Você via, ele dizia que você o sacudia, você sabia tão mais, tanta inteligência descolocada e você se atraia por tentar a poesia de dentro daquela dificuldade e implodia com ele.

Dos dias de hoje conto que sucesso para os ácaros, essa profusão de poetas ,Ana. Na tela do computador ainda há ácaros Ana. Você não teve tempo de conhecer o Microsoft Word, Ana. Você iria gostar, Ana? Conheces alguém que não gosta? E quem gosta de fazer sucesso para ácaros?

De resto eram mulheres falando de você e as que não te conheceram diziam com cuidado em dizer que não era a mulherzinha no confessionário histérico, a sua beldade toda era cenário e a outra, tua professora, dizendo de um jeito quanto te amavas, que te amas e que a ela você não engana, querida. Te amamos também, se era isso que você queria.


Na manhã seguinte acordei finalmente sem usar o passado no lugar do presente como se falasse de um futuro. É de noite, estou em São Paulo, amanhã seria teu aniversário de 58 anos. Mudança drástica no. 2 : abandonar o discurso.

Você era uma idiota, Ana.
se encanta que posso escrever ainda pior

1.6.08

imagina que existe um fundo
e quanto mais alto nele
um fora

que seja esta piscina que seja

- -
os meninos competiam em lançar longe
botaram fogo no lixo da casa noturna
percorre caminhos fatigados onde eufóricos pisaram

- - - -
todos os planetas do sistema solar têm o movimento de rotação sobre o seu próprio eixo? porque eu vi em algum lugar (nada muito recomendável bibliograficamente, talvez um anúncio de um documentário de televisão) que a Terra gira em torno de si porque sei lá quantos zilhões de anos atrás um meteoro bateu feito uma bola de sinuca numa quina qualquer do nosso planeta e o movimento começou.

mas será que, se for isso mesmo, o planeta não começará a diminuir de velocidade? pra quem não sabe (eu não sabia, claro) a Terra leva 23 horas 56 minutos 4 segundos e 9 centésimos para girar os 360 graus.

- - -
bem, isso não me importa. mas é tão interessante.
quando era pequena, ela deve lembrar, eu queria ser cientista. gostava mesmo era de insetos e tubos de ensaio. bem depois vieram os domingos.

- - - -

conversando sobre o meteoro bem louco com um amigo enquanto olhávamos para o capim do sítio, eu delimitando que se dia e noite vieram indissociáveis graças ao meteoro, foi uma massa voadora pelo espaço que criou em base todas as nossas questões (a começar por nós mesmos) em um choque. e ele todo feliz e anti-eu: "mas, escuta, se metade do mundo fosse escuro e a outra metade fosse claro, você moraria em qual lado?" e eu "taí, você tem uma boa pergunta. não sei e você?" e ele "ah, acho que eu ia viver na fronteira." cheers!

30.5.08

há sempre alguém que morre antes.

acordo e continuo mergulhando na água quente. vou nadando percurso vazio contra a correnteza, sinto como tudo passa de ser outra coisa, que não estremece com o meu lamento.

quando saio da água, anoiteceu. me sento. a cabeça entre os joelhos, o ventre protegendo o ventre e a vontade de contar uma história antiga, de uma maneira bem sincera, para alguém que não me conhece. começa assim: aconteceu na américa do sul, que também é em qualquer parte e eu não sei o que é que deixa de me visitar quando a noite vem e nem porque desproporção fui criando uma mão direita tão forte que não se contém. uma espécie de febre. armários que aguardam por coisas de outros, alguém que não se conforma nunca vai sair de casa.

- - - -

estou ruim com as palavras.
ou de mal, feito criancinha.
não quero a bola, não quero.

é uma espécie de maldição, já que tudo que eu digo, some, muda de lugar, vira outra coisa, me bate na cara.
- - - - -

E então lá vamos nós e as sentenças, sentados no banco se praças houvessem nessa cidade, a observar as formigas e as ervinhas e a rir da maneira de justapor portuguesa.
Agora como dizer e não te dizer que estremeço, que não me habito e que não há raio que me parta desse labirinto?

Hoje que acordei mais cedo do que de costume, cedo de um jeito que a gente ia ao dentista e depois de cada barbárie obturada você me tirava da anestesia com um sundae recompensa no Brooklin, Me tiraram os dentes da vida, arrancaram de dentro da roda, pra você ver que existe dentro, um dentro literal.
De dentro da sua lucidez não finja mais que não teme ao seu redor as dispersões, os bandidos, os choques elétricos, a noite que seu pai não veio mais. Suas gengivas sangravam tinta de lula no rio de óleo negro o caixão singrando o Tejo que cada um carrega em pessoa
trinta e dois pontos negros na sala de televisão de dentro da carne da nossa morte e dor de um jeito que nem sorvete adiantava, uma vontade de morrer sem morrer jamais. Papai me ensine a compaixão que tem por mosquitos palavras hibiscos e abismos me diga se devo matá-los antes que me matem?

- -

e tempo haverá?
tempo para o chá
e ainda há quermesses?

o mundo todo é um interior sem tamanho
e nós no subúrbio do fundo da periferia

ao longe escuto os fogos
artifícios

29.5.08

"e eu, com a mó do moinho a pesar-me no ventre, Não há dúvida, emalucaram, entraram pela cerveja adentro e emalucaram como o meu pai emalucou depois de um jantar de lulas no aniversário da minha madrasta, terminava o arroz e nisto imobilizou-se, ergueu os membros acima da cabeça e afirmou Pronto, sou uma acácia, O quê?, estranhou o meu tio que trabalhava de capador, Sou uma acácia, insistiu meu pai a trepar para a toalha, em vindo maio deito bolinhas nos ramos, O meu marido tem uma cisma que é árvore, disse a minha madrasta ao farmacêutico, você não vende injeções contra as árvores?., e eu Abandonou a loja, não liga às fazendas, gasta os dias empoleirado numa mesa a suplicar Não me podem, não me podem que este galho está são, e o farmacêutico Contra as árvores não conheço, já experimentou no Porto?, e o meu pai, a criar raízes na toalha, a lançar ramos na direção da lâmpada do teto, a tombar pólen do cabelo, o meu pai a pedir que lhe abríssemos a janela por lhe fazer falta a brisazinha da tarde, mas passada uma semana tivemos de aferrolhar as portadas, Desculpe, pai, dado que durante a noite lhe soltvam morcegos das cavidades do tronco, e então serraram-no ao meio, quando a respiração dele era apenas um soprozinho de nortada, para que coubesse na ambulância, e a minha madrasta para a família, a assoar os olhos, Ser acácia é uma doença horrível, o médico chamou-nos de lado Pode ser que se o plantarmos no jardim e o adubarmos com cautela melhore, e o meu irmão para o do turbante, a bater a picareta na alcatifa, Esqueça os colibris, meu caro, esqueça essas tretas que voar com a ajuda da cerveja é canja, eu ia ao Minho logo ao segundo gole no tempo de Joanesburgo, difícil é a gente andar, como os mineiros e os mortos, enfiados na terra,"

António Lobo Antunes, em A ordem natural das coisas.

22.5.08

she's a rainbown

no meio do caminho o barro
organizar rasuras tirar um sarro

20.5.08

Com o vento pelas costas
morro e apago-me
na grande monção -
é então que verdadeiramente vivo.

(16-12-1965)
Paul Celan.

eu no aviãozinho

sabe coisas assim? quando alguém foi você já voltava? então, paciência nunca foi o meu forte. então muitas vezes pensei em estar voltando em alguma coisa que alguém me falava e muito basicamente se ouvisse numa abertura mínima eu via que a pessoa estava só também, só no lugar dela. e que talvez ela também estivesse preocupada em não parecer ausente quando na verdade estava voltando, voltando de alguma parte nela onde também, no fundo, não havia ninguém.

e eu que gostava tanto de contar histórias de repente não tinha mais nada a dizer. não porque já tivesse entendido ou dessa vez, finalmente, não entendesse mais nada. não é que olhasse a água e dessa vez não quisesse mergulhar ou já estivesse nadando nela em pensamento. não podia dizer se estava dentro, agora que era o próprio dentro.

pegava uns panos pra lavar, um romance pra ler, plantava sementes de fumo no vaso da pitangueira da sala e emboras tivesse preguiça disso ainda se sentia sempre criando e refletindo um personagem com uma história cada vez mais vazia -até no amor sabia desacreditar se precisasse - e imaginava como, como, como eu atravessaria este um mês que falta, até o momento da partida?

19.5.08



para que tirar comoção de pedras?

18.5.08

Empédocles, no século V a.C., descreveu os olhos como nascidos da deusa Afrodite, que "confinou um fogo nas membranas e tecidos delicados; estes seguraram a água profunda que fluía em torno, mas deixaram passar as chamas internas para fora." Mais de um século depois, Epicuro imaginou essas chamas como películas finas de átomos que fluíam da superfície de cada objeto e entravam em nossos olhos e mentes como uma chuva constante e ascendente, encharcando-nos de todas as qualidades do objeto. Euclides, contemporâneo de Epicuro, propôs uma teoria oposta: dos olhos do observador saem raios para apreender o objeto observado.


(trecho de uma história da leitura, do alberto manguel, como prometido)

14.5.08

A suposta existência

Como é o lugar
quando ninguém passa por ele?
Existem as coisas
sem ser vistas?

O interior do apartamento desabitado,
a pinça esquecida na gaveta,
os eucaliptos à noite no caminho
três vezes deserto,
a formiga sobre a terra no domingo,
os mortos, um minuto
depois de sepultados,
nós, sozinhos
no quarto sem espelhos?

Que fazem, que são
as coisas não testadas como coisas,
minerais não descobertos - e algum dia
o serão?

Estrela não pensada,
palavra rascunhada no papel
que nunca ninguém leu?
Existe, existe o mundo
apenas pelo olhar
que o cria e lhe confere
espacialidade?

Concretitude das coisas: falácia
de olho enganador, ouvido falso,
mão que brinca de pegar o não
e pegando-o concede-lhe
a ilusão de forma
e, ilusão maior, a de sentido?

Ou tudo vige
planturosamente, à revelia
de nossa judicial inquirição
e esta apenas existe consentida
pelos elementos inquiridos?
Será tudo talvez hipermercado
de possíveis e impossíveis possibiliíssimos
que geram minha fantasia de consciência
enquanto
exercito a mentira de passear
mas passeado sou pelo passeio,
que é o sumo real, a divertir-se
com esta bruma-sonho de sentir-me
e fruir peripécias de passagem?

Eis se delineia
espantosa batalha
entre o ser inventado
e o mundo inventor.
Sou ficção rebelada
contra a mente universa
e tento construir-me
de novo a cada instante, a cada cólica
na faina de traçar
meu início só meu
e distender um arco de vontade
para cobrir todo o depósito
de circunstantes coisas soberanas.

A guerra sem mercê, indefinida
prossegue,
feita de negação, armas de dúvida,
táticas a se voltarem contra mim,
teima interrogante de saber
se existe o inimigo, se existimos
ou somos todos uma hipótese de luta
ao sol do dia curto em que lutamos.

Drummond, n' A paixão medida. Vontade de dizer um absurdo, que ninguém se ofenda, mas tirando ele e T.S. Eliot o resto é bobagem.

- --
O mundo suporta os ombros.

percebo que continuo me especializando em coisas como: te ver e ficar doente, escrever diários, sentir camadas de frio e calor no ar feito se fosse água. também em sentir um otimismo aterrador, ao ponto de pesar no fundo das coisas que vivo ficando doente para enfrentar a melhora e redescobrir-me assim num renascimento, mais uma vez, enfim.
O ceticismo de certos homens me constrange pelo dogmatismo. Estão repletos os homens. Repletos de tontices.

13.5.08

É preciso se morrer mesmo integralmente e deixar o novo nascer com todas as implicações terríveis do sentimento de perda da falta de equilíbrio interior, do afastamento da realidade já adquirida, é o vazio vivido como tal, até o momento dele se transformar no vazio pleno, cheio de uma nova significação.

lygia clark

7.5.08



sábado

estou tentando amestrar a mão esquerda para que ela viva sozinha. caso a outra, pele de cobra, travesti presenteada dos adornos materiais, anel de prata, pulseira de ébano, realmente hipertrofie. será a esquerda que a presenteia, por que entende dessas coisas sentimentais?

meu jardim-da-infância para sempre, inerte de ser a outra que assiste, agora própria fazendo o trabalho, a esquerda escreve à máquina, meio débil, no computador, corta o pão e também saliva. mas, somente quando desenha é que a direita não se entedia. love will tear us apart, again.


domingo

tudo tem um cheiro que se estende pela sala.
toda coluna será castigada. já dizia jabor rodrigues.

- - -

(à noite)
as duas pessoas que quero nesse perto-longe se chamam marcos.
esse falou de mim no setelinhas, rinhas de galo, um dia animado.

1968?

quando eu tinha 11 anos, minha vó me deu de presente uma viagem para a disney. foi terrível. eu era grande demais, já tinha pânico de homens vestidos em pelúcia e, como, por economia, fui com uma agência de viagens pequeniníssima, era eu sozinha misturada num bando de famílias de uma zona oposta à minha na cidade. se já entendesse de coisas que entendo hoje, teria observado a realidade lisérgica do universo em derretimento, mas na época fui me transformando mesmo no alienígena que me viam. tudo isso para dizer que lá comprei uma camiseta em que o pateta era um cientista com a frase: "the future is now or is tomorrow?"(detalhe que eu sabia lhufas de inglês e achava que "tomorrow" era "yesterday").

- -
anotação posterior: cecília mandou esse link sobre o assunto.

- -
preciso de mais uns quarenta anos para falar sobre meu 1968.

mas, por enquanto, se o mundo é mesmo um espetáculo, meu bem, melhor ser platéia cativa do que estrela do panteão nacional? as minhas apostas: desconfio de quem acha as coisas, num geral, feias e me importo com aqueles que contracenam e sentem dor. com os outros, comigo, com eles. e acredito que existam: intimidade, calor e frio.

o estômago é o novo coração e o coração é o novo leão.

5.5.08

Isso de mim que anseia despedida
(Para perpetuar o que está sendo)
Não tem nome de amor. Nem é celeste
Ou terreno. Isso de mim é marulhoso
E tenro. Dançarino também. Isso de mim
É novo: Como quem come o que nada contém.
A impossível oquidão de um ovo.
Como se um tigre
Reversivo,
Veemente de seu avesso
Cantasse mansamente.

Não tem nome de amor. Nem se parece a mim.
Como pode ser isso? Ser terno, marulhoso
Dançarino e novo, ter nome de ninguém
E preferir ausência e desconforto
Para guardar no eterno o coração do outro.

Hilda Hilst, III poema de "Cantares do Sem Nome e de Partidas",
em Cantares
onde também está o

I

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua do estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.

Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena.E diminuta e tenra
como só soem ser aranhas e formigas.

Que este amor só me veja de partida.

2.5.08



(esse post é para a cecília)
vejo em tudo aquilo que se faz um (índice de) risco.
nos fazeres manuais ou escaladas de everests, as margens entre segurança e risco talvez sejam mais claras do que na fotografia ou na escrita. alguém que faz uma coisa com segurança dentro dela e de si mesmo, costuma se expor a mais riscos do que aquele que teme por si ou por alguma outra coisa ausente.

por exemplo, nessa situação, em que estavámos recolocando a cortina, pensei em dizer para o alfredo tirar o grassmann debaixo da linha da escada e protegê-lo no chão. mas refleti que isso era uma coisa que eu, desacostumada a furadeiras, escadas bambas e construções faria para criar uma margem maior de segurança ao quadro e aos meus dias futuros (não ter que levar nada para consertar é sempre melhor do que ter). já ele, não. ele sabe o que faz e, por isso, pode aparentemente colocar um quadro em risco, sem nem colocá-lo, na verdade.

me parece que quanto mais alguém está seguro e atento fazendo alguma coisa, mais riscos é capaz de enfrentar, sabendo ou não deles. e vejo dignidade em parafusos e palavras. coragem, sim, para atravessar.

não sei quanto aos fotógrafos, mas maus escritores costumam trabalhar com margens de segurança maiores. não que não se possa ser feliz e bem assim. deve dar, que sei eu que nem comecei bem? sei que podem virar bons azulejistas de expressões sem fendas nem rasuras, sairem no jornal, minha tia pode comprar seus livros todos. mas criarem apoteóticos navios afundando, dedos congelados no alto de tudo, terremotos que se alastram por toda uma vida no planeta, ah, sem risco é bem raro.

30.4.08

estou com dificuldade de escrever por aqui. talvez uma enorme de escrever em todos os lugares. e como esfriou e até as moscas das bananas da cozinha sumiram, coloco um trecho da história do antonio, que continua e logo, em poucos dias, vou ter terminado a primeira parte. sem contexto, nem nada, só o trecho, para acabar com essa lenga de exposição:

- -
ouvindo múm, finally we are no one e o qualquer coisa, do caetano.
- --

Procurava por um cheiro que me fosse familiar, um vislumbre, qualquer coisa antiga que se apresentasse para além dos meus passados mentais, mas só encontrava cortinas abafando a rua, novos armários que guardavam coisas de outros, janelas cerradas. As vagas lembranças do tempo que passei na casa enquanto Asaboli ali vivia pareciam devastações próximas da irrealidade, planos desérticos, um grande oceano onde antes havia uma cidade.

Uma palpitação me atravessava ao tocar a campainha e quando, finalmente, entrava na casa, me sentia levitando entre os móveis, em um estado de alerta meio desconcentrado, numa forma do sobreaviso, como se Asaboli pudesse aparecer a qualquer momento e nada mais no mundo merecesse minha atenção. E o ritmo de Flora era tão mais marcado conforme o tempo passava, que eu ia me centrando aos poucos nos gestos da sua delicada violência. Era claro que ela detestava a convivência consigo e passava tanto tempo tentando se domar, que a entrada de um outro em seu espaço era uma intromissão nas suas tentativaS concentradas. Feito um animal territorial, no começo da aula, antes de se sentar ao piano, Flora me tratava de um jeito dúbio em me trazer dúvidas de se eu tinha feito certo ao vir mais uma vez e ainda sem pagar. Calava recolhida, sentada era um ralo, um buraco negro que sugava para seu modo de estar todas as formas de ser do mundo.

Fazia inverno ao redor dela. Como poucas casas conseguem no Rio de Janeiro, essa tinha a propriedade de guardar durante o ano todo um frio de tempos antigos. Quando me levantava para pegar um copo de água, da cozinha até o canto da sala onde estudávamos, entre um cômodo e outro eu sentia correntes do ar se locomovendo frio e meu corpo tomado por arrepios, me comovia. Os móveis duravam limpos por dias, o tempo corria lentamente dentro da casa e parecia que Flora não envelheceria nunca, porque já havia nascido velha, com seu ar de dama antiga, o perfil todo agudo, vestindo sempre alguma malhazinha ou um lenço no pescoço, com o rosto cansado como se o frio aumentasse enquanto dormia.

Era decisivo o momento em que sentava no piano e, movimentando as mãos pontiagudas, aos poucos se abria rejuvenescendo, virando uma dessas adoráveis mulheres que falam por todos os lados, voltando a sorrir de histórias do tempo recente de quando era menina, Porto Alegre antes, não esse Rio de Janeiro intratável. Havia bicicletas, um sonho de estudar literatura, dificuldade em se expressar, alguma coisa que se rompeu bruscamente, uma cena de nudismo na beira de um rio anônimo. Um dia me deixou claro que não havia estudado música formalmente nunca, mas como tinha talento pensava em transmiti-lo para alguém que pudesse fazer alguma coisa com ele. Ela, não. Ela deveria pintar.

26.4.08



Lucas, sus intrapolaciones

En una película documental y yugoslava se ve cómo el instinto del pulpo hembra entra en juego para proteger por todos los medios a sus huevos, y entre otras medidas de defensa organiza su propio camuflaje amontonando algas y disimulándose tras ellas para no ser atacada por las murenas durante los dos meses que dura la incubación.

Como todo el mundo, Lucas contempla antropomórficamente las imágenes: el pulpo decide protegerse, busca las algas, las dispone frente a su refugio, se esconde. Pero todo eso (que en una primera tentativa de explicación igualmente antropomórfica fue llamado instinto a falta de mejor cosa) sucede fuera de toda conciencia, de todo conocimiento por rudimentario que pueda ser. Si por su parte Lucas hace el esfuerzo de asistir también como desde fuera, ¿qué le queda? Un mecanismo, tan ajeno a las posibilidades de su empatia como el moverse de los pistones en los émbolos o el resbalar de un líquido por un plano inclinado.

Considerablemente deprimido, Lucas se dice que a esas alturas lo único que cabe es una especie de intrapolación: también esto, lo que está pensando en este momento, es un mecanismo que su conciencia cree comprender y controlar, también esto es un antropomorfismo aplicado ingenuamente al hombre.

"No somos nada", piensa Lucas por él y por el pulpo.

(para Eva,
afinal da onde vieram os polvos?)

nenhuma surpresa invade o passado?
o livro todo do Cortázar aqui

23.4.08

ilana_ soft coeur, temporal diz:
No décimo andar de um prédio da Av. Faria Lima, a minha professora francesa ficou murmurando alguma coisa incompreensível do tipo "il bruge, il bruge". Eu só pensei que ela estava sendo indelicada com a aluna que fazia sua exposição oral, segui prestando atenção na menina e lamentando meu nível de francês.

júlia_ dificilitando amor one-way contramçao diz:
Eu e meu pai estávamos no bairro de Pinheiros conversando a respeito do belo novo livro que saiu sobre a Clarice Lispector quando minha mãe telefonou de Sorocaba dizendo que a terra tinha tremido. Meu pai disse pra ela que devia ser tontura de algo que ela comeu no almoço.


22.4.08

it's over

Caro(a) aluno(a), favor comparacer (sic) junto a seção de alunos para
assinatura da ata de
colação de grau, das 9hs às 11h30 ou das 17hs às 20h30,
Grato,

--
Atenciosamente,
Seção de Alunos de Graduação - Letras




cersibon é um rimbadu g~enio entre nós

20.4.08

20.11.2007
meu desejo mesmo era ir parar dentro do meu imaginário

e acessível sempre que conquistei em mim, conquistei finalmente e esses dias, caetano, a certeza de uma intuição lírica e desesperada e confiante na palavra, mesmo que seja uma outra palavra, ou uma palavra ausente.

20.11.2007 (à noite)

mas não é sempre mesmo um ninguém repetido que anseia? "ela segue, a si mesma, ela se segue". eu entendo a casa, a minha que é dela, vivo dentro da casa e conheço a cidade, com meus próprios olhos e o estômago seco que não me deixa mentir. talvez por isso eu ainda não esteja na boa de ouvir sozinha os barulhos da chuva na calha solta. meu silêncio -raro é a única coisa que me diz que estou em casa. de resto, mesmo que murmure, por enqüanto, estou escancarada. e se eu gritar, isso não vai atravessar o muro.

18.4.08

quando eu era criança o mundo todo fazia silêncio. tentava caminhar entre as coisas evitando o toque com elas, palmilhando o chão como se tivesse os pés recobertos por uma camada úmida de veludo. olhava para tudo que não fosse gente, os bichos, os objetos de arte e não conseguia entender porque eles não diziam. hoje ainda fico muito comovida quando penso entendê-los em movimento e ação. mas, na época, quantas vezes acordava sobressaltada?, quando um objeto de madeira rangia, a televisão estalava ou um animal chiava longe e me levantava bruscamente sozinha, as costas do colchão, tentando entender o que aquilo expressava tão esporadicamente em meio a tanto silêncio.
eu sentia também uma espécie de inveja daqueles insetinhos que voam em volta das bananas. porque eles giram sem zumbir, têm uma aparência de insignificantes e voam tão lento, duram tão pouco, que para eles o limiar entre a vida e a morte é tão fino que eles me pareciam livres dessa responsabilidade.
uma vez meus pais estavam na europa. me escondi atrás da poltrona verde-marinho do apartamento da minha vó, encostadas as cortinas que amarelavam. procuraram por mim durante algum tempo, até que sai do meu esconderijo quando a sala ficou vazia, porque não agüentava mais segurar os espirros que o pó me obrigava. depois de um tempo contei para a minha vó, queria a confidência, mas ela me repreendeu dizendo que a irmã dela usava marcapasso e poderia ter se assustado. essa irmã morreu mês passado.
comecei a escrever tudo isso porque tenho me pegado muito tímida, assim como quando era criança.hoje isso me agrada porque timidez em mim se confunde com calma e estranhamento. mas um capítulo sobre o contrário do silêncio, também sempre por mim praticado, ainda não sei dizer. talvez a fala fale por si própria. ou talvez um dia eu alcance, sabe lá se a fala ou o silêncio, de uma planta.

16.4.08



(um folk sobre o movimento)
Deleuze: "Se você está preso no sonho de outro, está perdido".
- -

15.4.08

é o mesmo dilema com outra roupagem: como libertar as palavras do jorro e também do crivo? talvez em um salto, alto. acredito também na coragem e no capacete de motociclista, esquecido, pendurado no parapeito do vizinho. tenho que estar pronta, repito, com o meu punhado de revolta e descontrole combinados à minha parcimônia de delicadezas e ressalvas, tudo misturado na minha capacidade de sussurro. "eu sou um menino bravo com a menina que sou." hoje nós compramos flores na dra. arnaldo e um mapa da europa na papelaria aviação, para servir de tabuleiro de war.

:: : : : :

"Exigir da força que não se expresse como força, que não seja um querer-dominar, um querer-vencer, um querer-subjugar, uma sede de inimigos, resistências e triunfos, é tão absurdo quanto exigir da fraqueza que se expresse com força." Nietzesche na Genealogia da Moral

::: : : :: :

As passagens eram as palavras e o calçamento as frases. Antes de mim havia o mundo. E depois de nós não havia nada. A cidade era outra e os caminhos de sempre, onde estavam? Chega uma hora que as ruas da nossa infância começam a ter limites. Às vezes os ultrapassamos e quando chegamos do outro lado esquecemos tudo de cara. Demoram um tempo para se recuperarem, os caminhos, mais um tanto para serem bonitos, naturais e completos de instintos, um ruído combinado com um cheiro lembra a foto, depois a cena completa e, um choro mais claro traz um mapa aos olhos e logo estamos passeando como se andássemos pela memória, em seus territórios.

:::

8.4.08

esperanças são retráteis

estou lendo O Passado do Alan Pauls. tenho tantos comentários a fazer, que por enquanto só quero dizer que se terminá-lo (contra minha mania enorme de trocar de livro pela metade) me prometo que vou escrever sobre demoradamente. (talvez faça uma comparação maluca entre ele e o Indecisão do Benjamin Kunkel.) não sei. (fazia tempo que não tinha vontade de escrever sobre literatura.) (também fiquei sem abrir parênteses durante uma fase). (e fazia mais tempo ainda que não destacava um cartão reproduzindo algum quadro do edward hopper para usar de marcador de página.) tenho afeto.

além disso, depois de passar pelo blogue do marcos querido, correspondente e articulista fui cair numa vontade de ler a hilda hilst (também por causa de uma conversa mais comprida com ela). quando olhei na estante, fiquei surpresa, que depois do machado, do drummond e da lispector, é a autora brasileira de quem tenho mais livros. entretanto, não tenho o hábito de lê-la, nem nunca tive, mas fui ganhando seus livros, pegando emprestado, e hoje eles se avolumam por aqui. muito raramente, como hoje, abro. raro não porque a despreze como quem a ignora, mas talvez porque a língua se misture com a fala de um jeito que me perverte. existem livros que me alteram a visão, a percepção, o pensamento e outros, como o Júbilo Memória e Noviciado da Paixão, a dicção. gosto do modo como ela constrói a paixão e o amor inteiro e multifacetado. fico levemente preponderada a ser raptada pela tua anta e volto a escrever o que mais gosto, poemas dos quais duvido. logo me recupero.

i.

não tenho nem
do amor, da vida
o conhecimento
que desperte o largo contentamento

amor tão mesquinho é amor,
amado?
e se nos espelhos imantados
te curvas na minha direção
e não respondes,
devo supor que não me vês?

ii.

(Can you now return to from where you came?
Try to burn, your changing name? - nick drake)

e se o fogo que corre na horizontal,
queimando trigo ramos aos milhares
begônias presas em luares
e alcança o pasto das ninféias
na linha onde o sol se põe
o fogo boiando sobre a água
atravessa os limites da cidade
e engolido pela minha garganta
atinge a força inescrupulosa
na ponta do meu dedo indicador
e, como conheces meu peso,
levantas de mim gemendo
pelos corpos atravessados
em lençóis de hotel, avisos, pústulas
num gesto, tudo em vão,
feito um sopro,
ao fogo!
contente mercador
de avisos, partidas, silêncios

6.4.08


1984

(gosto do cinto combinando com o sapato e do gesto receptivo da minha mãe
gosto da praticidade do meu pai, o relógio que nunca tira,
gosto muito das plantas, da escada no fundo com a gaiola do passarinho em cima
gosto de como tem um quê cômico nisso tudo

no mais, minha cabecinha parecia um cone, sei lá, a testona de um velho careca
muito velho velho velho olhando inside)

31.3.08

agora prestei atenção na

.letra de the sounds of silence, apesar de que o duda, meu amigo de sempre, quando tínhamos uns quatorze, quinze e dezesseis anos e ele dirigia esse fusca pra todo lado, a colocava pra tocar em todos os lugares. nós brigávamos muito por causa de qual música deveria tocar. discutíamos, davámos stop na do outro de repente e uma vez chegamos mesmo a sair no tapa. lembro da cara dele estatelada e vermelha no chão, possesso. eu ainda era maior que ele e ven-ci ven-ci.

refletindo a respeito das descrições a partir das conversas com minha nova amiga, me encontrei descobrindo quais cenários da minha memória têm semelhanças aos que aparecem nas imagens que se projetam enquanto escrevo. se encontrar essas coisas é um hábito que sempre visito, percebi que uma das casas que o antonio visita, no romance que estou escrevendo, com uma falta de título ainda provisória, é a casa do duda. que não fica na frente do mar como a de Lola, mas tem uma meia-luz reinante, móveis baixos no centro da sala, uma chave de armário de bebidas guardada num potinho. noto que é o único lugar de cena, até agora, que se narra qual música é a música que toca. uma espécie de homenagem?

quanto ao simon and garfunkel, ainda bem que eu não havia prestado atenção na letra. porque senão este, cubo de noite, teria tido desde o início essa citação, tão clichê e recorrente, que talvez pudéssemos nos cansar. eu, de mim mesma, não seria novidade. mas você, que pode saber muito, mas não sabe quem eu sou, ia saber o quão hippie é esta que vos escreve.

.
- -- -
Drummond, no Claro Enigma:

Confissão

Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, múrmurios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro -vinha azul e doido-
que se esfacelou na asa do avião.
- - - - -

.quanto a adolescência
mais vale um cachorro vivo.

escrever a adolescência do antonio está sendo uma aprendizagem. afinal, a proximidade que às vezes aparece entre a minha memória e a dele, tão bem tolerável na infância, ao virar a casa dos quatorze, fica absolutamente insuportável. com isso, a necessidade de distanciá-lo da minha experiência grita. e a ficção agradece.

os espaços, no entanto, retirados da minha emoção, são sempre agradáveis e onde a luz é muito importante. assim, na constituição das cenas físicas, as experiências cruzadas continuam convivendo melhor. um cenário vindo da casa do duda e outro da do leon e elisa k., quando eles aindam moravam na alves guimarães, prosseguem.

.será que agüento ainda esperar o aniversário de dez anos dos meus quinze, em janeiro de 2009, para poder perdoá-los?

.será disso que estou partindo?
dos lugares espaciais?
dos lugares que não são-lugares?
as grandes ilhas,

.do meu medo de partir
partir ao meio, em tanta loucura.
da mãe, puxei esse medo da piração. do pai, o medo do ócio.

.fiquei sonhando o dia todo. me levantei durante duas horas e fui até a polícia federal pegar o meu passaporte e voltei a dormir. os sonhos voltaram, com um pouco de sexo e situações festivas em lugares que nunca estive, uma casa com espadas de são jorge plantadas nos quatro cantos do terreno, uma sensação intensa de estar em viagem, que tem acompanhado meus sonhos faz alguns meses, me mantiveram dezessete horas dormindo. tudo muito feliz e agradável. de quando em quando abria os olhos e percebia os rumores do mundo, a serra elétrica da obra ao lado, todos amenos.
acho que as companhias que ontem eu, graças as graças, voltei a estar feliz junto, acho que tanto me sossegaram como me fizeram lembrar que é por uma estrutura de ressentimento que se reprime quem, aos olhos da sociedade corrente e claustrofóbica, não faz nada. e isso, fazer nada, era tão mais simples na adolescência.

.por fim, quanto aos meus vícios de linguagem:
de repente percebo, factualmente, como me fazem falta ao escrever todos os "c"s presentes na ortografia dos portugueses (cf. acção) . mas, como isso já me aconteceu antes, sei que toda vez que comecço a socfrer disso, vira um viccío.

e meia dúzia de risadas de um viccío bastam para ele se des-agigantear.
(deixar de ser gigante foi uma das minhas duas promessas de ano-novo.)

a morte passou a segunda morte passou a terceira morte se fez
vamos cantar,

26.3.08



25.3.08

Como a casa de Asaboli não tinha jardim, só um entorno cimentado, com o chão coberto de placas de cerâmica vermelha, era no meu que revelávamos os corpos ao desenho do mundo. O relevo do terreno era uma grande bacia, a entrada da rua o ponto alto de um lado, onde logo ficava a casa, grande e toda de madeira envernizada, projetada com o fundo suspenso no declive. A fachada da frente era sóbria, para não dizer protegida e séria e a única janela era o vitrô da cozinha, um grande retângulo comprido na altura dos olhos de um adulto e, no segundo andar, o vitrô do banheiro do quarto do pai, todo branco com banheira. Para o fundo se voltavam os outros dois quartos, o meu e o da minha avó, e embaixo a extensa varanda que continuava a sala envidraçada, um alpendre suspenso em toras, da onde se tinha toda a vista para o jardim. O quintal era enorme, coberto por um extenso gramado em declive, até onde começava um fio de água (que nascia logo ali, num amontoado de rochas de um jardim vizinho) e, depois dele, o terreno dos fundos subia em morro de novo, repleto de marias-sem-vergonha crescendo em liberdade vigorosa pelo barranco. Entre essas vegetações rasteiras, algumas palmeiras de coquinhos amarelos, um pau-brasil que muito me orgulhava por cultivarmos uma espécie em extinção, uma enorme figueira elástica e muitas árvores indistintas, com uma ou outra bromélia escancarada, onde habitavam rãs e, entre as folhas caídas no chão, um pássaro morto, era azul e caiu do ninho, doído, estatelado no chão. Eles próprios, os animais, não continham um pouco de nós dois nos hábitos e gestos?

Era subindo e descendo os relevos do jardim, numa fascinação iluminada de criança, que explorávamos o território do mundo, um monte de barro de cupim virava os Andes, os Alpes ou o Monte Pascoal; escorrendo da calha uma água velha era um rio enorme em direção ao córrego, que, em comparação, ganhava o nome de Atlântico. Um dia colocamos no seu curso caravelas em barcos de papel e, quando o Brasil estava sendo descoberto, os barquinhos todos afundaram com a tempestade de verão. Num pulo qualquer, Asaboli virava a princesa Isabel, que por simples confusão histórica, mandava decapitar todos os que se opusessem aos brioches e croissants no café da manhã. Era a civilização da menina que gritava, ela que adorava maquiagens, pó-de-arroz, cheiro de coisas doces. Asaboli gostava minuciosamente das coisas, sem explicação. Já eu, sempre estive no mundo como aquele córrego, feito essa lacuna, entre a continência civilizada e a selvageria inconsciente.


(outro trecho da história do antonio, ainda sem título, work in progress, no caminho)

19.3.08

o banner oficial distribuído pelo departamento de imprensa é:




tamô na área, aê, uma vez por semana se frita ovo, falow: setelinhas.blogspot.com

17.3.08

eu sou o rio dos mortos
dos meus parentes mortos
e os meus mortos são o mundo inteiro

eu sou o rio dos mortos
nasci da sede pelo dó das lágrimas
quando mortos todos os pensamentos

eu sou o rio dos mortos
me criei no pântano das palavras
dos restos tudo trago

eu sou o rio dos mortos
e o meu choro o que devolve à terra
o chão do sal da terra o chão

eu sou o rio dos mortos
minha margem de árvores
dos astecas que me sangraram

eu sou o rio dos mortos
da terra não passo
e ninguém me ultrapassa sem desvão

eu sou do rio dos mortos.
o caminho é dourado.

14.3.08

- - - - - -

essa noite voltei a sonhar.

você dirigia um carro antigo, talvez a nossa década fosse outra, talvez um lada, branco amarelecido, saindo do estacionamento arrancando com tudo. que, logo ali na frente, batia no pequeno depósito de lixo e casinha do gás, feito de tijolos vermelhos. a frente ficava toda amassada e o porta-mala do sedan se abria com a batida. eu caminhava para ver mais de perto. você saia do carro e, enquanto olhava os estragos do carro, eu observava o quanto seu corpo havia se modificado com o tempo que ficamos sem nos ver e me lembrava de um personagem do beckett, não sabia nem bem qual, nem quais são os traços do seu caráter e experiência que definiram seu corpo, se acentuando dia a dia durante o tempo que ficamos sem nos ver. até que, de repente, você me via e perguntava se eu não queria entrar lá, dentro do porta-mala escancarado.

com todo o respeito de quem está já acordada, o personagem era do fim de partida.

o que me faz pensar que só resta estar
entre um fado argentino
e um enfado ibérico
ai ai ai

- - -
quando vi um corpo morto pensei sobre a vitalidade de um corpo vivo. porque um corpo morto começa imediatamente a ser devorado por todos os bichinhos que já estão em nós. mas, enquanto vivos, a nossa vida vive entre a vida deles e convive. e esse corpo vivo, principalmente, me deu como a vida por si só é uma resistência e eu me sinto feliz.

5.3.08

paul celan em tradução de joão barrento também pelos pedidos,
mais pelos enigmas que dissolve:


Em círculo, ouvi
a conversa desfiada, oca,
com sons caninos
em algumas pausas --

Perseguem-te com desdém, e tu,
com sentidos prévios na garganta,
um trejeito na boca,
atravessas a nado o rio desse destino.

O grito de uma flor
anseia por existência.

-------

Conversas com cascas de árvore. Tu,
tira a casca, anda,
tira-me, feito casca, da minha palavra.

É tarde já, mas nós
queremos estar nus e à beira
da navalha.

------
O OUTRO

Feridas mais fundas do que em mim
abriu em ti o silêncio,
estrelas maiores
enredam-te na rede dos seus olhares,
cinza mais branca
repousa sobre a palavra em que acreditaste.

-- --

Escavo o rasto dos teus passos:
o mundo
derrama-se
na cavidade que fica,

volto a amar-te
no limite febril de mim mesmo,

tu folheias, agora terra fina,
os meus remotos
testemunhos.

-------------
Agora juntas ao teu peso
tudo o que é leve,

agora desmascaras
o sempre nomeado
mas sem nome,

agora mandas os martelos-
mecânicos, os fura-sílabas,
para debaixo do esporão
daquele que
te leva a saltar para o outro lado
da ardilosa madeira da sebe,

agora
escreves.

-- -
(aliás, a citação atual, embaixo do título de sempre deste blogue, também é do celan)

4.3.08



hoje que estou partindo e a tarde é tranqüila e a noite chega sem que eu me saiba bem
gosto de pensar como fernando pessoa e a sua maneira de justapor portuguesa,
para realçar os tempos do coração que se sobrepõem, avisando para quem parte que já se partiu

o coração, o bilhete de viagem, o caminho a nado,

(---

porque não são ridículas, mesmo quando ridículas, todas as cartas de amor. hoje, por exemplo, acordei o meu gato com o arroz que preparei para mim em seu focinho rosa, como se estivesse alimentando uma carta de amor. um pouco do meu arroz, sendo isto, um pedaço do meu amor. meu amor que não é precário, ínfimo, gratuito ou, como já dizia, ridículo. está inteiro em seu pedaço de amor, que não atinge a tudo, atinge tão pouco o meu amor, tão pouco a minha palavra te atinge?

---

"It is bad when one thing becomes two. One should not look for anything else that called a way. If one understands things in this manner, he should be able to hear about all ways and be more in accord with his own."

-o que aproveitei de um filme chato do jarmusch

---)

eu não teria coração agora, coração, suficiente que fosse para escrever ou ler o que te escrevi, com outro coração que é meu também, embora ainda. não teria porque respeito o coração aliviado e me invado de memória como quem já partiu.

1.3.08

três histórias reais sobre a ilusão e uma com a realidade

I.

manchete: leitores europeus processam escritora francesa por enganação.
o livro conta a história de uma menina de oito anos que conseguiu fugir de auschwitz, deixando seus pais aos nazistas. sem ter para onde ir, ficou uns dias dormindo em cavernas e copas de árvores, até que, no meio dos descampados livres, encontrou um bando de lobos que tentou comê-la, mas dos quais ela conquistou a confiança fingindo que era uma loba também, com muita habilidade em rosnados, uivos e andadas em quatro patas. assim, a família de lobos adotou a menina, que passou sua vida em estado de graça, livre dos nazistas e no conforto de um estado natural com os lobos.

o livro virou um sucesso, claro, até aí, ok. era tudo que a europa queria e precisava. natureza X o mal, polyana X nazistas, uma infância em estado natural, sobrevivência e aventura, etc

acontece que o livro figurou durante meses entre os mais vendidos na categoria de não-ficção e, dia desses, a sua autora fez envergonhadamente a revelação de que a história é ficção, afinal, não aconteceu fora da imaginação dela e de quem leu. acreditem, virou um escândalo. ou seja, como o livro não é baseado em um reality-show, ela mentiu, enganou e traiu seus pobres leitores ingênuos que agora clamam por justiça e, portanto, a escritora está sendo processada.

muy rico para a ficção, não é mesmo?

II.

essa é cruel.

a polícia recebeu um telefonema acusando uma mulher que estava jogando lixo pela janela no barraco de uma outra. caíram na casa da mulher e a intimaram a acompanhá-los até a delegacia. a acusada pediu para que dessem um tempo pra ela poder arrumar as crianças pra escola e que depois iria até a delegacia depor. consentiram.
neste tempo a mulher matou as duas filhas e depois se entregou na delegacia. ela não sabia do lixo e vendia maconha, pensou que tivessem descoberto e que com isso suas filhas não teriam futuro. logo, cortou a cabeça delas.

o que não é o instinto maternal, não é mesmo?

III.

o menino chamava riquelme em homenagem ao jogador de futebol. orfão de pai e mãe, criado numa favela pela tia. seu sonho era ter uma roupa do homem aranha. no seu aniversário de seis anos a tia conseguiu uma bela fantasia vermelha e azul do homem aranha que o menino imediatamente vestiu e saiu para brincar. pulando pra lá e pra cá, viu um barraco pegando fogo. de dentro dele viu uma mulher sair correndo desesperada, aos berros de
-meufileovaimorrer deus me ajuda!
o nosso riquelme estava na hora certa, no lugar certo, com a roupa de nylon certa e não teve dúvidas, entrou se rastejando no barraco pegando fogo, tirou do berço a criança de quatro meses com uma mão só, a abraçou em seu peito e voltou agachado de ré até a porta de saída do barraco com o bebê a salvo.
a televisão filmou o menino vestido de herói, fazendo poses de alterofilista. todo sorrisos e cara de self-made-man. quando o repórter perguntou pra ele:
-então, riquelme, você que é o homem-aranha?
ele disse:
-não, eu sou o filho dele.

I.

continuando no jornalismo televisivo, essa é da década de 80, uma reportagem do globo-repórter sobre a seca no nordeste do brasil, o jornalista pro menino cheio de ranho na cara e barriga d'água, com voz de tatibitati:
-você gosta mais do papai ou da mamãe?
ao que o menino respondeu guturalmente:
-eu gosto di carne.

- - -
boa noite,

27.2.08

Porque eu não tinha onde, mas precisava me agarrar, é que fiquei abraçando minhas pernas, de cócoras, apertando com força para que o sangue da ferida saísse com mais consistência e a ardência devolvida aos olhos não me parecesse de raspão. Sentado no fundo do terreno onde ninguém ia, abraçando a mim mesmo em cima do resto de uma grama que nunca reparavam, destruída por animais, pelo tempo e pela desatenção que a selvageria agradece.

Na pulsação do sangue nas palmas, ainda posso ver o homem que serei quando chegar na velhice, enfim cansado do barro misturado com o sangue da minha mão. Eu olhava fixamente para os tênis encardidos, com a atenção que me obrigava o ardor. Quantas vezes, sem saber para onde ir, repeti esse gesto? Ver os desenhos das minhas digitais bem de perto, meu envelhecimento, mãos tão perfeitas que podem até cortar o vento e tão precárias para permanecerem no tempo. Quantas vezes mais, vou olhar os pés imóveis e quando é preciso andar, andar olhando os meus próprios pés? Porque levantar a cabeça poderá me tragar imediatamente para esse momento em que estou no fundo do terreno e sou obrigado a olhar a casa enorme, as luzes se acendendo contra a escuridão da chuva que vem vindo, onde ainda vão me dizer durante uma década coma, beba, durma, estude e seque bem os pés. As frieiras intoleráveis aos corações prontos para viver. Os corações adultos que tapam aos olhos do coração a curiosidade de mexer na pele até perder a pele, desmistificar a ferida, retirar a casca todo dia. E lá de longe, a parte debaixo da varanda parecia menor, muito vazia, muito distante.

(antonio a caminho)

25.2.08

killing me softly

como diz adoniran barbosa,
"quem sabe de mim é o meu violão"
Herberto Helder começa um poema com o verso: "Quando já não sei pensar no alto de irrespiráveis irrespiráveis"; é importante esperar pelo dia sem hesitação. Esperar sem esperança, como diz o Eliot. É importante acalmar a palavra com um gracejo, que não seja por demais irônico nem too much meditativo. Acalmá-la como quem puxa uma cadeira para a palavra se sentar e esperar. Sobretudo as palavras precisam aprender a esperar.

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Os grandes poemas são compostos em Marte. E a esperança de alcançá-los não me diverte. Alguma coisa me diz que está guardado em mim o segredo astrofísico que desaprendi na memória da escola. Se for mentira, se não estou louca, o que é isto?

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São morangos pisados neste tabuleiro, meu bem, para que a alegria dos rapazes escorregue, pra ver se apanho pelo menos um. Poesia, eu te tentava pela mão, e você, não, dormia, ou fugia pelo espaço, numa lenta decomposição. Os quadrados dos tampos de xadrez se soltam para baixo, líqüidos desaparecem, por quais teus homens correm a solta, Carlos, João, Murilo, vão pisando num apagar, as palavras em que vacilo.

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Não. Não se trata de medo da louca prosa giratória. O poema, feito uma deusa, se transfigurará de mito para outro estágio avançado pela solidão. Desde criança que sou muda. Mesmo nos sonhos não escuto minha voz. Há quantos anos não grito? Eu, que sempre só ousei berrar perto do mar abafando. Um belo diário é como um soluço, não serve para muita coisa, mas o corpo precisa dele. Não vou encadernar este talento. Agora somos nós, Valentine, are you smart?

16.2.08

"
Someone recounts the story that in reply to a query from Hofmann why he did not work more from nature Jackson Pollock is said to have replied:
-I'm nature."

2.2.08

caixa-preta

31.12.7

"O último dia do ano não é o último dia do tempo": "Todo fim de ano é tudo que já está no ar.". Ainda não apareceram em mim muitos compromissos eufóricos com a noite de reveillon. A taxa de saudosismo também está baixa e o futuro é uma entidade calma, sentada sempre na janela ao meu lado direito. Como num vagão de três passageiros, eu no meio, escurescendo a esquerda vai o passado, mais fechado. Não devo nada nem a um nem a outro, no entanto, tranço em cada um meu braço como dado. Às vezes me aflige estar muito alto no céu sobrevoando, outras não peço para olhar para não ver o mar, porque sei que o barco afunda quando eu enjoar.

mas ah! que naufrague! os despojos na praia também serão lindos.

ah! esse ano de doismilesete! só não direi que - - - - - - - - porque não direi nada.
é isso mesmo que vou fazer, não vou dizer nada.

1.1.8

Às vezes aparecem homens que andam sobre as águas.
Um dia serei daquela tipografia de mulher-marfim que parou de respirar e agora só vive debaixo d'água.

Mas tanta coisa ainda me assedia com desconversa,

7.1.8

da raiva descobrir a alegria.
e o que eu não sei mais. tristeza e sal.
alguma coisa, acre valentine, que me comove em nossa capacidade íntima de estar (entrar e sair) do subterrâneo e a ele voltar.

12.1.8

deus te livre, leitor, de uma idéia fixa.

19.1.8

escrever alguma coisa. bem, estamos no trópico. as bananas e as mangas sobre a mesa, minha blusa listada de sair por aí e os protetores solares que dispomos sobre o corpo e que depois voltam num baile infinito para cima da mesa. conheço seus limites, valentine, já de olhos fechados; dispomos também de um corpo inteiro fechado para transcendências místicas. estamos em torno da verdade, da qual já nascemos docemente distantes. é isso. virei de madeira. ainda não adquiri saberes de rocha. nem sei se [---]

o centauro de madeira tomou corpo e consciência e saiu vigoroso e leve, a andar. toda articulada.
aí há consistência. sem dúvida um estado de crise.

(a noite)

estou em cinco lugares ao mesmo tempo. pensava na europa. a europa assim seria só mais uma grande ilha. não. estou cansada de me parecer com as pessoas. cansada de me adaptar aos hábitos locais. não. um janeiro difícil, esse. não.

20.1.8

nos dias em que não há colheita
e todos os mercados de trocas estão fechados
se faz necessário sair à caça
deixar a intimidade sombreada deste quarto
e achar nuns sentimentos da rua uns modos novos
dentro da crise dançar
dançar sem agitação

ao voltar para casa
esqueceu tão bem escondidos
seus melhores mantimentos
a comida que resta há dias em cima da mesa por cozinhar
porque a fome que sentes é outra
fome de anjo que extermina dor e dúvida
o caderno em que evitas dar o nome de diário
porque temes os nomes que alcançam ou não atingem o grau de batismo.

26.1.8

silencio tudo aquilo que do meu coração não parte.

27.1.8

do lado de lá havia chamas e eu vivia no mundo proibida de dormir xxx pra que não ouvissem xxx podia apenas cantar quando chovia xxx e a água doce pelo meio dos seios das minhas pernas xxx não mais cacos de vidro por sobre a cabeça xxx e todos os poemas que me esperavam sem entrave xxx desde que pus os pés nessa ilha xxx e porque não estava frio e a chuva me diluía xxx em algum lugar da minha terra xxx o incêndio que se apagava xxx botava submerso todo assunto que me valia.

29.1.8

o que dança na visão do enforcado? dias limpos para trás e os homens fortes que me sorriem na memória ganham de mim (quem diria?) um sorriso de retribuição para além de reprodução. olho-me no espelho até colocar os cabelos bem arrepiados, numa figura que me lembra homens inteligentes e soltos que me divertem no corpo de mulher, e meu pai me chama assim de gomes cardim, porque há dias se elegeu maestro schiafarelli, tal a rua da minha cidade, são paulo das neves. acertamos cabeças de siris com amendoas que caem dos chapéus de sol na areia da praia. o moleque matou dois sem-querer. corre o rumor de que sou uma poeta sem poemas; uma escritora sem histórias. me ofendo só para poder justificar o meu orgulho. o pior de mim: orgulho amarelo mostarda.
e como subtrair o racalque? e se a perda for contínua? e se contar não é? quando você totaliza, você está no mito.

perguntam se eu penso essas coisas pela minha história de vida ou por alguma história que eu esteja escrevendo. -pergunto pra mim.

e o vinho abaixa minha rotação. valentine que tornou a ser sweet, comic, valentine, meu coração vagabundo, os franceses que dias atrás nos viram trabalhando na praia ficaram ligeiramente entre comovidos e encantados com uma aparição da cultura ocidental at baíá. achei simpático. ou será que foi o narcisismo terciário?

28.12.07



banksy.co.uk

27.12.07

20.12.07

acontecimento biográfico I

para aqueles que não sabem, moro num predinho antigo sem porteiro. acontece sempre de interfonarem diretamente para o meu apartamento sendo engano, ultragás, para a vizinha de cima, sabe lá
hoje eu estava modestamente dormindo quando às 7h o interfone me acordou. ah, deixa tocar, e o interfonador insistiu e insistiu. quando atendi, disse ele assim:

-oi! esse edifício é da opus dei, não é?
-...

19.12.07

tudo é mesmo um pedaço completo partido pela metade e doado ao pó e a umidade
é "muito mais do que isso ou nem tanto ainda"
o escuro está amanhecendo ou foi o sol que se foi agorinha?

e todos se calam.

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Lembro da última festa de aniversário que fui, depois de beber quase meia garrafa de vinho do Porto um amigo tentava me fazer entender o que é um poeta da continuidade. Tive calafrios na nuca quente. Eu não, olha, sou artista da ruptura do sono. Sabe aquela história do é preciso? É preciso se ter os olhos abertos, mas somos obrigados a dormir. Dormir é uma das espécies manifestadas da ilusão. Foi para não ser pega dormindo acordada, que comecei a me estipular certas atitudes. Acordar bem cedo, de madrugada, virou a minha primeira ruptura, e, como era bom! começava logo cedo a minha força.

:::::::::::::::::::::::::::::::::::

O silêncio já estava absoluto, todos prestavam atenção. Só eu ainda não tinha conseguido uma posição confortável. Subi na ponta da cadeira do cinema, sentado sobre o calcanhar. Estava empertigado pela dúvida de todo personagem: entre ser eu e ele, você sabe bem como é estar sozinho e acompanhado a todo tempo. Na tela, estava na ponta da borda da terra, quase no mar, parado bípede, os pés se fincando pela areia conforme a umidade subia. Uma cena cinza, o mar tão da mesma cor que o céu, que a areia também, só podia ser mesmo um recurso técnico, alguma espécie de filtro nas lentes. Uma alteração freqüente e sempre repentina entre os pontos do foco. Essa alternatividade ia acompanhando os arbustos, se via o último casal saindo da areia para o apartamento e de repente os gestos dos dedos estalando o ar, tão próximos do punho onde se notava, de antemão, a ausência de relógio fronteiriça com o início da pele coberta pela capa de borracha, de um azul-marinho focado sem dispersão, tonalidade no dia tão ausente no água do mar. O que essa história tão imóvel poderá contra a minha agitação ancestral?

9.12.07

7.12.07

fado

Tu não sabes ao que me submeteram,

Colocaram o Rei num grande barco, para visitar o além-mar, só dento me avisaram o impossível regresso, dizendo-me que um dia, quem sabe, poderia eu voltar, caso a terra girasse ao contrário, mas que vontade deles de me jogar no mar.
Da terra eu trazia cinco ou seis pedrinhas, que me agitavam o bolso num lamento inútil "pedro, queremos regresso" e quem não quer, quem não quer!, minha pobre ânsia lançada ao Atlântico. Mas também me livrarva da necessidade de partir ao meio o homem que esperam de mim e o homem que quero lançar ao mar, correnteza de cinqüenta pés, temperatura de vinte e três celsius, só Deus sabe como venta, tanta umidade no mar.
Se tivessem o feito com meu pai, bem que ele iria gostar, despregado feito a terra estivesse debaixo dos seus braços, ou quem sabe, talvez sequer notasse, talvez nem Domitilia chorasse e ausente aquele homem, se... Porém eu, o filho, como acontece sempre aos reis, eu filho de Rei e Rei, me lanço as pedrinhas do solo fértil, estéreis em meu bolso, a perguntar:
-por quem me tomam, Pedro?

-----

para que me retirar deste modo junkie de estar me levantando da cama e apagando a fumaça, se o mundo continuará distante, cartas de suicida por debaixo da porta quando o interfone toca, os amigos me trazendo rostos com lições que não quero, bilhetes de afogados, personagens que não sabem se cuidar, correntezas de pensamentos; e todos os horóscopos me dizendo que é hora de procurar entender o porque de que, recorrentemente, perco o senso e a vontade e a fé em tudo.

6.12.07





quem me mostrou foi minha amiga eva, que também faz os desenhos mais bonitos do mundo

30.11.07

Uma certa narração seca que às vezes me sobe. Ao mesmo tempo que ouço as palavras como se elas fossem acordes numa partitura, subindo e descendo ao som do teclado.
não quero sugar todo seu leite/ nem quero você enfeite do meu ser/ apenas te peço que respeite/o meu louco querer/ não vamos fuçar nossos defeitos/ cravar sobre o peito as unhas do rancor/ lutemos mas só pelo direito/ ao nosso estranho amor
O indivíduo é múltiplo uno ou fragmentado? O indivíduo é indivíduo? Apesar de curar da doença, o texto tem um sintoma. ah mainha, eu queria mesmo era ser poeta.

29.11.07

this time tomorrow where will we be


agora pouco por um acaso uma entrevista do antónio lobo antunes na tv a cabo. eu não o imaginava assim hoje, velho.
uma lacuna, claro, entre o entrevistador e o entrevistado. o repórter perguntou 'e o senhor se sentiu como na porta da morte?'- ele teve um câncer recentemente e foi muito simpático com a besta- 'eu? me senti vivo. estamos sempre na porta da morte. mas da vida também.' então o antónio contou de algum outro escritor que 'com a morte beirando sua cama' em tom irrisório dizia mas é só isso? é só isso a morte?, e o lobo antunes sorriu, sorriu muito.

(aqui o link para o vídeo)

28.11.07

eu lembro de uma tarde, ele se soltou um pouco, fez meia dúzia de piadas e uma dancinha com as mãos. sem perceber, já tinha reprimido. havia uma mesa nos separando sem crueldade. teu maior riso é tão pouco. e eu ainda não sei pra onde olhar.

já escrevi tantas vezes
"evitar a ironia
e o tango, sobretudo o tango,"
o vestido preto com véu e sem fenda
que visto e me emboto a tecer eu,
tua prenda,
a luz tão branca do que é mudo
e quando chega a noite, exausta tiro
o que da boca foi parar na lapela,
a flor vermelha murcha
largada em cima da mesa
cansada de ser rosa

**
reler memorial de aires

26.11.07

god save the queen

Um trecho de um texto apitava na minha cabeça desde que comecei a escrever sobre Clarice e Cortázar num trabalho para a faculdade que, enfim, termina. eu lembrava assim: 'O coração já não pode' e depois lembrava 'algumacoisa é muito' e 'outracoisa é pouco'. Fiquei fascinada por lembrar da estrutura, mas não do que se dizia. Por se tratar de "coração" pensei primeiro que fosse um trecho da Clarice reiterado. Depois tive certeza que era Drummond. Até procurar no google e pasme! o primeiro resultado era meu próprio blogue e o trecho de Herberto Helder.

***

estou desintegrada demais para escrever. estou? no entanto, escrevo, retomo. caio nas drogas, café, cigarros próprios (tanto pelo gesto!), chocolate e farinha branca. entendo que Roland Barthes está errado. no Análise Estrutural da Narrativa, diz que quando se narram coisas que o narrador já sabe, tipo "este joão, meu irmão, era médico", é uma marca do leitor implícito. Mas só concordo com isso se o leitor for também o próprio escritor. Se fosse assim, não existiriam diários. Sei que, numa ânsia tremenda de delimitar as coisas, o cara (que é foda, eu acho muito) acaba falando demais. É bom que ele sempre se arrisca! Porque em"a marquesa saiu às 5 horas", "ela mesma para comprar as flores" ou, "estou desintegrada para escrever" podem ter marcas que não são de ninguém. Ou também, porque escrevo coisas que eu já sei que sei e é para mim mesma que desconheço. Os símbolos são inseridos sistematicamente ou podem ser coisas óbvias de desconhecidas para mim e que acontecem. E eu antes de ontem tinha anotado o que o Barthes escreveu com muito afeto. Tinha escrito que o António Lobo Antunes nunca marca o leitor, então, porque ele escreve dentro da perspectiva, sempre, do narrador.

***
escrevi uma carta ontem para o antónio lobo antunes. assim:
antónio, se no meu país existissem sultões, eu te convidava para ser o sultão aqui de mim,
cheio de crueldade você me daria o arbitrário de tudo
ah, eu iria sorrir e você também sorria, sim

***
"escrevo em desordem", escrevo para ter. Tudo aqui passa pela posse. As palavras, fazê-las, tê-las. Se o ato está sempre no presente, se é por tudo ser presente que me apavoro, se é disso que Eliot fala, se eu bem entendi, as palavras não preenchem espaços ou funções. As palavras são o espaço. A palavra é inerente.

***
hoje tomei uma absurda chuva de verão. É verão, ouviram bem? Por mais que a cidade o evite, é verão. É bom anunciar porque a cidade sempre aceita o inverno resignada, mas o verão? A cidade fica apavorada, você vê nos rostos as pessoas quase querendo se comprometer com o verão. Nas noites mais quentes, ninguém agüenta e explodem para as mesas quadradas sentadas de bares. Mas somos tão provincianíssimos! o medo do verão está nas pessoas, medo de que alguém te veja correndo na chuva, correndo dentro da chuva com a chuva, sem fugir da intensidade do excesso, do barulho, do corpo largado sem roupa; isso é medo de se alegrar, não podemos sorrir muito além do 'obrigado', se não começaremos a interagir com o outro, que pode ser alguém de más intenções, gente com a qual não se faz uma festa, aliás, festa na rua? só as patrocinadas pela pomarolla. todos os feriados milhões descem a serra. e é para o interior que o tietê corre, mário de andrade já dizia.

Eu saí para comprar a rosca sabores da padaria nova, todos os meus melhores amigos estão tão longe, saí para devolver os filmes, a água arrastando pela canela morro abaixo, pensando que daqui a pouco anoitece, já vai ter terminado o trabalho e eu poderei continuar sozinha, bem assim, por quanto tempo? não sei, nem quando isso começou.

***
bem, para todos vocês que não estão presentes, também ficam dadas minhas notícias.

***
ah! o trecho de herberto helder:

O coração já não pode mais. Entre os bichos e as plantas, acontece-lhe dizer: Que fertilidade!- e a vida corrompe-se nos próprios fundamentos. Sente-se como um apóstolo sem fé. Desejaria morrer, arder no fogo apocalíptico das cidades. Ou ser devorado pela inteligência, estiolar de excessiva lucidez no meio da loucura campestre. Tradição, compreende uma: ama-a. Perdeu o nome, essa sabedoria. Beleza, é pouco. Verdade, é muito. Trata-se de um termo sútil que participa de uma e outra, que se tornou inútil, insensato.
 

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