18.4.08

quando eu era criança o mundo todo fazia silêncio. tentava caminhar entre as coisas evitando o toque com elas, palmilhando o chão como se tivesse os pés recobertos por uma camada úmida de veludo. olhava para tudo que não fosse gente, os bichos, os objetos de arte e não conseguia entender porque eles não diziam. hoje ainda fico muito comovida quando penso entendê-los em movimento e ação. mas, na época, quantas vezes acordava sobressaltada?, quando um objeto de madeira rangia, a televisão estalava ou um animal chiava longe e me levantava bruscamente sozinha, as costas do colchão, tentando entender o que aquilo expressava tão esporadicamente em meio a tanto silêncio.
eu sentia também uma espécie de inveja daqueles insetinhos que voam em volta das bananas. porque eles giram sem zumbir, têm uma aparência de insignificantes e voam tão lento, duram tão pouco, que para eles o limiar entre a vida e a morte é tão fino que eles me pareciam livres dessa responsabilidade.
uma vez meus pais estavam na europa. me escondi atrás da poltrona verde-marinho do apartamento da minha vó, encostadas as cortinas que amarelavam. procuraram por mim durante algum tempo, até que sai do meu esconderijo quando a sala ficou vazia, porque não agüentava mais segurar os espirros que o pó me obrigava. depois de um tempo contei para a minha vó, queria a confidência, mas ela me repreendeu dizendo que a irmã dela usava marcapasso e poderia ter se assustado. essa irmã morreu mês passado.
comecei a escrever tudo isso porque tenho me pegado muito tímida, assim como quando era criança.hoje isso me agrada porque timidez em mim se confunde com calma e estranhamento. mas um capítulo sobre o contrário do silêncio, também sempre por mim praticado, ainda não sei dizer. talvez a fala fale por si própria. ou talvez um dia eu alcance, sabe lá se a fala ou o silêncio, de uma planta.

16.4.08



(um folk sobre o movimento)
Deleuze: "Se você está preso no sonho de outro, está perdido".
- -

15.4.08

é o mesmo dilema com outra roupagem: como libertar as palavras do jorro e também do crivo? talvez em um salto, alto. acredito também na coragem e no capacete de motociclista, esquecido, pendurado no parapeito do vizinho. tenho que estar pronta, repito, com o meu punhado de revolta e descontrole combinados à minha parcimônia de delicadezas e ressalvas, tudo misturado na minha capacidade de sussurro. "eu sou um menino bravo com a menina que sou." hoje nós compramos flores na dra. arnaldo e um mapa da europa na papelaria aviação, para servir de tabuleiro de war.

:: : : : :

"Exigir da força que não se expresse como força, que não seja um querer-dominar, um querer-vencer, um querer-subjugar, uma sede de inimigos, resistências e triunfos, é tão absurdo quanto exigir da fraqueza que se expresse com força." Nietzesche na Genealogia da Moral

::: : : :: :

As passagens eram as palavras e o calçamento as frases. Antes de mim havia o mundo. E depois de nós não havia nada. A cidade era outra e os caminhos de sempre, onde estavam? Chega uma hora que as ruas da nossa infância começam a ter limites. Às vezes os ultrapassamos e quando chegamos do outro lado esquecemos tudo de cara. Demoram um tempo para se recuperarem, os caminhos, mais um tanto para serem bonitos, naturais e completos de instintos, um ruído combinado com um cheiro lembra a foto, depois a cena completa e, um choro mais claro traz um mapa aos olhos e logo estamos passeando como se andássemos pela memória, em seus territórios.

:::

8.4.08

esperanças são retráteis

estou lendo O Passado do Alan Pauls. tenho tantos comentários a fazer, que por enquanto só quero dizer que se terminá-lo (contra minha mania enorme de trocar de livro pela metade) me prometo que vou escrever sobre demoradamente. (talvez faça uma comparação maluca entre ele e o Indecisão do Benjamin Kunkel.) não sei. (fazia tempo que não tinha vontade de escrever sobre literatura.) (também fiquei sem abrir parênteses durante uma fase). (e fazia mais tempo ainda que não destacava um cartão reproduzindo algum quadro do edward hopper para usar de marcador de página.) tenho afeto.

além disso, depois de passar pelo blogue do marcos querido, correspondente e articulista fui cair numa vontade de ler a hilda hilst (também por causa de uma conversa mais comprida com ela). quando olhei na estante, fiquei surpresa, que depois do machado, do drummond e da lispector, é a autora brasileira de quem tenho mais livros. entretanto, não tenho o hábito de lê-la, nem nunca tive, mas fui ganhando seus livros, pegando emprestado, e hoje eles se avolumam por aqui. muito raramente, como hoje, abro. raro não porque a despreze como quem a ignora, mas talvez porque a língua se misture com a fala de um jeito que me perverte. existem livros que me alteram a visão, a percepção, o pensamento e outros, como o Júbilo Memória e Noviciado da Paixão, a dicção. gosto do modo como ela constrói a paixão e o amor inteiro e multifacetado. fico levemente preponderada a ser raptada pela tua anta e volto a escrever o que mais gosto, poemas dos quais duvido. logo me recupero.

i.

não tenho nem
do amor, da vida
o conhecimento
que desperte o largo contentamento

amor tão mesquinho é amor,
amado?
e se nos espelhos imantados
te curvas na minha direção
e não respondes,
devo supor que não me vês?

ii.

(Can you now return to from where you came?
Try to burn, your changing name? - nick drake)

e se o fogo que corre na horizontal,
queimando trigo ramos aos milhares
begônias presas em luares
e alcança o pasto das ninféias
na linha onde o sol se põe
o fogo boiando sobre a água
atravessa os limites da cidade
e engolido pela minha garganta
atinge a força inescrupulosa
na ponta do meu dedo indicador
e, como conheces meu peso,
levantas de mim gemendo
pelos corpos atravessados
em lençóis de hotel, avisos, pústulas
num gesto, tudo em vão,
feito um sopro,
ao fogo!
contente mercador
de avisos, partidas, silêncios

6.4.08


1984

(gosto do cinto combinando com o sapato e do gesto receptivo da minha mãe
gosto da praticidade do meu pai, o relógio que nunca tira,
gosto muito das plantas, da escada no fundo com a gaiola do passarinho em cima
gosto de como tem um quê cômico nisso tudo

no mais, minha cabecinha parecia um cone, sei lá, a testona de um velho careca
muito velho velho velho olhando inside)

31.3.08

agora prestei atenção na

.letra de the sounds of silence, apesar de que o duda, meu amigo de sempre, quando tínhamos uns quatorze, quinze e dezesseis anos e ele dirigia esse fusca pra todo lado, a colocava pra tocar em todos os lugares. nós brigávamos muito por causa de qual música deveria tocar. discutíamos, davámos stop na do outro de repente e uma vez chegamos mesmo a sair no tapa. lembro da cara dele estatelada e vermelha no chão, possesso. eu ainda era maior que ele e ven-ci ven-ci.

refletindo a respeito das descrições a partir das conversas com minha nova amiga, me encontrei descobrindo quais cenários da minha memória têm semelhanças aos que aparecem nas imagens que se projetam enquanto escrevo. se encontrar essas coisas é um hábito que sempre visito, percebi que uma das casas que o antonio visita, no romance que estou escrevendo, com uma falta de título ainda provisória, é a casa do duda. que não fica na frente do mar como a de Lola, mas tem uma meia-luz reinante, móveis baixos no centro da sala, uma chave de armário de bebidas guardada num potinho. noto que é o único lugar de cena, até agora, que se narra qual música é a música que toca. uma espécie de homenagem?

quanto ao simon and garfunkel, ainda bem que eu não havia prestado atenção na letra. porque senão este, cubo de noite, teria tido desde o início essa citação, tão clichê e recorrente, que talvez pudéssemos nos cansar. eu, de mim mesma, não seria novidade. mas você, que pode saber muito, mas não sabe quem eu sou, ia saber o quão hippie é esta que vos escreve.

.
- -- -
Drummond, no Claro Enigma:

Confissão

Não amei bastante meu semelhante,
não catei o verme nem curei a sarna.
Só proferi algumas palavras,
melodiosas, tarde, ao voltar da festa.

Dei sem dar e beijei sem beijo.
(Cego é talvez quem esconde os olhos
embaixo do catre.) E na meia-luz
tesouros fanam-se, os mais excelentes.

Do que restou, como compor um homem
e tudo o que ele implica de suave,
de concordâncias vegetais, múrmurios
de riso, entrega, amor e piedade?

Não amei bastante sequer a mim mesmo,
contudo próximo. Não amei ninguém.
Salvo aquele pássaro -vinha azul e doido-
que se esfacelou na asa do avião.
- - - - -

.quanto a adolescência
mais vale um cachorro vivo.

escrever a adolescência do antonio está sendo uma aprendizagem. afinal, a proximidade que às vezes aparece entre a minha memória e a dele, tão bem tolerável na infância, ao virar a casa dos quatorze, fica absolutamente insuportável. com isso, a necessidade de distanciá-lo da minha experiência grita. e a ficção agradece.

os espaços, no entanto, retirados da minha emoção, são sempre agradáveis e onde a luz é muito importante. assim, na constituição das cenas físicas, as experiências cruzadas continuam convivendo melhor. um cenário vindo da casa do duda e outro da do leon e elisa k., quando eles aindam moravam na alves guimarães, prosseguem.

.será que agüento ainda esperar o aniversário de dez anos dos meus quinze, em janeiro de 2009, para poder perdoá-los?

.será disso que estou partindo?
dos lugares espaciais?
dos lugares que não são-lugares?
as grandes ilhas,

.do meu medo de partir
partir ao meio, em tanta loucura.
da mãe, puxei esse medo da piração. do pai, o medo do ócio.

.fiquei sonhando o dia todo. me levantei durante duas horas e fui até a polícia federal pegar o meu passaporte e voltei a dormir. os sonhos voltaram, com um pouco de sexo e situações festivas em lugares que nunca estive, uma casa com espadas de são jorge plantadas nos quatro cantos do terreno, uma sensação intensa de estar em viagem, que tem acompanhado meus sonhos faz alguns meses, me mantiveram dezessete horas dormindo. tudo muito feliz e agradável. de quando em quando abria os olhos e percebia os rumores do mundo, a serra elétrica da obra ao lado, todos amenos.
acho que as companhias que ontem eu, graças as graças, voltei a estar feliz junto, acho que tanto me sossegaram como me fizeram lembrar que é por uma estrutura de ressentimento que se reprime quem, aos olhos da sociedade corrente e claustrofóbica, não faz nada. e isso, fazer nada, era tão mais simples na adolescência.

.por fim, quanto aos meus vícios de linguagem:
de repente percebo, factualmente, como me fazem falta ao escrever todos os "c"s presentes na ortografia dos portugueses (cf. acção) . mas, como isso já me aconteceu antes, sei que toda vez que comecço a socfrer disso, vira um viccío.

e meia dúzia de risadas de um viccío bastam para ele se des-agigantear.
(deixar de ser gigante foi uma das minhas duas promessas de ano-novo.)

a morte passou a segunda morte passou a terceira morte se fez
vamos cantar,

26.3.08



25.3.08

Como a casa de Asaboli não tinha jardim, só um entorno cimentado, com o chão coberto de placas de cerâmica vermelha, era no meu que revelávamos os corpos ao desenho do mundo. O relevo do terreno era uma grande bacia, a entrada da rua o ponto alto de um lado, onde logo ficava a casa, grande e toda de madeira envernizada, projetada com o fundo suspenso no declive. A fachada da frente era sóbria, para não dizer protegida e séria e a única janela era o vitrô da cozinha, um grande retângulo comprido na altura dos olhos de um adulto e, no segundo andar, o vitrô do banheiro do quarto do pai, todo branco com banheira. Para o fundo se voltavam os outros dois quartos, o meu e o da minha avó, e embaixo a extensa varanda que continuava a sala envidraçada, um alpendre suspenso em toras, da onde se tinha toda a vista para o jardim. O quintal era enorme, coberto por um extenso gramado em declive, até onde começava um fio de água (que nascia logo ali, num amontoado de rochas de um jardim vizinho) e, depois dele, o terreno dos fundos subia em morro de novo, repleto de marias-sem-vergonha crescendo em liberdade vigorosa pelo barranco. Entre essas vegetações rasteiras, algumas palmeiras de coquinhos amarelos, um pau-brasil que muito me orgulhava por cultivarmos uma espécie em extinção, uma enorme figueira elástica e muitas árvores indistintas, com uma ou outra bromélia escancarada, onde habitavam rãs e, entre as folhas caídas no chão, um pássaro morto, era azul e caiu do ninho, doído, estatelado no chão. Eles próprios, os animais, não continham um pouco de nós dois nos hábitos e gestos?

Era subindo e descendo os relevos do jardim, numa fascinação iluminada de criança, que explorávamos o território do mundo, um monte de barro de cupim virava os Andes, os Alpes ou o Monte Pascoal; escorrendo da calha uma água velha era um rio enorme em direção ao córrego, que, em comparação, ganhava o nome de Atlântico. Um dia colocamos no seu curso caravelas em barcos de papel e, quando o Brasil estava sendo descoberto, os barquinhos todos afundaram com a tempestade de verão. Num pulo qualquer, Asaboli virava a princesa Isabel, que por simples confusão histórica, mandava decapitar todos os que se opusessem aos brioches e croissants no café da manhã. Era a civilização da menina que gritava, ela que adorava maquiagens, pó-de-arroz, cheiro de coisas doces. Asaboli gostava minuciosamente das coisas, sem explicação. Já eu, sempre estive no mundo como aquele córrego, feito essa lacuna, entre a continência civilizada e a selvageria inconsciente.


(outro trecho da história do antonio, ainda sem título, work in progress, no caminho)

19.3.08

o banner oficial distribuído pelo departamento de imprensa é:




tamô na área, aê, uma vez por semana se frita ovo, falow: setelinhas.blogspot.com

17.3.08

eu sou o rio dos mortos
dos meus parentes mortos
e os meus mortos são o mundo inteiro

eu sou o rio dos mortos
nasci da sede pelo dó das lágrimas
quando mortos todos os pensamentos

eu sou o rio dos mortos
me criei no pântano das palavras
dos restos tudo trago

eu sou o rio dos mortos
e o meu choro o que devolve à terra
o chão do sal da terra o chão

eu sou o rio dos mortos
minha margem de árvores
dos astecas que me sangraram

eu sou o rio dos mortos
da terra não passo
e ninguém me ultrapassa sem desvão

eu sou do rio dos mortos.
o caminho é dourado.

14.3.08

- - - - - -

essa noite voltei a sonhar.

você dirigia um carro antigo, talvez a nossa década fosse outra, talvez um lada, branco amarelecido, saindo do estacionamento arrancando com tudo. que, logo ali na frente, batia no pequeno depósito de lixo e casinha do gás, feito de tijolos vermelhos. a frente ficava toda amassada e o porta-mala do sedan se abria com a batida. eu caminhava para ver mais de perto. você saia do carro e, enquanto olhava os estragos do carro, eu observava o quanto seu corpo havia se modificado com o tempo que ficamos sem nos ver e me lembrava de um personagem do beckett, não sabia nem bem qual, nem quais são os traços do seu caráter e experiência que definiram seu corpo, se acentuando dia a dia durante o tempo que ficamos sem nos ver. até que, de repente, você me via e perguntava se eu não queria entrar lá, dentro do porta-mala escancarado.

com todo o respeito de quem está já acordada, o personagem era do fim de partida.

o que me faz pensar que só resta estar
entre um fado argentino
e um enfado ibérico
ai ai ai

- - -
quando vi um corpo morto pensei sobre a vitalidade de um corpo vivo. porque um corpo morto começa imediatamente a ser devorado por todos os bichinhos que já estão em nós. mas, enquanto vivos, a nossa vida vive entre a vida deles e convive. e esse corpo vivo, principalmente, me deu como a vida por si só é uma resistência e eu me sinto feliz.

5.3.08

paul celan em tradução de joão barrento também pelos pedidos,
mais pelos enigmas que dissolve:


Em círculo, ouvi
a conversa desfiada, oca,
com sons caninos
em algumas pausas --

Perseguem-te com desdém, e tu,
com sentidos prévios na garganta,
um trejeito na boca,
atravessas a nado o rio desse destino.

O grito de uma flor
anseia por existência.

-------

Conversas com cascas de árvore. Tu,
tira a casca, anda,
tira-me, feito casca, da minha palavra.

É tarde já, mas nós
queremos estar nus e à beira
da navalha.

------
O OUTRO

Feridas mais fundas do que em mim
abriu em ti o silêncio,
estrelas maiores
enredam-te na rede dos seus olhares,
cinza mais branca
repousa sobre a palavra em que acreditaste.

-- --

Escavo o rasto dos teus passos:
o mundo
derrama-se
na cavidade que fica,

volto a amar-te
no limite febril de mim mesmo,

tu folheias, agora terra fina,
os meus remotos
testemunhos.

-------------
Agora juntas ao teu peso
tudo o que é leve,

agora desmascaras
o sempre nomeado
mas sem nome,

agora mandas os martelos-
mecânicos, os fura-sílabas,
para debaixo do esporão
daquele que
te leva a saltar para o outro lado
da ardilosa madeira da sebe,

agora
escreves.

-- -
(aliás, a citação atual, embaixo do título de sempre deste blogue, também é do celan)

4.3.08



hoje que estou partindo e a tarde é tranqüila e a noite chega sem que eu me saiba bem
gosto de pensar como fernando pessoa e a sua maneira de justapor portuguesa,
para realçar os tempos do coração que se sobrepõem, avisando para quem parte que já se partiu

o coração, o bilhete de viagem, o caminho a nado,

(---

porque não são ridículas, mesmo quando ridículas, todas as cartas de amor. hoje, por exemplo, acordei o meu gato com o arroz que preparei para mim em seu focinho rosa, como se estivesse alimentando uma carta de amor. um pouco do meu arroz, sendo isto, um pedaço do meu amor. meu amor que não é precário, ínfimo, gratuito ou, como já dizia, ridículo. está inteiro em seu pedaço de amor, que não atinge a tudo, atinge tão pouco o meu amor, tão pouco a minha palavra te atinge?

---

"It is bad when one thing becomes two. One should not look for anything else that called a way. If one understands things in this manner, he should be able to hear about all ways and be more in accord with his own."

-o que aproveitei de um filme chato do jarmusch

---)

eu não teria coração agora, coração, suficiente que fosse para escrever ou ler o que te escrevi, com outro coração que é meu também, embora ainda. não teria porque respeito o coração aliviado e me invado de memória como quem já partiu.

1.3.08

três histórias reais sobre a ilusão e uma com a realidade

I.

manchete: leitores europeus processam escritora francesa por enganação.
o livro conta a história de uma menina de oito anos que conseguiu fugir de auschwitz, deixando seus pais aos nazistas. sem ter para onde ir, ficou uns dias dormindo em cavernas e copas de árvores, até que, no meio dos descampados livres, encontrou um bando de lobos que tentou comê-la, mas dos quais ela conquistou a confiança fingindo que era uma loba também, com muita habilidade em rosnados, uivos e andadas em quatro patas. assim, a família de lobos adotou a menina, que passou sua vida em estado de graça, livre dos nazistas e no conforto de um estado natural com os lobos.

o livro virou um sucesso, claro, até aí, ok. era tudo que a europa queria e precisava. natureza X o mal, polyana X nazistas, uma infância em estado natural, sobrevivência e aventura, etc

acontece que o livro figurou durante meses entre os mais vendidos na categoria de não-ficção e, dia desses, a sua autora fez envergonhadamente a revelação de que a história é ficção, afinal, não aconteceu fora da imaginação dela e de quem leu. acreditem, virou um escândalo. ou seja, como o livro não é baseado em um reality-show, ela mentiu, enganou e traiu seus pobres leitores ingênuos que agora clamam por justiça e, portanto, a escritora está sendo processada.

muy rico para a ficção, não é mesmo?

II.

essa é cruel.

a polícia recebeu um telefonema acusando uma mulher que estava jogando lixo pela janela no barraco de uma outra. caíram na casa da mulher e a intimaram a acompanhá-los até a delegacia. a acusada pediu para que dessem um tempo pra ela poder arrumar as crianças pra escola e que depois iria até a delegacia depor. consentiram.
neste tempo a mulher matou as duas filhas e depois se entregou na delegacia. ela não sabia do lixo e vendia maconha, pensou que tivessem descoberto e que com isso suas filhas não teriam futuro. logo, cortou a cabeça delas.

o que não é o instinto maternal, não é mesmo?

III.

o menino chamava riquelme em homenagem ao jogador de futebol. orfão de pai e mãe, criado numa favela pela tia. seu sonho era ter uma roupa do homem aranha. no seu aniversário de seis anos a tia conseguiu uma bela fantasia vermelha e azul do homem aranha que o menino imediatamente vestiu e saiu para brincar. pulando pra lá e pra cá, viu um barraco pegando fogo. de dentro dele viu uma mulher sair correndo desesperada, aos berros de
-meufileovaimorrer deus me ajuda!
o nosso riquelme estava na hora certa, no lugar certo, com a roupa de nylon certa e não teve dúvidas, entrou se rastejando no barraco pegando fogo, tirou do berço a criança de quatro meses com uma mão só, a abraçou em seu peito e voltou agachado de ré até a porta de saída do barraco com o bebê a salvo.
a televisão filmou o menino vestido de herói, fazendo poses de alterofilista. todo sorrisos e cara de self-made-man. quando o repórter perguntou pra ele:
-então, riquelme, você que é o homem-aranha?
ele disse:
-não, eu sou o filho dele.

I.

continuando no jornalismo televisivo, essa é da década de 80, uma reportagem do globo-repórter sobre a seca no nordeste do brasil, o jornalista pro menino cheio de ranho na cara e barriga d'água, com voz de tatibitati:
-você gosta mais do papai ou da mamãe?
ao que o menino respondeu guturalmente:
-eu gosto di carne.

- - -
boa noite,

27.2.08

Porque eu não tinha onde, mas precisava me agarrar, é que fiquei abraçando minhas pernas, de cócoras, apertando com força para que o sangue da ferida saísse com mais consistência e a ardência devolvida aos olhos não me parecesse de raspão. Sentado no fundo do terreno onde ninguém ia, abraçando a mim mesmo em cima do resto de uma grama que nunca reparavam, destruída por animais, pelo tempo e pela desatenção que a selvageria agradece.

Na pulsação do sangue nas palmas, ainda posso ver o homem que serei quando chegar na velhice, enfim cansado do barro misturado com o sangue da minha mão. Eu olhava fixamente para os tênis encardidos, com a atenção que me obrigava o ardor. Quantas vezes, sem saber para onde ir, repeti esse gesto? Ver os desenhos das minhas digitais bem de perto, meu envelhecimento, mãos tão perfeitas que podem até cortar o vento e tão precárias para permanecerem no tempo. Quantas vezes mais, vou olhar os pés imóveis e quando é preciso andar, andar olhando os meus próprios pés? Porque levantar a cabeça poderá me tragar imediatamente para esse momento em que estou no fundo do terreno e sou obrigado a olhar a casa enorme, as luzes se acendendo contra a escuridão da chuva que vem vindo, onde ainda vão me dizer durante uma década coma, beba, durma, estude e seque bem os pés. As frieiras intoleráveis aos corações prontos para viver. Os corações adultos que tapam aos olhos do coração a curiosidade de mexer na pele até perder a pele, desmistificar a ferida, retirar a casca todo dia. E lá de longe, a parte debaixo da varanda parecia menor, muito vazia, muito distante.

(antonio a caminho)

25.2.08

killing me softly

como diz adoniran barbosa,
"quem sabe de mim é o meu violão"
Herberto Helder começa um poema com o verso: "Quando já não sei pensar no alto de irrespiráveis irrespiráveis"; é importante esperar pelo dia sem hesitação. Esperar sem esperança, como diz o Eliot. É importante acalmar a palavra com um gracejo, que não seja por demais irônico nem too much meditativo. Acalmá-la como quem puxa uma cadeira para a palavra se sentar e esperar. Sobretudo as palavras precisam aprender a esperar.

----
Os grandes poemas são compostos em Marte. E a esperança de alcançá-los não me diverte. Alguma coisa me diz que está guardado em mim o segredo astrofísico que desaprendi na memória da escola. Se for mentira, se não estou louca, o que é isto?

---

São morangos pisados neste tabuleiro, meu bem, para que a alegria dos rapazes escorregue, pra ver se apanho pelo menos um. Poesia, eu te tentava pela mão, e você, não, dormia, ou fugia pelo espaço, numa lenta decomposição. Os quadrados dos tampos de xadrez se soltam para baixo, líqüidos desaparecem, por quais teus homens correm a solta, Carlos, João, Murilo, vão pisando num apagar, as palavras em que vacilo.

----

Não. Não se trata de medo da louca prosa giratória. O poema, feito uma deusa, se transfigurará de mito para outro estágio avançado pela solidão. Desde criança que sou muda. Mesmo nos sonhos não escuto minha voz. Há quantos anos não grito? Eu, que sempre só ousei berrar perto do mar abafando. Um belo diário é como um soluço, não serve para muita coisa, mas o corpo precisa dele. Não vou encadernar este talento. Agora somos nós, Valentine, are you smart?

16.2.08

"
Someone recounts the story that in reply to a query from Hofmann why he did not work more from nature Jackson Pollock is said to have replied:
-I'm nature."

2.2.08

caixa-preta

31.12.7

"O último dia do ano não é o último dia do tempo": "Todo fim de ano é tudo que já está no ar.". Ainda não apareceram em mim muitos compromissos eufóricos com a noite de reveillon. A taxa de saudosismo também está baixa e o futuro é uma entidade calma, sentada sempre na janela ao meu lado direito. Como num vagão de três passageiros, eu no meio, escurescendo a esquerda vai o passado, mais fechado. Não devo nada nem a um nem a outro, no entanto, tranço em cada um meu braço como dado. Às vezes me aflige estar muito alto no céu sobrevoando, outras não peço para olhar para não ver o mar, porque sei que o barco afunda quando eu enjoar.

mas ah! que naufrague! os despojos na praia também serão lindos.

ah! esse ano de doismilesete! só não direi que - - - - - - - - porque não direi nada.
é isso mesmo que vou fazer, não vou dizer nada.

1.1.8

Às vezes aparecem homens que andam sobre as águas.
Um dia serei daquela tipografia de mulher-marfim que parou de respirar e agora só vive debaixo d'água.

Mas tanta coisa ainda me assedia com desconversa,

7.1.8

da raiva descobrir a alegria.
e o que eu não sei mais. tristeza e sal.
alguma coisa, acre valentine, que me comove em nossa capacidade íntima de estar (entrar e sair) do subterrâneo e a ele voltar.

12.1.8

deus te livre, leitor, de uma idéia fixa.

19.1.8

escrever alguma coisa. bem, estamos no trópico. as bananas e as mangas sobre a mesa, minha blusa listada de sair por aí e os protetores solares que dispomos sobre o corpo e que depois voltam num baile infinito para cima da mesa. conheço seus limites, valentine, já de olhos fechados; dispomos também de um corpo inteiro fechado para transcendências místicas. estamos em torno da verdade, da qual já nascemos docemente distantes. é isso. virei de madeira. ainda não adquiri saberes de rocha. nem sei se [---]

o centauro de madeira tomou corpo e consciência e saiu vigoroso e leve, a andar. toda articulada.
aí há consistência. sem dúvida um estado de crise.

(a noite)

estou em cinco lugares ao mesmo tempo. pensava na europa. a europa assim seria só mais uma grande ilha. não. estou cansada de me parecer com as pessoas. cansada de me adaptar aos hábitos locais. não. um janeiro difícil, esse. não.

20.1.8

nos dias em que não há colheita
e todos os mercados de trocas estão fechados
se faz necessário sair à caça
deixar a intimidade sombreada deste quarto
e achar nuns sentimentos da rua uns modos novos
dentro da crise dançar
dançar sem agitação

ao voltar para casa
esqueceu tão bem escondidos
seus melhores mantimentos
a comida que resta há dias em cima da mesa por cozinhar
porque a fome que sentes é outra
fome de anjo que extermina dor e dúvida
o caderno em que evitas dar o nome de diário
porque temes os nomes que alcançam ou não atingem o grau de batismo.

26.1.8

silencio tudo aquilo que do meu coração não parte.

27.1.8

do lado de lá havia chamas e eu vivia no mundo proibida de dormir xxx pra que não ouvissem xxx podia apenas cantar quando chovia xxx e a água doce pelo meio dos seios das minhas pernas xxx não mais cacos de vidro por sobre a cabeça xxx e todos os poemas que me esperavam sem entrave xxx desde que pus os pés nessa ilha xxx e porque não estava frio e a chuva me diluía xxx em algum lugar da minha terra xxx o incêndio que se apagava xxx botava submerso todo assunto que me valia.

29.1.8

o que dança na visão do enforcado? dias limpos para trás e os homens fortes que me sorriem na memória ganham de mim (quem diria?) um sorriso de retribuição para além de reprodução. olho-me no espelho até colocar os cabelos bem arrepiados, numa figura que me lembra homens inteligentes e soltos que me divertem no corpo de mulher, e meu pai me chama assim de gomes cardim, porque há dias se elegeu maestro schiafarelli, tal a rua da minha cidade, são paulo das neves. acertamos cabeças de siris com amendoas que caem dos chapéus de sol na areia da praia. o moleque matou dois sem-querer. corre o rumor de que sou uma poeta sem poemas; uma escritora sem histórias. me ofendo só para poder justificar o meu orgulho. o pior de mim: orgulho amarelo mostarda.
e como subtrair o racalque? e se a perda for contínua? e se contar não é? quando você totaliza, você está no mito.

perguntam se eu penso essas coisas pela minha história de vida ou por alguma história que eu esteja escrevendo. -pergunto pra mim.

e o vinho abaixa minha rotação. valentine que tornou a ser sweet, comic, valentine, meu coração vagabundo, os franceses que dias atrás nos viram trabalhando na praia ficaram ligeiramente entre comovidos e encantados com uma aparição da cultura ocidental at baíá. achei simpático. ou será que foi o narcisismo terciário?

28.12.07



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27.12.07

20.12.07

acontecimento biográfico I

para aqueles que não sabem, moro num predinho antigo sem porteiro. acontece sempre de interfonarem diretamente para o meu apartamento sendo engano, ultragás, para a vizinha de cima, sabe lá
hoje eu estava modestamente dormindo quando às 7h o interfone me acordou. ah, deixa tocar, e o interfonador insistiu e insistiu. quando atendi, disse ele assim:

-oi! esse edifício é da opus dei, não é?
-...

19.12.07

tudo é mesmo um pedaço completo partido pela metade e doado ao pó e a umidade
é "muito mais do que isso ou nem tanto ainda"
o escuro está amanhecendo ou foi o sol que se foi agorinha?

e todos se calam.

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Lembro da última festa de aniversário que fui, depois de beber quase meia garrafa de vinho do Porto um amigo tentava me fazer entender o que é um poeta da continuidade. Tive calafrios na nuca quente. Eu não, olha, sou artista da ruptura do sono. Sabe aquela história do é preciso? É preciso se ter os olhos abertos, mas somos obrigados a dormir. Dormir é uma das espécies manifestadas da ilusão. Foi para não ser pega dormindo acordada, que comecei a me estipular certas atitudes. Acordar bem cedo, de madrugada, virou a minha primeira ruptura, e, como era bom! começava logo cedo a minha força.

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O silêncio já estava absoluto, todos prestavam atenção. Só eu ainda não tinha conseguido uma posição confortável. Subi na ponta da cadeira do cinema, sentado sobre o calcanhar. Estava empertigado pela dúvida de todo personagem: entre ser eu e ele, você sabe bem como é estar sozinho e acompanhado a todo tempo. Na tela, estava na ponta da borda da terra, quase no mar, parado bípede, os pés se fincando pela areia conforme a umidade subia. Uma cena cinza, o mar tão da mesma cor que o céu, que a areia também, só podia ser mesmo um recurso técnico, alguma espécie de filtro nas lentes. Uma alteração freqüente e sempre repentina entre os pontos do foco. Essa alternatividade ia acompanhando os arbustos, se via o último casal saindo da areia para o apartamento e de repente os gestos dos dedos estalando o ar, tão próximos do punho onde se notava, de antemão, a ausência de relógio fronteiriça com o início da pele coberta pela capa de borracha, de um azul-marinho focado sem dispersão, tonalidade no dia tão ausente no água do mar. O que essa história tão imóvel poderá contra a minha agitação ancestral?

9.12.07

7.12.07

fado

Tu não sabes ao que me submeteram,

Colocaram o Rei num grande barco, para visitar o além-mar, só dento me avisaram o impossível regresso, dizendo-me que um dia, quem sabe, poderia eu voltar, caso a terra girasse ao contrário, mas que vontade deles de me jogar no mar.
Da terra eu trazia cinco ou seis pedrinhas, que me agitavam o bolso num lamento inútil "pedro, queremos regresso" e quem não quer, quem não quer!, minha pobre ânsia lançada ao Atlântico. Mas também me livrarva da necessidade de partir ao meio o homem que esperam de mim e o homem que quero lançar ao mar, correnteza de cinqüenta pés, temperatura de vinte e três celsius, só Deus sabe como venta, tanta umidade no mar.
Se tivessem o feito com meu pai, bem que ele iria gostar, despregado feito a terra estivesse debaixo dos seus braços, ou quem sabe, talvez sequer notasse, talvez nem Domitilia chorasse e ausente aquele homem, se... Porém eu, o filho, como acontece sempre aos reis, eu filho de Rei e Rei, me lanço as pedrinhas do solo fértil, estéreis em meu bolso, a perguntar:
-por quem me tomam, Pedro?

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para que me retirar deste modo junkie de estar me levantando da cama e apagando a fumaça, se o mundo continuará distante, cartas de suicida por debaixo da porta quando o interfone toca, os amigos me trazendo rostos com lições que não quero, bilhetes de afogados, personagens que não sabem se cuidar, correntezas de pensamentos; e todos os horóscopos me dizendo que é hora de procurar entender o porque de que, recorrentemente, perco o senso e a vontade e a fé em tudo.

6.12.07





quem me mostrou foi minha amiga eva, que também faz os desenhos mais bonitos do mundo

30.11.07

Uma certa narração seca que às vezes me sobe. Ao mesmo tempo que ouço as palavras como se elas fossem acordes numa partitura, subindo e descendo ao som do teclado.
não quero sugar todo seu leite/ nem quero você enfeite do meu ser/ apenas te peço que respeite/o meu louco querer/ não vamos fuçar nossos defeitos/ cravar sobre o peito as unhas do rancor/ lutemos mas só pelo direito/ ao nosso estranho amor
O indivíduo é múltiplo uno ou fragmentado? O indivíduo é indivíduo? Apesar de curar da doença, o texto tem um sintoma. ah mainha, eu queria mesmo era ser poeta.

29.11.07

this time tomorrow where will we be


agora pouco por um acaso uma entrevista do antónio lobo antunes na tv a cabo. eu não o imaginava assim hoje, velho.
uma lacuna, claro, entre o entrevistador e o entrevistado. o repórter perguntou 'e o senhor se sentiu como na porta da morte?'- ele teve um câncer recentemente e foi muito simpático com a besta- 'eu? me senti vivo. estamos sempre na porta da morte. mas da vida também.' então o antónio contou de algum outro escritor que 'com a morte beirando sua cama' em tom irrisório dizia mas é só isso? é só isso a morte?, e o lobo antunes sorriu, sorriu muito.

(aqui o link para o vídeo)

28.11.07

eu lembro de uma tarde, ele se soltou um pouco, fez meia dúzia de piadas e uma dancinha com as mãos. sem perceber, já tinha reprimido. havia uma mesa nos separando sem crueldade. teu maior riso é tão pouco. e eu ainda não sei pra onde olhar.

já escrevi tantas vezes
"evitar a ironia
e o tango, sobretudo o tango,"
o vestido preto com véu e sem fenda
que visto e me emboto a tecer eu,
tua prenda,
a luz tão branca do que é mudo
e quando chega a noite, exausta tiro
o que da boca foi parar na lapela,
a flor vermelha murcha
largada em cima da mesa
cansada de ser rosa

**
reler memorial de aires

26.11.07

god save the queen

Um trecho de um texto apitava na minha cabeça desde que comecei a escrever sobre Clarice e Cortázar num trabalho para a faculdade que, enfim, termina. eu lembrava assim: 'O coração já não pode' e depois lembrava 'algumacoisa é muito' e 'outracoisa é pouco'. Fiquei fascinada por lembrar da estrutura, mas não do que se dizia. Por se tratar de "coração" pensei primeiro que fosse um trecho da Clarice reiterado. Depois tive certeza que era Drummond. Até procurar no google e pasme! o primeiro resultado era meu próprio blogue e o trecho de Herberto Helder.

***

estou desintegrada demais para escrever. estou? no entanto, escrevo, retomo. caio nas drogas, café, cigarros próprios (tanto pelo gesto!), chocolate e farinha branca. entendo que Roland Barthes está errado. no Análise Estrutural da Narrativa, diz que quando se narram coisas que o narrador já sabe, tipo "este joão, meu irmão, era médico", é uma marca do leitor implícito. Mas só concordo com isso se o leitor for também o próprio escritor. Se fosse assim, não existiriam diários. Sei que, numa ânsia tremenda de delimitar as coisas, o cara (que é foda, eu acho muito) acaba falando demais. É bom que ele sempre se arrisca! Porque em"a marquesa saiu às 5 horas", "ela mesma para comprar as flores" ou, "estou desintegrada para escrever" podem ter marcas que não são de ninguém. Ou também, porque escrevo coisas que eu já sei que sei e é para mim mesma que desconheço. Os símbolos são inseridos sistematicamente ou podem ser coisas óbvias de desconhecidas para mim e que acontecem. E eu antes de ontem tinha anotado o que o Barthes escreveu com muito afeto. Tinha escrito que o António Lobo Antunes nunca marca o leitor, então, porque ele escreve dentro da perspectiva, sempre, do narrador.

***
escrevi uma carta ontem para o antónio lobo antunes. assim:
antónio, se no meu país existissem sultões, eu te convidava para ser o sultão aqui de mim,
cheio de crueldade você me daria o arbitrário de tudo
ah, eu iria sorrir e você também sorria, sim

***
"escrevo em desordem", escrevo para ter. Tudo aqui passa pela posse. As palavras, fazê-las, tê-las. Se o ato está sempre no presente, se é por tudo ser presente que me apavoro, se é disso que Eliot fala, se eu bem entendi, as palavras não preenchem espaços ou funções. As palavras são o espaço. A palavra é inerente.

***
hoje tomei uma absurda chuva de verão. É verão, ouviram bem? Por mais que a cidade o evite, é verão. É bom anunciar porque a cidade sempre aceita o inverno resignada, mas o verão? A cidade fica apavorada, você vê nos rostos as pessoas quase querendo se comprometer com o verão. Nas noites mais quentes, ninguém agüenta e explodem para as mesas quadradas sentadas de bares. Mas somos tão provincianíssimos! o medo do verão está nas pessoas, medo de que alguém te veja correndo na chuva, correndo dentro da chuva com a chuva, sem fugir da intensidade do excesso, do barulho, do corpo largado sem roupa; isso é medo de se alegrar, não podemos sorrir muito além do 'obrigado', se não começaremos a interagir com o outro, que pode ser alguém de más intenções, gente com a qual não se faz uma festa, aliás, festa na rua? só as patrocinadas pela pomarolla. todos os feriados milhões descem a serra. e é para o interior que o tietê corre, mário de andrade já dizia.

Eu saí para comprar a rosca sabores da padaria nova, todos os meus melhores amigos estão tão longe, saí para devolver os filmes, a água arrastando pela canela morro abaixo, pensando que daqui a pouco anoitece, já vai ter terminado o trabalho e eu poderei continuar sozinha, bem assim, por quanto tempo? não sei, nem quando isso começou.

***
bem, para todos vocês que não estão presentes, também ficam dadas minhas notícias.

***
ah! o trecho de herberto helder:

O coração já não pode mais. Entre os bichos e as plantas, acontece-lhe dizer: Que fertilidade!- e a vida corrompe-se nos próprios fundamentos. Sente-se como um apóstolo sem fé. Desejaria morrer, arder no fogo apocalíptico das cidades. Ou ser devorado pela inteligência, estiolar de excessiva lucidez no meio da loucura campestre. Tradição, compreende uma: ama-a. Perdeu o nome, essa sabedoria. Beleza, é pouco. Verdade, é muito. Trata-se de um termo sútil que participa de uma e outra, que se tornou inútil, insensato.

20.11.07


tudo é igual quando eu canto e sou mudo
mas eu não minto, não minto
estou longe perto

(agora começaremos a falar dos mortos e aparecerão pontas cipestres sobre os assuntos já sugeridos)

Uma vez, anos atrás, fiquei fascinada pela história que o Sábato ouve do Borges (um escritor argentino), a respeito de Güiraldes e o respeitável fracasso de seu livro El cencero de cristal (só o título nos faz recomendá-lo pela animação aos domingos), que, mesmo o satisfazendo ao ponto de ser publicado, foi um fracasso absoluto no mundo das vendas literárias. Parece que nem os amigos o quiseram. Daí, o escritor vaidoso e creditoso ao mundo das especulações imobiliárias, resolveu cometer um ato que fosse, de uma vez só, contra aquelas páginas e que o livrasse da memória futura dos leitores de manuais de cultura literária. E o que Güiraldes fez? (primeiro, nunca mais sugeriu um encadeamento através de uma pergunta) Güiraldes pegou com as próprias mãos todos os exemplares a que teve acesso e jogou um por um num lago. A questão que o Sábato e o outro escritor argentino se fazem é: poizentão, que bonito que é, já que o mais comum teria sido jogá-los ao fogo. E por que Güiraldes não optou pelo fogo? eles não respondem, para cada um está implícito, mas, talvez para nós não, talvez porque fosse um ambientalista avant-la-, talvez porque tivesse medo de fumaça, talvez porque não tenha lhe passado fogo pela cabeça, talvez morasse numa região dos lagos, talvez, porque tivesse ainda algum apego aquelas páginas,

talvez porque preferisse formas lentas, por darem tempo de se perceber o definitivo, o silêncio da putrefação aquática, apagando pouco a pouco aquelas letras, desfazendo devagar as folhas de papel, talvez gostasse assim, de gestos monótonos, aquietados, um silêncio que de tão fundo, ecoasse pra ninguém, mesmo que você colocasse o seu silêncio ouvindo de dentro do lago, você não escutaria nada; ouviria tão pouco nítido que talvez você já tenha mesmo num lago desses afundado e, não vendo nem ouvindo nem tocando, de nada desconfiou; mas eles estão lá, os cenceros de cristal, cheios daquelas imagens de candelabros com parafina cor-de-rosa, umas tábuas rangendo fantasmagóricas, uma vontade indefinidade de se deitar nessa planície, um lençol branco em cima do gramado, até a noite chegar e tudo que se entende depois.

when i was younger, eu talvez já soubesse que é para poder ouvir essas palavras que escrevo, é dessa água absurda que falo, que de tão enlameada- é noite- se confunde com o subterrâneo do mundo, fazendo achar, por vezes, que toco o magma. não é. disso aqui se bebe. dizem que é bom, contra a inquietude.

10.11.07

"No que procede o acontecimento - - é lá que eu vivo.
Espero viver sempre às vésperas. E não no dia."
C.L.. que fazia da dificuldade, procedimento

A realidade é que resolvi deixar de ser ingrata, meu bem. Sinto sua falta, mesmo que ligeiramente, sem sobreaviso. É que no decorrer mais amplo do tempo eu estou enrodilhada, ocupada demais em construir um templo, entre as minhas severidades e os meus afogamentos subterrâneos. E, se não te encaminho essas palavras escritas, é porque sei que quero fazê-las em você como se eu nunca mais te encostasse, um pouco por orgulho, síndrome do advogado de defesa, e porque hoje sei que ninguém garante que quando se chega na compreensão, se há chegado também no momento de compreender (fazer caber) e quanto mais expressar (palavra ambígua). Talvez seja por isso mesmo, ainda mais ao nível da experiência pessoal, que a literatura seja intransitiva.

E todas essas vontades de reiterar a unidade de si e a distância entre os seres. Aqui dentro, nessa casa, encontro até alienígenas para me sevirem. Escrever um texto é como a porra da mesa que ontem eu pintei de amarelo. Não se trata de mim, se trata de um objeto. Meu? Não sei, é um objeto em que se entra, como num vestido colocado na retina, uma teia de aranha na cara no meio da noite. Como se, a partir disso, você saísse por aí, se debatendo, simplesmente assim, vivendo.

Tear com palavras, para nós, que transformamos tudo o que é sensação em fala, é uma equação infinita, gravada na rocha do sangue (o sangue é um mineral?), cujo resultado resulta sempre: "é quase isso ou muito mais ainda". São entre lacunas como essas, é, eu vivo.
Yet if the only form of tradition, of handing down, consisted in following the ways of the immediate generation before us in a blind or timid adherence to its successes, "tradition" should positively be discouraged. We have seen many such simple currents soon lost in the sand; and novelty is better than repetition. Tradition is a matter of much wider significance. It cannot be inherited, and if you want it you must obtain it by great labour. It involves, in the first place, the historical sense, which we may call nearly indispensable to anyone who would continue to be a poet beyond his twenty-fifth year; and the historical sense involves a perception, not only of the pastness of the past, but of its presence; the historical sense compels a man to write not merely with his own generation in his bones, but with a feeling that the whole of the literature of Europe from Homer and within it the whole of the literature of his own country has a simultaneous existence and composes a simultaneous order. This historical sense, which is a sense of the timeless as well as of the temporal and of the timeless and of the temporal together, is what makes a writer traditional. And it is at the same time what makes a writer most acutely conscious of his place in time, of his contemporaneity.

Tradition and the individual talent, T.S. Eliot, em 1920, escrevendo para hoje. O ensaio completo pode ser lido aqui.

5.11.07



biografia incompleta, antônio dias, 1968
(infelizmente, a imagem está pouco definida.
um original no masp, numa exposição com data pra acabar.)

3.11.07

"...

julieta

ó:

........................................




Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.

Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.

Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma rã
no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei também
sabedoria mineral.




.......

(m de barros)


Abra sua conta no Yahoo! Mail, o único sem limite de espaço para armazenamento!
http://br.mail.yahoo.com"

2.11.07

A cidade está ardendo no meu apavoramento. A cidade ferve seu caldo de desdém pelo meu imaginário. Antes, eu tinha medo do que é a imaginação, o feltro úmido que enrola a garganta madrugada adentro e faz tudo parecer impossível e tão provável. Eu agora tenho medo da falta de imaginação. Tenho medo da compreensão, da interpretação e de tudo que não for ruptura. Parei neste outro galho e espero que ele não se quebre para que eu possa romper-me, incongruência qualquer de um espírito irônico e devastado.

E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. De repente, que loucura fina. Ser capaz é um dos modos de ser vulnerável. Olhos queimando, correntes de sangue, louvor transformado em vazio. Vamos acelerar, romper a concentração e toda a idéia de aperfeiçoamento. "Não tenho inveja às cigarras, também morrerei de cantar." A concentração será deixada para momentos mais solenes do que este, não é? Não, é não sei. Estamos inteiras na intimidade de não agüentarmos mais, o eu múltiplo, reificação solene do indíviduo, chegou ao limite. Não seremos mais destros. Não toleraremos o riso escarninho dos presentes afigurados.

Quem sabe de mim, é a minha própria aproximação de mim. Bela morena em seu vulto de carne, por exemplo: Estou indo para Cannes vestida de branco. Estou indo para Cannes esbanjar, mostrar pra todas as usuárias de diurético que a realidade que eu conheço é reter e, que, por isso, todas as coisas me atingem. Misturei nossas vidas com as dos outros e agora não sei se posso; te aceitar: como? Agora você me cansa pelos excessos de estágios de encenação que eu tenho como destino a levar te sucumbir? As pessoas nunca me comoveram tanto.

Solicito a entrada de um novo expediente. Que venha de patins, o novo expediente.

Pensei, pensamos, dissemos: por que ninguém nos escreve cartas de amor? Estou interessadíssima em cartas de amor. Estou explícita para cartas de amor.

1.11.07

31.10.07

I'll be your king volcano right for you again and again

Eu não sabia quem era o mister e quando saiu do grande casarão um homem lindo eu me ataquei. Ele entrou no carro, disse algo com party para o motorista e me deu um grande amasso molhado. Chamei-o de my dearest e cold cold fire! era o David, my velvet goldmine! A festa era cheia de luzes vermelhas e sons obscuramente incríveis, chegamos abraçados e como nos amávamos tanto! Em cima da mesa de sinuca, rolávamos por todos os lados e cantos. Ele me dizia que ao meu lado tinha voltado a ser adolescente, mas que isso tinha também lá seu dark side. Me perguntou se eu não tinha visto o Lou por lá, que o cara era um folgado que desde que tinha começado a fazer análise virou um pentelho e charlatão e tal. E, entre beijos estalados, me prometeu que, se eu nunca mais o desprezasse, aquele vestido lindo e listado seria meu.


Ok, então, ok,...

- - - - - - - - -
carlos drummond de andrade completaria hoje 107 anos. tá morto, o poeta, no meu coração meio enterrado também.

26.10.07

foi preciso chamar a atenção das crianças
que tiravam frutos do pomar
e descascavam laranjas com facas sem corte:
não se ponham a arrancar as ervas do chão que a gente pisa
como meninas desprezadas e raivosas.

no pátio interno
depois de uma ciranda
é proposto pedagogicamente
que se faça um desenho feito um contrapeso do que a nossa cabeça pensa
e as crianças todas riem de satisfação
e o menino mais novo,
um cata-vento trazendo o cheiro do laranjal
veio na direção do meu amigo Lero - - - o guindaste,
e disse pra ele que não dava pra jogar aquele jogo:
-é a cabeça que pensa ou é o corpo inteiro?

o Lero que era só corpo
o Lero que não lia Sontag
o Lero quando se agitava
a gente ia junto pra praia
ele imensão pegava os prédios em redor com a sua garra
pegava as pessoas e as barracas de sorvete
arrancava as pedras do calçadão
tirava de mim toda essa lembrança
e lançava tudo ao grande verde.

feito tudo fosse aquário cheio de peixes
que um dia se descobre decorativo
e afunda no meio da água do atlântico
silêncio violento que se ouve do cais
e os peixes libertos todos
se põem a contar notícias de além-mar.

17.10.07

não sei se estou confusa ou foi o mundo que se abriu de tanto girar hoje de manhã quando acordei com sono olhei bem lá a torre uma das antenas das quarenta que existem na vizinhança a que dá pra ver das janelas do quartos tinham três homens subindo vestidos de azul o céu estava nublado e eu, procurando por alguém, acendi um cigarro com a torneira da pia em que meu gato estava a se lavar.

- - - - - - - - - - - - - - - - - -

todo amor que houver nessa vida, pra vocês.

14.10.07


Foi preciso chamar a atenção das crianças: parem de arrancar a grama, vamos fazer um desenho feito um contrapeso do que a nossa cabeça pensa. É a cabeça que pensa ou é o corpo inteiro?

O orelhão de perto de casa já tocou umas três vezes essa noite. Parece que perdi o sono. Parece que não me chamam de casa. Parece que a casa deixou de ser e esse cobertor morno só me enrola. Se você me convidar pra dançar eu recuso. Tenho o meu bailado, mequetrefe que seja, comigo mesma, noite adentro.

Vou extravasar num e dois e três: essa língua portuguesa é uma realidade mesmo, que coisa estranha, Clarice Lispector - - - a coisa estranha- - - dizer que queria não ter aprendido outra língua de tanto que te ama, português. A frase dela é bonita também porque prevê um comentário como o meu: se não tivesse aprendido outra língua, claro que não saberia como é está portuguesa. Português do Brasil. Faz diferença? Beibe, há quanto tempo assumi que muita. Mas será possível não desejar o alcance de outra língua, como o inglês, o latim ou o sânscrito? Me parece que seria como aqueles que pedem perdão a todo tempo o tempo todo, sendo que pra pedir perdão mesmo, pra ser perdão acabado, tem que ter cometido. E se eu cometer noutra língua, como vou enfiar a minha na boca e andar por aí? Tá certo, Clarice.

É e eu também quero os pés leves e desamarrados dos tecidos. Queria também ter mais fotos do dia de ontem. Tirei uma do guindaste. Guindaste é lero-lero dos iniciados. Diga sim que isso me diz muito, vou me aproximar cada vez mais desses sorrisos. Não tenha medo de colar em si mesma, ela tanto já te habita. Dias muito irrigados. Luz que arrebenta a cabeça, fecha os olhos irrigados de sangue. Sangue que se expõe ao perigo.

deixas o verão deslizar de mansinho
para o cobre luminoso do outono e
às primeiras chuvadas recomeças a escrever
como se em ti fertilizasses uma terra generosa
cansada de pousio – uma terra
necessitada de águas de sons de afectos para
intensificar o esplendor do teu firmamento
(al berto)

7.10.07

que maravilhosa encruzilhada essa
parede branca do meu quarto
se saio dela logo me permito
a resolver ir a rua
convidar algum amigo para

uma cigarra canta perto da minha janela
nessa terra coberta de espigas não-halógenas
de vida útil muito longa e eficiência constante geralmente apresentam em seu bulbo uma certa quantidade de iodo

e os amigos são como flores
secas que a gente leva na lapela
às vezes ao alcance da boca
palitando dentes feito cowboy
até que um dia a gente mastiga
e cospe nada além de pó

cantem, cantem todos nas fileiras do meu pensamento
logo estaremos daqui um quilômetro
estrada de terra percorrendo o milharal.

2.10.07

O céu descoberto para vê-los passar. Se olharmos de cima, além da cabeça retraída, vamos ver a tensão no ombro que vem desde o meio do peito, porque carrega um dilúvio que nunca aconteceu, nem nuvem se formou, como se o tempo tivesse ficado tão sem água, tão sem chuva, que, de tão seco que ficou, cristalizou-se. Ela também tem uma forma cristalina, mas não rochosa como a dele, para ela só não existe fora ou dentro. Ela passa num mundo sem gravidade em que o sol poente não precisa de nada para ir. O leitor mais desconfiado com ele se parecerá. O mais impreciso, com ela. Mas e se ambos, na verdade forem um só? Em meio a tantas adversidades é necessário narrá-los.

1.10.07


Revenge of the goldfish, Sandy Skoglund

14.9.07

mas nada é perfeito- nem o magnífico chapéu
de mademoiselle de noailles nem os dias que
aos ziguezagues vão passando iguais e monótonos
falta-me o tempo para procurar o tempo perdido
e não estou deitado na recordação da infância
confesso
que odeio escrever cartas ou enviar recados

do horto de incêndio, do al berto.

12.9.07

Houve um tempo em que todas as pessoas realmente admiráveis estavam mortas. Mortas! Quando resolvi procurar entre os vivos foi que me encontrei morta também. Ah o pântano o deserto o labirinto. Mergulhei até o centro da terra e não achei nada também. Resolvi putrefazer ao contrário. Pedir desproteção ao Estado que o indivíduo. E garantir que eu não garanto nada, amor.

Essa noite sonhei que estava deitada na areia da praia, olhando o céu enorme cheio de estrelas. Feito uma mulher primordial onde ainda não se traçaram as constelações, os signos e os destinos, cabia a mim escolher o desenho daqueles pontos de luz. De repente eu vi uma estrela cadente e eu queria fazer um pedido, mas não sabia o quê. Passou outra estrela cadente. Caiu mais uma. E eu não conheço o pedido. Acordei pensando que era isso: o que é que eu quero querer?

6.9.07

mas o que eu estou fazendo aqui
de novo na noite
se é meio-dia de sol imenso lá fora
e o que ainda arde em nós
nunca foi pela corda-bamba
só uma passeata de meio-fio
numa que às vezes chovia às vezes parava
e quando ventava me secavam as lágrimas
e isso foi desde o início
e é daqui pra segunda-feira também

os caranguejos come-dorme
vão até a praia marchando
sua verdade sanguinolenta
daqui só aparece mesmo
o trópico, o trópico

não há como viver nessa casa como se fosse uma caçapa
coube-me aqui aos sábados
a vizinhança tão vazia, que pena, ninguém aqui pra ouvir meu
joão gilberto no último volume
a cidade que te partiu,

28.8.07

something in the way she moves me


soy, estoy, me voy

25.8.07

eu também passo o tempo inventando alguma coisa que você também colocaria aqui ao meu dispor se gastasse naquele canto comigo uma meia hora alicate na goela

na cadeira de palha a senhora de maiô segura um copo de gin que não bebe

determinaram que o português do brasil não tem mais acentos de diferenciação
há quem diga demora anos presses acentos caírem

também é um tanto cedo ainda
para dizer que não vou mais ao parque passar a tarde escrevendo

ainda não cheguei à dicção
mas tudo bem, também ainda não deram à crase o silêncio
de não humilhar mais ninguém

18.8.07


i've been a miner for a heart of gold
and i'm getting old

20.7.07

Desde que comecei estas notas sem texto ouço como ruído de fundo algo que escreveu Jaime Gil de Biedma sobre o não escrever. Sem dúvida, suas palavras trazem maior complexidade ao labiríntico tema do Não: "Talvez fosse necessário dizer algo mais sobre isso, sobre o não escrever. Muita gente me pergunta isso, eu me pergunto. E perguntar-me por que não escrevo inevitavelmente desemboca em outra inquisição muito mais inquietante: por que escrevi? Afinal de contas, o normal é ler.* Minhas respostas favoritas são duas. Uma, que minha poesia consistiu -sem que eu soubesse- em uma tentativa de inventar uma identidade para mim; inventada e assumida, já não tenho vontade de colocar-me inteiro em cada poema, que era o que me apaixonava quando os escrevia. Outra, que tudo foi um equívoco: eu pensava que queria ser poeta, mas no fundo queria ser poema. E em parte, na pior parte, eu consegui isso; como qualquer poema medianamente bem-feito, agora careço de liberdade inteiror, sou todo necessidade e submissão interna a esse atormentado tirano, a esse Big Brother insone, onisciente e ubíquo: Eu. Metade Caliban, metade Narciso, temo-o sobretudo quando o escuto perguntar-me junto a uma sacada aberta: 'Que faz um rapaz de 1950 como você em um ano indiferente como este?' All the rest is silence".

Enrique Vila-Matas, em Bartleby e companhia.



*disso eu discordo.

13.7.07

a memória tem braços e tem pernas. tem muitas vozes. às vezessó vontade sem pernas. sorte dela se estivesse só na cabeça ou no sangue, nesse incrível e efusivo nosso corpo que tantas vezes vive só de estar no rastro do corpo de alguém,

no escuro, como me acontece sempre, mas agora no do seu quarto você recosta a cabeça no travesseiro empilhado no batente da cama e o seu sangue aterrorizado e também os braços e as suas pernas caladas enfim repousam
como se nunca, nunca antes por mim sepultados

na primeira vez era sair da cidade
na segunda o cais e a eternidade
finalmente resolvi sair do país
foi na noite que atravessei o jardim da minha casa e fui dar numa escada de concreto
um caracol de ângulos retos,

9.7.07

5.7.07

Há uma coisa, porém, a propósito da qual a ideologia oca não admite brincadeiras: a previdência social. "Ninguém deve sentir fome e frio; quem sentir vai para o campo de concentração: " essa pilhéria da Alemanha hitlerista poderia estar a brilhar como uma máxima sobre todos os portais da indústria cultural. Ela pressupõe com astuta ingenuidade o estado que caracteriza a sociedade mais recente: o facto de que ela sabe muito bem reconhecer os seus. A liberdade formal de cada um está garantida. Ninguém tem que se responsabilizar oficialmente pelo que pensa. Em compensação, cada um se vê desde cedo num sistema de igrejas, clubes, associações profissionais e outros relacionamentos, que representam o mais sensível instrumento de controle social. Quem não quiser se arruinar deve tomar cuidado para que, pesado segundo a escala desse aparelho, não seja julgado leve demais. De outro modo, dará para trás na vida e acabará por ir a pique. O facto de que em toda carreira, mas sobretudo nas profissões liberais, os conhecimentos especializados estão, via de regra, ligados a uma mentalidade de conformismo às normas enseja facilmente a ilusão de que os conhecimentos especializados são os únicos que contam. Na verdade, faz parte do planejamento irracional dessa sociedade reproduzir sofrivelmente tão-somente as vidas de seus fiéis. A escala do padrão de vida corresponde com bastante exactidão à ligação interna das classes e dos indivíduos com o sistema. Pode-se confiar no manager, e confiável também é o pequeno empregado, Dagwood, tal como este vive na página humorística e na realidade. Quem tem frio e fome, sobretudo quando já teve boas perspectivas, está marcado. Ele é um outsider e, abstracção feita de certos crimes capitais, a culpa mais grave é a de ser um outsider. Nos filmes, ele será no melhor dos casos um indivíduo original, objecto de um humorismo maldosamente indulgente. Na maioria dos casos, será o vilão, identificado como tal desde sua primeira aparição, muito antes que a acção tenha se desenvolvido o suficiente para não dar margem ao erro de acreditar, ainda que por um instante apenas, que a sociedade se volta contra as pessoas de boa vontade. De facto, o que se desenvolve actualmente é uma espécie de Estado de bem-estar social em grande escala. Para afirmar sua própria posição, as pessoas conservam em movimento a economia na qual, graças à técnica extremamente desenvolvida, as massas do próprio país já são, em princípio, supérfluas enquanto produtoras. Os trabalhadores, que são na verdade aqueles que provêem a alimentação dos demais, são alimentados, como quer a ilusão ideológica, pelos chefes económicos, que são na verdade os alimentados. A posição do indivíduo torna-se assim precária. No liberalismo, o pobre era tido como preguiçoso, hoje ele é automaticamente suspeito. O lugar de quem não é objecto da assistência externa de ninguém é o campo de concentração, ou pelo menos o inferno do trabalho mais humilde e dos slums. A indústria cultural, porém, reflecte a assistência positiva e negativa dispensada aos administrados como a solidariedade imediata dos homens no mundo dos competentes. Ninguém é esquecido, todos estão cercados de vizinhos, assistentes sociais, Dr. Gillespies e filósofos domésticos de bom coração, que intervêm bondosamente junto a cada pessoa para transformar a miséria perpetuada socialmente em casos individuais curáveis, na medida em que a depravação da pessoa em questão não constitua um obstáculo. A manutenção de uma atmosfera de camaradagem segundo os princípios da ciência empresarial - atmosfera essa que toda fábrica se esforça por introduzir a fim de aumentar a produção - coloca sob controle social o último impulso privado, justamente na medida em que ela aparentemente torna imediatas, reprivatiza, as relações dos homens na produção. Esta espécie de "assistência aos flagelados" espiritual lança uma sombra conciliatória sobre os produtos audiovisuais da indústria cultural muito antes que esse auxílio saia da fábrica e se estenda sobre toda a sociedade. Mas os grandes ajudantes e benfeitores da humanidade, cujos feitos científicos têm de ser apresentados pelos escritores como actos de compaixão, a fim de extrair deles um fictício interesse humano, funcionam como lugar-tenentes dos chefes das nações, e estes acabam por decretar a eliminação da compaixão e sabem prevenir todo contágio depois de exterminado o último paralítico.

Theodor W. Adorno e Max Horkheimer - Dialéctica do esclarecimento: A Indústria Cultural.

(vindo dos arquivos do brejão do umbigo)

22.6.07

I don't want, no I really don't want
To be John Lennon or Leonard Cohen

para c.

sempre as janelas e os quartos, adensados nas paredes que a memória divide com a vontade de fugir. era pequena, menina de lágrimas enormes sempre que montava a mala, uma trouxa de roupas com bolachas de água e sal e tirinhas do calvin.

one night i saw a mexican film pela janela
a casa do vizinho:
um delegado prostituído que tudo o que fazia com a vida se sintetiza na encoxada na empregada no fogão. botava para ouvir um disco de hinos no dia da independência do brasil.

não havia saída.

existia era um telhado, entre os muros das casas de planta quase igual, a outra acentuadamente mais cimentada que a nossa, muito tapete de grama verde sem folhas por cima. eu caminhava pelo telhado, atravessava da janela do meu quarto para a janela do quarto do meu irmão. era uma grande façanha para uma criança triste.

one day i had to leave my country, calm beach and palm tree
a casa do vizinho foi soterrada por um lago de água salgada.
era o mar avançando a cidade, a fuga, a escolha, a memória e a renúncia.

minha mãe andou de barco num lago que cresceu dentro da bacia de um vulcão. a água borbulhava doce e incandescente.
como ela, não sei caminhar sobre outras águas. quando estaremos livres disso e de todo o resto, minha mãe? só nas horas de partir? sinto, mas não vou te chamar dessa vez. a janela do meu quarto de criança é minha, a casa do vizinho invisível e finalmente mareada e o marulho só restam na memória
no entre nós
o muro do fim da nossa casa de criança e o mar imenso
eu também já tive muito medo por você mas
o muro é também o porto para o caos

o navio cargueiro imenso, meu cruzeiro encosta. eu tenho o bilhete de entrada, esse direito de passar, meu destino contraditório nos bolsos e nas mãos uma só cruzada. uma nova parede se me coloca a frente, não me deixando alcançar o olhar pelas escotilhas. o que eu não vejo, me enjôoa e foram entorpecendo o meu nariz aquele cheiro de diesel misturado com chumbo, ferro, tudo dentro feito de aço com o níquel. embaralhada, perdi esse navio das duas, o do meu bilhete. sem cálculo sentei-me na pequena área do muro, abraçada com a minha mochila e ficamos esperando, calmamente esperando.

quando o das cinco chegou vi sua porta lá longe e minha vontade de alcançá-la enorme. tão longe e tão alucinada tive que percorrer o em cima do muro com pé ante pé, num galope como um teste de equilíbrio, que, diga-se de passagem, muito me satisfez. um pouco mais gasta e com o fôlego alterado, alcancei o portal imenso e entrei no navio.

por dentro o navio era como um ônibus da viação gato preto, com os bancos pintados de azul com mancha de giz. dei o meu bilhete das duas para o maquinista de navio das cinco. o cobrador nada me perguntou e vi sentados, logo na primeira fileira, dois passageiros muito familiares.

meu pai não me disse palavra, carregava uma sacola de feira amarela e azul e estava já muito velho com uma bengala. fez um trejeito irônico e barrueco com a cabeça, foi para mim. já minha mãe ao lado dele, não me viu, vestida de vermelho e negro, sorrindo estática seu olhar para o futuro.

eu me sentei num banco qualquer do navio, me sentindo um gato com fones de ouvido
foi aí que me lembrei que quando o joão cabral de melo neto morreu, meu pai me disse que era um dia muito triste para ele.

26.5.07

debruçada na janela que não dá o saber do tempo, porque o sol é um visitante que se parece comigo e se despede antes de vir, fiquei olhando com inveja e carinho para o gato da janela do vizinho que mora encostado naquele vidro,
ali onde bate sol
percebo que sonhei com você. e ninguém vai saltar da janela ou sair da porta do banheiro para me fazer companhia nessa manhã tão fria. claro como isso só a exatidão que não sei quem é você?, mesmo que a imagem do seu corpo esteja presente, essa xícara de chá está mais próxima de mim do que o retrato do seu fatal lado esquerdo esforçado em se vestir como mamãe queria
reparei que o meu gato, quando crescer, vai parecer com o gato da janela do vizinho, como um heterônimo do sol e, que apesar de afônica e cheia de metafísicas,
estou de pé, acordada e repleta de esperanças
pois jamais tentei dormir sobre essas páginas
e te peço pra que veja na carne do poema o que já não é escrita, pois o gato vive em nós,
e fatalmente se sabe que isso já não é amor e talvez nunca tenha sido, é sempre crise
mas tão diferente da crise do sonho
em que eu te dava um beijo e te chamava de meu bem tão no canto da boca e me arrependia dessa também, coisas que me fogem pelos lábios, gestos tão ágeis e certos e logo tão ásperos.

16.5.07

now it's time to leave the capsule if you dare

eu era um avião dando voltas em berlim. com o punho encoberto no dourado, carregava um gerânio talhado em cada asa. nesses parafusos da alta-costura me escondia, o espadachim vestido de lataria, eu firmava a grande patente do céu, azul e doido, demais.

deixando em paz a germânia, voando em círculos, vivendo, como quem vindo se desfaz para trás, aeronave foi rompendo, reluzindo para cima. nem se via lá debaixo, quanto de mim partia. na cabine a conversa dum construtor com o meu pai. descubro que sou assim, tão sem dona de mim, nessa minha falta de cais.

a janela da cabine forçando, que não era de tais alturas, os botões convulsionando, não sei mais arranjar estrutura. e o painel do radar estoura. nesse caco o co-piloto perde a glote e eu aeronava, subindo, subindo o terror das aeromoças
por capricho, tesão ou cura quis comer um dois três pacotinhos de amendoim com o piloto tão sem dono de nada,
enfim.

4.5.07

one from the heart




Ela dorme, morna. E não sabe para onde ir. Quando acorda também, mas

No sonho ela está numa paradisíaca Ilha, chão de conchas brancas, aguazinha cor de piscina. Onde ela se conheceu com ele. Quando olha para o lado, está num posto de gasolina shell Amarelo e Vermelho. Blue, like monday evening, está o coração dela. Ela quer amar e para isso não precisa amarrar os sapatos brancos. Mas alguma coisa que falta. Entra na loja de conveniência, conversa com o cara do balcão. Trata-se da recepção do jornal do país. Pelas paredes de vidro blindex ela olha lá fora. O azulzinho vem do vidro e se remete para a água. Parece que começou a chover. “Pensei que tivesse entrado pra comprar uns cigarros”.
-Cigarros? eu tenho muitos. Quer?- diz a outra pelos ombros dela.- Eu vou até ali em cima pegar. Quer?
Ela pensa que a outra pelo menos deve ter notícias do outro e escolhe ficar junto dela. A outra sobe as escadas e ela sobe também. Não se lembra dos cigarros e não sabe se subiu pelas notícias. Ela não repara que está indo atrás da outra que abre uma porta de madeira clara e entra pra um outro compartimento. “Ali eu não posso ir," ela pensa e senta na frente de um Ibook. Espera, espera olhando o descanso de tela. A outra sai de uma porta e por trás d’Ela atravessa a sala retangular, entrando em outra porta. A outra

repete a mesma passagem por trás d’Ela algumas vezes. Como os homens da família, hoje ela está de camisa e procura pelo maço no bolso. Ainda sem. E decide levantar. De repente uma nublação na cabeça. Não lembra mais se ela subiu porque a outra deixou. A outra parece atravessar a sala com olhares cada vez mais persecutórios. De repente “não era para eu estar aqui”, de repente desconhecida, “de repente a outra me reconhece”. Não salta da janela, filha minha, encontra a porta de saída descendo a escada, vira a maçaneta com tranqüilidade. O porteiro nem te olha. “Vou ter que explicar para o outro o que eu vim fazer aqui?” e atravessa a rua, as lagoas sumiram, não se volte para o mar, e ele há de voltar, vai lá, continue nessa, assim, street walking cheetah, with a heart full of napalm

29.4.07



28.4.07

gentem!, minha avó me adicionou no messenger!
A Virgem Maria

O oficial do registro civil, o coletor de impostos, o mordomo da Santa
Casa e o administrador do cemitério de São João Batista
Cavaram com enxadas
Com pás
Com as unhas
Com os dentes
Cavaram uma cova mais funda do que o meu suspiro de renúncia
Depois me botaram lá dentro
E puseram por cima
As Tábuas da Lei

Mas de lá de dentro do fundo da treva do chão da cova
Eu ouvia a vozinha da Virgem Maria
Dizer que fazia sol lá fora
Dizer i n s i s t e n t e m e n t e
Que fazia sol lá fora.

(manuel bandeira)

22.4.07

No seas insegura, eso dejámelo a mí/ Hombres con armadura abundan por aquí
No seas tan celosa, no hay ninguna como vos/ Además te ves preciosa cuando el celoso soy yo
kevin johansen

Deito bem escovada. Com o cheiro do lençol novo fico que me agito, não sei bem onde mora essa aflição das sensações não serem estáticas. Entre os meus dedos sinto os filetes na penumbra, uma das poucas coisas que eu sei é que isso aqui é o cabelo dele, que, preto, é o que há de mais preto no mundo. É também o cabelo da minha mãe reinventado.

Inicio minha luta pelo sono. Apaziguo as atividades de amanhã, lembrando de ontem e antes de ontem, falo pra ele sobre o meu pulso dobrado que incomoda. Falo pra ele que desde criança o medo de dormir me obriga a falar. Hoje, como se pedisse desculpas e com isso me avantajasse de liberdade, me peço sossego.

(continuo avaliando. do amor, o medo do sono, o medo da velocidade, são todas as quebras da minha entrega? já vejo assim, como um risco em termos de “entrega”, “escolha”, tudo tão pejorativo quando se rastreia!)

Logo voltamos a uma tarde inteira de passos alados, com o cansaço da sua mão me puxando os ombros para trás (é por causa da idade, que delicado) e, depois de perceber, alinha a nossa postura.
Conta sempre que não há despedida pra mim? Sou o seu esboço, a moça dessa cena que te olha e sorri dizendo:

“Tenho medo de que não seja para sempre.

Você me vê na estrada invisível da beira d’água? vamos olhar os olhos no reflexo?". Cenas brancas e cenas estáveis. Depois cenas da hora de escurecer. “Olha pra lua, eu não te esqueço”. A minha fraseologia cravada nas suas costas, faz você lembrar que quer tirar a roupa das minhas palavras? "Dispa-se, mulher".

Passa os dedos entre os fios do cabelo dele, retoca o cabelo dele pra sentir a falta de uma mímica condensada do amor. Saímos do universo do gesto. Estamos sós, eu me desencantei de mim mesma, acontece sempre. Minha cabeça encosta na sua, fazendo o contato entre as partes desentendidas. Quantas horas será que eu vou conseguir dormir, se você vai acordar antes?

Em algum momento me venci, passei, é de manhã finalmente.

Ele gosta tanto de cantar quando é cedo. Canta um pedaço só de cada música, sem perceber, como um afresco que só tivesse cheiro. Coloco sua voz como o meu fone de ouvido, quando você se levanta, debruço na sua fronha da minha casa. Bem cedo te farei um café, toda manhã seu. Eu sou a moça dessa cena, lembra? que todo trecho entende como sendo dela e para ela, porque o homem que canta de ouvido e acaso, canta dentro do clima e por ossatura.

linger on, your pale blue eyes

ter memória é como ter audição, olfato ou tato? quer dizer, por estarem todos no corpo são inseparáveis e por isso um cheiro lembra algo ou o tato se faz gravado? e, assim como envelhecemos e perdemos um e/ou outro, o fado da memória é o apagamento?

algumas culturas vêem no arco-íris duas cores, outras doze.
na escola se aprende quantas cores tem o absurdo:
(são sete)
a noite, a visão, o vigor,
a falha,
o riso e o esquecimento

(http://saidthebird.multiply.com/music/item/276)

13.4.07

acho que a literatura já é uma espécie de mutismo no sentido de que é necessário um outro para ela se fazer. mesmo se for para expulsar esse outro da narrativa, ele está ali, o expulso. se ninguém abre o livro que ele escreveu, o livro não existe. eu penso isso em todas as livrarias que freqüento, com os excessos que encontro nas prateleiras e poucos (ou nenhum) livros seduzem. preciso escrever uma história que se eu encontrasse numa livraria eu gostaria. estou escrevendo uma história que pode demorar anos pra ser feita, como a minha própria vida, pela estrutura que eu tenho planejado. acho que isso me seduz, eu nunca soube manter uma atividade assim por muito tempo e qualquer coisa que me faça acordar todos os dias, como um filho faria, é um planejamento estrutural, vital e um baile no tédio.

---:----
roland barthes: "todo estilo é um segredo".
clarice lispector: "quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo".
---:----
vamos caçar razões e astronautas?

lendo humano, demasiado humano: "assim como aumentam as geleiras quando nas regiões equatoriais o sol atinge os mares com mais ardor do que antes, também um livre-pensar muito forte e abrangente pode ser testemunho de que em algum lugar ponto o ardor do sentimento cresceu extraordinariamente".
---:---
como será que o rosto dele vai ficar quando envelhecer mais?
(vinte anos daqui em diante,
sem beijos de despedida dessa vez
seu charme ainda, espero, vai me fazer sofrer
boa viagem que você se exploda dentro de mim
até o fim.)
cassandra diz:
a minha voz também tem muita questão. você chega lá quando?
antônio diz:
comecei a contar essa história pra saber o que não é.
cassandra diz:
sei, daí os papéizinhos voam milhares no chão de cimento que parece granito.
antônio diz:
eu prefiro caixas ao chão, cassy. prefiro nenhum termostato da dor.
cassandra diz:
não deixe barato. vou comprar nívea sun pra gente comer: o barato é que deus me deu.
antônio:
eu parei de comer.
cassandra:
e eu não queria ter fome.
 

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