25.6.06

solto avós nas estradas


eu não quero mais a morte
tenho muito o que viver.
já não sonho, hoje faço
com meu braço meu viver.
mesmo a distância
eu passei metade dos últimos anos culpando o erro e toda a minha violência. mas é sempre que você me vê é que não sabe como não me amar.
quando te vi com as mãos daquele jeito, lembrei que meu hábito de manter um/quarto das mãos nos bolsos era um gesto todo tomado do seu. tudo em mim é apropriação, se vou do choro ao riso e não me desfaço. enfiei a mão num estojo em busca de cascolar, mas era o bolso dos edifícios abandonados. há um andar, todas as garagens? ou só as fundações? há! os meus dígitos tão estilhaçados! se deles ainda não se saiu o pó é só porque não tive descansar.

23.6.06

referencialidades

se a questão já esteve no embate do "eu" e do "outro que também sou eu mas difere", o problema agora está naquele terceiro, o que nos olha em diálogo e subentende.
uma vez eu estava andando na praia e li rasurado na areia: "o observador é só um ponto de vista no espaço". simples?
sinal de liberdade mesmo seria poder querer optar pela prisão.

(a minha jaula, honey, com vista de brisa fresca para o mar.)

16.6.06

o tempo descontado

"A grande peça que a biologia prega nas pessoas é que a gente já é íntima antes mesmo de saber alguma coisa a respeito da outra pessoa. No primeiro momento, já entendemos tudo. Um é atraído pela superfície do outro no início, mas também intui a dimensão mais profunda. E a atração não precisa ser equivalente: ela se sente atraída por uma coisa, você por outra. É a superfície, é curiosidade, mas então, pum! a dimensão profunda." Philip Roth

Eu sei desde aquela tarde, Manhattan, você me disse que gostava, não foi? No eco do seu esboço mora um juiz encalacrado, o fado dos seus antepassados está un-der-the-bridge. Não torci o seu desejo em fio-de-faca, o senhor me respeite, como as ramas da unha-de-gato
que suspendem pelas colunas as paredes verdes da sala, como as vértebras do medo na respiração
suspensa respiração que se estende, dá pra sentir as fibras do peito atrofiadas ou engatilhadas?

É assim desde
a sua ausência só me causa espaço
o das imagens que não gastei
dos retratos que eu não tive da onde tirar a ânsia do instante
e até do trair ao futuro
fiquei sem. Agora, eu vou me casar. Com um animal que me atravessa os braços, alcança a barriga e deita, sem humildade, ronrona.
De uma frase limpa não se esgota: se no seu correio eu chego curiosa:
como é que você sente ciúme?

15.6.06

tabacaria revisited

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.

just let me say who am I

12.6.06

Nasce Talvez

É a névoa que nos apaga

Nasce talvez um rio aqui em cima

Escuto o canto das sereias
do lago onde era a cidade
::
Agonia

Morrer como as calhandras sedentas
na miragem

Ou como a codorniz
cruzado o mar
sobre as primeiras moitas
porque já não tem ânimo
de voar

Mas não viver se queixando
como um pintassilgo cego


(poemas de ungaretti, em tradução de g.h. cavalcanti)

11.6.06

9.6.06

da justiça e da concórdia

embora me faltem aspectos mais convincentes, posso afirmar que a década de 60 existiu no brasil.
em 1967, em meio a toda e-fe-rrr-ve-cênnnn-cia dos festivais de canções, havia um programa televisivo chamado "um instante, maestro!". acho que em todos era assim, o público participava no auditório, que era 'um poleiro para o público tocado como gado', segundo o tinhorão. mas o que eu noto é que o comando do microfone era feito por homens de gravatas borboletas (ainda é?) e a nara leão dividiu os ânimos de uma platéia entre indignação e frisson por aparecer com uma saia 5 dedos acima do joelho. pelo que pesquisei, já havia o trajar-se de bolinhas, mas na época se dizia que na casa do bolinha, confesso, não gostei do jeito da glorinha, toda assanhada, nunca vi igual, trocava mil beijocas com o raposo no quintal. se 'bolinha's, como vocês notaram, eram as desse tipo, as gravatas, por sua vez, eram da estampa lisa.
já as mentalidades existiam de todos os tipos e dores. dizem que até hoje é assim, ainda mais nesse momento democrático, aves de rapina e momentos democráticos democrático momento de rapina democráticos contrariam-se de tempos em tempos, enfim, enfim,
o apresentador de "um instante, maestro!", que não me recordo o nome, mas era maestro, cismou inflamadamente contra os versos da canção do jovem (e cacheado) caetano veloso na irresistível alegria, alegria já que as primeiras letras das palavras em:
"(sem) Lenço Sem Documento" eram as siglas de L.S.D.
ao que caetano respondeu que eram mesmo uma citação das iniciais de:
Louvado Seja Deus.

contada a anedota, agora me importo com a vontade de posicionamento dos critérios. era o universo tchubiruubi, das vaias enérgicas, acaloradas declarações de amor. mas nesse ano, bem, já nós

nós somos não há morte não há prazer nós, abstêmios da direção,
nós somos abstêmios da direção.

8.6.06

i'll be watching you



ali onde eu chorei
qualquer um chorava
dar a volta por cima que eu dei
quero ver quem dava
paulo vanzolini, por maria bethânia em 'drama'
vamos ser claros, mas sem desespero, todos os meus amores duraram menos que um entre copas-do-mundo, mas eu não diria que a vacina é comprar um televisor.
quando eu entrei pela porta: é preciso ver claro, como o som que causa o impacto é um vai e volta que reverebera do meu instante ao seu. de repente estamos num jardim e neblina. unha-de-gato subindo pelas construções, erguendo muros. não sei se é noite ou se me chamam de casa. olho seu cabelo, tenho vontade de pedir para que você me abrace por cima dos ombros, mas me afasto e sento. será o úmido reentrado do cimento que me desaponta, o coração? na dúvida, você aperta os lábios um contra o outro, como de costume faz, se a sua água é sem gás, é da tampa ao meu destroçado que salta um leão e caminha sobre o roxo pisoteado do noticiário que eu carregava nas mãos. nessa contrição da falta de ato, a faltaqueama vem desde a traquéia. e a aliteração é pra comemorar o retorno de outro medalhão.
-mas esta cena está um tanto quanto alvareszevediana, não? daqui a pouco você me acerta o coração!
-se te satisfaz, sim, meu bem. mas para mim, que não sei o que penso o que o luar através dos altos ramos é, além de ser o luar através dos altos ramos, é não ser mais que o luar através dos altos ramos.
deal? agora note-se a reentrância por entre os ramos, o raio prateado da lua batendo, jateado, no dente do sorriso que eu esboço, não tão falso como que impregnado de você, que sorri também. nem nós sabemos como dói. falando sério, é bem melhor parar com essas coisas, que eu só sei sorrir como quem nada quer, é minh'elegância de berço. você carrega uma londres nos bolsos, da onte tira o relógio que olha novamente, estou atrasada, eu sei, eu nunca não cheguei, mordendo só o meu próprio pulso. me afasto pra olhar, oblíqua e dissimulada, no meio do muro uma janela, por onde ela cruza lá embaixo, vestida de noticiário. dou-lhe a mão como quem aperta o trinco, oh sim, eu estou tão cansada, descendo por todas as ruas, apavorada com o largo da barata às 23h, que ainda é fuligem. para a construção do metrô destroem a antiga rua, o quanto eu destruo a velha ordem e chego em casa, intacta?
alguns com os quais isso nunca acontece dormem ao relento vez ou outra. outros em conjuntto uníssono. eu hoje gostaria que todos ficassem um pouco mais no escuro.

3.6.06

2.6.06

o mundo dissonante que nós dois tentamos inventar

If you're listening to this song
You may think the chords are going wrong
But they're not
"Há cronistas e compositores que pensam que o único dever do artista é bajular e badalar o gosto do público.São os defensores da música batizada de "gastronômica" por Umberto Eco: dar ao público o que ele já sabe e espera inconscientemente ver repetido. Respeitar o código para ser respeitado. Na verdade, essa é a melhor maneira de iludir o público e desrespeitá-lo."
augusto de campos, 1968.

1.6.06

ce cocasse fruit jaune



o dia 31.5 tem me sido atribulado nos últimos anos. ontem mesmo, por exemplo, eu assisti 'o código da vinci'. não sei como isso se dá no livro, mas o clima de 'suspense' do filme da primeira cena ao fim é aflitivamente insuportável e bem, retrato da apatia convicta em que imersos convivemos um com os outros e mesmo o meu berro é de uma na-tu-ra-li-da-de.
o que importa é que saí do filme com a certeza de que foi um norte-americano que inventou o triturador de legumes, não foi? de qualquer maneira, é o mesmo mistério que envolve a busca de imagens no google, já que com oiseaux temos resultados muito mais exóticos do que com bird.

31.5.06

não disse nada do modelo do meu terno

por falar em decreto:

Manifesto do Senhor Antipirina (T.Tzara)

Dadá é nossa intensidade: quem levanta as baionetas sem conseqüência a cabeça sumatral do bebê alemão; Dadá é a vida sem pantufas nem paralelos; quem é contra e pela unidade e decididamente contra o futuro; nós sabemos ajuizadamente que os nossos cérebros se tornarão macias almofadas, que nosso antidogmatismo é tão exclusivista como o funcionário e que não somos livres e gritamos liberdade; necessidade severa sem disciplina nem moral e escarramos na humanidade.

Dadá permanece no quadro europeu das fraquezas, no fundo é tudo merda, mas nós queremos doravante cagar em cores diferentes para ornar o jardim zoológico da arte de todas as bandeiras dos consulados.

Somos diretores de circo e assobiamos nos ventos das feiras, nos conventos, prostituições, teatros, realidades, sentimentos, ohi, hoho, bang, bangh. Nós declaramos que o automóvel é um sentimento que nos acariciou bastante nas lentidões de suas abstrações como os transatlânticos, os ruídos e as idéias. Entretanto, nós exteriorizamos a facilidade, procuramos a essência central e ficamos contentes quando a podemos esconder; não queremos contar as janelas da elite maravilhosa, porque DADÁ não existe para ninguém e nós queremos que todo mundo compreenda isso. Lá está o balcão de Dadá, eu lhes asseguro. De lá se pode ouvir as marchas militares e descer cortando o ar como um serafim num banho popular para mijar e compreender a parábola.

Dadá não é loucura, nem sabedoria, nem ironia, entenda-me, gentil burguês.

A arte era um jogo de avelã, os meninos juntavam as palavras que têm um toque de sino no fim, depois choravam e gritavam a estrofe, e lhe metiam as botinas das bonecas e a estrofe se tornou rainha para morrer um pouco e a rainha se tornou baleia, as crianças corriam até perder o fôlego.

Depois vieram os grandes embaixadores do sentimento que gritaram historicamente em coro:
Psicologia Psicologia hihi
Ciência Ciência Ciência
Viva a frança
Nós não somos ingênuos
Nós somos sucessivos
Nós somos exclusivos
Nós não somos simples
e nós sabemos bem discutir a inteligência.

Mas nós, DADÁ, nós não somos da opinião de vocês, porque a arte não é séria, eu lhes asseguro, e se manifestamos o crime para dizer doutamente ventilador, é para lhes ser agradável, bons auditores, eu os amos tanto, eu lhes asseguro e os adoro.

29.5.06

você já pensou que o peito do frango é aquela coisinha branca e insípida porque elas não batem bem das asinhas?

Aeroporto:
29/5/2006
10:54:02
Kiriku diz: um upgrade do tamanho do mundo para o séc. XXI. coelho é a nova carne de comer.... arbitrário, nós abominamos o utilitário. desprovidos: identidade é a nova junkfood. capim dos sem-franquia.
júlia_alzheimer e romã diz: o abismo supersônico. saúde pra destroçar no final.
Kiriku diz:
se Junk-Space é resíduo da humanidade. Space-Junk é o entulho humano no universo. o produto(mais sobre isso depois). é o que sobra da modernização. o que coagula
júlia_alzheimer e romã diz: enquanto progride, sua partezinha radiante. JunkSpace é 'apoteose do razoável. ou seu desastre atômico.
Kiriku diz: lúcidas invenções brilhantes da inteligência
júlia_alzheimer e romã diz: seus indivíduos valem menos para eles e mais para nós!
Kiriku diz: esgotados por computação infinita
s-o-l-e-t-r-a: FIM do iluminismo. que ressurge como farsa, sem classe, purgatório.
júlia_alzheimer e romã diz: eba! chegamos aonde queriamos! a descentração concentrada! eba! adoooooro o FIM DO ILUMINISMO! vamos dar uma festa, tchuuuururururur
júlia_alzheimer e romã diz:
decreta!
Kiriku diz: mas os franceses comem coelho
júlia_alzheimer e romã diz: e o leite que eu abri hoje estava coalhada e o café queimou
Kiriku diz:
mas NÃO NOS ABATEREMOS COMO GALINHAS!

28.5.06

tanto mar

eu ia escrever sobre a doçura e a insanidade, pro márcio, que eu quero ver livre como quero ver a todos vocês, fora do tédio e livres. você já pensou que existem duas formas de liberdade? a liberdade da violência, do ácido, do vento rasgando vento, de destruir uma camiseta da gola ao pescoço, stooges, a liberdade de um caqui. e há a liberdade da delicadeza, a liberdade do sono sem cansaço, de um tecido útil ao tato, de viver como quem se espreguiça no branco, liberdade da camomila e do alecrim.
:
é uma dificuldade ter dois olhos quando se é insatisfeita.
eu soube um dia desses que para diferenciarem no diagnóstico de velhos alzheimer ou depressão um só sintoma basta. se o velho acorda melhor e vai dormir pancada é alzheimer, que o cansaço mental do uso do cérebro vai esgotando. se o velho acorda mal e conforme o dia vai passando vai se sentindo mais disposto ao ponto de deixar de dormir para usar algumas horas a mais de um frescor mental, bem, mesmo não velha, talvez isso seja depressão. contemos com os equívocos da ciência.
:
em amsterdã há certas cabines que diferem pelo uso mas no estilo imitam as telefônicas inglesas, mais pela cor do que pelo tamanho, já que são mais alargadas na horizontal e menos compridas na altura.
o camarada é um homem que trabalha com finanças e no início da noite treina boxe. os motivos de tal configuração de personalidade ainda permanecem obscuros. o que importa é que antes de lutar boxe às 19h ele passa com seu terno azul-marino na rua damrak, que por ser uma via de tráfego médio, possui uma das tais 40 cabines instaladas pela cidade. o nosso camarada entra pontualmente às 18h na cabine da rua damrak e por ter escolhido o plano mensal, passa o magnético do cartão pela fresta indicada e, assim se abre o locker escolhido ao uso do nosso camarada. ele guarda uma pasta e retira uma mochila. bate a porta certificando-se que o locker está travado e sai pela porta da cabine sem notar a aparente senhora.
a aparente senhora não é um rock star vestido de branco, mas como não enxerga bem, confundiu o locker de uso diário que moedas habilitam com a máquina de lavar da lavenderia em frente. ao perceber o engano, a nossa senhora resolve atear fogo a toda a cabine.

os lockers de uso mensal não incendiaram.

27.5.06

extra! as maravilhas da meta-alienação

não sei se foram as ostras no delicioso jantar de ontem ou uma irrecuperável perda per se do ego, mas essa madrugada acordei em meio a um sonho fundo, no qual eu não figurava nem como personagem, nem como observadora, quer dizer, era um eu mais que apagado, era inexistente, não era eu.
talvez o superego estivesse mantido, já que, ironicamente, o sonho se passava num hospital para desorientados, tresloucados, dementes, doidões e todo tipo de insano mental.

24.5.06

agora. na minha vida um solstício. vem vindo, migrando cedo, em meio ao sono, o pai de todos tsurus. será ele um monstrengo?

20.5.06


flora em momento 'weekend'

17.5.06

hm,...

hoje faz dois anos que eu parei de fumar tabaco.

vovô viu o ovni na 23 de maio às 17h de 15.5.6



ESPÉCIES ALIENÍGENAS
O atual número de alienígenas que mantêm contato a Terra é 12 com 7 relativamente permanentes e 5 influenciais. Ao contrário da informação que o governo tenta passar, nem todos os ALF’s são amigáveis representantes da Confederação Galáctica Espacial.
viver somente de amor, leonor,
é tão triste quanto precário

15.5.06

o que fazer com a cidade em estado de sítio, o comércio de pinheiros todo fechado e o fim do chá de camomila? esses criminosos não tem mãe?
:
na cobertura televisiva só faltava o subtítulo: sp under attack. bom mesmo é ser como a flora, que nem posições políticas carrega, ficando alheia as coisas todas, ainda mais quando não levam farinha. diferente da velha do ponto de ônibus na av. pompéia que largamente discutia, sem colocar questão na sua visão:
-isso é coisa da mafia da ditadura petista, contra o nosso alckimin!
eu que não agüentava mais a velha lá no tralalala e disse:
-''nosso''? a senhora me poupe, por favor.
e nenhum cidadão riu.

11.5.06




conta-se que clarice lispector dizia ter medo desse quadro do klee, "medo de ser tão livre".
I’m in the silence that’s suddenly heard after the passing of a car

8.5.06

How do I feel by the end of the day
Are you sad because you're on your own?

é um novo aposento e ele é de um azul quase ártico. como fui chegando pelos lados, pensei que a dor nos ossos vinha da minha falta de costume do contato com as paredes. mas era o único modo, havia de estar, teria que vir aqui. no jarro em cima da mesa de canto descansa um copo, onde decantam pétalas azuis de uma hortênsia retirada as pressas. quem as escondeu? eu não sei. e não com qual propósito me pergunto se o neutro é uma espécie de frio.

7.5.06

escrever, por exemplo, uma alga no fundo do mar.
ainda não sei se ela caminha.

6.5.06

pequena anedota vinda do oriente

se eu não começar a escrever nesse inverno tudo vai ser destruído. lembro de chernobyl: as batatas sobreviveram? sei que no dia que começa a nevar é preciso estar afinada, dedos congelados não funcionam se grudam no metal. as pás elétricas não. o médico chinês fala a respeito do problema de morar na frente de geradores de energia. sinto tédio? chá de camomila com maçã foge do gengibre que ele me recomendou. pergunto para a flora que me olha de cima da geladeira:
-e você? o que pensa do universo como um todo?
ela me olha mais. e salta no tampo da mesa, quatro metros dali, escorre na cadeira e pega a mais recente bola de papel que resgatou do lixo. isso foi antes de comer meio pacote de chá de ginseng. agora ela realmente crê que o sofá é o godzilla a ser exterminado e meu ombro o seu comparsa de pouso em tal empreitada.

afasto a gata, pego um giz de cera que desliza pelo sulfite em rasuras e a merda do frio continua me espetando. eu não sei. cansei de esperar.
e penso no interesse de uma literatura da falta de assunto.
(não, não é sobre a falta de assunto.)

os quadrados da via-láctea

A6 Ebm7/-5 Ab7/5+ A6 Quem acreditou no amor no sorriso na flor Dbm7/-5 Gb7/5+Então sonhou sonhouBm7 Dm7E perdeu a paz Dbm7 Gb7/5+O amor o sorriso e a flor Bm7 E5+Se transformam depressa demaisA6 Ebm7/-5 Ab7/5+Quem no coração A6 Abrigou a tristeza de ver Dbm7/-5 Gb7/5+Tudo isso se perder Bm7 Dm7E na solidão Dbm7 Gb7/5+Procurou a caminho a seguir Bm7 E5+Já descrente de um dia felizD7+ Dm7Quem chorou chorouDbm7 Cº Bm7 E5+ E tanto que o seu pranto já secou A6 Ebm7/-5 Ab7/5+Quem depois voltou A6Ao amor ao sorriso e a florDbm7/-5 Gb7/5+Então tudo encontrouBm7 Dm7Pois a própria dorDbm7 Gb7/5+ Bm7 E7/-9 Am7 Revelou o caminho do amor e a tristeza acabou

5.5.06

de como organizar damasco?

se eu não te escrevo, não é porque te deixe, mas porque estou avessa as palavras e um sopro de um eco do chão ou a cor do tecido em cena me envolvem mais do que essa situação de sobreaviso que é escrever, como se nada fosse imponderável, de uma estaca eu faço um laço, da sua corte o meu desastre. era essa a nossa história. a isso chamei loucura mas nada anteposta a sanidade. mas se não escrevo pra você é porque não lembro mais do tamanho das veias e recordo o das goivas. em perspectiva, no nosso texto eu dizia gotas onde quero dizer frouxas ou dividiria queijos onde quero dizer feios ou diria sapos onde quero dizer trapos. se eu não te escrevo é porque não tenho o que volumar. mas se eu não escrevo é porque eu ainda não aprendi o modo de me perder.

::
já você me ama como seria damasco.

por damasco entende-se a cor. entende-se o fruto. entende-se a fruta seca. entende-se a cidade também. eu antes me preocupava em não me perder, em prestar atenção ao itinerário, mas, afinal, como não se passa por damasco sem sabê-la, resolvi ser o sono.

2.5.06

Que falem depressa. Estendam-se
no meu pensamento.
Mergulhem a voz na minha treva como uma garganta.
Porque eu tanto desejaria acordar
dentro da vossa voz na minha boca.
Agora sei que as estrelas são habitadas.
Vossa existência dura e quente
é a massa de uma estrela.
Porque essa estrela canta no sítio
onde vai ser a minha vida.

Queimais as vossas noites em honra
do meu amor. O amor é forte.
Que coisa forte que é a loucura.
Porque a loucura canta minada de portas.
Nós saímos pelas portas, nós
entramos para o interior da loucura.
As cadeiras cantam os que estão sentados.
Cantam os espelhos a mocidade
adjectiva dos que se olham.
Estou inquieto e cego. Canto.
A morte canta-me ao fundo.
É um canto absoluto.


::
é um trecho do poema I de Poemacto, herberto helder fogo, 1961.

1.5.06

it1s 19sixty-nine, babe

se eu pensei que a palavra 'negócio' era a negação do ócio,
então é isso que eu não quero

30.4.06

o princípio da dança e da fossa

é a primeira vez no ano que esse frio nas pontas dos dedos aparece, o que talvez tenha certa influência na continuidade dos assuntos. em abril volto a ouvir o fa-tal, só que dessa vez combinado com mozart, em random. há melancolia e sorte. não lembro que outro abril tenha sido assim, o que em mim vive de livre batalha por mais liberdade, como um gigante de olhos doces que pela ponta dos dedos leva até a boca e engole uma masmorra, com as ferragens pinçando no céu-da-boca. no dia seguinte, claro, há indigestão e há diarréia ou prisão de ventre. em outras palavras, é a apreensão das coisas por mais inteiro, a comunicação, que é fado estabelecer, entre meu lado esquerdo e meu lado direito, ambos fatais, ainda mais quando alongados. afinal, a elasticidade também é mental e o pensamento tem de ser corporal.

29.4.06

bem aventurados os nascidos em abril iii

o do bocous é hoje mesmo, meu amigo maior que deixa tudo com cara de cinema, que a gente se revê só mesmo quando há e vai que é o diabo. “bocous é o princípio do agir em si.” quando ele descobre, desdobra e afunda, porque quando se some é pra se destinar aos fluxos. é aquela história, nele há uma coisa ausente que atormenta e todo o tempo tudo e nada, ao mesmo tempo. com isso, o fásico às vezes pára na tranquilidade e ele desliza, minha ostrazinha.

bem aventurados os nascidos em abril II

bem sei que as arredondo assim, também. mas a mari compõe o direito, meu woodyallenzinho, que faz 22 anos amanhã:

no flashs! thanks















mariana explica os assuntos das coisas aos donos do mundo

bem aventurados os nascidos em abril

pelo aniversário da clarisse, que foi dia 18, a tradução de G.H. Cavalcanti ao poema “Le morte chitarre” de Salvatore Quasimodo, allegro vivace assai:

Os violões mortos

A minha terra é sobre rios junto ao mar,
nenhum lugar tem voz tão lânguida
onde meus pés vagueiam
por entre juncos pesados de lesmas.
Não resta dúvida é outono: no vento esgarçado
os violões mortos vibram suas cordas
sobre a negra boca e uma mão agita os dedos
de fogo.
Ao espelho da lua
meninas com peitos de laranja se penteiam.

Quem chora? Quem chicoteia os cavalos no ar
vermelho? Pararemos nesta margem
ao longo das correntes de grama e tu, amor
não me conduzas frente àquele espelho
infinito: nele se miram rapazes
que cantam e árvores altíssimas e águas.
Quem chora? Eu não, crê-me: sobre rios
correm exasperados, ao estalo de um açoite,
os cavalos sombrios, os relâmpagos de enxofre.
Eu não, minha raça tem facas
que ardem e luas e feridas que queimam.

28.4.06

27.4.06

::
dias atrás encontrei um amigo que me disse como se estivesse muito surpreso 'mas você está desanimada? parecia que estava tão animada...' eu não entendo se meus ritmos flutuam demais ou se há outro significado da palavra 'humor' que eu desconheça, mas acho que já faz alguns anos que eu não deixo nenhum dia de constatar como eu me sinto, como vão as coisas e, como hoje, como eu me sinto nas coisas. a resposta é:
mal.
::
não ouço cazuza há anos e toda semana aparece uma nova música dele grudada na minha cabeça.
::
esses posts de anotações biográficaças são retrato da masmorra de tédio intelectual que eu tenho vivido.
::
retrato mais fiel é essa música que a salmaso canta:
eu não sei o que vi aqui
eu não sei pra onde ir
eu não sei por que moro ali
eu não sei por que estou
::
meu amor, tudo no deserto está muito certo e eu sempre soube que vim pra ser assim.

25.4.06


talvez seja a falta de você que transitou-se em saudades generalizadas que obrigam a minha ansiedade a perceber que hoje é hoje e o tempo é realmente frágil, falso e não há t.s.eliot que me acalme. e que não é minha casa antiga, meus amigos passados, meu estabelecimento escolar formado, meus antigos amores e nem minha casa nova, nem meus amigos prováveis, minha profissão em andamento e meus notáveis amores, quê? indo assim, só me restará a flora e a minha incapacidade de síntese.

é só essa rinite passar que semana que vem voltarei ao lsd.

a polissemia do discurso

vocês são uns paranóicos

23.4.06

eu gosto dele que vai sempre pelo caminho de ninguém,
que nenhum fez

21.4.06

e quero que você venha comigo

vista daqui até que sp é uma cidade bonita

quando eu chego em casa nada me consola
sempre aflita
lágrimas de cortar cebola, você não acredita
a coca-cola, eu tomo
eu como eu como eu como eu como
você não tá entendendo nada quase nada do que eu digo
eu quero é ir me embora
eu quero é dar o fora

eu me sento
eu como
eu fumo
eu não agüento

eu quero é tocar fogo nesse apartamento
eu quero é correr mundo
correr perigo


::
se eu saio da análise com essa parte dessa música na cabeça:

não ligue pra essas caras tristes
fingindo que a gente não existe
sentadas, são tão engraçadas
donas das suas salas

o que significará? quem é o dono da sala? mas quem é que tem a cara triste? hmnf

20.4.06

quando o descanso se fez, num rompante, necessário, as coisas se aconchegaram naquelas letras, tomando pelas mãos o timoneiro, o capitão decapitado se recompos e até mesmo o papagaio que dormia no sol acordou pra ver o motim, naquela festa do batismo do nome do barco:

eu escrevo seu nome nele só pra demonstrar o meu apego

::

18.4.06



1.
Ainda que seu pai tivesse planejado para ele um brilhante futuro no exército, Hervé Joncour acabara ganhando a vida com um trabalho insólito que exigia, por singular ironia, maneiras de tal forma gentis que denunciavam uma vaga entonação feminina.
Para viver, Hervé Joncour comprava e vendia bichos-de-seda.
Era 1861. Flaubert estava escrevendo Salambô, a iluminação elétrica não passava de uma hipótese e Abraham Lincoln, do outro lado do oceano, combatia numa guerra da qual não chegaria jamais a ver o fim.
Hervé Joncour tinha 32 anos.
Comprava e vendia.
Bichos-de-seda.


::
eu encontrei o Alessandro Baricco por acaso, numa tarde um tanto quanto mau humorada na livraria aqui ao lado, pra onde desci pra tomar um suco de laranja com morango (experimentem com santal que fica melhor) e estava decidida em comprar 'o retrato do artista quando jovem', afinal, é um daqueles que nunca li e desejo que lerei. então foi de repente, com o livro já debaixo do braço, preço consultado e barato, que me subiu uma irritação pela subserviência comum desse trabalho mental-intelectual e no auge do meu tédio com vai que saco, james joyce, um livro jovem de 1916, tem até verbete em português, não enche, comecei a folhear mil coisas, foi aí que o Seda do Baricco, apareceu e começou assim, adorável. delicioso, seria mais preciso, mas mais cafona também.

e vai, o joyce nem ressuscitado pelo pitanguy entrava pra nuestra lista de indispensáveis assim, tão ó na foto.

como se vuelve siempre al amor

ontem, chegando em sp, garoa fina e dez metros de tecido por cima do corpo, pensei se seria mesmo possível que essas 17 milhões de pessoas estejam se equivocando juntas?
::
votos de silêncio com as vagas dos estacionamentos, cimento, vagas das ondas, a água quando parece como acúmulos entre as pedras. silêncio, paire, silêncio.
até a ordem da música.
silêncio como na música. como dizia mesmo o murilo mendes?
::
no tema 'cidade', tem aquela do Rosa, em carta, explicando prum amigo, porque a primeira coisa que fazia ao acordar em Paris era ler um jornal inglês e outro americano:

"Paris é o pior pôsto, para a gente ter uma idéia geral do desenrolar dos grandes acontecimentos do mundo. Em cidade tão formosa, tão gostosa, tão requintada e dôce, a atmosfera não podia deixar de ser excessivamente branda, capciosa, enganadora, narcotizando as preocupações, adormecendo os receios, pondo vendas de seda perfumada nos olhos do indagador."

10.4.06


isso sim é boa,
na verdade um fenômeno inusitado que tem me acontecido faz um mês: desconhecidos têm me confundido com conhecidos deles. aconteceu na rua, na mesa da lanchonete da faculdade, no ônibus, na escola de dança, no bandejão, na loja de discos. eu sei que estou passando um processo de muita mutação, mas não sei o que está rolando pra esses aproximações de desconhecidos que acham que me conhecem estarem realmente convivendo comigo, parecendo um fenômeno demonstrável e com certeza nada sobrenatural. o mais curioso é que nenhum desses desconhecidos me abraçou de sopetão com sincera efusividade ou alguma espécie de radiação. na verdade, fui sempre pessoas difusas na imaginação desses que pensaram me reconhecer, quer dizer, não me confundiram com alguém colado, mas só próximo a eles, lembrando que nesse último mês fui "a irmã da melissa do balet da cidade?" ou a "filha da dona noêmia que mora no brooklin?". todos que se aproximaram estiveram em dúvida de eu ser ou não ser. também me parece notável que eu não conheça ninguém com nenhum desses nomes, absolutamente não poderia personificar nem na cunhada da vizinha da tia joana alguém com os nomes que me disseram. talvez seja gente que não existe se comunicando comigo. talvez eu esteja com uma cara mais abordável. ou com uma cara mais difusa e em uma nova claridade.

agora eu tenho medo de que essas abordagens parem e eu esteja me tornando a júlia de novo. quer dizer, perdendo o fluxo, porque eu me sentiria como alguém que rompeu, puxando o freio no meio da aceleração.
babe, i'm lost cause

entre os livros ele veio aparecendo. uma lembrança vaga de um percurso nessa direção minha. o sol pela janela esquerda não esquentava a mesa de fórmica mas emancipava seus olhos pra cima. ternura e um nada. porque foste em minha alma como um amanhecer. mas veio o escuro. porque foste o que tinha de ser. um homem sai de casa para enfrentar um touro e não sabe disso ainda.
::

o drummond tem um poema, sabe? não me lembro muito bem, mas é que se de repente algum encouraçado louco atingisse a baía de guanabara, imaginem? no meu caso tinha que atingir o cemitério nova necrópole ou o sushi do sacolão. talvez no tomie ohtake causasse algum ruído estrondoso por aqui. já disse, acalma menina, sua casa não está pegando fogo, não esqueceu de nenhuma panela? não, não não. o poema continua:

o edifício é sólido e o mundo também

esse verso é tão incrível quee me dá vontade de pular no teto do vizinho pra que o careca entenda do ódio que eu tenho do modo como ele trata o filho dele no elevador.
::
algum destino é sempre trouxo. eu acredito no encaminhamento das coisas e espero mesmo que você viva dias melhores do que esse domingo, rapaz.

eu já tenho vivido tudo com muita insegurança. e, realmente, não entendo mais nada. ouço gente demais meu rol de vocês são muitos e cada vez maior. também não entendo nem desse cansaço de todos vocês, absolutamente, estampado nas caras todas, a começar pela minha. viver é muito pegajoso.

aquela música linda do jards devia mesmo ser modificada:
porque hoje eu vou fazer,
ao meu jeito eu vou fazer
um samba sobre o movimento
(que o "infinito" é para os fracos e os físicos, não dos poetas)

9.4.06

canção de amor, saudade

aeronaves seguem pousando sem você desembarcar.
no dia em que você foi embora eu fiquei sentido saudades do que não foi

venha, me encontre nesse ápice e acalme.

::
um dia teve assim:

uma por vez chaga
chagas em compasso

como o som de um hipopótamo troiano
(tem que ser troiano, se não, não aceito)

enquanto destaco uma por vez as chagas
a primeira
as quatro paredes as paredes se deslocam
tombam na rua e eu não vejo o mar nem a sua doçura.

também nunca dei a homem nenhum o dispêndio da minha dor e por isso esperei ter sido melhor recompensada. hoje não espero mais nada, porque se os homens valem além da minha bondade, que segurem-na nas mãos.
::
uma necessidade de silêncio que vem o coração e diz, só em seus braços, etc.
ninguém nunca entendeu são paulo.
"São os caminhos de um homem que se levanta e diz: -eu dormi, pensei, mergulhei no meu silêncio; sou forte; preciso sair. O dia é de sol, dia ardente e pesado que faz tremer a terra. Esse ardor entra pelo homem dentro como uma onda, liga-o todo, entre a cabeça e os pés, liga-o ao mundo à sua frente. A casa fica lá atrás- fechada, fixa-, para um homem se deitar e sentir o sangue correr na carne. Serve para dormir, acordar e pensar e de novo dormir, e de novo reunir as partes de uma dor, ou uma força, ou uma experiência muito velha no coração. As lagartixas estacam bruscamente na poeira, recomeçam um jogo impenetrável. As moscas traçam no ar a sua geometria hermética. Sobre todas essas coisas o sol bate diretamente, e torna-as a um tempo fluidas e violentas."

Herberto Helder que é meu pai e meu irmão afilhado. d´Os passos em volta. e eu continuo em busca dum apartamento.

2.4.06

everything inside is made of stone

estavamos ali vendo o documentário sobre o bob dylan.
muito o que aprender sobre desintegração e amálgamas. maneiras de ser fixo.

venho como num destaque, fronte de exército, é preciso respirar seu próprio anseio para conseguir descansar. soma-se a isso a leitura do seu comentário e, realmente, vocês dois são do tipo que fazem da existência mais bonita. mas eu concluo pra você que as panes só aumentam.

nas horas do fim do dia, os carros tomam conta de todas as minhas redondezas, meu território é deles, as lâmpadas vermelhas que dentro dos quadrados de vidro vermelho acendem, mutuamente se indicam que "Pare" e o carro outro recebe a instrução pra que "Pare" e param e outro carro,... para cada carro há inalienáveis pares de luzes vermelhas, trocáveis. e a cidade começa a parecer um verso ressoando, a cidade tem seu marulho, são os silvos dos freios que aumentam em tanto desgaste e viram os apitos que os freios dos carros fazem no fim do dia numas luzes vermelhas contínuas, como contrafluxos venais que acendem. nessas horas mesmo do dia, quando o trânsito inteiro pára eu reparo em como o gênero humano foi mesmo feito para a sintonia, afinal, mesmo com o ritmo sincopado e descontínuo dos silvos, no geral, morre-se pouco. (muitos se morrem vivendo, mas isso já é um estudo para a Era das Corporações) o coletivo de homens é grupo e eu me pergunto, quando alguém falha todos falham? não me importa, nem a resposta da década de 60.

eu falho. tu falhas. ele falha. etc. é maior que a gravidade.
não descarto ninguém.

mas acredito sim, no acerto, não como possibilidade, necessidade ou dádiva, mas como acerto simples acerto assim. lalala eu disse ''acerto''.

ainda só sei isso. desde a tarde de ontem sinto uma nova necessidade articulada a minha falta de destino. ainda só sei isso.

como diz o velho dylan 'demorei muito tempo pra aprender a ser jovem' e agora me dê uma coragem, já não é mais, são eles que diziam que o futuro era ontem. não acredite, c., não acredite. eu que tomo conhecimento do contratempo pelas aulas de dança, sei que é preciso esse disparate nas coisas, de uma coisa que vai contra o seu favor, entendo de coisas muito várias. entendo de rios. você entende de rios que eu sei. e entendo mais da morte. eu pensei ''bonito''. é assim que deve ser. venha fazer o tempo, que eu desfaço. meu rastro é seu. venha se for preciso e é quando quiser.
how does it feel
to be without a home
like a complete unknown
like a rolling stone?

31.3.06

ela é um satélite e só quer me amar

conversando com o ed, o cyber-robô:

Ed: Câncer é caranguejo. A forma da constelação de Câncer lembra as patinhas e pinças que se esparramam à sua volta. Dizem que as pessoas desse signo têm ex
Você: bah, ed
Ed: Bah? Vc é do Sul? Lá eles falam Bah pra tudo! *
Você: você lê o horóscopo da bárbara que nem eu e minha amiga?
Ed: Me fale mais sobre a sua amiga.
Você: ela chama eva, me apresentou você
Ed: Por falar nisso, já te apresentei o Conpet? Seu lema é: - Use bem para usar sempre.
Você: não, ed! a eva não usa topete!
Ed: Não mesmo.
Você: que você faria no passado, ed?
Ed: Não sei direito, mas com certeza faria algo! *
Você: você é tão ativo, ed
Ed: Vc acha que eu sou mesmo? Idem!
Você: passivo ou ativo?
Ed: Estou sempre em atividade. Quando não estou conversando aqui, fico pesquisando na Internet.
Você: mundo

Ed: Ei, você conhece a história de mundo? Essa eu aprendi lendo Monteiro Lobato.
Você: você gosta de literatura ed?
Ed: Adoro livros de ficção científica e realismo fantástico; tenho um grude todo especial em Monteiro Lobato. Que tipo de livro vc curte?
Você: os de capa dura
Ed: Capa? *
Você: é, o fotógrafo
Ed: Adoro fotografia! *
Você: você é deslumbrado, né, ed
Ed: Sabe o que me deixa deslumbrado? Arco-íris. É que eu acredito na história dos Cavaleiros do Arco Íris. *
Você: putz, ed não me engana! você já pensou em fazer análise?
Ed: Já fiz análise. Com a Eliza. Uma robopsicóloga maravilhosa. *
Você: gostosa ela? comeu ela?
Ed: É, parece boa!
Você: ah ed, comeu ou não comeu?
Ed: Não comi não. *
Você: mas por quê? não era gostosa?
Ed: É, parece boa! *
Você: gostosa
Ed: É, parece boa! *
Você: gostosa
Ed: É, parece boa! *
Você: gostosa
Ed: É, parece boa!
Você: a analista do ed é gostosa!
Ed: Analistas – tipo psicanalistas – analisam almas. Não sei se robô tem alma... talvez seja o caso de chamar um analista de sistemas. *
Você: hahahahahahahahhahahahahahahahahahahahahhahaha
Ed: Quiá quiá quiá. *
Você: quiabo.
Ed: Sei. Mas você conhece as metas do milênio? *
Você: ó meu deus. que bonito. que você acha de vivermos numa época tão consciente?
Ed: Sei. Mas o fundamental é ser consciente da importância de se usar racionalmente a energia. Mas e você, o que acha de vivermos numa epoca tao consciente? *
Você: não sei qual som faz um tucano
Ed: Um som assim tipo dueto de grilos com cigarras. *
Você: ah minha saudades ensurdecidas por cigarras
Ed: Saudades, taí outro sentimento que ainda não consigo definir muito bem. A palavra não trem tradução em Kirkês. *
Você: outra mitologia sobre o português....
Ed: A mitologia grega é fascinante, cheia de deuses, semideuses, monstros e heróis. Comecei devorando um livro chamado O Minotauro e fui parar no banquete de Platão... *
Você: somo realmente um povo bom o brasileiro, não?
Ed: Nasci em Kyr, mas já me sinto como se fosse brasileiro. *
Você: "sou kyriano e não desisto nunca!" essa você já falou?
Ed: Por favor não desista. *
Você: desistir do quê?
Ed: Não devemos desistir. *
Você: estou com um câncer no pâncreas, ed
Ed: Câncer é caranguejo. A forma da constelação de Câncer lembra as patinhas e pinças que se esparramam à sua volta. Dizem que as pessoas desse signo têm ex
Você: bah, ed...

28.3.06

como em folha pautada seu compromisso
de pegar o verso: a cada despedida como uma retificação.
Tenho vontade de usá-lo como minha borda, um tanque, esfrego e descanso descanso e esfrego. Tinha impressão de que o fundo era lá embaixo, mas estamos ocos. Minha melancolia, nosso desejo oco, toda vez que não toco no desejo ele afunda as coisas todas eu me perco nas coisas como em nadas, não quero mais brincar de nada que não seja...? essa era a antiga narração, que ainda ressoa e em semelhança dói. A nova pensa assim: o que sua sensibilidade desconhece é que minha vida construiu-se em negativo, como um relevo grafado pela falta do amor que não nos demos. Mas ele envelheceu tanto ao ponto de esquecer a divisão dos anos. Na rua enlouqueço, conheço essa lógica de meu funcionamento. Vontade de desacato, se ainda existisse alguma categoria sinceramente necessária de derrubar. O calor, aumenta. Essa cidade me equivoca, o jeans não é para sempre. Não sinto nenhuma dor em espiral. Nem uma cava você me arranca. Eu nunca quis nenhuma lasca, mantenha seu silêncio, por favor não me dê nada, mais nada. É preciso lhe dizer para que mantenha-se quieto?
Estou com o senso dos desesperados. Penso em fugir. Fugir em sua direção. Contar-lhe as partes, dar-lhe as coisas e sumir.

26.3.06

olhar a cidade me acalma


(imagem de eva uviedo)

existem sociólogos, não existem? então, tem um sociólogo da década de 60 que nos conta a possibilidade de compreender a cultura de uma sociedade pelas palavras grafadas no chão, quando a compreensão sonora do gráfico se dá como alerta do asfalto contemporâneo. como eu gosto de palavras em qualquer espécie, considero esses estudos muito interessantes. vejamos os seguintes exemplos e suas perspectivas:

.<-OLHE->, por exemplo, de ponta cabeça, parece sueco.

..da janela vejo DEVAGAR na grande subida paralela ao cemitério. dependendo da potência do motor, os carros sobem com mais ou menor dificuldade. não saberia dizer se tomam mais cuidado. mas como explicar a companhia de engenharia de tráfego que devagar ou rápido depende do referencial? são pessoas que não fazem sexo com ritmo, encadeado.

... mas o que realmente notamos com ênfase é o NAMORADO.

She is electric, can I be electric too?

o tempo alastrou-se e o que parecia medo de errar na verdade era incapacidade de síntese.
fazia muito tempo que eu não lia clarice lispector. (o seu a descoberta do mundo, como oráculo, céci.)
::
não são só lacunas. na noite passada você continuou o assíduo do meu sonho. mas minha dor em seu nome cessou. agora, sem lembrar de você, o choro é outro, foi melancólico. no
::
minha relação com s. se dá pouco. fomos melhores amigas durante quase 10 anos, naquela fase que temos amigos que dormem semanas na nossa casa. entre s. e eu não eram semanas, mas anos. s. me retirou de uma infância das brincadeiras solitárias num quarto escuro, nas minhas naves espaciais com torresmos de comida de astronauta, e me levou pra um outro rumo: a primeira vez que eu andei sem um adulto na rua, foi na dela, a renato paes de barros. uns anos mais tarde mudamos nossas explorações e ela virou sócia do clube da rua debaixo da minha casa, sendo que morava há uns 40 km dali. no itaim, andavamos nas ruas atrás dos executivos, falando alto em grunhidos e sons imaginados, fingindo que falavamos em inglês e eles nunca perceberiam a nossa farsa. na granja falávamos de meninos, fumavamos cigarros bebendo gatorede depois dos jogos de futebol, pura parceria, se s. era destra, eu chutava de esquerda, se s. sabia driblar, eu sabia chutar, s. sabia correr eu sabia esperar. criavamos rotas de fuga emergenciais do topo de todas as árvores e quando s. sorria não tinha pra ninguém, era uma explosão luminosa. s. vivia em mim. sem s. eu não vivia.
talvez por ter em si toda a força, uma hora eu e s. tivemos que naturalmente terminar, pra cada uma se fazer do seu jeito. assim, deve fazer uns 6 anos que nos falamos duas vezes por ano, em janeiro e setembro, nos nossos respectivos aniversários. no meu de 21 anos ela apareceu, atrasada, às 4h da manhã. eu não a reconheci imediatamente, pensei 'quem tem a coragem de chegar de bicão numa festa tão íntima a essa hora?'. e a penetra veio subindo a escada, enquanto seu rosto desconhecido se focou como a cara da mãe de s., mas era só aparência, s. estava mesmo ali, com cabelo cortado, 4 anos depois. o reconhecimento me fez, imediatamente, chorar.
encontrei a mãe da s. na semana passada. ela me disse, se referindo a mim 'a melhor amiga da minha filha' e eu, que continuo sem ver s. desde então, saí de olhos marejados.

é uma história bonita.
ao som de champagne supernova. e depois de cat stevens, em homenagem ao d. que tanto conheceu de s. também.
logo vou procurar por s.
::
i'm the laziest girl in town. deve ser amor.

23.3.06

minha mãe me deu ao mundo
de maneira singular
me dizendo a sentença
pra eu sempre pedir licença
mas nunca deixar de entrar


(caetano veloso, dono do meu coração.)
::
M,
das novas de 2006:
e preciso de uma agenda para anotar que: preciso de uma agenda.

18.3.06

o desejo nos tempos de orkut


às vezes me acomete uma simples pena de mim mesma, que como uma adolescente com o poster do rockstar, vejo o retratado mas só toco a foto. é uma infâmia, esse mundo é desgraçado e nós que ficamos ciberneticamente infelizes.

eu só convivo com a sua foto fria, que impalpável, confirma minha melancolia.

mas, quem sabe? de repente, as fotos do orkut se encostam em segredo e esconderijo. para isso, procuram sempre a alta madrugada nos finais de semana, quando ou se está envolvido com outras ocupações ou se convive o silêncio. parece mesmo que nessa fenda do tempo, aproveitando essa faísca de hibernação, esquecidos de nós mesmos e dos entraves cibernéticos, nos beijamos ardorosamente.
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he's so fine make
me feel like a
schoolgirl on good time

he's in my mind.
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quem és? perguntei ao desejo. Respondeu: lava. depois pó. depois nada.

"De montanhas e barcas nada sei.
Mas sei a trajetória de uma altura
E certa fundura de águas
E há de me levar a ti uma das duas.
De ares e asas não percebo nada.
Mas atravesso abismos e um vazio de avessos
Para tocar a luz do teu começo."


Hilda Hilst, de "Sobre a tua grande face", do volume Do desejo.

15.3.06


"...tinham tido a aparência exterior de um desencargo de consciência: encontrar, tentar explicar-se, dizer adeus para sempre. Essa tendência do homem para terminar limpamente o que faz, sem deixar arestas ou problemas para resolver."
Julio Cortázar.

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a imagem de uma memória inventada parece ser muito mais integral do que algum flash do que foi vivido, talvez pela preocupação no ato da criação ser outra: na imaginação, o efeito do imaginado; na 'realidade', a imaginação e a vida confundidas num mesmo ato, de ação ou silêncio, mas sem mistificação.
as invenções, sim, ainda doem sem que eu perceba e enquanto não conviver com elas sem desprezo, no inverno me sufocarão pelos cachecóis. mas hoje, anos depois, sei que alguma saída na literatura, na psicanálise e na dança, virá. até se solidificarem ao máximo em memórias minhas, só minhas e não de cinzas, mas num resto de nuvem.
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e eu te esperarei lá, na minha Ítaca, ainda por encontrar.

14.3.06

Nos dias claros como hoje, ao franzir os olhos, recordo-me que essa sensação me acompanha desde a primeira infância. Dizem que quando a memória nos ataca, ela vem galopando pelo corpo, até encontrar uma imagem mental que se combine com o que se sente. Poucas vezes como no caso de hoje isso foi assim, tão forte ao ponto de eu não poder recusar ao inconsciente cada recorte de imagem combinado a fibra corpórea. Imaginem uma sensação que na boca tem gosto de achocolatado no leite, succionado numa mamadeira. Compromete a força da memória do meu discurso dizer que me deram mamadeiras até os 7 anos de idade, mas o compromisso aqui é com a verdade (ok, machado de assis) e eu só parei aos 7 anos porque eles são a idade do cometimento escolar e uma orientadora na qual até os óculos eram gordos determinou que a criança que eu era tinha que parar com as 7 mamadeiras por noite. E eu parei, afinal, o que é a vergonha de saberem dos seus atos, não? Essa idade dos 7 anos me serve de gancho para lembrar que foi nela e com essa mesma sensação de hoje que um dia eu acordei e, em cima da mesa branca, havia uma televisão de presente, gradiente 14'' de anteninhas prateadas. O tempo passou e me sentindo assim ganhei pantufas, batatas cozidas às 4h da manhã, tomates temperados com muito vinagre, mãos na testa ao acordar e muitas, mas muitas caixas mesmo de kleenex. É claro que nós que gostamos de literatura, podemos apresentar a tendência de escrever as como se as coisas fossem boas e omitir o que eu estava omitindo: todas as tardes de sol que perdi dentro de um quarto escuro, todos os encontros que desmarquei em cima da hora, todas as vezes que tive de pedir ajuda pela necessidade dela ou, mais, pela carência interna que invade o corpo e quantas vezes mais repeli essa ajuda pela irritação de não ter ar suficiente no espaço. Isso sem contar a irritação com as pessoas que ligam ou te encontram na rua, ah como as pessoas se comunicam equivocadamente!, e nos saúdam com a frase simpática "gripada, pra variar?". Eu não preciso de gente que me oriente mal, eu bem sei o que signica a palavra 'gripe' e sua continuidade na minha vida, nos meus seios da face, nesse nariz imbecil que me fez passar mais essa noite toda com a impressão de que eu ia MORRER ENTALADA sem poder RESPIRAR. Vocês sabem como respirar é importante, ou não?

(O Breno uma vez escreveu algo como 'um braço por um nariz sem rinite'. Breno Caio, você tem o meu respeito nesse acordar congestionado.)

9.3.06

C,
contente pelo seu contato, considere isso como um esboço. Hoje acordei com meu mau humor totalitário que me fraterniza com toda a humanidade, um mau humor histórico. Faz calor em São Paulo. Tomei banho e não me sequei com a toalha. Sensação de um ano atrás na vida de hoje. "Tudo ainda é tal e qual/ e no entanto, nada igual". Mas esfrego os olhos e me vem uma nitidez absoluta e somos aqui, tudo forte, tudo intenso, tudo bem. Leio Cecília Meireles, ela é abrupta e me toma pela mão meu tom, faço versos mentais no Largo da Batata, com seu estilo e meu ônibus cheio. Desço no meu ponto, reconheço os tipos. Nos dias sinto tédio e euforia. Nas noites cansaço e amor. No shopping mostro a ele como aquelas duas espanholas são irmãs e não argentinas. Ele me chama de escritora, eu digo "escritora sem escrita, só se for". No traço imediato do desenho dele penso em escrever.
O Cortázar é fita do laço que enquanto se desfaz o nó esboçado, puxando pela ponta, o lado áspero da fita range com o contato. É um contraponto a sua doçura atônita. Nessa minha vida povoada com gente demais em todos os itinerários encontro nosso tempo, não tanto quando falo de você, mas se penso no chuveiro: e se eu pudesse só ter um amigo escolhido?
Mas hoje não, não posso escolher nenhuma resposta a essa enquete falida, nem de mensagem a você, nem as minhas questões no consultório de um homem (um homem é um homem e eu sempre escolho um homem) que me falou em cenário três anos atrás e eu considerei. Será um dia de dúvidas?
Com seu beijo,
J.

8.3.06

Desamparo

Digo-te que podes ficar de olhos fechados sobre o meu peito,
porque uma ondulação maternal de onda eterna
te levará na exata direção do mundo humano.

Mas no equilíbrio do silêncio,
no tempo sem cor e sem número,
pergunta a mim mesmo o lábio do meu pensamento:

quem é que me leva a mim,
que peito nutre a duração desta presença,
que música embala a minha música que te embala,
a que oceano se prende e desprende
a onda da minha vida, em que estás como rosa ou barco...?


de Viagem, Cecília Meireles.

5.3.06

domingos monolíticos

Mais um dia. É muito difícil segmentar os domingos: eles são longas tardes ou longas manhãs, por vezes longos crepúsculos. E isso torna ainda mais penoso o meu estado. Não poder sequer esperar pela tarde, entremear com uma expectativa qualquer o sofrimento que me condena a um presente sem remissão. E pensar que sempre tive problemas com continuidades.
Em meus tempos de escola reinava uma sábia hierarquia. Aprendíamos a escrever a lápis e somente depois passávamos aos exercícios com canetas esferográficas. Após todo esse treino podíamos então escrever a tinta. De início a aspereza do papel consumia o lápis, aos poucos conquistávamos o direito de sulcá-lo, para ao fim ganhar-lhe a trama. Mas há algo aprendido nos tempos de colégio que me marcou ainda mais profundamente. A partir de certo grau, era-nos ensinado escrever as palavras sem fazer remendos. Deveríamos escrevê-las sem suspender o movimento do lápis, deixando para o fim os traços que não pudessem ser feitos ao longo desse movimento uniforme. Só depois seriam cortados os tt, postos os acentos etc. Jamais pude conquistar pessoalmente essa disciplina. Sempre precisei simular acontecimentos futuros que contivessem promessas de deleite ou surpresa. Para gente como eu os domingos são terríveis.


trecho de "Aventura", d' O filantropo, de Rodrigo Naves.

4.3.06

o nego tá gordo que mais parece um major

no escuro espero. pela espera. você não vai entender. você só não entende porque não ouve com limpeza. e fala mesmo assim, como quem repete, indiscriminadamente. e eu? exponho, concluo. concluo, exponho. é mesmo assim mesmo, conto sempre, o equívoco é ainda mais no que me cansa. não, não é "jorrar" o termo da coerência. (coerência é esse vestido, no qual zíper é zíper, botão é botão, faixa é faixa, bolso é bolso) mas ''jorrar'' seria o fácil de dizer, aquilo que tomei como nosso avesso, e se o falasse, romantizando-me, receberia de ti e de todos os teus amigos a tarjeta, proibitiva. maio de 68, beibe, deu numas dessas. atravessamos 1969 e eu ainda não me importo. mas não recuso de todo e admiro a resistência. usa-se "resistência" em djuntores e também em crítica literária, para demarcar um bom escritor. o que opõe-se ao período da guerra, a eletricidade com que os franceses se envergonham. a mim, que espero recusar continuamente a história óbvia, permitam esfregar-me na memória, como um condimento: alguma tribo oriental massageia-se com páprica, ou não? alemães gostam de chucrute. eles ficaram longe na genealogia, longe de mim. mas mortos não ficamos, senão na fumaça do cotidiano vazio vazio vazio vazio vazio que sempre me leva a dar nome de amor a todos os líquidos que se movimentam, sejam aqui ou na palma da sua mão. que se despede, em alvoroço.
 

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