16.5.07

now it's time to leave the capsule if you dare

eu era um avião dando voltas em berlim. com o punho encoberto no dourado, carregava um gerânio talhado em cada asa. nesses parafusos da alta-costura me escondia, o espadachim vestido de lataria, eu firmava a grande patente do céu, azul e doido, demais.

deixando em paz a germânia, voando em círculos, vivendo, como quem vindo se desfaz para trás, aeronave foi rompendo, reluzindo para cima. nem se via lá debaixo, quanto de mim partia. na cabine a conversa dum construtor com o meu pai. descubro que sou assim, tão sem dona de mim, nessa minha falta de cais.

a janela da cabine forçando, que não era de tais alturas, os botões convulsionando, não sei mais arranjar estrutura. e o painel do radar estoura. nesse caco o co-piloto perde a glote e eu aeronava, subindo, subindo o terror das aeromoças
por capricho, tesão ou cura quis comer um dois três pacotinhos de amendoim com o piloto tão sem dono de nada,
enfim.

4.5.07

one from the heart




Ela dorme, morna. E não sabe para onde ir. Quando acorda também, mas

No sonho ela está numa paradisíaca Ilha, chão de conchas brancas, aguazinha cor de piscina. Onde ela se conheceu com ele. Quando olha para o lado, está num posto de gasolina shell Amarelo e Vermelho. Blue, like monday evening, está o coração dela. Ela quer amar e para isso não precisa amarrar os sapatos brancos. Mas alguma coisa que falta. Entra na loja de conveniência, conversa com o cara do balcão. Trata-se da recepção do jornal do país. Pelas paredes de vidro blindex ela olha lá fora. O azulzinho vem do vidro e se remete para a água. Parece que começou a chover. “Pensei que tivesse entrado pra comprar uns cigarros”.
-Cigarros? eu tenho muitos. Quer?- diz a outra pelos ombros dela.- Eu vou até ali em cima pegar. Quer?
Ela pensa que a outra pelo menos deve ter notícias do outro e escolhe ficar junto dela. A outra sobe as escadas e ela sobe também. Não se lembra dos cigarros e não sabe se subiu pelas notícias. Ela não repara que está indo atrás da outra que abre uma porta de madeira clara e entra pra um outro compartimento. “Ali eu não posso ir," ela pensa e senta na frente de um Ibook. Espera, espera olhando o descanso de tela. A outra sai de uma porta e por trás d’Ela atravessa a sala retangular, entrando em outra porta. A outra

repete a mesma passagem por trás d’Ela algumas vezes. Como os homens da família, hoje ela está de camisa e procura pelo maço no bolso. Ainda sem. E decide levantar. De repente uma nublação na cabeça. Não lembra mais se ela subiu porque a outra deixou. A outra parece atravessar a sala com olhares cada vez mais persecutórios. De repente “não era para eu estar aqui”, de repente desconhecida, “de repente a outra me reconhece”. Não salta da janela, filha minha, encontra a porta de saída descendo a escada, vira a maçaneta com tranqüilidade. O porteiro nem te olha. “Vou ter que explicar para o outro o que eu vim fazer aqui?” e atravessa a rua, as lagoas sumiram, não se volte para o mar, e ele há de voltar, vai lá, continue nessa, assim, street walking cheetah, with a heart full of napalm

29.4.07



28.4.07

gentem!, minha avó me adicionou no messenger!
A Virgem Maria

O oficial do registro civil, o coletor de impostos, o mordomo da Santa
Casa e o administrador do cemitério de São João Batista
Cavaram com enxadas
Com pás
Com as unhas
Com os dentes
Cavaram uma cova mais funda do que o meu suspiro de renúncia
Depois me botaram lá dentro
E puseram por cima
As Tábuas da Lei

Mas de lá de dentro do fundo da treva do chão da cova
Eu ouvia a vozinha da Virgem Maria
Dizer que fazia sol lá fora
Dizer i n s i s t e n t e m e n t e
Que fazia sol lá fora.

(manuel bandeira)

22.4.07

No seas insegura, eso dejámelo a mí/ Hombres con armadura abundan por aquí
No seas tan celosa, no hay ninguna como vos/ Además te ves preciosa cuando el celoso soy yo
kevin johansen

Deito bem escovada. Com o cheiro do lençol novo fico que me agito, não sei bem onde mora essa aflição das sensações não serem estáticas. Entre os meus dedos sinto os filetes na penumbra, uma das poucas coisas que eu sei é que isso aqui é o cabelo dele, que, preto, é o que há de mais preto no mundo. É também o cabelo da minha mãe reinventado.

Inicio minha luta pelo sono. Apaziguo as atividades de amanhã, lembrando de ontem e antes de ontem, falo pra ele sobre o meu pulso dobrado que incomoda. Falo pra ele que desde criança o medo de dormir me obriga a falar. Hoje, como se pedisse desculpas e com isso me avantajasse de liberdade, me peço sossego.

(continuo avaliando. do amor, o medo do sono, o medo da velocidade, são todas as quebras da minha entrega? já vejo assim, como um risco em termos de “entrega”, “escolha”, tudo tão pejorativo quando se rastreia!)

Logo voltamos a uma tarde inteira de passos alados, com o cansaço da sua mão me puxando os ombros para trás (é por causa da idade, que delicado) e, depois de perceber, alinha a nossa postura.
Conta sempre que não há despedida pra mim? Sou o seu esboço, a moça dessa cena que te olha e sorri dizendo:

“Tenho medo de que não seja para sempre.

Você me vê na estrada invisível da beira d’água? vamos olhar os olhos no reflexo?". Cenas brancas e cenas estáveis. Depois cenas da hora de escurecer. “Olha pra lua, eu não te esqueço”. A minha fraseologia cravada nas suas costas, faz você lembrar que quer tirar a roupa das minhas palavras? "Dispa-se, mulher".

Passa os dedos entre os fios do cabelo dele, retoca o cabelo dele pra sentir a falta de uma mímica condensada do amor. Saímos do universo do gesto. Estamos sós, eu me desencantei de mim mesma, acontece sempre. Minha cabeça encosta na sua, fazendo o contato entre as partes desentendidas. Quantas horas será que eu vou conseguir dormir, se você vai acordar antes?

Em algum momento me venci, passei, é de manhã finalmente.

Ele gosta tanto de cantar quando é cedo. Canta um pedaço só de cada música, sem perceber, como um afresco que só tivesse cheiro. Coloco sua voz como o meu fone de ouvido, quando você se levanta, debruço na sua fronha da minha casa. Bem cedo te farei um café, toda manhã seu. Eu sou a moça dessa cena, lembra? que todo trecho entende como sendo dela e para ela, porque o homem que canta de ouvido e acaso, canta dentro do clima e por ossatura.

linger on, your pale blue eyes

ter memória é como ter audição, olfato ou tato? quer dizer, por estarem todos no corpo são inseparáveis e por isso um cheiro lembra algo ou o tato se faz gravado? e, assim como envelhecemos e perdemos um e/ou outro, o fado da memória é o apagamento?

algumas culturas vêem no arco-íris duas cores, outras doze.
na escola se aprende quantas cores tem o absurdo:
(são sete)
a noite, a visão, o vigor,
a falha,
o riso e o esquecimento

(http://saidthebird.multiply.com/music/item/276)

13.4.07

acho que a literatura já é uma espécie de mutismo no sentido de que é necessário um outro para ela se fazer. mesmo se for para expulsar esse outro da narrativa, ele está ali, o expulso. se ninguém abre o livro que ele escreveu, o livro não existe. eu penso isso em todas as livrarias que freqüento, com os excessos que encontro nas prateleiras e poucos (ou nenhum) livros seduzem. preciso escrever uma história que se eu encontrasse numa livraria eu gostaria. estou escrevendo uma história que pode demorar anos pra ser feita, como a minha própria vida, pela estrutura que eu tenho planejado. acho que isso me seduz, eu nunca soube manter uma atividade assim por muito tempo e qualquer coisa que me faça acordar todos os dias, como um filho faria, é um planejamento estrutural, vital e um baile no tédio.

---:----
roland barthes: "todo estilo é um segredo".
clarice lispector: "quanto a escrever, mais vale um cachorro vivo".
---:----
vamos caçar razões e astronautas?

lendo humano, demasiado humano: "assim como aumentam as geleiras quando nas regiões equatoriais o sol atinge os mares com mais ardor do que antes, também um livre-pensar muito forte e abrangente pode ser testemunho de que em algum lugar ponto o ardor do sentimento cresceu extraordinariamente".
---:---
como será que o rosto dele vai ficar quando envelhecer mais?
(vinte anos daqui em diante,
sem beijos de despedida dessa vez
seu charme ainda, espero, vai me fazer sofrer
boa viagem que você se exploda dentro de mim
até o fim.)
cassandra diz:
a minha voz também tem muita questão. você chega lá quando?
antônio diz:
comecei a contar essa história pra saber o que não é.
cassandra diz:
sei, daí os papéizinhos voam milhares no chão de cimento que parece granito.
antônio diz:
eu prefiro caixas ao chão, cassy. prefiro nenhum termostato da dor.
cassandra diz:
não deixe barato. vou comprar nívea sun pra gente comer: o barato é que deus me deu.
antônio:
eu parei de comer.
cassandra:
e eu não queria ter fome.

31.3.07

27.3.07

olho para o lado no corredor lembrando de você, se você não vem? vejo um outro que me lembra você, do lado de quem vem, procurando por alguém.
ele está apaixonado. faz dias que eu vejo e sei: aquele homem está apaixonado esperando, procurando com os olhos ela que não chega. todo dia é a mesma coisa: ele, apaixonado, fica inquieto onde não deve, não consegue só se sentar e esperar, ele está consumido, não deve dormir nem comer direito,
está consumido, como todos nós seremosoufomos, os incinerados pelo amor que não chega. ou que chegou e a gente não sabe oquemaisquerer?
isso porque, horas antes,
oprofessordeliteratura dizia com risinhos da tópica ingênua do amor no lixodoromance em questão: "como se a paixão fosse uma doença". eu deveria ter abordado uma questão de indignação? vou levar o moço que acompanho com os olhos a vivência da falta, levarei a mim mesma num tribunal e uma dúzia de amigos justos
mas você, se você chegar e quiser participar da nossa turma te daremos suas cinzas. vão rir de você, gargalharemos dos seus fingimentos, da sua ridícula parecência.
não vem que não tem, meu bem. eu agora não sou mais fatual.

26.3.07


cubodenoite em staring the sun

23.3.07

pro mundo ficar odara



meus dois olhos, esquecidos de mim, nunca se confundiriam.

12.3.07

perdi as aspas do meu teclado

4.3.07

o espetáculo


vejam as asas e os sapatos
que viraram irmãos no delírio
que encantados agora são pássaros de couro ornamental

dos sapatos não se usam meus ossos, e as asas estão sem as plumas, a renda continua sem a chegada do apresentador, um cão escapa de dizermos que não há público e morde a falta de sangue do inferno
e os homens estão na fila dos carros fingindo que são homens dentro de carros

o pássaro de couro ornamental não move uma sílaba
essa gota precária de saliva


(o adorável desenho é da eva, muito mais aqui)

2.3.07

passei as últimas noites procurando novos meios de comunicação. a primeira delas era adicionar escritos poéticos em bulas de enfartados, tendo o redator uma única cartilha: "aqui não se sugere o anti-tabagismo, mesmo porque aqui não se sugere nada".
no cinema godard repete o que no consultório o psicanalista afirma: a comunicação entre-um-e-outro é intransitiva. isso ele diz de dentro do consultório onde não teve o amor que eu tive, de comunicação impermitida. afinal, de que serve uma saudade ou mesmo um número de telefone se ele se encontra irremediavelmente ultrapassado?

26.2.07

- 9 de Dic. de 1961

El miedo a envejecer nace del reconocimiento de que uno no está viviendo la vida que desea. Es equivalente a la sensación de estar usando mal el presente.

do diário de susan sontag, pedaços aqui

20.2.07


it's truly, truly a sin

19.2.07


ela sofreu três fraturas na costela. quando acordei de manhã cedo, sobressaltada com a poeira que subia, tive que lembrar do médico dizendo a minha esposa enquanto a anestesia passava:

quebramos em falso três bisturis para ver se ela acordava
seis vezes escutamos timbres que do coração divergiam
de vez em quando ela agonizava e gemia:
-paris! paris!

ela sofreu três fraturas na costela
mas a senhora me perdoe, também quem não sofre enquanto espera,
'vai ver que nunca mais o amor faz de mim alguém?'

era uma dessas pontas de aço esterilizado que estavam por dentro do meu estômago e me fizeram acordar. a cidade, meu bem, estava pegando fogo. dez mil habitantes resolveram aleatoriamente seguir as prescrições da velinha de amsterdã de como atear fogo em uma metrópole sem perder o sentido. era o acaso minhas costelas estarem quebradas hoje de manhã. quando comecei a discar no celular, parei. pensei em ficar sozinha. pensei. fiquei lembrando da minha última corrida num táxi pensando que quando volto pra casa nunca sei se deixei mesmo o gás desligado. pensei que então era eu, claro, em mim que aquele fogo tinha começado.

17.2.07

há o que se dizer.
:

"onde o meu rápido risco no espaço também se perca, suas cascatas me levando até a água, e finalmente a água infinda e estranha nas mãos em volta de tudo, quando o conhecimento também sofre o seu risco. vou e nunca sei quando volto, será normal, como você que olhará bem fora do tempo, talvez desconfiando de algum lugar, quando ler este nossa companhia que é o texto na ausência, principalmente de algo tão presente quanto instigante que pode ser o desconhecido. você sempre se pergunta onde é que está? ou tem muita certeza ou muita dúvida do que se encontra, ou respira de improviso uma conversa? e o texto, o quanto poderá ele expulsar os nossos nomes, e o quanto poderemos voltar como aqueles cegos principiantes de que você me falava?, na praça a dar pombos com as mãos ao ar, saberá alguma lembrança física, como poderia ser o pensamento? o pensamento é um sentido?"

3.1.07



ao acaso hoje li isso que me impressionou tanto pela compatibilidade do que escrevi aqui dois dias antes:

"Jodoigne, 23 de março de 1977.

Hoje reconheço esse sonho. Foi um sonho que tive durante uma noite do princípio do mês de Março. Um lago- enquanto eu dormia voltada sobre o lado esquerdo-, estava ao meu lado; era imenso, embora limitado pelos contornos de lago, espelhado, parecia querer ver-me calmamente dormir.

hoje, dia 23, acordei susceptível, mutável, dispersa na concentração de ligar várias imagens. Lágrimas, sempre à frente dos olhos. Conheci- porque a vigília do lago me veio à idéia-, esta coisa simples sobre as mortes. Eu já fui, em verdade, lago- sua borda de terra-, o corpo dessas reminiscências está em mim; apodrecer é o meio de voltar à terra, à água do lago, de trazê-los e levá-los consigo. A morte é a noite obscura desta passagem, o único meio de sublimar a pedra cativa.

meu pai era um lago rodeado pelos meandros de minha mãe; se ele tivesse sido a lagoa escura, as montanhas que o cercavam, olhava-as ele de cima para a imagem lacustre de fundo. Fui educada para saber que, quando se olha com profundidade, a profundidade é a superfície."

Maria Gabriela Llansol em Finita.
e essa foto é do Duarte Belo

31.12.06

lendo o "noticiário da realidade" percebo que não há descanso: a cidade está submersa, os escanfandristas afogaram-se petrificados em sentinelas roncando o sono dos mil anos. estou sentada na prateleira, faiscando o silêncio de mim o barulho que vem da rua aumenta. ainda não são os homens jogando as cartilhas fora, nem o som do seu carro chegando para me enternecer. estarei esfumaçada, a delirar? como num consolo, levo minha mão a cabeça, enquanto noto o ombro descolando da parede e as costas voltam a ser minhas. respiro, guardo o ar quando a água encontra meus pés. encolho os tornozelos procurando o ângulo para de dentro do aquário molhar-nos aos poucos, espalhando a água pelo corpo, meu bem, o corpo de fogueira, o rio nos envolvendo, o mar está em toda a parte. a partir de então só correríamos da falta de sertão.

(estamos próximos da virada do ano, o tempo se expande. eliot conta da serragem nas cascas de ostras. acumulando fuligem, salsugem. saudades do marulho quando era só estrondo de mar?)

esfriou com a chuva desses dias, vou pegar o casaco verde que ganhei de natal.
e que surpresa! dentro do armário encontrei-me aquela apodrecendo. da minha boca saem peixes, estou cheia deles, sou os peixes transbordando. resolvo pelo anzol goela abaixo, é muito o esforço, muito. até que da pescaria arranco um imenso tablado de tecido que, bem disposto, encobre a malha fina de asfalto da cidade inteira. "oito milhões deixaram são paulo em direção ao litoral brasileiro, quatro milhões em direção ao interior e dois ao exterior do país." agora de longe se vê a terra extensa onde os urubus passeiam a tarde toda entre os girassóis, uns bois vêem os homens que entram pelos arcos do rose-garden e retiram o pó das rose-leaves.
exausta, no início da noite chego em casa depois de olhar os rebanhos. é verão, me espreguiço na varanda próxima da rede, observando toda a extensão do meu latifúndio, com a atenção de buscar com os olhos o som das mariposas na calha.

30.12.06

retrospectiva

foi a época em que não se tirava mais o mofo do guarda-roupas. estava seco, semi-cerrado. olhava para o areal desse computador ruídoso comendo com as mãos essa farinha sem sal. apareceram médicos com grande aparelhagem para me recomendaram primeiro o sono; tentei o hábito, mas quando a insônia mandou, me propuseram as caminhadas; com as pernas pesando, obrigaram-me a morar para dentro do armário. ficava olhando a pesada porta da frente, azul e aristocrática, que de madrugada tomava um aspecto imenso crescendo dentro das minhas pálpebras apertadas. os anos, os meses foram atravessando o peso moldando minhas costas de caixa. estávamos a sós e não sabiamos, eu, a terra deglutida e os ombros de pedra, mas como não havia nada que se agarrasse em nós, se saissemos do cubo, arderiamos debaixo da cama da outra. ou viajando num banco de ônibus dos passageiros duvidariamos: há coisas do mundo que não são eu?

(muita coisa aconteceu sem pausa)

descobriram no quênia novas constelações nunca avistadas, que começaram a ser nomeadas. conheci, assim, os nomes de dois amores. foram dados os nomes. foram estudados os nomes. foram alardeadas as faltas de nomes. há e não há.

os meses foram entrando, os dias um a um sempre tão diferentes, como se cada fosse todo. a tranqüilidade começou a gostar dos dias. primeiro noto os contornos das minhas mãos se separando da madeira, a direita toca a superfície da maçaneta azul e noto as palavras voltando. os nomes se recriam em sentido e rima. esse som vem de lá até mim? da onde vem? começo a me perguntar: será chuva que ouço vir de mim? gota gota, como se de água o peixe se alimentasse, enquanto aos homens se devolve o ar. com meu traço de fidelidade à raça dos rituais jogo-me ao fogo

(estamos próximos da virada do ano, o tempo se contraí. penso na morte, não haverá tempo, tempo haverá? onde estão as peças do mundo em pedaços de desconhecido?) .

22.12.06

me segura que eu vou dar um _(no data)_



waly salomão, que deus o tenha.
acordo, durmo, fico. é assim desde que eu decidi que se faz de mim o corpo. nunca mais esquecê-lo, o efusivo e confortável que me pede: o que fazer com o movimento?

21.12.06

"Sobre o delegado do condado- pois nesta história só vou falar dele de passagem- basta dizer que era grande romancista. Trabalhava havia meio ano num grande romance sobre a sociedade que era, com certeza, muito interessante, embora ninguém pudesse lê-lo, pois durante a redação o delegado tinha um hábito bem pouco prático: escrevia o romance inteiro num único pedaço de papel. Ao começar, preenchera toda a página. Depois, em vez de prosseguir em outra folha, tornou a escrever do alto da página cheia. Em seguida, ao chegar ao fim do papel, continuou uma vez mais, imperturbável, na parte de cima. Quando me mostrou o romance, ele o escrevia havia seis meses. Se levarmos em conta que escrevia de seis a oito páginas por dia- sempre e apenas na mesma folha-, o romance devia ser verdadeiramente longo. No papel, não havia mais sombra de escrita. Transformara-se simplesmente num papel preto, como se o tivessem pintado. Apesar disso, o delegado seguia escrevendo, feliz e sereno, todos os dias. Esse manuscrito não é invenção, mas um fenômeno na história da patologia. Anos atrás, quando contava essa história em público, eu às vezes acrescentava observações engraçadas, como por exemplo: "Seria interessante recomendar essa técnica a muitos escritores". Mas desde então descobri que o fato em si tinha muito mais beleza sem comentários desse tipo. Seja como for, não há mal em tê-lo relatado, pois é indissociável do cenário de onde o poste de vapor se pôs a caminho."

em O poste de Vapor, de Ferenc Molnár.

10.12.06



Mas eu espalharia macadâmias nessa lembrança em pontas de navalhas
fincadas nas tábuas da sua mesa, como se no seu pulso em laços amarrasse, os fios do meu cabelo, os restos no seu rosto,
e o meu pulso, tão sem receio, silenciasse.

9.12.06

A morte
Para Yvan Goll
A morte é uma flor que só abre uma vez.
Mas quando abre, nada se abre com ela.
Abre sempre que quer, e fora da estação.

E vem, grande mariposa, adornando caules ondulantes.
Deixa-me ser o caule forte da sua alegria.

::
Retrato de uma sombra

Os teus olhos, rasto de luz dos meus passos;
a tua testa, lavrada pelo brilho dos punhais;
as tuas sobrancelhas, orla do caminho da tragédia;
as tuas pestanas, mensageiros de longas cartas;
os teus cabelos, corvos, corvos, corvos;
as tuas faces, campo de armas da madrugada;
os teus lábios, hóspedes tardios;
os teus ombros, estátua do esquecimento;
os teus seios, amigos das minhas serpentes;
os teus braços, álamos à porta do castelo;
as tuas mãos, tábuas de juras mortas;
as tuas ancas, pão e esperança;
o teu sexo, lei do fogo na floresta;
as tuas coxas, asas no abismo;
os teus joelhos, máscaras da tua altivez;
os teus pés, campo de batalha dos pensamentos;
as tuas solas, criptas em chamas;
as tuas pegadas, olho da nossa despedida.

::
os dois do Paul Celan, traduzidos pelo João Barrento, em A morte é uma flor.
vivi uma vida qualquer. para alguns, fui sem ir. para a maioria, passei numa ausência. você sabe, também, que se lembram pouco de quem não sabe cozinhar. mas do lado de cá, aprendi novas estruturas que tornam qualquer pato ao curry uma bobagem sem limites para a curiosidade ou o gosto.
por exemplo, pela intolerância que o homem tem com o que voa, nos filmes nos fazem ver de cima quando a vida acaba. eu gostava muito de cinema, ainda mais os que começavam logo pela morte de alguém, aquele gramadão imenso, mulheres de negro com guarda-chuvas e véus. mas o sentido correto é que vemos de baixo: não quero entrar em detalhes, mas do lado de cá: tudo é transparente: a terra, a água, as cinzas.
tudo é penetrável e novo.
minha mulher cobriu o caixão com a bandeira, cheia de medo das vizinhas notarem que ela a usava, desde os anos da minha impotência, como o pano de prato com o qual enxugava as canecas mais finas. é a louca pela louçaria!
::
a tal da fita-amarela, gravada com o nome dela, não levei. não houve muita prudência no gesto da despedida.

27.11.06



júlia_ e o antenor diz:
eu era só uma criança que estava na primeira série.
tinha horta na primeira série, né
Personal Display Dylan Name Account Options Automatically! diz:
antenor mesmo ou você inventou o nome pra preservar a identidade?
júlia_e o antenor diz:
você vai saber, oraaaas
júlia_e o antenor diz:
um dia ensolarado na horta, um menino chamado luis felipe que era um porquinho que beijava de língua uma menina feiosa nas aulas de educação física, encontrou um caracol grandão andando por dentro da terra, comendo uma alface que crescia. as crianças todas, com a iniciativa da professora, arranjaram um aquário do laboratório de biologia, que virou um terrário para o caracol e a sala toda ficou responsável por alimentar o grandessissemo caracol
júlia_e o antenor diz:
e o caracol não tinha nome. as crianças fizeram uma votação e o nome escolhido foi o que a criança aqui tinha sugerido: antenor
júlia_e o antenor diz:
daí chegaram as frias férias de julho. ouve outro plebiscito, afinal, havia a dúvida : 'como cuidariam do antenor nas férias?'
júlia_e o antenor diz:
e votou-se! o antenor deveria voltar para a horta ou ser dado a alguém? vencendo a segunda alternativa, elegeram a mim!
júlia_e o antenor diz:
a mim novamente com essa incumbencia com o caracol. logo se viam que eu iria longe na vida.
júlia_e o antenor diz:
eu e meu caracol longe na vida.
Personal Display Dylan Name Account Options Automatically! diz:
forever
júlia_e o antenor diz:
daí eu cheguei no carro do meu pai, um voyage azul-metálico, com o antenor e o terrário. ele gostou. o antenor também simpatizou-se.
júlia_e o antenor diz:
assim foi que antenor e eu dividimos o mesmo quarto durante uns três anos.
júlia_e o antenor diz:
eu as vezes deixava a tampa aberta, para ele poder escapar. e ele deixava aquela gosma toda sobre os móveis. eu tinha uma escrivaninha rosa, imagine.
júlia_e o antenor diz:
mas eu não lembro que fim levou antenor.
júlia_e o antenor diz:
se eu devolvi ele as largas terras de um jardim
júlia_e o antenor diz:
ou se ele morreu mesmo
Personal Display Dylan Name Account Options Automatically! diz:
foi amor, sem dúvida
júlia_e o antenor diz:
é. e não é sempre?

25.11.06

sobre a ausência

os avisos
i am the conscience clear
in pain or ecstacy
and we were all weaned my dear
upon the same fatigue
staring at the sun, tv on the radio

-cuidado que seu quepe! assim, vai ao chão!
mais uma vez eu ouvia aquele absurdo vindo de um qualquer na rua. não se tratava de um quepe, era meu chapéu de proteção contra detritos, coagulações de espécies várias que vindas do céu podem me atingir.
mais um início de noite chegando. eu costumava acender a pequena lanternola de pouco mais de vinte watts que ficava por cima num mecanismo todo do encarnado, mas que, nesse momento, falhava. entrei no primeiro lugar de serviços que me apareceu a frente
uma mulher jovem vestida de rosa cobria metade do rosto com o antebraço, debruçada no balcão. ao me ver entrar, não trocou as feições. não perguntando o que eu queria, não antevi nenhuma forma de aproximação: fiquei olhando para os lados quase ao chão, notando num gesto com a cabeça que algo sempre faltava nas estantes. assim composto, pouco a pouco, consegui chegar até perto da moça. e falei.
ela não me ouviu. quando percebeu que eu estava falando com ela, desligou o pequeno ventilador azul que estava perto das caixas de costura no canto e fez um

que é?

com a cabeça acompanhado a mascada de chicletes. caçoei de mim mesmo, rasguei a garganta e falei:
-procuro por pilhas, minha senhora, das do tipo AA.
-"margareth!"-ela berrou lá dentro-"a moça aqui quer pilhas"- de mim.

lembrei da tarde em que cheguei na escola para as aulas e a minha mesa da sala havia sido retirada, para onde não sei. eu costumo mesmo é ficar de pé, mas era dia de prova. desfiz que fiz comigo então que eu não faria. não dei, não fiz, saí, atulhada em direção à diretoria, ao seus juízos de acaso. a diretora me perguntava, "não deu e saiu assim da sala? deixou-os sozinhos? o que será que eles estão..."

a margarete veio saindo de dentro das paredes, de trás do tapume onde fica a placa

entrada exclusiva de funcionário,

sem plural. lá dentro deveriam estar as caixas das coisas que ainda não estão aqui fora. a margarete trazia algo pela mão direita. com a outra, subiu os óculos do nariz para a testa e, finalmente, aos olhos:
-6,56, moça.
dei o dinheiro a mulher, fedendo ao maço de cigarros. meu deus! o que a margarete iria pensar de mim? ainda bem, ela me deu o troco, como se fosse um passe bem.
quando voltei a rua já era noite. acertei o mecanismo, e, com o tranco de romper a embalagem das pilhas, pronto! a lâmpada voltou a funcionar com as velhas mesmo,
sozinha.

tudo o que não importa está ausente.

12.11.06

desde que o samba é samba é assim

Uma vez, lendo meus olhos em praça pública, uma mulher disse que isso me aconteceria muitas vezes na vida. De repente acordar e pensar que a vida toda deveria estar sendo outra. E lembrar que, desde aquela noite, nunca mais me levantei

3.11.06

também tem que o céu está surdo.
paint it black!..

ainda

todo espaço
não foi construído.

19.10.06

era dia da faxina. do quadro de avisos tirei tanto pó que
tive que tombar o balde ao chão. e como ainda era cedo, meus olhos não sabiam discernir de tão cerrados, e agora apertados nesse juramento de que tive culpa, mas

as ostras estavam sujas,

e ainda agora me parece que foi melhor assim, já que de todas sairiam pérolas barrocas, dores abdominais depois da conquista de abri-las deixando as mãos dilaceradas no corte pela casca
como a velha gravura japonesa da mulher-ostra, que resolve se abrir aos flancos, fluida mulher que te escapa mas não a mim, que tombei o balde ao chão, para vê-las melhor, espalhando no corpo o próprio corpo espalhado que, mais limpo que a casa, saiu a correr pela cidade sem notar,

abandonando a velha casa como alguém que
derrubando o fio de água se espalha por tudo, vai criando uma corrente sem espaço. estou na rua, pensando uma cidade que era como londres, ou qualquer uma dessas cidades que ainda conservam um calçamento de pedra e musgo que o rio não vê ao lado, tornado da

água do balde alcança os meus calcanhares

na rua. porque agora o rio tomou conta de tudo que eu posso sorrir, dos paralelepípedos até as muretas dos omoplatas sorrimos, os relógios em cima dos postes estão cobertos da água, os olhos sujos que nos olham das torres começam a ser alcançados por ela
não corro, não ando, nem nado, fico estática, afinal
você está afogado, os postes já não querem mais serem vistos, os cachorros já foram esquecidos, debaixo dágua não sabemos se são horas de dormir, sorrir, dançar ou morrer. estaremos atônitos, até que uma faísca ou o silêncio nos consuma,

até a dicção.


::
(não é surrealismo não enchiam o coliseu de água?)

7.10.06

sabe, meu bem, eu não quero enlouquecer again

você precisa, você precisa
(please stay,...)
não sei, leia na minha camisa
o Escalércio era maquinista e sempre implicava com os cafés que eu tomava, uns óculos escuros enormes, e uma camiseta listada com mangas: "usaria mangas na bolívia também?", dizia ele, que não entedia o nosso amor. bem, fiquei muito impactada quando soube do primo dele que tinha trabalhado no último reality show da televisão americana. descobriram que ele era brasileiro e não cubano, não sei que fim deu,

fiz menção ao letreiro delicatessen como sugestão de um estado de espírito que não há mais. queria a piada, meus olhos. estava sozinha, podia se ver pela aflição que a casaca do garçom alfinetava no meu braço. eu não queria que ele soubesse

que eu era uma daquelas pessoas que dão a tudo o nome de amor. chora-se sem valia.
no pátio interno o menino jogava o pião que eu era no cimento, gira
gira

4.10.06

a primavera.!

1.10.06

Queria traçar uma vida que fosse minha
___não só, nem acompanhada____,
mas provando os frutos do mundo solar de que a minha ansiedade já era semente.

(maria gabriela llansol, onde vais, drama poesia?)

26.9.06

aguardente ou a pequena fábula sem moral


para o alfredo
é difícil ter dois olhos quando se é insatisfeito

Havia um pântano de anemônas furta-cor, liláses e pretas. Uma antiga lenda da região contava que se drenassem a água, lá debaixo apareceria um gramado renovado, com pastagem cor de turmalina,
contra a agitação dos pulmões
mas para os antigos era impossível drená-lo, porque ainda não havia Tecnologia. ela apareceu ontem! e foi aí que nasceu grosserfuss, que depois de crescido e já alemão, tornou-se um naturalista, o renomado dr.Grosserfuss, que empreitou-se todo na vida e
com suas largas passadas, chegou ao condado de noite, trazendo sua noiva na mão e entoando:
"Meu bem,
o pântano era um lodo escuro,
o céu era um céu escuro,
escuro escuro". Cantando assim, envergonhava o medo, que se afastava criando, no buraco da coragem sem ato, saudades do que ele não sabia bem. Talvez não notasse que era porque perdia a mulher futura na figura da jovem que se assustava com o lodo.
Instalaram os canos, fizeram pontes de concreto e uma alta sinerurgia permitia a trituração dos detritos. Mas a noiva dormia mal, o estalar das tubulações pra ela não era ninféia, ranço, pasto era "um entupimento? noturno", pensava insone olhando para o homem que roncava.
Assim se foi, dia a dia o homem mandava drenar a água, noite a noite ela não dormia. Se ouvia de longe um eco de um novembro tardio, assustado na possibilidade de verão, que verão viria. Foi quando começou a chover e a empreitada toda teve que parar. Choveu tanto que a obra retrocedeu e com o concreto das bordas, o pântano encheu-se de chuva como torneira num tanque. Vieram os peixes, os operários foram dispensados. Até que parou de chover, amanheceu e, dando pra ver a água, a turmalina estava através dela,
dê de amar, aos amantes.
Foi aí que a noiva falou:

gross, não chove mais, mas eu tenho uma curva. o mundo se constrói como uma pipa, um catavento, quando venta demais... da última vez que escrevi para minha mãe torci um olho, agora meio cega me empurra para as cercas escuras da desconstrução, vamos embora, gross,
me dê a mão.

25.9.06

feliz ano-novo!

20.9.06

bildung

Imaginem que eu sou uma velha. Não deve ser difícil, mas faça com precisão: você que tantas vezes se deixa atordoar pelos passados, para nossa empreitada esqueça-os: os velhos deliram menos que nós ou já se acostumaram ao surto.

Antes de ser velha eu tinha uma salvação sonora recorrente: a pela palavra: abismo. Nessa época eu imaginava que como o futuro gostava de mim, ia guardando num baú as especiarias que me destinava, e se não tinha acontecido, era uma questão de ainda não ter saído do fundo da caixinha. Mas fui envelhecendo, comecei a perceber o pó atrás dos móveis, a geografia física das cidades por baixo do que há foi me atrapalhando, já que tudo o que está é uma superfíce construída como uma película em cima da terra, uma capa zás-tras, que se a arrancarmos junto com as tubulações de água suja, teremos um campo desértico, em que oliveiras e esquilos um dia se levantarão para depois fenecer? ora, deixo de bobagem, uma cidade arrancada produziria muitos destroços, palavra que os velhos de ouvidos limpos não podem ouvir. Sou velha, sei que a natureza é cruel e a doença uma lógica da pior espécie. Não posso adoecer e por isso não estanco. Por exemplo, aos domingos, esse dia do qual gostamos tanto, rego as hortênsias do meu vizinho, o seu Atílio, para quem presto favores desse tipo há anos.
Depois que parei de querer o que eu não queria, veio a maturidade que me trouxe o desatino, o ceticismo e toda espécie de cobranças em códigos de barra. Já na velhice me encontrei num desacerto cotidiano, como um tictac que não te deixa dormir, estava certa agora: de que eu iria morrer. Era necessário tomar medidas drásticas. Joguei fora a balança, liguei para o corpo de bombeiros e terminei meu affair de anos com o chefe da estação, ele chorou mas eu não me arrependi. Só me viam na vida dele, mas ninguém o via na minha vida. Comecei a escrever para não me preservar mais do sofrimento, para causar a linguagem máculas sem arrependimento. Voltei a usar sapatos de salto, menos pela elegância do compromisso social, mais pela capacidade daqueles calçados de me re-estabelecerem o tônus nas pernas. Meus netos gostaram, me disseram que eu "continuo em continuidade", ou algo do tipo "forte", mas minhas filhas pensaram que era só um modo meu de tentar não ser viúva. Eu só amarrei a boca e continuei usando minhas pernas torneadas. Mas como era só um simulacro de força, cai do scarpin preto que ganhei de natal. E agora fico pensando como eram bons aqueles tempos em que o rádio era só esse aparelho que presentearam à minha cabeceira desde que quebrei o fêmur, e fico aqui deitada, sem poder regar as hortênsias do seu Atílio.

::
"O coração já não pode mais. Entre os bichos e as plantas, acontece-lhe dizer: Que fertilidade!- e a vida corrompe-se nos próprios fundamentos. Sente-se como um apóstolo sem fé. Desejaria morrer, arder no fogo apocalíptico das cidades. Ou ser devorado pela inteligência, estiolar de excessiva lucidez no meio da loucura campestre. Tradição, compreende uma: ama-a. Perdeu o nome, essa sabedoria. Beleza, é pouco. Verdade, é muito. Trata-se de um termo sutil que participa de uma e outra, que se tornou inútil, insensato."
Herberto Helder, em "Holanda", d' Os passos em volta.

16.9.06


ainda estava escuro, mas "talvez a manhã esteja começando", pensei ao descer daquele ônibus em "mais uma cidade histórica". chovia fino e eu tinha dúvidas, quanto ao século e a segurança da borracha do meu sapato, mas fui descendo a ladeira lenta, com a mala e a sacola que cada gente carrega na vida. dentro da mala de couro estava o que me falta, forrada e trancada mala de couro! naquele momento eu ainda não sabia, que havia esquecido a chave na última cidade em que me hospedara.
também, quem me visse de longe haveria de sentir aflição com a minha angústia, já que eu, tomando cuidado para não escorregar com a sola velha, toda vez que a sacola escorregava do meu ombro eu pensava em largá-la, "afinal? quem precisa dela?". mas alguém em algum lugar precisaria de alguma coisa que tinha lá dentro um dia, era o que eu pensava olhando para toda a frustração, através da boca frouxa de tanto que eu a abria. "para a desordem vou ter que comprar uma necessaire" e sorri de ironia, já sem fôlego. (dizê-los 'séculos' estão velhos também?)
vi uma porta de aço se levantando, da onde saiu um cheiro de pão quase pronto, e resolvi encostar minhas coisas, meu corpo no balcão e pedi:
-um café carioca e um estrondo, por favor?
a mulher quis saber da onde eu vinha, para onde eu estava, e mal tentei, começou a falar da tradicional festa da emancipação dos escravos que iria acontecer dali um ou dois dias. pois um homem entrou no salão e ela parou de falar. foi quando a mulher me deu a xícara com o café fervendo, encostando o dedinho de passagem no meu indicador e eu surpreendi um arrepio nas minhas costas, me comovendo com essa faculdade que retornava.
::
hurt

13.9.06

leiam o que caetano escreveu para nós. eu que era um homem rude virei toda atenção e, não sabendo como dizer exatamente que o texto dele me: _____, escrita com a vantagem da liberdade, só quero mesmo é aqui postar:

para júlia
partindo desses momentos de hoje, eu me lembro, ao viés, daqueles dias em que comecei a entender que meu corpo disputaria comigo os movimentos da velocidade, para me trazer, eu que olhava bobo e de lábio mole admirando os fubás, uns sinais mais íntimos de que o desempenho dos trajetos também seria terra e vermelho adentro na perna, ou uma parede mais dura quando todo o ritmo de ar diria nuvens, poeira, ou amarelo. a paisagem em que esse pequeno salamaleque se envolvia em cheiros e ramos se misturava com as boas feições de minha avó, que na época, ainda longe de atingir um canto de plantas molhadas, melodias e balanço, se decidia com os sorrisos doces e leves a guardar só com o amor, por um tempo cedido, os netos no sítio. nessa época, além de minha figura, também estava minha prima, um início de j, a seduzir a realidade com aquele ar irônico que a fez criar mais tarde, só para si, um quarto escuro de palavras, todo tecidos e luzes. em boa parte desse tempo nossa avó, apropriada a mim e à pequena saltimbanca, ia desviando os cantos óbvios das horas para envolver-nos quase numa atmosfera única da qual os outros enventuais parentes, vultos de conjunções e interjeições cinzas, não poderiam tomar parte. o poema começava a descer das árvores, e seria mesmo ela ou a gente, vagabundinhos, a dar a medida rodopiante de um conhecimento crescente e outro dos corpos, nossos próprios e pequenos corpos sendo de vidro, folha e areia? nem não interessa assuntar muito nisso; o certo é que foi naquele tempo que principiei a escrever com gotas de chuva, papel e palavra só aprenderia a usar muito depois, a mesma época em que minha prima já recitava os poemas de suas melhores invenções: me vêem nítidas agora as imagens de uma dobra variando cor em sua calça, os pássaros verdes que ela matava e fazia reviver com um franzido na testa, o sol parado entre a concha de suas mãos, e o pulo grande que atirava sua esperteza no corrente da água. lembro também que sentia muito medo à noite, pois me ______todo, o amarelo e o quente, não entendia mesmo como o fluxo ainda numa hora já tão séria em que nos despedíamos do mundo sob as ordens carinhosas de avó. ah, e acho que foi depois de um dia, em que a malandrinha me surpreendeu tentando caminhos secos entre os lençóis, que compreendi a exata importância de ocupar o espaço, de caminhar pelo corpo dentro de um tempo tão fictício. a disputa necessária entre eu e aquele outro que há em mim pôde então derramar traços e letras, essa minha prima sabia mesmo das coisas, e o poema adquiriu a fúria e a leveza do peixe fosforecente. ela sabia dos rios, como muito tempo depois, através mesmo do esquecimento que se interpusera entre nós, eu a voltei a ouvir dizer, no acaso da aparição do amor entre uns amores muito meus. agora sei porque, ao ver meu desespero naquela noite, ela deitou-me a paz de não temer, ela que, sempre ao voltar para casa, retornando de nossas férias, ia uma em direção as alturas dando a mão aos pais e outra, terrosa, vermelha, ardente, em direção ao nosso reino, deixando cair pelo caminho as sementinhas dos vários romãs donde ela retirava a tinta de sua proeza, a coleção mais doce dessa infância que volta a atravessar.
,
eu estava escrevendo e era um homem, isso te acontece? de virar homem e querer a proximidade de tudo? sem ter a noção de que mandar é não perceber, entrar na cafeteria e pedir um oswald de andrade à la carte, e comê-lo com um caráter de transfusão: sou o mais macho desse condado e não vou mais falar do nosso, exato, a que você disse não.
nos seus sonhos uma borboleta azul -por que não veio preta?- vestida de menina-de-renda trança um pirulito vermelho de condão e diz que me diz: maria-sem-vergonha vai esquecer e fazer do cio de um gato um gemido de comoção.

10.9.06


levantei logo cedo batendo a cabeça no beliche. É apertado, eu conheço, mas dormindo bem, esqueci que estava fora de casa. Nem ficou muito marcado e passar uns dias no campo tem mesmo dessas implicações.
Minha avó dorme sozinha no quarto ao lado, desde viúva. Parece que uma noite um primo meu sentiu tanto medo que quase chegou ao ponto de ____ nas calças, em toda a cama, e foi assim que ele conseguiu o consentimento da minha avó, de dormir no quarto maior, com ela.
Mas isso faz muito tempo e ninguém mais além dela usa a cama maior. Hoje já era meio-dia já, quando me levantei e, veja só, a sombra da painera já tinha atingido a mesa branca, onde me fizeram tomar o chá da tarde: aqui, com eles, desde sempre é assim, tanto se controlam as noitadas, como se antecipam as refeições, porque amanhã sempre pode faltar; precaução não, não, essa eu ia dizer que não falta nunca, mas
é um fenômeno a força que as coisas têm quando elas precisam. é raro que o silêncio dessa gente se arrebente até o avesso, mas acontece. uma vez, um cunhado meu perdeu um lábio mordido por dentro, "pelo menos lhe sobrou a testa," dizia o meu pai.
Assim como minha irmã, minha tia costumava ficar ausente, mas na segunda torrada com cebola, tinha acabado o chá de camomila e o não-formulado veio acetinando a garganta dela e ela, já com a falta de alívio que nos causa uma idéia cansada, falou com o indicador levantado:
-não somos nenhum hospício, está certo. sua avó não deixa ninguém se encostar. ela é o termômetro, o termostato, senão ela não é.
eu abaixei das garras do pássaro em vôo rasante, fingindo que terra sobrava do canteiro da horta e que eu a removia. uma excitação me conteve, eu olhei para os meus sapatos novos e pensei: então eu estava certa? era a minha tia, era ela, sem dúvida era ela, que teria ateado fogo aos lockers de amsterdã?

6.9.06



aha! soy yo,
o
para quem pergunta, júlia está isso
morosidade, rocha em expansão,
tudo em progress e logo o logo mais leve

2.9.06

Bem Querer

Quando o meu bem-querer me virEstou certa que há de vir atrásHá de me seguir por todosTodos, todos, todos o umbraisE quando o seu bem-querer mentirQue não vai haver adeus jamaisHá de responder com jurasJuras, juras, juras imoraisE quando o meu bem-querer sentirQue o amor é coisa tão fugazHá de me abraçar com a garraA garra, a garra, a garra dos mortaisE quando o seu bem-querer pedirPra você ficar um pouco maisHá que me afagar com a calmaA calma, a calma, a calma dos casaisE quando o meu bem-querer ouvirO meu coração bater demaisHá de me rasgar com a fúriaA fúria, a fúria, a fúria dos animaisE quando o seu bem-querer dormirTome conta que ele sonhe em pazComo alguém que lhe apagasse a luzVedasse a porta e abrisse o gás

chico buarque com maria bethânia, ao vivo

1.9.06


I'll wait for you until the streets become sand
And all the cellings in new york have come down
I'll wait for you until the stars dominate the skies again

28.8.06

a cartilha da iniciação ou i'm fixing a hole

Você me diz: num romance sussurraria em meio a um café atribulado zonzeiras dos carros:
"Estou apaixonada pelo meu professor de esgrima e ele usa as mesmas calças brancas colantes na rua. " ou "Estou apaixonada pelo meu professor de esgrima porque ele usa as mesmas calças brancas colantes na rua, em casa, no supermercado". Faz diferença no seu uso. Quem cria o muro e dá de comer a ele com as duas mãos, acaba por comer concreto.
Quem esconde? Quem cria o muro não chegou ao gosto do zero absoluto, onde repousam as coisas sem agressão. E não vê nuvens nem a ingratidão fingida de um telefonema noturno. Nem sabe só comprar com os olhos uma roupa, um esboço, uma pessoa, o amor, uma bússola: é desaprender a ter.
Como soltar?
Bem,
é preciso, inicialmente, pontilhar um retângulo na massa em branco, delimitando-o além do gesto. Uma vez marcado, com um martelete vá quebrando todo o trechinho, retirando com precisão o que esfarelar, até romper todo o pedaço escolhido. Feito o vão, não olhe mais para ele. Chegue mais perto do muro até encostar nele seu corpo, o lado de fora do ombro, do braço, da bacia. No vazio do buraco que você criou você encosta seu ouvido e ali está. No som que você ouve, é ele, o zero absoluto, na mesma medida que o silêncio, o silêncio sem comoção estratégica.



Podem falar um pouco sobre suas influências históricas? Bem, nós escrevemos em três línguas diferentes – inglês, coreano e francês. (Colaboramos com outros quando se trata de outras línguas.) Cada uma tem toda uma bagagem de história e cultura. A língua é a essência da internet, o verdadeiro portal para a utilização da web. Escrever, ler e conversar em inglês na internet é justificar implicitamente uma certa história. Alguns governos não mais proíbem ou queimam livros, eles impedem o acesso à web, o que significa que justificam uma história diferente da nossa, que utilizamos o inglês. Por isso, a opção de língua é provavelmente a maior influência histórica em nosso trabalho. E as influências literárias ou artísticas específicas, como aparecem em suas obras? Bem, DAKOTA, por exemplo, é baseada numa leitura minuciosa dos “Cantos I”, e parte dos II, de Ezra Pound. É claro que não é preciso conhecer essa obra para apreciar a peça. Outras influências culturais em nosso trabalho são Marcel Duchamp, que um dia decidiu parar de pintar dizendo que estava cansado de sujar as mãos; Roy Lichtenstein, que encontrou um vocabulário artístico simples e o preservou; e Andy Warhol, que, mais que o governo chinês, conseguiu com seus retratos de Mao dar uma certa face à China. Vocês podem ajudar os leitores a “situar” seu trabalho em termos de tom? E o “visual” de seu trabalho? É bastante óbvio que o “tom” ou a “voz” da literatura na internet é mais distante e difícil de “situar” do que a escrita tradicional. A simples embalagem de um livro fala muito sobre o livro e o autor; a embalagem do browser é genérica. Os autores da internet podem ver isso como um problema, ou considerar um alívio da moda crítica de ver biografia em qualquer aspecto da literatura. Quanto ao visual de nosso trabalho, fazemos o que podemos. Nunca nos interessamos por design gráfico (muitos artistas da web – e mesmo escritores – começam como artistas gráficos). Existem centenas de fontes, milhões de cores, e não sabemos o que fazer com elas. Assim, para responder à sua pergunta, não, não podemos e não vamos ajudar os leitores a nos “situar”. Distância, desterro, anonimato e insignificância fazem parte da voz literária na internet, e nós apreciamos isso.

(Y0UNG-HAE CHANG HEAVY INDUSTRIES PRESENTS)

25.8.06

Nunca conheci um poeta em pessoa, os que na rua vi, reclamando para si o relento, só pensam no amor, na dor e nessa espécie de rito. Punhais nas orelhas, fígados cerrados aos trincos e camisolas ao luar, secando num varal, de linhas de nylon ou arame farpado, são os véus intermináveis dos homens, que encobrem aos olhos as bolhas.

As bolhas misturam líquido com ar, sopradas por cornetas de anjos altos, e magros anjos que olham por essa gente cem anos. E estão cegos.
A claridade, o espirro, o abismo
uma cidade áspera.

24.8.06

Se há muito o que inventar por estes lados
O que sei com certeza são meus fados
Exigindo verdades e punindo
Os líricos enganos da beleza.

À procura da rosa tenho andado
Causando às criaturas estranheza.
(Se me encontrares
Terei um jeito de flor
E um não sei quê de brisa
Nos meus ares.
Hei de buscar a rosa
-A dos altares-
E sinto graça nos pés
Leveza nos andares)

Não temes
As deidades atentas da memória
Os gnomos secretos, a loucura,
A morte?


Hilda Hilst

o estio

já preferi o que não tive, mas jamais amei o perdido.
as aulas da história do H maiúsculo me envolviam, causavam uma emoção, que era uma espécie de enebriamento com a impressão de sentir uma força do tempo, como se o transcorrer das coisas fosse uma lança-atirada sempre adiante, sem repouso nem destino. a essa força empenhada, alguns chamam acaso outros deus outros estão a olhar os coquinhos que rolam até a areia, não me importa. mas o caso é mais preciso, que o que empolga, são os núcleos desse narrar, os pontos envolventes: se a história se conta a partir desse banco, os 'fatos históricos', são aqueles que substituiram um estado de coisas por outro, causando no tempo, e nos bons ouvintes, a impressão que ele pode ser de mais coragem do que tédio. quero dizer,

é como pedir, olhando para uma pêra: é o início do século, beibe, você poderia se casar comigo pra gente criar uma mutação bem-louca?
capisco?

::
coração,
já que você pergunta, nesses últimos dias, li o deleuze falando que o escritor é alguém que teve o ouvido ferido por ouvir demais. li a ana c., escrevendo para uma amiga que ela chamava de 'coração', que aprendeu a não compartilhar as neuroses. entendo os dois, eles não se excluem, mas me dá vontade de colocá-los em oposição, num ringue, com três espectadores: sócrates, que dessa vez nasceu mudo; hipócrates esperimentando mescalina; e, por fim, o cartola. por fim, li o herberto helder dizer que 'eu sou um monstro, eu sou a noite, eu sou o que você chamou'. vamos até o fim, non?
sua,
j.

11.8.06

esta noche me emborracho

se não fosse tão cedo eu entraria em discussões mais do modo de existirmos a que será que se destina? mas não sei pensar também, nesses momentos de variação eu me transformo, eu me enlouqueço, eu aguardo, meu nome do meio é ansiedade. vou subir 1/2 serra. i wish that i knew what i know now when i was younger. a pompéia que nos aguarde. e, agora, entrando no modo de hibernação: 1, 2, ah, nossos planos são muito bons.

7.8.06

saber se inventar


não se afobe, não
que nada é pra já
o amor não tem pressa
ele pode esperar em silêncio
num fundo de armário
na posta-restante
milênios, milênios
no ar
e quem sabe, então
o rio será
alguma cidade submersa
os escafandristas virão
explorar sua casa
seu quarto, suas coisas
sua alma, desvãos

sábios em vão
tentarão decifrar
o eco de antigas palavras
fragmentos de cartas, poemas
mentiras, retratos
vestígios de estranha civilização
não se afobe, não
que nada é pra já
amores serão sempre amáveis
futuros amantes, quiçá
se amarão sem saber
com o amor que eu um dia
deixei pra você

(chico buarque, futuros amantes)

5.8.06

quiçá segunda, porventura não

all things are of the same value, because
we are millionaires and all of them things have died.
all landscapes are useless when you look only inward.
you crumple my face behind the library, on the white glass-tiled wall, I [so] enclose myself in your body till we became plastic, a patterned shower curtain that one looks and fails to retain focus, my fingers, my drawings, my friends, we are all little white sheep shorn in the middle of the night and we'll die in the cold.
I get out of bed, take the breakfast that my mother prepares in my mouth, from the outside to the inside, from the inside to the outside; hurricane in my stomach, baby. I go down, then round the corner, "are you my illegitimate friend?", I think, as I look at the crystal shop. The saleswoman comes out overtrowing the balcony, takes me by hand and says: 'how different you are', and I answer with the stars and lacan, and I ask ' did you know that the more dry the weather becomes, more the ipê flowers blossom?', she drags her neck in a negative that leads her head in the ground. I think it must be despair, hers or the ipe's, that the things are like this. the things, not I, despite something.
I ask the attendant of the butcher's shop for "a newspaper, please, that is not humid, yesterday's or yesterday yesterday's" he gives me the our things are our things from 2008 and I'll arrive at the beach, seat down in a crystalline sand floor oposed to the brute sea-flakes. the breeze roars, inflaming my face, and I cross the street again, forget about the desert, look the mountains ahead, and at the top of the pasture is seen more than a shrub, an ox mooing that the humidity crumbles mussels.

(tradução gratuitamente elaborada pela maison michê, pelo próprio o fórum da américa-assessoria de imprensa- num momento de generosidade pelo qual estaremos eternamente enlevados. como diria millôr fernandes.)

4.8.06

explicação

(para o márcio e para o eduardo)

O tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Mais do que fiel, oh, tão presa! Esses mosquitos que não
largam! Minhas saudades ensurdecidas por cigarras! O que faço
aqui no campo declamando aos metros versos longos e sentidos?
Ah que estou sentida e portuguesa, e agora não sou mais, veja
não sou mais severa e ríspida: agora sou profissional.

(ana c., reloaded.)

31.7.06

maybe monday, maybe not

todas as coisas têm o mesmo valor, porque estamos milionários e todas elas morreram. é impossível se ter dois olhos, toda paisagem é inútil quando só se olha pra dentro.

você me amassa a cara atrás da biblioteca, na parede de pastilhas brancas, me envolvo tanto no seu corpo até virarmos de plástico, uma cortina de chuveiro pra qual alguém olha e o foco na estampa se perde, meus dedos, meus desenhos, meus amigos, somos todos ovelhinhas brancas tosadas no meio da noite e morreremos de frio.
levanto da cama, tomo o café que a minha mãe me prepara na boca, de fora pra dentro, de dentro pra fora, hurricane no meu estômago, beibe. desço, viro a esquina, "você é meu ilegítimo amigo?", penso, enquanto olho a loja de cristais. a vendedora sai de dentro da loja, derrubando o balcão, me toma pelas mãos e diz: 'como você está diferente', eu respondo com os astros e lacan e, pergunto, 'você sabia que quanto mais seco fica, mais flores os ipês dão?', ela arrasta o pescoço numa negativa que encosta a cabeça no chão. penso que deve ser por desespero, dela e do ipê, que as coisas são assim. as coisas. eu não, apesar de uma coisa.
peço ao atendente do açougue "um jornal, por favor, que não esteja úmido, de ontem ou de antes de ontem", ele me dá o nossas coisas são coisas nossas de 2008 e vou dar na praia, sentar num chão de areia cristalina oposta aos brutos flocos de mar. a brisa ruge, me inflama as faces e atravesso a rua novamente, esqueço o deserto, olho de frente as montanhas e no alto do pasto vê-se mais que um arbusto, um boi mugindo que a umidade arrebenta mariscos.
sistema temporariamente indisponível.

28.7.06

é horrível morar num lugar inóspito: as paredes entopem, os gases vazam e receio.

25.7.06

when the music is over


nesse fim de tarde, meu maior incômodo é tudo o que eu tenho. eu já tive mais paredes, mais arredores, muito mais medo, agora é a cidade, beibe, a cidade. como eu vou sair da cidade nesse momento? quantas vezes por dia eu notava que eu tinha perdido o fio, enquanto ele nunca saía da inconstância? mas tem a saída, olha e não é pela porta, olha, e me trazia pra perto assim mesmo e me queria delicado, de qualquer maneira, toda hora. teve essa semana boa também, eu pela primeira vez em anos me recoloquei, quis e fiz, falei. com um ritmo diferente de tudo, ela me dava uma vida inteira numa só frase, com quitutes, brioches. e eu mesma preciso dormir um pouco mais. e nos veremos em outro lugar. havia também generosidades mais mórbidas que me pedem que eu não sonhe, não, que eu não queira! e me dá uma face ao beijo e depois me dá as duas e eu de início não sinto a anestesia. escrevo, em ausência, o que mataria teu aspecto: "só não sonho com ele quando eu durmo com você ou eu só não sonho com você quando eu durmo com ele?" eu disse, nunca tive fio, nunca tive fio. meu melhor amigo me recria em um só passeio, agora nós nos desentendemos pela permanência. ele sabe que eu nunca tive fio, então é pra ele a destinação.
"as coisas nessa casa estão quebrando. depois que eu perdi umas paredes, criei uns vãos e ganhei outras pras quais hoje eu escolhi a cor. na uol dizem que as estradas estão tomadas por criações para uma outra estratosfera. estou vivendo a sensação da âncora , a garganta arranha até o fim da manhã, à noite eu vivo de nariz doendo, o dia todo as partículas de fuligem colando na pele, vou ter que limpar vou ter que limar a cidade pra fora da pele, eu preciso sair dessa nossa cidade, senão não quero sair de casa e eu não quero deixá-los. " ele me fala que eu tenho razão, e daí?, a cidade é o labirinto novo e o eterno, "ao mesmo tempo", e rimos até a tosse.

12.7.06

the carpet, too, is moving under you


tudo ainda é tal e qual e no entanto nada igual. ou das estagnações em mudança?
::
"Dois dias de viagem apartam um homem- e especialmente um jovem que ainda não criou raízes firmes na vida- do seu mundo cotidiano, de tudo quanto ele costuma chamar seus deveres, interesses, cuidados e projetos; apartam-no muito mais do que esse jovem imaginava, enquanto um fiacre o levava à estação. O espaço que, girando e fugindo, se roja de permeio entre ele e seu lugar de origem revela forças que geralmente se julgam privilégio do tempo; produz de hora em hora novas metamorfoses íntimas, muito parecidas com aquelas que o tempo origina, mas em certo sentido mais intensas ainda. Tal qual o tempo, o espaço gera o olvido; porém o faz, desligando o indivíduo das suas relações e pondo-o num estado livre, primitivo; chega até mesmo a transformar, num só golpe, um pedante ou um burguesote numa espécie de vagabundo. Dizem que o tempo é como o rio Lete; mas também o ar de paragens longínquas representa uma poção semelhante, e seu efeito, conquanto menos radical, não deixa de ser mais rápido."
thomas mann, na 2a. página d'a montanha mágica.

9.7.06

"estivemos olhando notas de rodapé com uma lupa, esperando que virassem romances. é como estar condenado a uma Jacuzzi perpétua com milhões dos seus melhores amigos." do junkspace, rem koolhas, traduzido por

uma vez muito me envolvi com clarice lispector dizendo que era culpa da inteligência a incapacidade de colher as coisas com mãos puras. clarice lispector diz muitas bobagens. a calma também vem pela inteligência, respostas sossegam as pessoas.
às vezes descubro, por exemplo, que um fruto não se alimenta de mim. às vezes por uma ordem inversa, uma flor me morde a mão e eu descubro solidão nos seus gestos. às vezes as portas todas escurecem, mudam de tom e viram paredes. a ansiedade vira um radar em busca de um retorno ao frescor e, assim, o fruto é uma procura de um gosto determinante. e o azul é de uma abrangência significativa que envolve até o fruto, da dor, o amor, o sorriso e a flor.
sabe, ontem eu vi o mar com essa ansiedade. a terra continua redonda mas eu nem reparei. ouvi só o mar indo e eu perguntando. perguntando qualquer coisa que fosse. foi daí quando ele voltou, invocado me dizendo que a resposta é sempre a mesma.

5.7.06


laerte, o homem-síntese de sempre, na folha de hoje.

2.7.06

um lugar em que eu fui feliz


el pontilõn próximo aos b's de minas. quem não se lembraria?

Epígrafe


preste atenção, o mundo é um moinho
Minha vida não é essa que destaco. Embora sejam inúmeras, essa não é a que escondi no silêncio ou na recusa. Essa é uma variante do que eu poderia dizer: “é o que eu digo” e portanto, estamos falando de uma opção anterior a você. Já minha vida, não, minha vida é simultânea a você. E toda a minha memória não vai mais se dividir, necessariamente, numa qual eu reajo ao desmentido e noutra que afirmo abajures, luminárias? Os lastros: se tudo é memória, garanto que me esqueci de algumas partes.

Esse pedido de clareza que lhe faço não é só por ansiedade ou receio. Se eu garanto que nessa vida conheço pessoas nas quais acredito e pelas quais eu, criteriosamente, morreria, então não sei se é por astúcia ou hábito que você se pergunta: por que pedem para não crer? Não se equivoque com tanta habilidade, não é isso. Só almejamos ao desengano com justa amabilidade, ao mesmo tempo que não garantimos que a falha esteja gasta ou em desuso, fora da validade. Quero é que se esqueça esses critérios pela razão simples de que são critérios, oras, é só abrir um noticiário como o da Softspot com meia década de diferença para saber que eles tem uma só constância: a da mutação. Veja só, pedindo desproteção ao Estado que é o indivíduo.

Não se matem ainda.

Lembre-se dos homens com os quais você já esteve, se não há depressão ou prozac um homem diz preferir jogos-americanos a toalhas de mesa, abacaxi e não banana, repulsa social e café sem açúcar, medo de solidão e conseqüente solidariedade, etc, como postos de gasolina que desaparecem ou não quando o combustível acaba: é só disso que se trata? Sim, é. E assim, desfazem-se as relíquias.

A generosidade é sempre um gesto de maior solidão: me abandonei em meio ao percurso e sobrei num escuro tão nítido que eu prefiro lhe dar o que, sobrando, me ausenta. Se é nessa generosidade que o meu gesto se sustenta, minha memória deixa de ser banal, porque agora é sua. Não há o que não se canse de todos nós.
Diz a voz: “Eu retornarei. E infinitas vezes tornarei a voltar. E retornarei a voltar? Não, acho que isso não configura um retorno. Ou?” Ora, na maior parte das vezes, o diálogo nos restaurantes se dá em dois tempos que de tão distintos, chegam a ser infinitos? Abismo que cavastes com tuas palavras.
 

Free Blog Counter