30.10.08
pro dia nascer feliz
em vigília minha insistência desistiu
você volta num ponto da penumbra
e me pede pra que abra novamente
pétala a pétala, em favor do dia
se o mundo fosse um estabelecimento
havia de pesar com destreza na planilha
portas sanfonadas que emperram
os ferros da dor no sangue de ontem
mas pelo teu modo de contagiar os descontentes
ouço: vim pra dizer que o dia te seja calmo
e não precises retirar prazer das coisas.
em dúvida, me recoloco a escrever
porque um fardo a gente deixa aflorar
depois te falo: silencio tudo aquilo
que do meu coração não parte.
29.10.08
acabou produto
enquanto isso este samba continua igual, assim,
ad infinitum,
- -
24.10.08
"(...)Tranformar-se no profissional destas conversações? Desejar apenas que aqueles que foram atingidos não se afundem demais? Fazer subscrições e números especiais? Ou então irmos nós mesmos provar um pouco, sermos um pouco alcoólatras, um pouco loucos, um pouco suicidas, um pouco guerrilheiros, apenas o bastante para aumentar a fissura, mas não para aprofundá-la irremediavelmente? Para onde quer que nos voltemos, tudo parece triste. Em verdade, como ficar na superfície sem permanecer à margem? Como salvar-se, salvando a superfície e toda a organização de superfície, inclusive a linguagem e a vida? Como atingir esta política, esta guerrilha completa? (...)"
Gilles Deleuze
22.10.08
sem título e bastante breve
tento descobrir um cruzar de linhas misteriosas, e com elas quero construir um templo em forma de ilha
ou de mãos disponíveis para o amor
na verdade, estou derrubado
sobre a mesa de fórmica suja duma taberna verde, não sei onde
procuro as aves recolhidas na tontura da noite
embriagado entrelaço os dedos
possuo os insectos duros como unhas dilacerando
os rostos brancos das casas abandonadas, à beira-mar
dizem, que ao possuir tudo isto
poderia ter sido um homem feliz, que tem por defeito interrogar-se acerca das melancolias das mãos
esta memória-lâmina incansável
um cigarro
outro cigarro vai certamente acalmar-me
que sei eu sobre tempestades de sangue? e da água?
no fundo, só amo o lado escondido das ilhas
amanheço dolorosamente, escrevo aquilo que posso
estou imóvel, a luz atravessa-me um sismo
hoje, vou correr à velocidade da minha solidão
al berto,
de sacanagem comigo.
17.10.08
neil young
eu tava lá, oeiras, me despedindo do jorge,
que era bonito mas usava aliança
já tinha desistido de que ele voltassse
e esse foi o bis do dinossauro
só que de frente
;)
e mais nada.
16.10.08
cartilha da cura
falar de al berto cazuza reunir
chamar a cida, toda dizer:
augusto,
os homens sairam a trabalhar e eu a perder a hora dos correios nacionais
teu abraço do sinal que não abre fez uma temporada
tinha o charme de criar poemas
o assalto nas clínicas
o gato estático a olhar
a champagne tombando no chão da cozinha
depois, acordei com a faxineira, dormi nada
você quer jogar tudo pra cima
e eu tento deitar a areia desse deserto ao chão
logo fui ao google:
"casas para alugar são luís do maranhão centro histórico"
ofertas para evangélicos, o caso?
fico me vendo lá
com os focinhos na areia
escrevendo num quarto antigo antigo de uma casa antiga de azulejos
(prisão por prisão temos lisboa)
paredes descascando de verdade
quero um chapéu panamá
truman capote que
mergulha no atlântico do norte
fica saradinho
será?
vamos beber, vamos ler a Rolha de ontem,
vamos dizer que a estética é ruim,
meu amigo, vamos esquecê-la como esquecemos a Seja também.
vamos fazer um poema
ou qualquer outra besteira,
evitar por exemplo uma estrela
por muito tempo, muito tempo
e dar um suspiro fundo
aiinferno são paulo
ou qualquer outra besteira.
vamos beber uísque, vamos? não gosto
beber cerveja preta e barata, detesto
beber, gritar e morrer, não quero
ou, quem sabe? beber, apenas, água
vamos fazer uma mulher,
dizer invertido: que difícil ser homem,
pra envenenar toda a paulista
com seus olhos e suas mãos
e o corpo bem mulherzinha
com um diário em mãos.
meu amigo, vamos xingar
o drummond e tudo que é dele
e que a gente vive apegado.
meu amigo, vamos cantar,
vamos mijar de mansinho o masp
e ouvir muita vitrola,
(hein?)
depois lúcidos vamos
bater a carteira dos assaltantes
(o olhar obsceno e a mão cheira-cola)
depois iludir e cair
e dormir.
15.10.08
i'll be seeing you
quando as pessoas se vão
(como em Alcântara)
apagam-se os sóis (os
potes, os fogões)
que delas recebiam o calor
ferreira gullar
- - -
Na última lua cheia eu estava em Lisboa. Agitada, fazendo usos, de noite queimei meu polegar com um isqueiro mal posicionado, criando uma bolha imensa que escondi com a mão no bolso na hora de passar pelo controle de imigração na manhã seguinte. Agora, se olho bem de perto ainda encontro essa ferida marcando o desenho das digitais.
Na lua cheia anterior, estava em Csopak, e fui com minha amiga Ana até a margem do Balaton tomar um copo de vinho branco tipicamente húngaro. Enquanto falávamos de como universidades e homens são iguais no mundo inteiro, eu reparei bem fundo e disse "como a lua é diferente aqui na Hungria, mais linda, mais escura" e ela assentiu com a cabeça, me olhando sempre com a cara de que ela carinhosamente dizia menina maluca. Na manhã seguinte, enquanto preparava uns ovos estrelados, ela me traduziu rindo o cigarro entre os dentes que o jornal falava de um eclipse que assistimos na noite.
Na cheia ainda de antes, estava em Lisboa também, mais exatamente na Praça da Figueira, e um amigo tentou me convencer a pegar um comboio para Sevilha na manhã seguinte. Não fomos, as promessas de uma língua castelhana se abrindo em touros para aquela lua me seduziram, mas não o bastante para partir. E eu havia combinado de estar em Lyon dias dali.
Ontem meu pai veio até a porta da minha casa e, apontando a lua cheia, disse que viu na televisão que em Marte eles têm um problema sério devido a falta de lua. Por não ter a força de atração que a Terra tem com o satélite, o tempo lá muda a cada instante, tempestades de areia quente seguidas de gelados, porque Marte não tem um eixo gravitacional e suas faces (uma circunferência tem faces?) se cambiam para o sol ou longe dele em instantes. Fiquei me vendo em Marte. Ele continuou dizendo que se não tívessemos lua os oceanos seriam sugados para fora da estratosfera. Eu disse que seria de todo modo um oceano no universo. Ele me deu o remédio que tinha vindo trazer, riu dizendo que iam traduzir hoje uma fala dele para o japonês que veio falar na Veterinária. E, meio assustado com a ironia de ser quem é, continuou: que a lua se afasta da Terra continuamente, e que parece que em 4 trilhões de anos a força de atração terá se desfeito e sabe-se-lá o que será. Acendeu um cigarro, bateu a porta do carro e foi embora. Meu pai tem muita cara de romano. Quando eu era pequena, como os gauleses, tinha medo das noites de lua cheia, achava que ela tombaria nas nossas cabeças. E acho que aprendi com ele a adorar dizer e afobar catástrofes que não poderemos ver.
uma palavra que falta
E, esse acordo ortográfico?, é claro que somos a favor de qualquer acordo com um outro que se respeita, mas em primeiro lugar, o acordo tenta esconder as diferenças , camuflá-las, num movimento bem politicamente correto e pouco lúcido. E, principalmente, se a intenção é aproximar as línguas portuguesas o que eliminar meia-dúzia de códigos ortográficos pode produzir de aproximação frente à décadas e décadas e décadas, quiçá séculos, de distâncias? Se querem nos aproximar tanto quanto eu gostaria que nos aproximassem, deveriam criar formas de acesso culturais, históricas, permanentes. Mas não, isso temos em comum desde tempos imemoriais, isso nos une: criar solução de tomar uma pequena medidazinha e gastar mais em dizer do que em fazer mesmo.
Temos de partida esse problema do nome da língua que os falantes do castelhano não tem. Podem dizer tanto na Argentina como no Peru ou na Espanha que falam uma língua sem vinculá-la ao nome de uma nação atual. Se calhar, um mexicano pode dizer “hablo castellano” sem que a memória ligue necessariamente o nome ao antigo reino de Castela. Para nós, no Brasil, em Angola, Cabo-Verde, etc, não temos uma solução sintética. Temos a solução dupla: “português do Brasil” ou “português brasileiro”, que continuam vinculando a língua em alguma nacionalidade específica. Mais, para um desavisado confuso, vincula a língua em duas nacionalidades. Nos falta uma palavra. Essa falta significa algum sintoma? De todo modo, não me sinto à vontade em dizer: sou a favor de uma língua portuguesa, portuguesa aqui como "castelhana", uma língua escrita em português que por conhecer as diferenças de seus vários usos expanda o uso lógico e vocabular, sintático e semântico, da mesma língua.
Ou seja: continuo lutando por um estilo.
13.10.08
oriente
pela constelação do cruzeiro do sul
se oriente, rapaz
pela constatação de que a aranha
vive do que tece
vê se não se esquece
pela simples razão
de que tudo merece
consideração
considere, rapaz
a possibilidade de ir pro Japão
num cargueiro do Lloyd lavando o porão
pela curiosidade de ver
onde o sol se esconde
vê se compreende
pela simples razão de que tudo depende
de determinação
determine, rapaz
onde vai ser seu curso de pós-graduação
se oriente, rapaz
pela rotação da Terra em torno do sol
sorridente, rapaz
pela continuidade do sonho de Adão
(gilberto gil, claramente)
12.10.08
9.10.08
exorcismos
O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos
que não largam! Minhas saudades ensurdecidas
por cigarras! O que faço aqui no campo
declamando aos metros versos longos e sentidos?
Ah que estou sentida e portuguesa, e agora não
sou mais, veja, não sou mais severa e ríspida:
agora sou professional.
Foucault:
- -
esse segundo trecho é para agradecer pela carona de ontem.
e combinado ao primeiro
para todos nós que ainda tentamos entender a ana
pela janela
- -
o primeiro é prum sítio
onde fecho os olhos as cigarras acumuladas
me parecem uma luz branca de cozinha
de escritório paulista
que se acendem todas juntas num zum zum
e o caetano me dizendo, mãos nas coxas, no sofá:
hoje não tem fernando pessoa!
se vocês em política forem como são em estética,
estamos feitos
eu vim aqui para explodir
esse caribe de merda, viu
nove graus na universidade
onze na heitor
tão de sacanagem
comigo.
5.10.08
pirataria já
a cidade é uma manobra de erros
onde o condutor perdeu os dedos
umas deusas se suicidam
de uns bustos de mármore
naquela escadaria
vou te saquear todinho
aaah gritos a prataria
mamãe dê adeus a louçaria
e a mãozinha acenando
2.10.08
Por que a literatura brasileira atravessa uma fase de caretice? De algum modo, quando alguém se bota a escrever, é necessário pensar: quais são as margens desse quadrado chamado literatura nessa língua que cultura hoje? De algum modo, de novo, quando alguém escreve nossos padrões contemporâneos também são margeados (ou não), por uma série de valorizações, colocações, escolhas, que levam, por exemplo, a pensar: ele escreve: mas escreve como outro. Como Beckett seria melhor, mas ou o autor escreve aqui como - - paródia citação fagocitose soluço, etc -- Mas se são recursos, se falamos de recursos, na mesma medida que são controláveis os escritores repõem uma medida, centralizam novamente às margens, dão uma anestesia permanente no sujeito trancafiado em bares, convivendo com pessoas que na realidade detesta, mas que nem percebe!, afinal nem isso se pode sentir, já que, somos brasileiros e o mundo é norte-americano (por quanto tempo?), o que faz, afinal que respeitemos as diferenças. e, com elas, as adversidades. Mas essa literatura faz o quê? então? ameniza?
- -
Ao mesmo tempo que sabemos que o excesso de experimentação sempre pode revelar o negativo do arbitrário. O múltiplo do arbitrário. Quer dizer, o arbitrário como múltiplo exponencial. E cresce, cresce, cresce. Feito se tivessem colocado fermento no arbitrário.
E esse arbitrário em exponencial, de tanta consciência oriental de que você poderia ter nascido naquele besouro, como aquele besouro é você, o apagamento lógico de qualquer possibilidade de escolha. Isso, ao acúmulo do junk space. Isso. Ao excesso de publicidade. Isso, ao excesso de ofertas de sabonetes que me constrange, sabão em pó, produtos de higiene geral nos supermercados. Conteremos um dia todas as pragas se nem nós mesmos? Serão mesmo excessos? Ou o Largo da Batata. Vocês me desculpem, mas eu adoro o Largo da Batata.
- -
Escrevo num limiar muito concentrado em mim mesma. As linhas disso, só a antropofagia tropicalista nos une e toda mulher é uma sanguessuga qualquer. Dou muito em diários. Mas não sei quem vive meus diários. A grande experiência dessa escrita diária é que as linhas disso são menos regidas pelo que já está normalizado em literatura. Ainda somos modernos? Queremos a forma e a falta de forma. Queremos o in vitro e também o orgânico. Queremos sobretudo não falhar. Mas falhamos. Não precisa de mais ninguém pra dizer isso. Samuel Beckett já fez o bastante. Já? O bastante? Não me faça rir. Escritórios criam posições demais estupidificadas pra um corpo de gente. Ele, que vai descendo por todas as ruas. É sério. Eu não tenho escapatória de mim mesma. É preciso virar improvável. Mas o que é o literário? o falso? o deslocado? o fora de si? Dentro de oitenta anos estaremos todos mortos. No português não há palavras sintéticas para dizer o futuro.
slow show
abertos na minha cara
sinto o cheiro dos livros percorrendo suas sardas
aperto os olhos muito até ver quadriculado
esquadrinhar que o amor só serve pra rasuras
mas se tocar o papel não se pode trocar de ser
outra mulher outro querer como escrever
agora era como se acordar fosse neblina
e a brisa fira uma promessa de que a noite teria te apagado
como as cinzas do último cigarro caídas na cama se perderam numa palma
quinze minutos para as seis notei que a bolha queimada no polegar
na Pensão Londres quinze dias atrás se desfez
vi na previsão
chove no Brasil inteiro
todo o tempo
por quinze anos daqui para diante
como se mostra, tudo é temporário.
eu quero um vulcão para nos proteger.
- Quando eu chego em casa nada me consola
- Você está sempre aflita
- Lágrimas nos olhos, de cortar cebola
- Você é tão bonita
- Você traz a coca-cola eu tomo
- Você bota a mesa, eu como, eu como
- Eu como, eu como, eu como
- Você não está entendendo
- Quase nada do que eu digo
- Eu quero ir-me embora
- Eu quero é dar o fora
- E quero que você venha comigo
- E quero que você venha comigo
- Eu me sento, eu fumo, eu como, eu não aguento
- Você está tão curtida
- Eu quero tocar fogo neste apartamento
- Você não acredita
- Traz meu café com suita eu tomo
- Bota a sobremesa eu como, eu como
- Eu como, eu como, eu como
- Você tem que saber que eu quero correr mundo
- Correr perigo
- Eu quero é ir-me embora
- Eu quero dar o fora
- E quero que você venha comigo
30.9.08
28.9.08
daí a gente se pergunta que espécie de aristocracia é essa que, ao ir para uma outra língua para escamotear da senzala discute intenções desse tipo.
- -
minha vó até os vinte e cinco anos
achou que o nome de faca de pão era "simplício"
meu bisavô, segundo ela, inventava nomes para tudo
eu que tenho agora alguns meses nos vinte quatro
acho que ainda tenho chances
de que
não sei
- -
a palavra da vez do meu vocabulário é: "vigor".
encontrei meu guarda-chuva cor de rosa que viajou todo o tempo a europa comigo, sem sair da mala. de certo modo ele viu mais do que eu, no escuro da mochila negra. não sei o que perdi, talvez ele saiba? se eu seguerasse pelo cabo talvez ele conseguisse ver no fundo dos meus hiatos e pudesse me reportar tudo o que acontece. mas não vou tentar, sua linguagem de nylon me asfixia.
de todo modo aprendi a dobradura dos mapas de ruas. ontem escrevi um poema muito bonito. nem parei pra admirar. comi milho verde na augusta, queimei a língua, dei metade pro engraxate. e agora tenho a ressaca de que nunca mais essa escrita do poema nunca mais novamente nada.
26.9.08
24.9.08
falhos atos
qual seria a ordem?
"dessa vez quero os romances acima de tudo".
e depois, para uma amiga,
"quem vê meus livros até pensa que estudei letras".
- - -
trouxe de Lisboa, Adrienne Rich:
II
I wake up in your bed. I know I have been dreaming.
Much earlier, the alarm broke us from each other,
You've been at your desk for hours. I know what I dreamed:
our friend the poet comes into my room
where I've been writing for days,
drafts, carbons, poems are scattered everywhere,
and I want to show her one poem
which is the poem of my life. But I hesitate,
and wake. You've kissed my hair
to wake me. I dreamed you were a poem,
I say, a poem I wanted to show someone...
and I laugh and fall dreaming again
of the desire to show you to everyone I love,
to move openly together
in the pull of gravity, which is not simple,
which carries the feathered grass a long way down the upbreathing air.
IV.
I come home from you through the early light of Spring
flashing off ordinary walls, the Pez Dorado,
the Discount Wares, the shoe-store...I'm lugging my sack
of groceries, I dash for the elevator
where a man, taut, elderly, carefully composed
lets the door almost close on me. - For God sake hold it!
I croak at him - Hysterical, - he breathes my way.
I let myself into the kitchen, unload my bundles,
make coffee, open the window, put on Nina Simone
singing Here Comes the Sun...I open the mail,
drinking delicious coffee, delicious music,
my body still both light and heavy with you. The mail,
lets fall a Xerox of something written by a man
aged 27, a hostage, tortured in prison:
My genitals have been the object of such a sadistic display
they keep me constantly awake with the pain...
Do whatever you can to survive.
You know, I think men love wars...
And my incurable anger, my unmendable wounds
break open further with tears, I am crying helplessly,
and they still control the world, and you are not in my arms.
hoje eu desejaria de maneira voraz ter escrito cada um desses vinte e um poemas de amor aqui
na concha ultramarina de amar
"Claro? Nao?
Ele pessoalmente trato assim este processo fora da ordem- segundo as regras nao pode fazer tais sacanagens - mas ele aparecau em frente de quem manda dizendo, que quero uma fémea/mulher para mim. Tá bom, foi a resposta.
O que aconteceu em Paris?
Porque é que vocé ficou debeixo de si, com tanatas saudades de Sao Paulo? Sentimantos e pensamentos estao tomando forma duma leque? Escreva o seu primeiro livro! Forca!
Saudades, beijo,
a cuzinheira do jardim zoologico.
P.S.: Todos os homens sao do outro tipo de macaco."
- -
23.9.08
21.9.08
20.9.08
18.9.08

i.
há algo em mim que se esconde
e depois aparece muito tão forte que
as nuvens se confundem com o atlântico
azul e branco lá embaixo
não sei não sei não sei
que se lançasse por sobre essa janela
e que quem a lesse comesse feito se bebe água
da chuva a boca atravessada de pingos
sem ter as vilas montes praças pra olhar
tenho tantas imagens disso e daquilo nos olhos
que acho que em casas de viagem
para sempre vou ficando
e de repente, olho para fora e vejo a borda,
isso só pode ser muita sorte,
estar a ver a terra à vista, o avião entrando de frente, o continente!
américa,
ii.
quando olhei a cidade vindo por baixo da asa do avião
o caule dessa flor inteira técnica
de homens em que voávamos
disfarcei costurando o botão imaginário de um reencontro
do além-mar que me partia
olha o monstrengo, vem lá vindo, disse
a voz dramática
meia furada
essa risada
o monstrengo tem braços de morcego
tamanduateí jabaquara anhangabaú
nomes de antigos povos que lhe deram
às veias cinzentas e cheias de pelo
um casamento do mamífero voador com polvo já frito
axolote esnobe que me fascina
ninguém sabe o nome de são paulo
se vem de espécie rara ou é doença de família
- - -
de quando em quando me despeço
13.9.08
---
descobri uma poeta na fnac dessa Lisboa
Wislawa Szymborska
em tradução de Elzbieta Milewska e Sérgio Neves
UM NÃO ACABAR MAIS
Sou quem sou.
Um acaso inconcebível
como todos os acasos.
Outros antepassados
poderiam, afinal, ser os meus,
e então de outro ninho
sairia voando,
de debaixo de outro tronco
rastejaria, coberta de escamas.
No guarda-roupa da natureza
há trajes de sobra:
o traje de aranha, da gaivota, do rato do campo.
Cada um assenta de imediato que nem uma luva
e usa-se obedientemente
até se gastar por completo.
Eu tampouco tive alternativa,
mas não me queixo.
Poderia ser alguém
muito menos individual.
Alguém do cardume, do formigueiro, do enxame zuninte,
uma partícula da paisagem agitada pelo vento.
Alguém muito menos feliz,
criado para dar a pele,
para a mesa festiva,
ou algo que nadasse sob a lente.
Uma árvore presa à terra,
da qual o fogo se aproximasse.
Um mero cisco esmagado
pela marcha dos acontecimentos inconcebíveis.
Um indivíduo nascido sob a estrela ruim
que para outros seria boa.
E o que seria se despertasse nas pessoas medo?
Ou só aversão?
Ou só piedade?
Se não tivesse nascido
na tribo certa
e todos os caminhos se me fechassem?
Até agora, a sorte
mostrou-se-me favorável.
Poderia não ter-me sido dada
a recordação dos bons instantes.
Poderia ter-me sido negada
a tendência para comparar.
Poderia até ser eu própria
mas sem o dom da admiração,
quer dizer- alguém completamente diferente.
- - -
da onde da capa do livro Instante
anotei a seguinte legenda:
13 de setembro de 2008
Lisboa.
Num dia que havia de tudo para ser terrível e triste e há uma particular alegria a imprimir seu selo nas nuvens. E essa poeta que agora descubro me surpreende e refaz, espero, a escrita e os tecidos, de um sempre para agora e adiante
numa avaliação ágil do passado
só belezas e estruturas
de conchas marinhas
feito nádegas de uma deusa menina
avançada em técnicas de não ter técnicas
e de se apaixonar por estátuas e amuradas
e neste Pavilhão Chinês onde me bebo de chá
passa o homem de terno bonito
de azul clarinho de linho
e diz a palavra, a frase:
«ela tem uma técnica», logo no momento posterior do que eu escrevi «técnica», pela 2a. vez.
há e não há
o acaso
a realidade
o amor.
- - -
CONTRIBUTO PARA AS ESTATÍSTICAS
Em cem pessoas,
sabedoras de tudo melhor-
cinquenta e duas;
inseguras a cada passo-
quase todo o resto;
prontas para ajudar,
desde que não demore muito-
quarenta e nove;
sempre boas,
porque não conseguem de outra forma-
quatro, talvez cinco;
dispostas a admirar sem inveja-
dezoito;
constantemente receosas
de algo ou alguém-
setenta e sete;
aptas para a felicidade-
vinte e tal, quando muito;
individualmente inofensivas,
em grupo ameaçadoras-
mais da metade, com certeza;
cruéis,
por força das circunstâncias-
é melhor nem sabê-lo,
nem aproximadamente;
com trancas na porta depois da casa roubada;
quase tantas como
aquelas que têm, antes da casa roubada;
não levando nada da vida a não ser coisas-
quarenta,
embora preferisse estar enganada;
agachadas, doloridas
e sem lanterna no escuro-
oitenta e três,
mais tarde ou mais cedo;
dignas de compaixão-
noventa e nove;
mortais-
cem em cem.
Número, até agora, não sujeito a alterações.
7.9.08
joguei futebol com uns rapazes no vondelpark
um deles tinha um blackpower e era filho de surinamenses e outro tinha olhos longos e azuis e seus pais eram franceses
eram muito inteligentes,
e gostavam das florestas tropicais sem nunca terem visto
à noite sai com meu amigo de navarra
procuramos um bar de blues que haviam nos recomendado
e quando nos perdemos sem o bar sentamos numa das pontes dos canais
e os fumavamos e ele me fazia rir
os pès dependurados sobre o canal
"aqi, en la venezia de europa las crianças solucionam problemas que nosotros" e pff, bufava com os dedos
depois cuspimos em uns barcos de sightseeing cheios de americanos
no teto de vidro de uns
dois ou tres
o ar era umido
e eu resolvi caminhar com ele atè o lugar em que havia visto o altar para a morte em outra tarde
em amsterdam as pessoas aproveitam suas vitrines de janelas das ruas para mandarem mensagens, no geral de venda. esse nao, alguem transformou sua sala em um ritual memorativo pra quem passasse: tu morres. nao era bonito, ironico, ou alegre. era para os outros ainda. e no fundo o espelho marcando isso tudo e na frente bacias cheias de coisinhas, galhos retorcidos e secos, alguma pintura classica em um cartao; caravaggio, acho. o miquel viu tambèm. me jurou que o osso era de verdade humana, que seu pai è mèdico, ele sabia. dessa vez nao tive coragem de me olhar naquele espelho amarelado. ele quis tirar uma foto mas eu nao deixei
"cambia tu idea hombre"
senti mais medo da pressao funda em que vive aquele que aquilo montou porque era noite
e quando voltamos andando o vento me destruia o rosto
percebi que os indices de fumaça nas minhas ideias haviam apagado tudo
caminhava muito querendo so dormir
percebi no vento minha idade real
sentia o tempo sulcando meus traços
ainda posso sentir.
5.9.08
ouve-meque o dia te seja limpoa cada esquina de luz possas recolheralimento suficiente para a tua mortevai até onde ninguém te possa falarou reconhecer - vai por esse campode crateras extintas - vai por esse portade água tão vasta quanto a noitedeixa a árvore das cassiopeias cobrir-tee as loucas aveias que o ácido enferrujouerguerem-se na vertigem do voo - deixaque o outono traga os pássaros e as abelhaspara pernoitarem na doçurado teu breve coração - ouve-meque o dia te seja limpoe para lá da pele constrói o arco de sal a morada eterna - o mar por onde fugiráo etéreo visitante desta noitenão esqueças o navio carregado de lumesde desejos em poeira - não esqueças o ouroo marfim - os sessenta comprimidos letaisao pequeno-almoço
al berto
- -
estou feliz que é um desperdício
31.8.08
de ironias e ervas
28.8.08
que se confundia com o mar ao fundo
feito um bondinho contava historias
do bordado da manga do vestido
lilas
no dia das maes de 1973, nao, o aperitivo era outro,
lambari e campari, serviam, nao, 1974?,
nao setenta e tres na certeza, porque o Dantinho brindou a fundacao do partido, ou 75 que havia morrido morto no escuro?
como um traidor
a torneira pingava.
e eu louca pra bronzear minhas pernas
aquecer as coxas
a memoria até um tempo sem historias
a crianca com o baldinho vermelho
afundar aquela ilha
nao nao continuava
eram bordados, pingentinhos e martini,
espantei uma formiga que subiu na perna
contou como o inseticida lhe corrompia as narinas
e voltou, o drambuie foi no de 82
era como a janela
meio aberta sem querer
quando a lufada de vento
subia e dancava a cortina para cima
depois ca'ia.
- - - -
a escritora bota fogo em seus
quatro diarios de viagem
em um gesto
(imaginario)
(que por nao ser levado a cabo
demonstra a fraqueza de sua vaidade
e sua reverencia pela memoria)
- - - -
nada é mais bonito do que uma brecha de ternura quando escapa de um homem e vem dar no seu rosto no quarto ao ceu da rua.
- - -
(a italia me faz entender melhor os homens)
- - - -
trabalho em circulos
vivo morrendo na floresta escura
e acordando no descampado
chao de barro rachado
escrevo como que corta o mato
dentro de uma clareira
iluminado pasto rasteiro.
27.8.08
conversas tipicas de albergues
a menina da coreia:
ah, bra-zil? eu vim aqui milao ver kaka!
eu:
o kaka, ah que legal, ele é realmente cute
ela:
e vc, aqui fazer o que veio?
eu:
aqui, onde?
ela:
em milao, - risos histericos
eu:
ah, estou a caminho de paris
(penso you mustttttt remember this: we always have paris!)
e continuo sem muita enfase:
e vim procurar uma olivetti typewriter machine, mas me disseram que é impossivel encontrar nessa época do ano que os antiquarios estao de ferias
ela:
ahm-aham
uma maquina do que?
eu:
de escrever,
ela:
ah, voce é uma typewriter - hahah datilografa-
eu:
a kind of
ela:
like?
eu:
a writer, as you know, we like stuff to write, computers typewriters machines paper
ela:
ahm-ahm
eu, tentando engatar de novo:
and do you play football?
e a cara dela de espanto.
26.8.08
spingere
in vino veritas
dizem que um copo de vinho por dia faz bem ao coracao. e quatro?
- - -
e se eu escrevesse sem a memoria do aeroporto na cabeça?
- - -
e eles, os italianos, assim como os espanhois nao percebem falar uma lingua amorosamente de humoristas amantes e canalhas. e as placas entao? as vezes ainda melhores que em portugal. a minha favorita até agora:
estintore
- - -
sonhei que um aeroplano com um casal vestido de gala caia na piscina da casa em que cresci,
no meio de uma festa, era noite de céu estrelado, parecia que ia explodir mas nao, me mandavam chamar os paramedicos (e eu pensava: por que nao os bombeiros?), depois alguem arrancava uma cama de um lugar e fazia dela um berço, mas chega, nao vou contar o sonho, vou contar so a minha interpretacao:
inadequaçao familiar
me tratam como inepta
nao sou mais crianca
o aviao caiu e ninguem se feriu
os noivos estao vivos
viva o amor e viva o brasil!
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as saudades de casa me venceram.
estou farta de grandes cidades e
estou farta de cidades pequenas
(no elevador penso na roça
na roça penso no elevador)
paris boibepa desfiladeiro
e certeza que os carros sao o problema que liga todas as pessoas por uma ignorancia comum no mundo inteiro
- - - -
depois de dois meses de viagem, 9 paises atravessados (isso sem contar lichtenstein!) todas as trocas de lingua e a permanencia extensiva do ingles e do portugues, os amigos que fiz, as camas de albergues e casas de amigos em que dormi, digo que a educacao feita foi pelo minimo. pensei que fosse ter mais frescuras, sou uma pessoa fresca, afinal, mas que nada! bem mais simples, afinal aqui é verao, tanta coisa para se ver, tao poucas para se preocupar.
duas coisas me fazem falta: um lugar cotidiano em que eu possa fazer nada e olhar para nada e pensar em nada (casa) e comer cotidianamente bem (os pratos sao sempre caros e nem sempre bons como em sp, serio, sp é uma maravilha nesse sentido) :
em resumo:
felicidade é ovo frito com pao no café da manha
nao andar com nada nas costas
ter agua sobre o corpo
(chuveiro que desliga de dois em dois minutos, ter que lavar as roupas em meio a isso, metade da toalha estar molhada antes de tocar o corpo, ser sempre impossivel secar os pés e de repente, mesmo assim, com tudo isso, ser o melhor banho da minha vida)
e amigos em toda parte
e mais uma duzia de historias para contar
quanto as historias:
.invejo todas as vidas que nao sao a minha e por isso conto historias
.conto historias para, num movimento de apropriacao, nao invejar vidas que nao sao as minhas.
- - -
de dentro da loucura da consciencia passamos anos montando a consciencia da loucura
(i never lost control, ja dizia o bowie, o kurt tb)
e eu pensando jardins solidoes movimentos
amores no escuro e nao no claro
(é sempre triste, o filho, carlos)
e as plantas nao tem nada a ver com isso
absolutamente nada!
hoje nao tem fernando pessoa
mas tem jardim sem brutalidade
- - -
aqui tem um desenho de um telefonezinho no meu terceiro moleskine.
bacci tanti
(gente, isso aqui parece até a italia)
22.8.08
manha verona bybye italia fui aiiii
- - -
tres dias já que abro essa janela de blogue para escrever contar dizer nada
budapeste tem cheiro de poluicao ai rinite atacou estomago ferveu
e a doce amiga ai ai dificil de deixar
e nao consigo escrever
no entanto ouco musicas que ja nao sabia quais eram com uma efusao e ana cristina cesar, por favor meus amigos, depois dessa tarde de absinto mais azul do que o danubio uma mentira cinza e larga, escutai
O Homem Público N. 1 (Antologia)
Tarde aprendi
bom mesmo
é dar a alma como lavada.
Não há razão
para conservar
este fiapo de noite velha.
Que significa isso?
Há uma fita
que vai sendo cortada
deixando uma sombra
no papel.
Discursos detonam.
Não sou eu que estou ali
de roupa escura
sorrindo ou fingindo
ouvir.
No entanto
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são,
de uma doçura
venenosa
de tão funda.
---
boicote total aos rituais de atravessagem boa noite como vai adeus
meu gesto é no momento exato
sempre alegre ou triste
somente as emocoes
(que horrorosa é a vida sem cedilhas)
9.8.08
acalma teu brio de fugir, mulher
havia algo com que me deparar
que vinha desde a noite do nome que dei
a algo que eu sabia tao bem pequena
e que ate ontem nao sabia que sabia assim
alguma coisa com nome de amor
como uma luz que as vezes ilumina minhas maos
e a nitidez nas digitais
e sinto uma ternura imensa pelo passado pelo futuro
e lembro que tudo perece
tantas vezes 'e de noite
e me acompanha pensar na morte como uma insonia
uma insonia de clarezas
e noite passada acordei berrando porque pedia pesadelo para a amiga grita grita pra nos salvar
e ela nao gritou ao que eu gritei levantei a cabeca e olhei as montanhas
das minhas clarezas antes de dormir
e escrevi logo ao acordar:
esqueci
e fiquei olhando as montanhas e as estrelas pra ver se elas se mexiam
- -
estou nos alpes suicos
quando durmo da janela do quarto a lua
onde nunca antes havia me imaginado
no topo das montanhas agulhas de neve
nao furam o ceu
faz uma semana quase
que so falo em ingles
so leio em ingles, o wilde e o murakami, o melhor da estante
e finalmente consigo ler
e quando desco a cidadezinha tento me lembrar de dizer bonjour salut merci
- -
perguntei a diferenca entre o nome dele e o do pao
suscitou uma vogal e me mostrou outra musica folk
rimos muito for today i'm a boy
fez os cabelos da mulher que vai ser com feno
e depois com toda seriedade
pete seger james taylor nem sei mais
cabelinhos dourados
maozinhas ruivas
tambem ele ja se foi
'e lindo verao verde
ar tao limpo e gelado
vejo a neve no poster na parede do inverno e nao posso acreditar
de todo modo aqui 'e tudo tao controlado
ate as vacas so pastam para um mesmo lado
e quando voce acha que andou andou subiu para o meio do alto do teto do mundo
encontra uma lojinha minuscula servindo expressos e vendendo vaquinhas canivetes carandaches chocolates cuckos
tem la sua graca
no inverno deve ser uma paragem de descanso maravilhado
- -
hm, eu = miss brasil
o que mais sinto falta 'e da comida
ai ai que vontade de comer brasileiramente
em sentidos varios
- -
e leio minhas letras como se fossem de uma lingua estrangeira
ontem reli este blogue aberto
um tanto com esse olhar meio enjoado de resto de doente
e fui eu quem aqui escreve?
escreve aqui alguem com um universo muito particular
e pelo particular admiro
mas que nao sou eu
(mais?)
(mas?)
nao sei dizer se alguma mudanca com tanta velocidade de troca de cidade identidade de lingua de pessoas de imagens de espacos, em um mes e meio estive em 7 paises, acho
e esses textos que escrevi viajando parece como se a escrita tivesse
aereando branqueando apagando
ate ficar tao leve a ponto de ir
de ir com o vento
estou curiosa
para que va
e a palavra em portugues que mais penso e escrevo 'e:
"vontade"
calma essa cheia de vontade.
- -
amanha vou para berna, a capital,
ver o paul klee institut museum sei la
paul klee zentrum, é
4000 obras diz o lonely planet
mais vasto 'e o meu coracao
- -
3.8.08
a nota de cem francos suicos tem o giacometti figurado
o homem da minha vida que morreu antes de mim
afogo algas pelos rios imagina quando subir nos alpes
aparecem cisnes no meio da agua verde cristalina do rio
e juro que vi um pato a nadar contra a corrente empertigado
da obsessao fazer um gasto solitario de poder a caminho
e magnatas arabes passeiam suas ferraris lamborghinis e burcas
estou compenetrada nessa felicidade
meu caderno quase acaba e pretendo
nao ha tempo para dividir essa conexao
- - -
randon time
2.8.08
25.7.08
uma folha quase em branco das minhas tentativas
tentou voar ficou presa nas pedras mas daqui ouço
seu desfolhar
venta venta venta
de manhã cedo tentei vir aqui
quando fui à caminho do que eu não via, andei andei e do alto da cidade a rodovia olhei um sítio com pedras crescendo e pensei que eu queria estar lá mas não sabia como
e fatigada por não saber olhar a terra que não acaba sem fim, voltei para casa almoçar,
e de pois, no fim da tarde, saí andando sem rumo como sempre, andando, e de repente estava numa porta da cidade, bem em frente onde eu tinha me esquecido que queria ir cedo e fui andando andando até que cheguei nas rochas crescendo fincada uma cruz e andei mais pra baixo um espinho entrou no meu pé nem liguei andei andei
até que me sentei nas pedras e o musgo laranja e cinza me adormeceu toda intranquilidade e escrevi:
é julho
o mês que tem o nome do menino que em mim festeja de tudo
a terra é tão extensa que assim só conhecia o mar
e eu e eu eu e eu
com o ouriço enfiado na testa e rindo
e à noite, quando fico bem quieta, meu ouvido é uma concha em qual se ouve o rugido
- - -
e depois voltei para casa,
olhos cinzentos que brilham
me contaram que naquele sítio em que eu estava aparecem raposas! e javalis!
javalis! e que são perigosíssimos, que atacam, que o melhor ao se deparar com um é não me mover, não correr e torcer, torcer.
será que ele me daria um beijinho?
de nariz de javali?
será friozinho?
- - - -
fotos em maisqueumarbusto
24.7.08
escrevi como o mar que avança depois de muito retroceder
duas ondas juntando a água que veio de trás
e aqui em marvão, cidade amurada, do alto da muralha do castelo, vendo espanha, um lago adiante no meio das montanhas, como se faz para chegar lá? caminhos entre pinheiros, árvores de cascas grossas, e pontas das folhas no alto mais claras, palha seca e amarela pelo chão, relevos entre relevos, rochas muitas rochas, nessa muralha, os musgos cor de laranja pelo sol, plantas que tentando entender qual é o limite que essa vista alcança o quanto o que me visita cansa como olhando
e descobri que há um barulho que sempre pensei ser do mar mas é um som do vento
um marulho que o vento faz,
18.7.08
julho de 2008
é verão e ao corpo de todos isso se grava neste continente. dizem «aconteceu num verão», e eu entendo como «a mais maravilhosa das épocas, quando fazemos coisas que não fariamos se não fossemos nós mesmos».
vejo cegos por toda a cidade
dois, cinco num mesmo dia
sobem nos elétricos, nos comboios, nos autocarros e seguem vivendo a escuridão em lisboa por toda a vida. parece uma espécie de punição divina, pela cor, pela luz,
nazaré me diz que estes cegos só aparecem para mim
e o camões e o vasco enterrados no mosteiro jerónimos, o navegante no escuro, o poeta embaixo da grande luz que vem do vitral, entendi que essa é uma terra de poetas e que não há como não ser fernando pessoa e pintor nessa cidade, e partir do corpo em heterônimos, quem me derá estou conseguindo só estar em ser uma só desaparecida, sumindo tudo que sei de cor, enquanto o sol me bronzeia as mãos nas ruas
ontem cantava pela cidade versos de um disco que ouvia com cinco anos:
água tanta deu na pedra
que até fez amolecer
isso é o tejo, que é mesmo dentro da gente, que é largo, pensamento e ação, retira de mim tudo que é um estado definitivo das coisas
- - - -
carne
seja a casa onde for
construir estantes
no pensamento de derrubá-las
forrá-la com flores no papel de parede
e livros de capa branca
forrar todos os livros
todas as páginas dos livros
de branco
com algodão secá-los
da úmida solidão
do que está escrito.
11.7.08
-Olha, mamãe, rasguei a perna ao descer a escada do Universo.
E por baixo do letreiro enorme do restaurante cósmico pude imaginar o garçom a dizer:
-Quer um chocolate, pequena?
- - -
lisboa
parece que há uma luz lá dentro
que não se apaga nem mesmo de dia
dentro do cômodo branco de cal
de modo que ficava dourado
e quando a luz
incendeia meus olhos cansados
é me encostar nas paredes
para estar à fresca
- - -
plantações seguidas de plantações
pela janela do trem a paisagem controlada
há tão mais começo no brasil
mesmo assim não sinto saudades dos latifúndios
nem de você, da minha casa, nem de nada
- - -
o show do radiohead não foi bom.
o do sigur rós foi maravilhoso.
e o do mgmt, ontem, aqui em lisboa, o mais divertido de todos.
- - -
me encontro em renomear o mundo
com as palavras que já são dele
amor, oceano é o mar que nos divide.
e o poema, pelo atlântico,
em vestes de submarino
nada escafandros sem oxigênio
asfixiada em mais um copo sobre a mesa
a espera da tua mão que levanta
a mesma sede de amor
no trópico, do ibérico, por toda parte.
5.7.08
toda essa vida aqui tem sido uma alfabetizacao:
e hoje perdi o onibus de amsterdam pra lille: o pior foi que vi o onibus partindo, e eu sentada no banquinho tomando o sol das 7h da manha, escrevendo dois textos de mesmo nome "a beleza compreendida de clarice"; em apreco ao marcos e a incrivel amsterdam perdi o buso
assim fui parar em bruxelas novamente, onde peguei um trem, passei pela imigracao britanica e seus cachorros e cheguei em lille onde fiz uma amiga chilena filha de chineses e que mora em tolouse. amanha cedo ligo pro indiano a quem contei dos cogumelos e vamos os tres juntos no show do radiohead em
arras
ô
2.7.08
29.6.08
28.6.08
contar sem essa gripe que me pegou no ultimo dia no porto e nenhum lamento
porque as coisas tem um ritmo, os acontecimentos me levam a rimar,
sem querer
gostei muito do porto
passei dias muito felizes e noites mais ainda
depois que fui na festa na linda casa da cristina, de quem adoro as fotos e toda gentileza, e depois todos os amigos que vieram dela, o porto virou outros caminhos
e depois de alguns dias comparando brasil e portugal, desci ontem a noite no aeroporto de bruxelas, logo no metro me jogaram um engradado de bebida nos pes, me xingando numa lingua estrangeirissima, e fui cair nessa europa aqui, cheia de falas e ruas de outros tons
quando estava saindo do brasil meu pai me disse muitas vezes: "cuidado com a europa, ela 'e uma velha que esta morta". aqui tenho a impressao de que a europa nasceu morta.
nao vou ficar mais que hoje aqui na belgica para ter tempo ou nao de confirmar esta impressao um tanto ruim, ou talvez seja s'o finalmente uma terra estrangeira mesmo, esses teclados risipidos e sem acentos, e de manha uma vontade de valentine, que me espera dentro de um armario, protegida na casa dos meus pais,
aproveitei que estava uma chuva fina e fria (e eu espirrando por bruxelas) e fui ver o peter bruegel no musee des beaux-arts, onde estava acontecendo tambem uma exposicao do museu britanico, e eu, que tendo a me incomodar com os museus, gostei tanto de uma tela e de outra do chagall, e de alguns fauvistas, que chorei com cenas de outros tempos mortos,
chorar os mortos.
e depois fui ao cinema, numa galeria chiquissima onde se vendem chocolates e luvas de couro, perto da grand-place, que o guia recomendava "uma das mais belas do mundo" e onde havia pos-adolescentes bebados e fantasiados brincando de confundir turistas encabulados. e, no cinema havia cortinas escondendo a tela, e quando ela se abriu uma publicidade bilingue me fez rir congestionada e, no meio dos trailers, se acenderam as luzes e comecou a tocar bob dylan para uma senhora de bengala entrar e se sentar:
you know something is happening
but you don't know what it is
e depois comecou o filme, do vittorio de sicca, casamento a italiana, com o mastroianni e a sofia loren, e foi uma coisa!, com as legendas em frances e flamengo e a fala em italiano, fiquei trafegando entre uma coisa e outra, ate me esquecer das linguas e me ater as imagens, ao roteiro clarissimo e a interpretacao dos atores, claro. e eu entendi, sempre numa fronteira entre o me deixar levar,
amanha atravesso outra fronteira e vou para amsterdam.
- - -
al berto:
Mas nao te demores mais. Se quiseres, antes de seguires viagem, ensino-te os nomes dos animais. E se me deres a tua mao, queimar-te-ei os dedos, exactamente como queimaram os meus. Depois, poderas partir por essa linha litoral tracada pelo fogo sobre a pele.
e
-E se nos calassemos enquanto a memoria se esvazia. Esta tudo por acontecer. Mesmo o sono, se vier, tera um peso de lume, um sabor a terras mortas e areias salgadas. Nao sei... esta tudo ainda por acontecer.
- - --
finalmente de uma terra estrangeira a outra terra estrangeira, eu que sempre estive no comboio de tr'as, pouco a pouco, ouvindo os fluidos se deslocando no canal do meu ouvido, a olhar meus fios de cabelo crescendo dentro da xicara de cha, e a estes olhos presos na categoria de fundo, percebendo que tanta coisa pode ser diferente num simples gesto ou falta dele, porque que esta materia 'e limpa, limpissima,
talvez um dia eu saiba conseguir dar essa alegria que esse mundo precisa.
22.6.08
18.6.08
- - -
o sonho mais bonito que já tive foi ontem:
estou chegando para visitar desconhecidos no colégio onde estudei a alta adolescência. como sempre, vindo da rodovia raposo tavares, vou entrando no estacionamento a pé. mas dessa vez começa a subir água salgada pelos meus tornozelos, vejo que os carros atrás de mim estão praticamente cobertos e umas árvores na minha frente, plantadas em canteiros, ficam mais bonitas com a aparência de charco e percebo que estou no fundo do mar, e que a borda de saída é a entrada do estabelecimento escolar. vou andando com a água pelos joelhos, estou vestida mas minha roupa não se molha. é verão.
chegando quase onde acaba o mar vejo uma criança de menos de dois anos, sentada na margem de costas para mim, concentrada, brincando de chapinhar a água entre os pequenos dedos. agora parece o guarujá. tem uma cabeça grande, a criança. me viro de frente pra ela só para lhe mostrar um sorriso de nos entendemos quando percebo que sou eu aquela criança, ou melhor, sou eu quando criança brincando na água e eu hoje, meio adulta, me vendo a brincar. a criança que sou eu me sorri e eu meio adulta devolvo o sorriso para ela. mas vem uma onda mais forte, entra no ouvido dela (nosso?), ela se assusta e começa a chorar. me sento na água com a criança que fui, me pego no colo e, protegendo a mim mesma, arrumando meu cabelo no cocuruto, começo a mostrar pra criança a aguazinha boa-e-má, brinco com as mãozinhas n'água e ela, que sou eu criança, sentada no colo de mim mesma, sem ter o que temer, me volta com um sorriso.
- - -
baibai brésil, fui
15.6.08
14.6.08
começo a escrever qualquer coisa para alguém que não tem destino
digo: pode acreditar, agora eu sou vilão.
- -
toda vez que me levanto são minhas pernas que se dobram sobre os olhos
tenho vontade de colar a parede do meu peito e ventre nas coisas, homens e objetos,
feito um animal que se pendura numa árvore, numa mãe,
mas caio ausente no meu caminho
e me vejo para sempre confinada a este corpo
e digo para os outros: nunca verei através dos seus olhos
e penso: a ficção me permitirá?
- - - -
me deixo recados para o futuro, como alguém que deixa o objeto necessário no caminho que fará na manhã seguinte. pensei muito longe, eu estava na praia: "estou cansada de me parecer com as pessoas" e encontro isso mais tarde, ontem ao voltar da rua, pendurado na cortina da sala e viro um sorriso como basta pensar uma coisa e esquecê-la do melhor modo para que ela retorne e finalmente seja. "colhe as flores, gosta delas e esquece-as", isso é drummond ou pessoa?
e quantos poemas perdi por não anotá-los? mas não me importa, tenho que confiar: a memória como uma corrente sangüínea, que hora ou outra não nos trai.
mas e se a poesia é um território para o impasse, para o embate,
de tempos em tempos algum lado -alguém - tem que vencer um pouco? sair da indeterminação, dizer?
que seja alguém que escolhe pela vida. e logo se volta ao embate novamente. e se esquece.
- - -
já não sei mais se é só ansiedade ou se é só angústia.
- - -
Mi soledad maúlla. La tapo con promesas vagas. Mentir, sí.Algún día encontrarás este diario y será antiguo, algún día verán mis fotos y se reirán de la moda actual. El vanguardismo será clasisismo y otros jóvenes reveldes se reirán de él. Pero... ¿es posible soportar esto? Quiero morir. Tengo miedo de entrar al pasado. Pienso en alguna mujer de mi edad de hace un siglo. ¿Qué hacía cuando estaba angustiada? ¿Qué?
- alejandra pizarnik, no site
que descobri nesse blogue a partir das traduções
Tua voz
Emboscado em minha escritura
cantas em meu poema.
Refém de tua doce voz
petrificada em minha memória.
Pássaro preso à tua fuga.
Ar tatuado por um ausente.
Relógio que bate comigo
para que nunca desperte
Tu voz
Emboscado en mi escritura
cantas em mi poema
Rehén de tu dulce voz
petrificada en mi memoria.
Pajáro asido a tu fuga.
Aire tatuado por un ausente.
Reloj que late conmigo
para que nunca despierte.
13.6.08
quadro de avisos
é estranha, essa ansiedade sem angústia.
- -
ele fala que sou tipo olívia armando sales penteado, fazendo jantares, fazendo as malas, fazendo endereços,
mesmo com o sex appeal todo da coisa, os vestidos e as jóias de família, me pareço entender que na verdade é um desfazer-se, esse rumo.
é claro que vou visitar museus, tentar entender pessoas pelos gestos e designs de ônibus. mas não pelo acúmulo, mas pela perspectiva de uma outra, de uma coisa de outro.
- -
não se é um clichê quando se reinvinta a todo momento?
- - - -
sei que estarei na internet todas as quartas, para escrever no sete linhas.
cartas devem ser remetidas ao e-mail que você dispõe em algum lugar.
- - -
a partir de uma conversa ontem, fiquei com vontade de ouvir cazuza. acredito desde ontem que o cazuza era O cara.
uma época em que se escancarava? e ele que se jogava todo. não esse tédio, sério: té-dio que a gente vive nesse país hoje em dia. alguém me fala? por que ninguém fala? estamos todos posando para o futuro do nosso passado, para um futuro esquálido, nervoso e frio, numa fotografia de alta definição que ninguém vê, anos depois perdida num hd? alguém peloamormemostra alguma coisa?
- - -
enquanto isso a gente fuma um com a turma de seis no arpoador
o sol tão lindo
- - -
acho que, se tudo for como imagino, esse blogue terá mais cara de diário do que nunca.
até,
9.6.08
da arte de ser um personagem
5.6.08

I) acesse http://en.wikipedia.org/wiki/Special:Random - o título da primeira página aleatória que aparecer será o nome da sua banda.
II) vá pra http://www.quotationspage.com/random.php3 - as últimas quatro palavras da última frase da página formarão o título do seu disco.
III) acesse http://www.flickr.com/explore/interesting/7days/ - a terceira foto, não importa qual seja, será a capa do seu disco.
vi no bueno
2.6.08
Falava de você um namorado, ou ex-, te digo, ainda um apaixonado, você fantasma, se é que me confundo e ele já era gago antes de você se jogar da janela. E olhando pra ele e me perguntando: era bonito? Será que era bonito quando você o conheceu? Você via, ele dizia que você o sacudia, você sabia tão mais, tanta inteligência descolocada e você se atraia por tentar a poesia de dentro daquela dificuldade e implodia com ele.
Dos dias de hoje conto que sucesso para os ácaros, essa profusão de poetas ,Ana. Na tela do computador ainda há ácaros Ana. Você não teve tempo de conhecer o Microsoft Word, Ana. Você iria gostar, Ana? Conheces alguém que não gosta? E quem gosta de fazer sucesso para ácaros?
De resto eram mulheres falando de você e as que não te conheceram diziam com cuidado em dizer que não era a mulherzinha no confessionário histérico, a sua beldade toda era cenário e a outra, tua professora, dizendo de um jeito quanto te amavas, que te amas e que a ela você não engana, querida. Te amamos também, se era isso que você queria.
Na manhã seguinte acordei finalmente sem usar o passado no lugar do presente como se falasse de um futuro. É de noite, estou em São Paulo, amanhã seria teu aniversário de 58 anos. Mudança drástica no. 2 : abandonar o discurso.
Você era uma idiota, Ana.
1.6.08
mas será que, se for isso mesmo, o planeta não começará a diminuir de velocidade? pra quem não sabe (eu não sabia, claro) a Terra leva 23 horas 56 minutos 4 segundos e 9 centésimos para girar os 360 graus.
- - -
bem, isso não me importa. mas é tão interessante.
quando era pequena, ela deve lembrar, eu queria ser cientista. gostava mesmo era de insetos e tubos de ensaio. bem depois vieram os domingos.
- - - -
conversando sobre o meteoro bem louco com um amigo enquanto olhávamos para o capim do sítio, eu delimitando que se dia e noite vieram indissociáveis graças ao meteoro, foi uma massa voadora pelo espaço que criou em base todas as nossas questões (a começar por nós mesmos) em um choque. e ele todo feliz e anti-eu: "mas, escuta, se metade do mundo fosse escuro e a outra metade fosse claro, você moraria em qual lado?" e eu "taí, você tem uma boa pergunta. não sei e você?" e ele "ah, acho que eu ia viver na fronteira." cheers!
30.5.08
acordo e continuo mergulhando na água quente. vou nadando percurso vazio contra a correnteza, sinto como tudo passa de ser outra coisa, que não estremece com o meu lamento.
quando saio da água, anoiteceu. me sento. a cabeça entre os joelhos, o ventre protegendo o ventre e a vontade de contar uma história antiga, de uma maneira bem sincera, para alguém que não me conhece. começa assim: aconteceu na américa do sul, que também é em qualquer parte e eu não sei o que é que deixa de me visitar quando a noite vem e nem porque desproporção fui criando uma mão direita tão forte que não se contém. uma espécie de febre. armários que aguardam por coisas de outros, alguém que não se conforma nunca vai sair de casa.
- - - -
estou ruim com as palavras.
ou de mal, feito criancinha.
não quero a bola, não quero.
é uma espécie de maldição, já que tudo que eu digo, some, muda de lugar, vira outra coisa, me bate na cara.
- - - - -
E então lá vamos nós e as sentenças, sentados no banco se praças houvessem nessa cidade, a observar as formigas e as ervinhas e a rir da maneira de justapor portuguesa.
Agora como dizer e não te dizer que estremeço, que não me habito e que não há raio que me parta desse labirinto?
Hoje que acordei mais cedo do que de costume, cedo de um jeito que a gente ia ao dentista e depois de cada barbárie obturada você me tirava da anestesia com um sundae recompensa no Brooklin, Me tiraram os dentes da vida, arrancaram de dentro da roda, pra você ver que existe dentro, um dentro literal.
De dentro da sua lucidez não finja mais que não teme ao seu redor as dispersões, os bandidos, os choques elétricos, a noite que seu pai não veio mais. Suas gengivas sangravam tinta de lula no rio de óleo negro o caixão singrando o Tejo que cada um carrega em pessoa
trinta e dois pontos negros na sala de televisão de dentro da carne da nossa morte e dor de um jeito que nem sorvete adiantava, uma vontade de morrer sem morrer jamais. Papai me ensine a compaixão que tem por mosquitos palavras hibiscos e abismos me diga se devo matá-los antes que me matem?
- -
e tempo haverá?
tempo para o chá
e ainda há quermesses?
o mundo todo é um interior sem tamanho
e nós no subúrbio do fundo da periferia
ao longe escuto os fogos
artifícios












